Brasil
vive 'crescente degradação' dos oceanos e tendência é piorar, diz professor
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou na segunda-feira (9/6) da
3ª Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC3) em Nice, na França.
Em
pronunciamento no primeiro painel do dia, no plenário principal do evento, o
brasileiro defendeu que não se permita "que ocorra com o mar o que
aconteceu no comércio internacional", em referência à disputa tarifária
iniciada pelo governo americano de Donald Trump.
"Evitar
que os oceanos se tornem palco de disputas geopolíticas é uma tarefa urgente
para a construção da paz", disse Lula, que anunciou comprometido de
ratificar, ainda em 2025, o Tratado do Alto Mar, um acordo internacional que
estende várias proteções ambientais aos oceanos.
Durante
a UNOC3, há ainda a previsão que Brasil e França lancem uma iniciativa conjunta
para encorajar outros países a incluírem iniciativas relacionadas ao oceano em
suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs).
Mas em
entrevista concedida antes da conferência, o professor titular do Instituto
Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP) e coordenador da Cátedra
UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, Alexander Turra, fez críticas ao
"grande e crescente estado de degradação" dos oceanos brasileiros.
"Temos
tido picos, como jamais se viu no Brasil, de branqueamento dos corais, em
decorrente do aquecimento do oceano. Temos cada vez mais processos erosivos em
praias - dados de 2018 mostram que 40% das praias brasileiras estão em estado
avançado de erosão", disse o biólogo e ecólogo em conversa com a BBC
Brasil em 29 de maio.
"Estamos
falando de uma situação realmente degradante."
Turra
critica especialmente o atual projeto de lei que altera as regras para o
licenciamento ambiental no país, aprovado no Senado no final de maio. Segundo
ele, a mudança pode facilitar processos pouco planejados e danosos, entre eles
exploração de petróleo em regiões sensíveis como a Bacia da Foz do Amazonas.
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Um copo meio cheio?
Turra é
um dos representantes brasileiros da Academia na UNOC 3 e foi convidado para
participar de um painel da conferência, além de outros muitos eventos laterais
que ocorrem em Nice ao mesmo tempo.
Para o
especialista, a participação das autoridades brasileiras em eventos
internacionais é importante para mobilizar energias e recursos para a busca por
soluções. Ele reconhece, porém, que "posicionamentos políticos"
tendem a ver sempre o copo meio cheio quando essa nem sempre é a realidade.
"Quando
um presidente coloca foco em um tema, o país inteiro, e toda a cadeia de
comando, também passam a prestar atenção. Isso é muito importante. Ainda que
haja uma certa pirotecnia", diz.
Na
prática, afirma, o atual governo tem feito uma boa moderação do tema, com a
apresentação de proposta do Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima
(PNA) para as zonas costeiras.
Para
Turra, porém, o problema está na implementação e cumprimento das regras em
nível local e no modelo de financiamento.
"A
zona costeira é importante porque é ali que sentimos as mudanças do que
acontece no oceano, por exemplo, a elevação do nível do mar, e os eventos
extremos, que impactam também a atividade humana, como a pesca", diz.
"Mas,
na prática, [ao invés de seguir as recomendações do PNA] o que vemos é o
contrário, vemos os municípios flexibilizando e não combatendo a ocupação ou
deixando de cumprir os planos."
"Embora
haja alguns planejamentos, não há a implementação necessária e não tem
especialmente dinheiro para fazer acontecer", completa.
O
professor da USP defende uma mudança na lógica financeira em vigor, na qual,
sem sua visão, o setor privado tem se colocado de forma "muito marginal e
deslocada".
Turra
critica ainda a falta de investimento e desenvolvimento nas áreas de pesquisa e
monitoramento no país, onde segundo ele faltam dados para se avaliar com
precisão o estágio de degradação das praias e oceanos.
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'Não sabemos o que está acontecendo'
O
especialista afirma ainda que falta um "monitoramento sistemático" de
eventos como poluição por esgoto urbano e lixo, erosão nas praias, aumento de
marés vermelhas (fenômeno que provoca manchas de coloração escura na água do
mar, provocadas pelo crescimento excessivo de algas microscópicas) e zonas
mortas, áreas nos oceanos que apresentam um nível de oxigênio muito baixo, de
forma que quase nenhuma espécie consegue sobreviver.
"Não
estabelecemos esquemas de monitoramento consistentes para poder responder aos
acordos que o Brasil assinou, como Agenda 2030 e o ODS 14.1", diz
Alexander Turra. "O Brasil tem que apresentar relatórios de como está a
situação do lixo no mar."
"A
gente não tem séries temporais consistentes para poder falar o que está
acontecendo."
Em seu
discurso na Cúpula dos Oceanos em Nice, Lula tratou brevemente dos planos do
país para o monitoramento.
"Vamos
fortalecer a coleta de dados científicos por meio de um Sistema Integrado de
Monitoramento e seguir investindo em pesquisa por meio da Estação Comandante
Ferraz na Antártida", disse o presidente.
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'A tendência é piorar'
O
professor do Instituto Oceanográfico da USP ainda faz críticas contundentes ao
projeto de Lei (PL) 2.159/2021, que cria uma Licença Ambiental Especial, com
rito simplificado, para projetos considerados prioritários pelo Executivo.
Segundo
Turra, trata-se de uma "grande fragilização" da lei que abre caminho
para um agravamento da situação ambiental do país. "A tendência é só
piorar", diz.
O texto
foi aprovado no Senado em 21 de maio e é de autoria do presidente da Casa, Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP).
Por ter
passado por mudanças no Senado, o texto agora volta será votado na Câmara. Caso
seja aprovado pelos deputados, segue para sanção presidencial.
Ambientalistas
criticam o projeto como a "a mãe de todas as boiadas", em referência
a uma fala do deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP) quando era ministro do
Meio Ambiente do governo de Jair Bolsonaro (PL).
Segundo
Alexander Turra, o PL pode, por exemplo, fragilizar o controle sobre projetos
de mineração, levando a uma maior contaminação de rios e mares.
A
bancada do agronegócio, uma das mais poderosas do Congresso Nacional, defende o
projeto e o batizou como "destrava Brasil".
Os
apoiadores da lei sustentam que ela vai manter e até ampliar a punição a crimes
ambientais, reduzir a burocracia para a implementação de atividades econômicas
e atrair investimentos.
Uma das
mudanças propostas pelo projeto é a de que empreendimentos de médio porte e
médio potencial poluidor possam estar sujeitos à Licença por Adesão e
Compromisso (LAC), um tipo de licenciamento mais simples em que não há
necessidade de apresentação ou realização de estudos de impacto ambiental.
Para
que um empreendimento seja aprovado junto às autoridades, bastaria uma breve
descrição do projeto com dados sobre a sua localização, dimensões e atividade
que vai desenvolver.
Para
Turra, tal procedimento equivale a uma "licença autodeclaratória".
"Não dá para você colocar no ente privado o interesse ou a
responsabilidade de defender os interesses difusos. Ele sempre vai defender os
próprios interesses", diz.
"Temos
uma grande responsabilidade em nossas mãos para ficar brincando de mudar regra
sobre como tratamos a natureza. Estamos falando de água, de segurança hídrica,
que impacta diretamente na economia e no agronegócio. Não consigo entender como
o setor não percebe que eles dependem da água".
Segundo
Turra, também pode ser danoso permitir ao governo federal acelerar o
licenciamento de empreendimentos considerados estratégicos.
"Ainda
vemos no país uma espécie de fetiche de vilanização da agenda ambiental, como
se isso como se dela não dependesse todo o resto", diz.
À BBC
News Brasil, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) disse que o projeto
"representa desestruturação significativa do regramento existente sobre o
tema e representa risco à segurança ambiental e social no país".
Já a
Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) disse, por meio de sua assessoria de
imprensa, que não responderia às críticas feitas por ambientalistas e defendeu
pontos do projeto, como o que determina que a consulta a indígenas e
quilombolas durante o licenciamento só seria feita nos casos em que as terras
em questão já estejam homologadas.
Durante
sua viagem à França na última semana, o presidente Lula foi questionado se
estaria disposto a barrar o projeto, e disse que é preciso aguardar o debate na
Câmara.
"É
muito difícil um presidente da república dar palpite de uma coisa que está
sendo votada na Câmara", disse em uma coletiva de imprensa realizada em
Paris.
"Os
ministros do meu governo têm que ir para dentro da câmara debater. Tem que ir
para dentro da Câmara debater. Porque se a gente estiver lá brigando, tem
chance de fazer com que seja aprovado uma coisa melhor do que uma coisa
pior."
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Lula na França
Lula
está na França desde 4 de junho. A primeira parada do presidente no país foi em
Paris, onde foi recebido pelo presidente Emmanuel Macron para uma visita de
Estado.
Além de
encontros no Palácio do Eliseu, sede do governo francês, o chefe de Estado
brasileiro teve em sua agenda um encontro com a prefeita de Paris, Anne
Hidalgo, uma homenagem da Academia de Letras, equivalente à Academia Brasileira
de Letras, e a entrega de um diploma de doutor honoris causa pela Universidade
Paris 8.
A
participação de Lula na UNOC3 faz parte dos preparativos do Brasil para receber
a 30ª edição da Conferência das Nações Unidas (ONU) sobre Clima. A COP30 será
realizada em novembro em Belém.
Em seu
discurso na manhã desta segunda, o presidente convidou os representantes de
todos os países presentes a participarem da COP e conhecerem a Amazônia. Lula
também defendeu a inclusão da cultura oceânica nos programas escolares, como
feito pelo Brasil.
Logo
após sua fala em Nice, o presidente e sua delegação embarcaram para Lyon, para
uma visita à sede da Interpol. A organização é atualmente comandada pelo
brasileiro Valdecy Urquiza, delegado da Polícia Federal.
Está
previsto anúncio de um acordo de cooperação para combate ao crime organizado.
Fonte:
BBC News Brasil

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