A
geopolítica do fentanil e a falta de alternativas
Em sua
coletiva de imprensa de 5 de março, Lin Jian, porta-voz do Ministério das
Relações Exteriores da China, afirmou: “A pressão, a conversão e as ameaças não
são a forma correta de lidar com a China. O lado chinês já expressou em
múltiplas ocasiões sua oposição ao uso persistente da questão do fentanil pela
parte americana como desculpa para aumentar ainda mais as tarifas sobre as
importações chinesas”. Essa foi a resposta à crise comercial desencadeada pela
elevação tarifária global de Trump.
Em sua
intervenção, o governo chinês voltou a colocar em primeiro plano a questão do
fentanil. Ou melhor: a questão do regime farmacológico, que afeta a política
farmacológica norte-americana e a atravessa em visões irreconciliáveis. Dividir
para conquistar. Como é evidente, as declarações chinesas foram muito bem
calculadas e destinadas a revidar em uma linha de tensão que tem aparecido de
forma recorrente nas relações entre as duas superpotências.
Um
claro antecedente disso havia se tornado patente na reação chinesa à polêmica
visita a Taiwan de Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes, em
agosto de 2022. Naquela época, a China havia decidido suspender a colaboração
com os Estados Unidos na luta contra o narcotráfico; o que implicava o fentanil
de forma muito direta. Até aquele momento, o Governo chinês havia cooperado com
os EUA para limitar o tráfico dos precursores químicos essenciais na síntese do
fentanil; pois, embora a droga entre ilegalmente a partir do México,
introduzido sobretudo pelo cartel de Sinaloa, sua elaboração não seria possível
sem os precursores de origem chinesa.
As
implicações da advertência de Lin Jian, portanto, iam muito além da conjuntura
atual. Buscavam afetar os dois paradigmas que tensionam o bloco presidencial
com orientações muito divergentes: o velho punitivismo neoliberal e o emergente
“trumpismo ácido” encabeçado pelo ministério de Robert F. Kennedy e os
oligarcas do Vale do Silício. Se o primeiro insiste na vigência do modelo da
guerra às drogas, o segundo cresceu em seus efeitos devastadores e aponta mais
além, para uma mudança de paradigma baseada em um marco desregulador que
poderia comprometer os interesses farmacêuticos forjados ao amparo de décadas
de punitivismo. Entre uns e outros deve-se manejar a administração Trump.
Por
outro lado, a gravidade deste assunto também não pode ser desvinculada de outro
fato inesperado: o assassinato de Brian Thompson, diretor da United Healthcare,
a maior seguradora dos EUA, pelas mãos de Luigi Mangione. Não por acaso, a ação
letal do jovem teve uma acolhida muito favorável em amplos setores da
sociedade; farta dos abusos que Mangione denunciava com o triplo D das três
balas que disparou sobre o CEO e que sintetizavam as práticas abusivas das
seguradoras: “Delay” (atrasar o atendimento), “Deny” (negar a reclamação) e
“Defend” (defender o decidido perante os tribunais).
Todos
esses fatos, e muitos outros, se unem agora em uma crise extraordinária que
evidencia até que ponto Trump retornou como um elefante em uma loja de
porcelana. A importância do que acontece, de fato, está estreitamente ligada a
como o regime farmacológico tem sido articulado por décadas, dentro e fora das
fronteiras dos EUA. Toda a arrogância que Trump pode exibir no terreno militar
pressionando a comunidade internacional contrasta com a fragilidade de sua
resposta à implosão do neoliberalismo, quando se vê obrigado a atender à crise
doméstica de um sistema de saúde totalmente ineficiente.
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O fentanil passa para o primeiro plano
A crise
do fentanil, que assola os EUA desde o início da década passada, é a mais
devastadora de todas as que tiveram origem no consumo de drogas. Ficam para
trás as duas ondas que precederam o fentanil, mas que já alertavam para um
perigo intrínseco ao regime farmacológico norte-americano. Essa sinistra
genealogia não é casual, mas política, e tem origem no devastador modelo de
saúde privada que nenhum presidente se atreveu a emendar por medo dos
interesses de seguradoras, farmacêuticas e demais beneficiários do sistema.
A
primeira das ondas que anunciavam a crise do fentanil se deu devido ao abuso de
opioides receitados, e ocorreu entre o final dos anos noventa e 2010. Naquele
contexto, farmacêuticas como a Purdue Pharma promoveram agressivamente
analgésicos como o OxyContin. Substâncias como a oxicodona, a hidrocodona, a
morfina e outros opioides legais e receitados por médicos aumentaram a
dependência de muitos pacientes. O número de mortes disparou. Uma segunda onda
ocorreu então, protagonizada pela heroína. Ao endurecer a regulamentação dos
opioides receitados, os usuários se viram forçados ao consumo de heroína com o
consequente aumento de overdoses inerente ao mercado negro. O resultado foi
devastador: entre 2010 e 2015, as mortes por overdose de heroína triplicaram.
Apesar
dessas ondas prévias que já alertavam para o perigo, a crise do fentanil acabou
por explodir. Um regime farmacológico baseado na comercialização enganosa e no
excesso de prescrição de opioides legais abriu a porta para que milhares de
pessoas que nunca haviam tido contato com drogas ilegais se tornassem
dependentes e não tivessem outra alternativa senão recorrer à distribuição
ilícita. Como não poderia deixar de ser, o mercado respondeu à sua maneira: a
partir de 2020, ano da covid, a apreensão de pílulas com fentanil disparou: de
4.149.037 passou para 115.562.603. Como era previsível, o problema de saúde
“pública” só piorou.
Chegamos
assim ao cenário atual. Para nos situarmos rapidamente, estamos falando já da
principal causa de morte não natural entre os 18 e 45 anos nos EUA. Até 50
vezes mais potente que a heroína e 100 vezes mais que a morfina, o fentanil
disparou o número total de mortes por overdose de opioides sintéticos; dos
52.404 casos registrados em 2015 para os 111.029 de 2022. E embora a crise
parecesse imparável, em 2023 a tendência desacelerou pela primeira vez, caindo
para 108.318 mortes por overdose.
Entre
as razões pelas quais houve essa diminuição no ritmo, encontram-se algumas que
resultam da gestão doméstica do problema. Por exemplo, a maior disponibilidade
da naxolona, um antídoto contra as overdoses de fentanil ou – por mais terrível
que seja – a menor população de dependentes devido à mortalidade prévia. Com
tudo, o problema estrutural persiste e se entrelaça com a crise tarifária e o
devir político global.
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Geopolítica de um problema: a pressão indireta da China e do México
A
advertência chinesa sobre o fentanil foi a resposta a um assunto que antes
havia sido lançado por Trump em sua campanha presidencial para o primeiro
mandato. Naquele ano, ele havia advertido: “Se venderem fentanil aos EUA
através do México, imporemos uma tarifa de 25%. Será assim até que parem”. Até
2018, o fentanil era enviado como um fármaco acabado e legal para os Estados
Unidos, Canadá e México. No final daquele mesmo ano, após a reunião entre Trump
e Xi Jinping, a China modificou o status legal do fentanil e outras substâncias
similares, proibindo as exportações.
As
empresas chinesas, no entanto, não renunciaram a exportar os precursores, o que
reforçou as redes do narcotráfico. Entre 2020 e 2024, diante do aumento
disparado das apreensões, EUA e China voltaram a negociar, passando a proibir a
exportação de cerca de trinta precursores. Como parte dessa estratégia de
cooperação, a China forçou o fechamento de 332 contas empresariais que
exportavam de solo chinês, assim como 1.016 lojas que vendiam seus produtos
online. Mas o impacto dessas medidas, por mais que estejam proibidas em nível
formal, tem sido limitado. A venda de precursores online da China prossegue
hoje em grande escala.
A
visita de Pelosi em 2022 foi respondida com um ano de interrupção na
cooperação, o que se complicou pela questão da minoria muçulmana uigur na
província chinesa de Xinjiang. A fim de exercer pressão sobre a China em
matéria de direitos humanos, os EUA adotaram uma série de sanções em matéria de
exportação tecnológica. A China voltou a responder com a “diplomacia do
fentanil” e os EUA tiveram que recuar. A cooperação entre ambos os países foi
relançada, embora a China continuasse operando de maneira encoberta.
Nessa
ordem de coisas, também é fundamental analisar o papel do México, uma vez que o
fentanil nunca chegaria aos EUA sem que os cartéis mexicanos – muito
especialmente o de Sinaloa, mas também o de Jalisco Nueva Generación (CJNG) –
sintetizem e introduzam ilegalmente o fentanil a partir dos precursores
chineses. Para os cartéis, as vantagens do fentanil em relação a outras
substâncias são evidentes: mais barato de produzir, mais fácil de esconder e
com uma margem de lucro muito maior.
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Que regime farmacológico para que futuro
O
retorno de Trump à Casa Branca provocou um terremoto político à altura da
maneira como ele saiu. A guerra comercial desencadeada por sua política
tarifária inaugurou um tempo cujos resultados ainda estão por ser vistos. Se
por um lado parece evidente que o neoliberalismo inaugurado pela era Reagan
chegou ao fundo do poço, por outro parece se repetir uma lógica global. A
insurreição das oligarquias avança à custa de uma degradação sem precedentes da
democracia e dos direitos humanos.
Diante
deste cenário, a política norte-americana encontra-se fraturada e desarmada.
Por mais que as mobilizações nas ruas lideradas pela dupla formada por Sanders
e Ocasio-Cortez ofereçam empoderamento cidadão, a questão de fundo é como será
articulada uma resposta após o fracasso das antigas variantes progressistas do
neoliberalismo (Clinton, Biden, Harris). Seja a social-democracia alemã, o
governo espanhol ou os democratas nos EUA, o certo é que esses interregnos
entre as declinações conservadoras não souberam atualizar alternativas mais ou
menos reformistas de dentro do paradigma neoliberal.
A essa
altura, parece evidente que é preciso algo mais: uma leitura que entenda o que
está em jogo politicamente no regime farmacológico. Com a crise do paradigma
neoliberal, o punitivismo também entrou em crise. EUA e Alemanha, junto a
muitos outros países, avançaram timidamente na mudança de paradigma. A
regulamentação da cannabis abriu uma via para outras substâncias que servem de
contraponto à tragédia do fentanil: psilocibina, MDMA, ketamina, LSD e outros
psicodélicos oferecem hoje uma arena onde as contradições no seio do bloco
oligárquico se agudizam. A questão é se os serviços de saúde pública se
encarregarão ou se a questão será abandonada para o mercado negro.
Assim,
a questão do fentanil exige ser enquadrada sob outra perspectiva. Ainda está
para ser visto até onde a política reacionária do trumpismo alcança em
articular um regime farmacológico alternativo ao que originou e sustentou a
crise do fentanil. O “trumpismo ácido” (psicodélicos para as oligarquias,
benzodiazepínicos para as classes médias, fentanil para as classes baixas)
poderia ser a opção emergente que já habita o bloco reacionário e disputa o
futuro com o velho punitivismo.
Mas,
enquanto isso, o que o progressismo tem a oferecer a respeito? Onde se
encontra, além do “comunismo ácido” de Mark Fisher, uma reflexão que entenda de
onde se pode enunciar hoje uma estratégia vencedora no terreno farmacológico
que, afinal, não deixa de ser o de nosso próprio regime de consumos e
consciência? Recuperar a iniciativa não requer hoje apenas entender e explorar
as contradições do bloco oligárquico. Trata-se, acima de tudo, de sermos
capazes de oferecer uma compreensão distinta da imposta por quatro décadas de
punitivismo neoliberal.
Fonte:
Por Raimundo Viejo Viñas, na CTXT | Tradução: Gabriela Leite, em Outra Saúde

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