O
país onde a esquerda (e não a direita) endureceu as leis de imigração
Pense
um pouco na Dinamarca.
Podem
sobrevir imagens da sua capital, Copenhague, elegante e inacreditavelmente
chique. E também um sentido de sociedade aberta, liberal. É o clichê da Escandinávia.
Mas, em
relação à imigração, a Dinamarca tomou
um rumo totalmente diferente.
O país,
agora, é "pioneiro em políticas de migração restritivas" na Europa,
segundo a diretora do Centro de Estudos Avançados da Migração (AMIS) da
Universidade de Copenhague, Marie Sandberg.
Ela faz
referência tanto às pessoas que buscam asilo, quanto aos migrantes econômicos,
que pretendem trabalhar na Dinamarca.
Ainda
mais surpreendente talvez seja quem está por trás desta mudança.
O que
geralmente se acredita é que os políticos de "ultradireita" estão
ganhando força em toda a Europa, devido aos temores da imigração. Mas este
quadro está longe da realidade.
Na
Dinamarca, os políticos que estão tentando controlar a imigração são de
centro-esquerda.
E o
mesmo ocorre na Espanha, que enfrenta a mesma questão de forma muito diferente,
mas igualmente radical. O país ibérico busca aumentar a imigração, em vez de
reduzi-la.
Por que
isso acontece? E o que os outros países da Europa, incluindo o governo
trabalhista do Reino Unido, podem aprender com eles?
<><>
Europa em tempos perturbadores
A
imigração é uma das maiores prioridades dos eleitores, em toda a Europa.
Vivemos
em tempos realmente perturbadores. Enquanto se
desenvolve o conflito na Ucrânia, a Rússia aposta na guerra híbrida, como
ciberataques em grande parte do continente.
Os
governos falam em gastar mais com a defesa, enquanto a maioria das economias
europeias vem cambaleando. Já os eleitores se preocupam com o custo de vida. E,
em meio a este turbilhão de ansiedade, surgem as preocupações com a imigração.
Mas, na
Dinamarca, esta questão se aprofundou e persistiu por mais tempo.
A
imigração começou a aumentar depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). E
cresceu com rapidez ainda maior nas últimas
décadas.
A
proporção de moradores da Dinamarca que são imigrantes, ou têm os dois pais
imigrantes, aumentou mais de cinco vezes desde 1985, segundo o Instituto de
Política Migratória (MPI, na sigla em inglês).
Um
momento importante ocorreu 10 anos atrás: a crise da migração e dos refugiados da
Europa,
em 2015.
Na
época, mais de um milhão de migrantes vieram para a Europa. A maior parte deles
se dirigia ao norte do continente, chegando a países mais ricos como a
Dinamarca, Suécia e Alemanha.
Slogans
como "Danskerne Først" ("Dinamarqueses em primeiro lugar")
ganharam popularidade entre o eleitorado.
Naquele
ano, entrevistei apoiadores do Partido do Povo Dinamarquês, uma agremiação
nacionalista de direita radical e anti-imigração. Eles me responderam:
"Não nos consideramos racistas, mas realmente sentimos que estamos
perdendo nosso país."
A
Dinamarca chamou notoriamente a atenção internacional pela sua posição
linha-dura em relação aos refugiados, quando permitiu às autoridades confiscar
joias e outros objetos de valor dos solicitantes de asilo. A justificativa era
reembolsar parte dos gastos da sua estadia na Dinamarca.
A
ministra da Imigração da Dinamarca postou uma foto de si mesma no Facebook com
um bolo decorado com o número 50 e uma bandeira do país. Ela comemorava a
aprovação da sua 50ª emenda para restringir os controles de imigração.
E a
legislação dinamarquesa só endureceu ainda mais desde então.
<><>
Planos de retenção em uma ilha
Prefeitos
de outras cidades, fora de Copenhague, vêm alertando há muito tempo sobre os
efeitos do rápido fluxo de entrada de imigrantes.
A
tendência dos trabalhadores imigrantes e suas famílias era de se mudar para a
periferia da capital, para reduzir seus custos. E o famoso sistema de bem-estar
social da Dinamarca também ficou visivelmente sob tensão.
Surgiram
relatos de escolas infantis repletas de crianças que não falavam dinamarquês.
Imigrantes
desempregados supostamente recebiam auxílios para reassentamento que tornavam
seus benefícios sociais mais altos que os dos dinamarqueses sem emprego. E as
estatísticas governamentais indicavam que os imigrantes cometiam mais crimes.
Os
prefeitos alertavam que o ressentimento local estava aumentando.
Atualmente,
a Dinamarca é um dos países da Europa que defendem com mais veemência que os
solicitantes de asilo e outros imigrantes que chegarem sem documentos legais
sejam processados fora do continente.
O país
havia procurado inicialmente deter os imigrantes sem documentos em uma ilha
pertencente à Dinamarca, que era utilizada para abrigar um centro para animais
contagiosos. Mas o plano foi arquivado.
Em
2021, Copenhague aprovou uma lei que permite processar os pedidos de asilo e
reassentar os refugiados em países parceiros, como Ruanda.
O
governo conservador britânico anterior tentou levar a cabo um plano similar,
que foi cancelado posteriormente.
O plano
de Copenhague em Ruanda não teve muito progresso, mas restringiu as normas
sobre reuniões familiares, consideradas direito dos refugiados até não muito
tempo atrás.
O plano
também fez com que a estadia de todos os refugiados na Dinamarca passasse por
lei a ser temporária, independentemente da sua necessidade de proteção.
Muitas
das medidas duras tomadas pela Dinamarca pareciam se destinar a chegar às
manchetes, além da tomada de ações.
As
autoridades dinamarquesas criaram intencionalmente um "ambiente hostil
para os migrantes", segundo o analista do Centro de Política Europeia
Alberto Horst Neidhardt.
E a
Dinamarca se mostrou muito disposta a divulgar esta mensagem.
O país
chegou a publicar anúncios em jornais libaneses no auge da crise dos migrantes,
alertando sobre a rigidez das políticas de imigração dinamarquesas.
"O
objetivo era reduzir todos os incentivos para vir para a Dinamarca",
afirma a especialista em política do Conselho Europeu de Relações Exteriores,
Susi Dennison.
"Os
dinamarqueses foram além da maioria dos governos europeus", explica ela.
Eles não só se aprofundaram em questões politicamente sensíveis, como a
criminalidade e o acesso a benefícios, mas discutiram explicitamente uma
política de zero solicitantes de asilo.
Ainda
assim, "antes da crise dos refugiados de 2015, havia um estereótipo dos
países nórdicos como sendo muito internacionalistas... e por manterem uma
cultura receptiva para os solicitantes de asilo", afirma Dennison.
Até
que, subitamente, a reação foi "não, nosso primeiro objetivo é atender de
forma responsável o povo da Dinamarca."
A
especialista defende que a Alemanha também acelerou a chegada a este ponto
crítico. O país vizinho permitiu a permanência de um milhão de refugiados
durante a crise dos migrantes.
"Esta
decisão política teve repercussões em toda a Europa", segundo Dennison.
<><>
A esquerda dinamarquesa entra em campo
Em
2015, o Partido do Povo Dinamarquês, anti-imigração, era a segunda maior força
do Parlamento do país.
Mas,
paralelamente, os sociais-democratas, com sua nova líder Mette Frederiksen,
decidiram contra-atacar. Eles romperam de forma clara e pública com a política
de abertura à imigração do seu partido no passado.
"Meu
partido deveria ter ouvido", declarou Frederiksen.
Sob sua
liderança, o partido adotou posições geralmente consideradas de
"ultradireita", em termos de imigração. E passou a apoiar as
políticas linha-dura associadas ao Partido do Povo Dinamarquês.
Mas os
sociais-democratas também dobraram a aposta sobre questões tradicionalmente
mais associadas à esquerda: os serviços públicos.
Os
dinamarqueses pagam as alíquotas de imposto mais altas da Europa, em todas as
faixas de renda. E, em troca, eles esperam serviços públicos de primeira
qualidade.
Frederiksen
defendeu que os níveis de imigração ameaçavam a coesão e o bem-estar social e
que os dinamarqueses mais pobres seriam os mais prejudicados.
Foi
assim que o seu partido justificou suas rígidas normas de imigração.
Os
críticos de Frederiksen consideram sua "guinada à direita" como uma
manobra cínica para chegar ao poder e garantir sua permanência. Mas ela defende
que as convicções do seu partido são sinceras.
De
qualquer forma, a decisão serviu para atrair votos.
Frederiksen
é primeira-ministra da Dinamarca desde 2019. E, nas eleições para o Parlamento
Europeu do ano passado, o Partido do Povo Dinamarquês, nacionalista e
populista, teve dificuldades para manter um único assento.
<><>
Indefinição entre o que é esquerda e direita?
Os
rótulos políticos do passado estão se diluindo. E não é só na Dinamarca.
Em toda
a Europa, partidos de centro-direita e de centro-esquerda empregam cada vez
mais linguagem tradicionalmente associada à "ultradireita", em
relação a temas como a imigração. Sua intenção é recuperar ou manter votos.
O
primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, foi recentemente criticado porque,
durante um discurso sobre imigração, ele comentou o risco de que seu país se
tornasse "uma ilha de estrangeiros".
Paralelamente,
no continente europeu, os partidos de direita vêm adotando políticas sociais
tradicionalmente ligadas à esquerda, para ampliar o seu apelo.
No
Reino Unido, o líder do partido Reform (anti-imigração), Nigel Farage, foi
criticado por sua generosa proposta de orçamento, que não faria sentido segundo
os críticos.
Na
França, o presidente de centro Emmanuel Macron parece ter ficado cada vez mais
linha-dura em relação à imigração nos últimos anos. Já sua adversária política,
a líder do partido Reunião Nacional, Marine Le Pen, vem incluindo políticas de
bem-estar social na sua agenda nacionalista, para atrair maior quantidade de
eleitores comuns.
<><> Evitar a 'retórica histérica'
Mas
será que as rígidas políticas de imigração dos dinamarqueses (e,
particularmente, dos sociais-democratas do país) podem ser consideradas um
sucesso?
A
resposta depende dos critérios empregados para a análise.
Os
pedidos de asilo certamente diminuíram na Dinamarca, em forte contraste com a
maior parte dos outros países europeus.
No mês
de maio de 2025, os números foram os mais baixos dos últimos 40 anos, segundo o
site immigration.dk, destinado a oferecer informações online para os refugiados
no país.
Mas a
Dinamarca fica na região nórdica. Certamente, ela não é considerada um Estado
da linha de frente como a Itália, onde os barcos dos traficantes de pessoas
chegam ao litoral com frequência.
"Frederiksen
se encontra em posição geográfica favorável", defende o professor de
Europa Timothy Garton Ash, da Universidade de Oxford, no Reino Unido.
Mas ele
também elogia a primeira-ministra dinamarquesa por lidar o problema da
imigração sem adotar "retórica histérica".
Mas
também há quem afirme que a nova legislação prejudicou a reputação da
Dinamarca, de respeito à legislação humanitária internacional e aos direitos
dos solicitantes de asilo.
Michelle
Pace, do think tank (centro de pesquisa e debates) Chatham
House, afirma que ficou difícil proteger os refugiados na Dinamarca, onde
"as traves legais se movimentam sem parar".
Os
cidadãos dinamarqueses com origem migratória também passaram a se sentir
estrangeiros, segundo ela.
Pace
menciona a lei das "sociedades paralelas", criada pelos
sociais-democratas. Ela permite que o Estado venda ou proceda à demolição de
blocos de apartamentos em áreas problemáticas, quando pelo menos a metade dos
moradores tiver origens "não ocidentais".
Os
sociais-democratas defendem que a lei se destina a promover a integração. Mas
Pace insiste que ela é excludente e faz com que os filhos de imigrantes ouçam
que não são dinamarqueses, ou "dinamarqueses puros".
Em
fevereiro deste ano, um consultor sênior do principal tribunal da União
Europeia descreveu a cláusula sobre "não ocidentais" na lei
dinamarquesa como discriminatória, com base na origem étnica.
Diversos
líderes europeus chegaram a criticar os sociais-democratas dinamarqueses por se
transformarem em ultradireita. Mas, agora, "a posição da Dinamarca passou
a ser o novo normal. Eles estavam um passo à frente", segundo Alberto
Horst Neidhardt.
"O
que é considerado 'boa' política migratória, atualmente, se moveu para a
direita, mesmo entre os governos de centro-esquerda, como o do Reino
Unido", explica ele.
Antes
das eleições gerais da Alemanha deste ano, o então chanceler de
centro-esquerda, Olaf Scholz, prometeu tornar mais rigorosas as regulamentações
sobre asilo de migrantes. As medidas incluiriam a redução da própria
reunificação familiar.
No
início deste mês, Frederiksen se uniu a mais oito líderes europeus para pedir
uma reinterpretação da Convenção Europeia sobre os Direitos Humanos. Eles
defendem que suas fortes restrições evitam que os países expulsem cidadãos
estrangeiros com registros criminais.
O
evento não teve a participação do Reino Unido.
Contestar
as leis internacionais sobre asilo é uma tendência que a Dinamarca está
estabelecendo em nível europeu, segundo a professora de estudos internacionais
e política global Sarah Wolff, da Universidade de Leiden, na Holanda.
"Com
o tema da migração agora politizado, você observa cada vez mais países
supostamente liberais, signatários de convenções internacionais, como a
legislação sobre direitos humanos, questionando estas convenções porque as leis
não atendem mais à agenda política do momento", explica Wolff.
Apesar
da sua legislação restritiva sobre a imigração, a Dinamarca continua a admitir
trabalhadores migrantes pelos canais legais. Mas isso não é suficiente para
enfrentar o rápido envelhecimento da população, segundo críticos como Michelle
Pace.
Ela
prevê que a Dinamarca irá enfrentar grave falta de mão de obra no futuro.
<><>
O outro extremo: o modelo espanhol
Paralelamente,
o governo de centro-esquerda da Espanha segue um caminho muito diferente.
O
primeiro-ministro social-democrata, Pedro Sánchez, sempre faz questão de
relembrar que a economia espanhola foi a que mais cresceu entre os países ricos
no ano passado.
Seu
crescimento de 3,2% do PIB foi maior que o dos Estados Unidos, o triplo do
Reino Unido e quatro vezes a média europeia.
Sánchez
quer legalizar cerca de um milhão de imigrantes que já
trabalham na Espanha, mas atualmente não têm documentos.
Este
aumento da receita de impostos, aliado ao ingresso dos trabalhadores tão
necessários para preencher vagas no mercado de trabalho, servirá para manter o crescimento econômico e garantir a
cobertura de pagamento de aposentadorias futuras, segundo ele.
A
Espanha tem uma das taxas de natalidade mais baixas da União Europeia. Por
isso, a sociedade espanhola está envelhecendo rapidamente.
"Quase
a metade das nossas cidades está em risco de despovoamento", declarou
Sánchez, no ano passado.
"Temos
idosos que precisam de cuidadores, empresas que procuram programadores,
técnicos e pedreiros... O segredo da migração é administrá-la bem."
Críticos
acusam Sánchez de incentivar a migração ilegal para a Espanha e questionam o
registro de integração de imigrantes do país.
As
pesquisas de opinião demonstram que Sánchez fez uma aposta. Afinal, 57% dos
espanhóis afirmam que já existem imigrantes demais no país, segundo o instituto
de pesquisa 40dB.
Em
menos de 30 anos, a quantidade de moradores da Espanha nascidos no exterior
aumentou em quase nove vezes, de 1,6% para 14% da população.
Mas,
até o momento, as preocupações não se traduziram em apoio generalizado ao
partido nacionalista espanhol Vox, contrário à imigração.
O
governo de Sánchez está formando o que Pace chama de "diálogo
nacional", envolvendo as ONGs e as empresas privadas.
Seu
objetivo é equilibrar o preenchimento das vagas no mercado de trabalho,
evitando tensões sobre os serviços públicos. E usar a receita extra com os
novos trabalhadores imigrantes, por exemplo, para construir mais casas e
escolas.
No
momento, o plano é ambicioso. É muito cedo para julgar se ele terá sucesso ou
não.
<><>
Então, quem tem razão?
Políticas
migratórias "bem sucedidas" dependem do que os governos definem como
sua prioridade, independentemente da sua corrente política, segundo Susi
Dennison.
Na
Dinamarca, a prioridade é preservar o sistema social dinamarquês. A Itália
prioriza a transferência do processamento dos imigrantes para longe do seu
litoral.
Já o
primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, deseja a imposição de limites
rigorosos de entrada de imigrantes, para proteger as "raízes cristãs"
da Europa, segundo ele.
Permanecer
nos países além do limite dos seus vistos é considerado a forma mais comum de
entrar e permanecer na Europa sem documentos entre os migrantes.
Mas os
últimos governos britânicos se concentraram em questões de maior repercussão,
como os barcos dos traficantes de pessoas que cruzam o Canal da Mancha.
Dennison
acredita que esta seja uma mudança tática. Seu objetivo é atingir desafios
visíveis, para "neutralizar a ira do público", segundo ela.
A
esperança é que mais eleitores irão apoiar a oferta de asilo a quem necessita e
permitir que alguns profissionais estrangeiros entrem no Reino Unido.
Dennison
destaca que seria difícil para Starmer adotar a abordagem dinamarquesa. Afinal,
ao assumir o cargo depois dos governos conservadores que o precederam, o
primeiro-ministro prometeu retomar os compromissos do Reino Unido junto às
instituições e à legislação internacional.
Será
que existe um plano de imigração "ideal", que atende às preocupações
dos eleitores, às necessidades econômicas e aos valores humanitários?
O
vice-diretor do Centro de Política Migratória, Martin Ruhs, se dedica a
apresentar esta questão a eleitores do Reino Unido e do resto da Europa. Ele
acredita que o público, muitas vezes, é mais avançado que seus políticos.
Ruhs
afirma que a maioria prefere o equilíbrio, com limites de imigração que
protejam a eles e às suas famílias.
Mas,
quando percebem que estes limites estão funcionando, eles também apoiam uma
legislação justa, que proteja os refugiados e os trabalhadores estrangeiros.
Fonte:
BBC News

Nenhum comentário:
Postar um comentário