quarta-feira, 11 de junho de 2025

Porque Los Angeles explodiu contra o plano anti - imigrantes de Trump

Juan e vários amigos se reuniram no estacionamento de uma loja de material de construção perto de Los Angeles, nos Estados Unidos, onde eclodiram protestos contra as políticas de repressão à imigração do presidente americano, Donald Trump.

Normalmente, suas reuniões incluem dezenas de trabalhadores diaristas, muitos dos quais são imigrantes indocumentados, à procura de trabalho com compradores ou empreiteiros.

Mas, no domingo (8/6), apenas duas pequenas picapes anunciavam que poderiam ajudar com telhados, reparos ou trabalhos de pintura do lado de fora desta filial da Home Depot no subúrbio de Paramount, cuja população é mais de 82% hispânica.

Isso foi um dia depois de a loja ter se tornado o centro dos protestos relacionados à imigração, desencadeados por rumores de que os trabalhadores diaristas da região haviam sido encurralados e presos.

Muitas pessoas que vivem na comunidade disseram à BBC que viram veículos de agentes de imigração na área.

Isso causou medo e pânico imediatos. Em seguida, surgiram relatos sobre batidas e prisões de diaristas na Home Depot, local onde muitos imigrantes indocumentados vão para encontrar trabalho nos EUA.

Os protestos eclodiram nesta cidade de maioria hispânica, e se tornaram violentos com o lançamento de pedras e coquetéis molotov. As autoridades usaram spray de pimenta, balas de borracha e bombas de fumaça para conter a multidão.

Mas as manifestações em Paramount parecem ter se originado a partir da desinformação.

Embora dezenas de migrantes tenham sido detidos pelas autoridades em outros locais da região, os rumores de batidas na loja eram desinformação, de acordo com o Departamento de Segurança Nacional (DHS, na sigla em inglês) dos EUA.

"Apesar dos relatos falsos, não houve nenhuma 'batida' do ICE [sigla em inglês para Serviço de Imigração e Controle Alfandegário] em uma Home Depot em Los Angeles", disse o DHS à BBC.

"Ninguém sabe realmente o que aconteceu. Todo mundo está com medo", disse Juan, enquanto se apoiava na caçamba de uma pequena picape Toyota com seus dois amigos.

Os distúrbios em Paramount, que também resultaram em um carro incendiado e estabelecimentos comerciais saqueados, se tornaram um catalisador para o que as autoridades federais descreveram como motins em toda a área de Los Angeles.

No sábado (7/6), o presidente Donald Trump usou sua autoridade para convocar a Guarda Nacional da Califórnia, algo que normalmente é decidido pelo governador do Estado, enquanto o segundo dia de protestos agitava a cidade.

No domingo, quando os protestos irromperam pelo terceiro dia, tropas armadas da Guarda Nacional vigiavam um parque empresarial fechado do outro lado da rua da loja de ferragens.

Eles estacionaram veículos militares bloqueando a área, e enfrentaram os manifestantes que lançavam insultos e agitavam bandeiras e faixas mexicanas.

<><> 'Afeta a todos'

"Vocês não são bem-vindos aqui!", gritou um homem com um boné do Los Angeles Angels, time de beisebol, para os soldados, enquanto outro manifestante destampava um spray de tinta e escrevia uma obscenidade dirigida ao Serviço de Imigração e Controle Alfandegário dos EUA.

O DHS disse à BBC que a área vigiada abriga um de seus escritórios, e que as autoridades estavam usando o local "como uma área de concentração, e os manifestantes a encontraram".

A agência afirmou à BBC que prendeu 118 imigrantes ilegais na área de Los Angeles nesta semana, incluindo cinco que eles dizem ser membros de gangues.

De acordo com a agência, alguns destes imigrantes tinham antecedentes criminais que incluíam tráfico de drogas, agressão e roubo.

Enquanto se preparava para embarcar no Air Force One em Morristown, em Nova Jersey, no domingo, Trump disse a jornalistas que havia "pessoas violentas" em Los Angeles, "e elas não vão sair impunes".

Dora Sanchez ainda não conseguia acreditar nas imagens chocantes que transformaram sua cidade na noite anterior.

No domingo, ela se reuniu com outras pessoas da comunidade na igreja Chapel of Change, a menos de um quarteirão do centro dos protestos do dia anterior.

Ela e outros membros da igreja falaram sobre como esta comunidade hispânica foi revitalizada ao longo dos anos, e se tornou uma comunidade muito unida, em que os vizinhos se conhecem e cuidam uns dos outros.

Os protestos pareceram um "ponto de ruptura" para a comunidade de imigrantes, observou ela.

Los Angeles é uma das maiores cidades de maioria minoritária dos EUA.

Os hispânicos não só constituem uma parcela maior da população do que qualquer outra origem étnica, como os imigrantes, especificamente os do sul do México, são uma parte essencial da história e da cultura daqui.

A cidade se orgulha de seu status de cidade santuário, o que significa que não coopera com a fiscalização federal de imigração.

Algumas pessoas daqui disseram que sentiram uma tensão crescente que pareceu irromper quando o governo do presidente republicano mirou nos imigrantes indocumentados de Los Angeles.

"Já era hora de acordarmos", diz Maria Gutierrez, que protestou em Paramount. "Esse é o meu povo."

Ela conta que nasceu no México, mas vive aqui desde criança.

Assim como muitos aqui, ela tem familiares que estão ilegalmente nos EUA.

"Isso é Los Angeles", ela diz. "Isso afeta a todos nós."

"Todo mundo tem família ou conhece alguém que não tem documentos."

¨      Paramount, o bairro berço dos protestos contra deportações

"Vocês estão indo para a guerra, com todas essas armas?", pergunta um homem aos membros da Guarda Nacional que o observam impassivelmente, com os rifles na mão, do outro lado do portão.

Estamos em Paramount, no sul de Los Angeles, nos Estados Unidos, onde ocorreram confrontos no sábado (7/6) entre agentes do Serviço de Imigração e Controle Alfandegário (ICE, na sigla em inglês) e um grupo de manifestantes que chegaram depois que se espalhou a notícia de que estavam ocorrendo batidas de deportação na área.

Distúrbios como este levaram o presidente americano, Donald Trump, a intervir após dois dias de protestos isolados contra as operações migratórias, ordenando o envio de 2 mil soldados para ajudar a "restaurar a lei e a ordem" na metrópole californiana.

"É uma medida que só vai aumentar a tensão", disse o governador da Califórnia, Gavin Newsom, que é democrata, antecipando o que aconteceria um dia depois no centro de Los Angeles, com centenas de manifestantes bloqueando os acessos, agentes tentando dispersá-los com gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral, e veículos em chamas.

"Vocês estão fazendo o seu trabalho, mas nós não somos o inimigo", grita o homem parado no portão para os soldados.

Talvez sua voz se destaque entre as dezenas de pessoas que se reuniram no domingo para deixar claro para a Guarda Nacional que sua presença não é bem-vinda.

Mas seu sentimento é amplamente compartilhado neste município de cerca de 51 mil habitantes, onde cerca de oito em cada dez são de origem latina — e 36% nasceram em outro país, de acordo com dados do Censo.

"Aqui só tem gente trabalhadora, porque este bairro foi construído por imigrantes", diz ele, enquanto outro vizinho agita a bandeira mexicana, dois jovens seguram faixas em protesto ao ICE e vários carros buzinam quando passam.

·        'Há medo'

Como fazem todo fim de semana, três dos imigrantes que ajudaram a fazer de Paramount a cidade que é hoje, se encontram do outro lado da rua para conversar sobre a família e os acontecimentos atuais.

Posicionados em seus veículos de trabalho, a conversa de Juan, Rogelio e Héctor no último domingo se concentrou em como neste mesmo local, no estacionamento da loja Home Depot, a tensão entre manifestantes e agentes federais eclodiu no dia anterior.

"Parece que surgiu a informação de que eles estavam fazendo uma batida aqui mesmo", explica Juan, um mexicano de 63 anos que saiu de Jalisco, no México, para os EUA quando tinha 17 anos.

"E isso trouxe pessoas que, na confusão, acabaram causando distúrbios", explica.

Alguns manifestantes lançaram coquetéis molotov e pedras. Vidros foram quebrados, e um carro foi incendiado. Os policiais responderam com spray de pimenta e balas de borracha. A angústia e o medo tomaram conta do bairro.

Em mensagem enviada à BBC, o Departamento de Segurança Nacional (DHS, na sigla em inglês) negou que o ICE tenha realizado operações na região no sábado.

Embora tenha informado que as batidas realizadas em Los Angeles na última semana detiveram 118 imigrantes em situação irregular — o mais duro golpe migratório contra esta cidade considerada "santuário" desde que Trump chegou ao poder com a promessa de realizar "a maior deportação da história do país".

Seja como for, os três amigos dizem estar tranquilos — "não temos nenhum problema, temos todos os documentos em ordem" —, embora reconheçam que há muitos vizinhos sem documentação que vivem com medo no contexto atual.

"É por isso que você não vê ninguém aqui hoje", acrescenta Juan, que ainda assim prefere não dar seu sobrenome. "Geralmente, embora mais durante a semana, você pode ver 20 ou 30 caminhonetes de trabalhadores diaristas esperando aqui para serem contratados", explica.

Um dos poucos que apareceram no domingo para oferecer trabalho foi Pedro, que pediu para ser identificado por um pseudônimo.

"Telhados, reparos, pintura", diz a placa que ele colou no para-brisa de sua velha picape azul, estacionada discretamente em uma esquina.

"A vida aqui é muito cara, e minha pensão não é suficiente", diz este salvadorenho que está nos EUA há cinco décadas, e que, aos 70 anos, já está na idade de se aposentar.

"É por isso que tenho que vir aqui todos os dias para sobreviver", diz ele.

Ele faz isso com a tranquilidade de ter regularizado sua situação migratória em 2000, mas não consegue evitar a angústia de ver seus vizinhos sofrerem.

Estas não são as primeiras manifestações organizadas em Los Angeles. A cidade foi uma das primeiras do país a sair às ruas com o retorno de Trump e sua agenda anti-imigração à Casa Branca.

No entanto, Pedro descreve os protestos dos últimos dias como um "momento de virada". "Há mais raiva, mais ira. Muitos estão saindo para protestar porque seus pais ou gerações anteriores suportaram por muito tempo nas sombras".

"Mas isso não vai acabar aqui. As batidas vão continuar. Está se tornando inviável com este presidente", diz ele, acrescentando que está pensando em voltar para El Salvador.

María Gutiérrez, que participou dos protestos em Paramount no sábado, disse: "Já era hora de acordarmos", diz. "Esse é o meu povo."

Nascida no México, ela conta à BBC que vive nos EUA desde criança, enquanto observa a Guarda Nacional e seus veículos militares do outro lado da rua, em um complexo comercial cercado.

"Todo mundo aqui tem um membro da família ou conhece alguém que não tem documentos".

<><> 'Comunidade vibrante'

Alguns vizinhos buscaram consolo e acolhimento diante da adversidade na igreja cristã que frequentam todos os domingos, a Chapel of Change, localizada a poucos metros da Home Depot e do cenário dos confrontos.

Cerca de 200 pessoas, a maioria famílias de origem hispânica, ouvem atentamente o sermão em que são convidadas a abraçar a fé.

"Aqui buscamos a unidade e oramos por todos", diz Irene Ramírez, uma das pastoras da igreja, à BBC News Mundo, serviço de notícias da BBC em espanhol. Ela descreve a comunidade como "vibrante, unida e voltada para a família".

O pastor principal da igreja, Bryan Worth, concorda.

"Ao longo dos anos, Paramount se tornou um município muito vibrante", diz ele à BBC.

"Na década de 1980, Paramount era conhecida por ser uma das piores cidades pequenas do país, mas os líderes cívicos, do setor de educação, e nós que estamos à frente das igrejas nos unimos para transformar a comunidade, para torná-la mais unida e mais pacífica em geral", ele destaca.

"Nunca pensei que as cenas que eles mostraram na TV aconteceriam aqui", lamenta Dora Sanchez, que ajuda na igreja.

"É tudo muito chocante", ela acrescenta.

Horas depois desta conversa, e com o passar da tarde, a tensão aumentou nas ruas do centro de Los Angeles, a algumas dezenas de quilômetros ao norte de Paramount.

E o atrito entre os governos federal e estadual se aprofundou.

Diante ;ldo apelo de Newsom para retirar a Guarda Nacional das ruas e das duras críticas dos governadores democratas, que enfatizam que a medida é "um abuso de poder alarmante", Trump permanece firme em sua posição.

"Multidões violentas e indisciplinadas assediam e atacam nossos agentes federais na tentativa de impedir nossas operações de deportação. Mas esses distúrbios ilegais apenas reforçam nossa determinação", escreveu ele na plataforma Truth Social.

"A ordem será restaurada, os imigrantes indocumentados serão expulsos, e Los Angeles será livre."

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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