Porque
Los Angeles explodiu contra o plano anti - imigrantes de Trump
Juan e
vários amigos se reuniram no estacionamento de uma loja de material de
construção perto de Los Angeles, nos Estados Unidos, onde eclodiram protestos contra as
políticas de repressão à imigração do presidente
americano, Donald Trump.
Normalmente,
suas reuniões incluem dezenas de trabalhadores diaristas, muitos dos quais são
imigrantes indocumentados, à procura de trabalho com compradores ou
empreiteiros.
Mas, no
domingo (8/6), apenas duas pequenas picapes anunciavam que poderiam ajudar com
telhados, reparos ou trabalhos de pintura do lado de fora desta filial da Home
Depot no subúrbio de Paramount, cuja população é
mais de 82% hispânica.
Isso
foi um dia depois de a loja ter se tornado o centro dos protestos relacionados
à imigração, desencadeados por rumores de que os trabalhadores diaristas da
região haviam sido encurralados e presos.
Muitas
pessoas que vivem na comunidade disseram à BBC que viram veículos de agentes de
imigração na área.
Isso
causou medo e pânico imediatos. Em seguida, surgiram relatos sobre batidas e
prisões de diaristas na Home Depot, local onde muitos imigrantes indocumentados
vão para encontrar trabalho nos EUA.
Os
protestos eclodiram nesta cidade de maioria hispânica, e se tornaram violentos
com o lançamento de pedras e coquetéis molotov. As autoridades usaram spray de
pimenta, balas de borracha e bombas de fumaça para conter a multidão.
Mas as
manifestações em Paramount parecem ter se originado a partir da desinformação.
Embora
dezenas de migrantes tenham sido detidos pelas autoridades em outros locais da
região, os rumores de batidas na loja eram desinformação, de acordo com o
Departamento de Segurança Nacional (DHS, na sigla em inglês) dos EUA.
"Apesar
dos relatos falsos, não houve nenhuma 'batida' do ICE [sigla em inglês para
Serviço de Imigração e Controle Alfandegário] em uma Home Depot em Los
Angeles", disse o DHS à BBC.
"Ninguém
sabe realmente o que aconteceu. Todo mundo está com medo", disse Juan,
enquanto se apoiava na caçamba de uma pequena picape Toyota com seus dois
amigos.
Os
distúrbios em Paramount, que também resultaram em um carro incendiado e
estabelecimentos comerciais saqueados, se tornaram um catalisador para o que as
autoridades federais descreveram como motins em toda a área de Los Angeles.
No
sábado (7/6), o presidente Donald Trump usou sua autoridade para convocar a Guarda Nacional da Califórnia,
algo que normalmente é decidido pelo governador do Estado, enquanto o segundo
dia de protestos agitava a cidade.
No
domingo, quando os protestos irromperam pelo terceiro dia, tropas armadas da
Guarda Nacional vigiavam um parque empresarial fechado do outro lado da rua da
loja de ferragens.
Eles
estacionaram veículos militares bloqueando a área, e enfrentaram os
manifestantes que lançavam insultos e agitavam bandeiras e faixas mexicanas.
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'Afeta a todos'
"Vocês
não são bem-vindos aqui!", gritou um homem com um boné do Los Angeles
Angels, time de beisebol, para os soldados, enquanto outro manifestante
destampava um spray de tinta e escrevia uma obscenidade dirigida ao Serviço de
Imigração e Controle Alfandegário dos EUA.
O DHS
disse à BBC que a área vigiada abriga um de seus escritórios, e que as
autoridades estavam usando o local "como uma área de concentração, e os
manifestantes a encontraram".
A
agência afirmou à BBC que prendeu 118 imigrantes ilegais na área de Los Angeles
nesta semana, incluindo cinco que eles dizem ser membros de gangues.
De
acordo com a agência, alguns destes imigrantes tinham antecedentes criminais
que incluíam tráfico de drogas, agressão e roubo.
Enquanto
se preparava para embarcar no Air Force One em Morristown, em Nova Jersey, no
domingo, Trump disse a jornalistas que havia "pessoas violentas" em
Los Angeles, "e elas não vão sair impunes".
Dora
Sanchez ainda não conseguia acreditar nas imagens chocantes que transformaram
sua cidade na noite anterior.
No
domingo, ela se reuniu com outras pessoas da comunidade na igreja Chapel of
Change, a menos de um quarteirão do centro dos protestos do dia anterior.
Ela e
outros membros da igreja falaram sobre como esta comunidade hispânica foi
revitalizada ao longo dos anos, e se tornou uma comunidade muito unida, em que
os vizinhos se conhecem e cuidam uns dos outros.
Os
protestos pareceram um "ponto de ruptura" para a comunidade de
imigrantes, observou ela.
Los
Angeles é uma das maiores cidades de maioria minoritária dos EUA.
Os
hispânicos não só constituem uma parcela maior da população do que qualquer
outra origem étnica, como os imigrantes, especificamente os do sul do México,
são uma parte essencial da história e da cultura daqui.
A
cidade se orgulha de seu status de cidade santuário, o que significa que
não coopera com a fiscalização federal de imigração.
Algumas
pessoas daqui disseram que sentiram uma tensão crescente que pareceu irromper
quando o governo do presidente republicano mirou nos imigrantes indocumentados
de Los Angeles.
"Já
era hora de acordarmos", diz Maria Gutierrez, que protestou em Paramount.
"Esse é o meu povo."
Ela
conta que nasceu no México, mas vive aqui desde criança.
Assim
como muitos aqui, ela tem familiares que estão ilegalmente nos EUA.
"Isso
é Los Angeles", ela diz. "Isso afeta a todos nós."
"Todo
mundo tem família ou conhece alguém que não tem documentos."
¨
Paramount, o bairro berço dos protestos contra
deportações
"Vocês
estão indo para a guerra, com todas essas armas?", pergunta um homem aos
membros da Guarda Nacional que o observam impassivelmente, com os rifles na
mão, do outro lado do portão.
Estamos
em Paramount, no sul de Los Angeles, nos Estados Unidos, onde ocorreram confrontos no sábado (7/6)
entre agentes do Serviço de Imigração e Controle
Alfandegário (ICE, na sigla em inglês) e um grupo de manifestantes que chegaram
depois que se espalhou a notícia de que estavam ocorrendo batidas de deportação
na área.
Distúrbios
como este levaram o presidente americano, Donald Trump, a intervir após
dois dias de protestos isolados contra as operações migratórias, ordenando o envio de 2 mil soldados para ajudar a
"restaurar a lei e a ordem" na metrópole californiana.
"É
uma medida que só vai aumentar a tensão", disse o governador da
Califórnia, Gavin Newsom, que é democrata, antecipando o que aconteceria um dia
depois no centro de Los Angeles, com centenas de manifestantes bloqueando os
acessos, agentes tentando dispersá-los com gás lacrimogêneo e granadas de
efeito moral, e veículos em chamas.
"Vocês
estão fazendo o seu trabalho, mas nós não somos o inimigo", grita o homem
parado no portão para os soldados.
Talvez
sua voz se destaque entre as dezenas de pessoas que se reuniram no domingo para
deixar claro para a Guarda Nacional que sua presença não é bem-vinda.
Mas seu
sentimento é amplamente compartilhado neste município de cerca de 51 mil
habitantes, onde cerca de oito em cada dez são de origem latina — e 36%
nasceram em outro país, de acordo com dados do Censo.
"Aqui
só tem gente trabalhadora, porque este bairro foi construído por
imigrantes", diz ele, enquanto outro vizinho agita a bandeira mexicana,
dois jovens seguram faixas em protesto ao ICE e vários carros buzinam quando
passam.
·
'Há medo'
Como
fazem todo fim de semana, três dos imigrantes que ajudaram a fazer de Paramount
a cidade que é hoje, se encontram do outro lado da rua para conversar sobre a
família e os acontecimentos atuais.
Posicionados
em seus veículos de trabalho, a conversa de Juan, Rogelio e Héctor no último
domingo se concentrou em como neste mesmo local, no estacionamento da loja Home
Depot, a tensão entre manifestantes e agentes federais eclodiu no dia anterior.
"Parece
que surgiu a informação de que eles estavam fazendo uma batida aqui
mesmo", explica Juan, um mexicano de 63 anos que saiu de Jalisco, no
México, para os EUA quando tinha 17 anos.
"E
isso trouxe pessoas que, na confusão, acabaram causando distúrbios",
explica.
Alguns
manifestantes lançaram coquetéis molotov e pedras. Vidros foram quebrados, e um
carro foi incendiado. Os policiais responderam com spray de pimenta e balas de
borracha. A angústia e o medo tomaram conta do bairro.
Em
mensagem enviada à BBC, o Departamento de Segurança Nacional (DHS, na sigla em
inglês) negou que o ICE tenha realizado operações na região no sábado.
Embora
tenha informado que as batidas realizadas em Los Angeles na última semana
detiveram 118 imigrantes em situação irregular — o mais duro golpe migratório
contra esta cidade considerada
"santuário" desde
que Trump chegou ao poder com a promessa de realizar "a maior deportação
da história do país".
Seja
como for, os três amigos dizem estar tranquilos — "não temos nenhum
problema, temos todos os documentos em ordem" —, embora reconheçam que há
muitos vizinhos sem documentação que vivem com medo no contexto atual.
"É
por isso que você não vê ninguém aqui hoje", acrescenta Juan, que ainda
assim prefere não dar seu sobrenome. "Geralmente, embora mais durante a
semana, você pode ver 20 ou 30 caminhonetes de trabalhadores diaristas
esperando aqui para serem contratados", explica.
Um dos
poucos que apareceram no domingo para oferecer trabalho foi Pedro, que pediu
para ser identificado por um pseudônimo.
"Telhados,
reparos, pintura", diz a placa que ele colou no para-brisa de sua velha
picape azul, estacionada discretamente em uma esquina.
"A
vida aqui é muito cara, e minha pensão não é suficiente", diz este
salvadorenho que está nos EUA há cinco décadas, e que, aos 70 anos, já está na
idade de se aposentar.
"É
por isso que tenho que vir aqui todos os dias para sobreviver", diz ele.
Ele faz
isso com a tranquilidade de ter regularizado sua situação migratória em 2000,
mas não consegue evitar a angústia de ver seus vizinhos sofrerem.
Estas
não são as primeiras manifestações organizadas em Los Angeles. A cidade foi uma
das primeiras do país a sair às ruas com o retorno de Trump e sua agenda
anti-imigração à Casa Branca.
No
entanto, Pedro descreve os protestos dos últimos dias como um "momento de
virada". "Há mais raiva, mais ira. Muitos estão saindo para protestar
porque seus pais ou gerações anteriores suportaram por muito tempo nas
sombras".
"Mas
isso não vai acabar aqui. As batidas vão continuar. Está se tornando inviável
com este presidente", diz ele, acrescentando que está pensando em voltar
para El Salvador.
María
Gutiérrez, que participou dos protestos em Paramount no sábado, disse: "Já
era hora de acordarmos", diz. "Esse é o meu povo."
Nascida
no México, ela conta à BBC que vive nos EUA desde criança, enquanto observa a
Guarda Nacional e seus veículos militares do outro lado da rua, em um complexo
comercial cercado.
"Todo
mundo aqui tem um membro da família ou conhece alguém que não tem
documentos".
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'Comunidade vibrante'
Alguns
vizinhos buscaram consolo e acolhimento diante da adversidade na igreja cristã
que frequentam todos os domingos, a Chapel of Change, localizada a poucos
metros da Home Depot e do cenário dos confrontos.
Cerca
de 200 pessoas, a maioria famílias de origem hispânica, ouvem atentamente o
sermão em que são convidadas a abraçar a fé.
"Aqui
buscamos a unidade e oramos por todos", diz Irene Ramírez, uma das
pastoras da igreja, à BBC News Mundo, serviço de notícias da BBC em espanhol.
Ela descreve a comunidade como "vibrante, unida e voltada para a
família".
O
pastor principal da igreja, Bryan Worth, concorda.
"Ao
longo dos anos, Paramount se tornou um município muito vibrante", diz ele
à BBC.
"Na
década de 1980, Paramount era conhecida por ser uma das piores cidades pequenas
do país, mas os líderes cívicos, do setor de educação, e nós que estamos à
frente das igrejas nos unimos para transformar a comunidade, para torná-la mais
unida e mais pacífica em geral", ele destaca.
"Nunca
pensei que as cenas que eles mostraram na TV aconteceriam aqui", lamenta
Dora Sanchez, que ajuda na igreja.
"É
tudo muito chocante", ela acrescenta.
Horas
depois desta conversa, e com o passar da tarde, a tensão aumentou nas ruas do
centro de Los Angeles, a algumas dezenas de quilômetros ao norte de Paramount.
E o
atrito entre os governos federal e estadual se aprofundou.
Diante ;ldo
apelo de Newsom para retirar a Guarda Nacional das ruas e das duras críticas
dos governadores democratas, que enfatizam que a medida é "um abuso de
poder alarmante", Trump permanece firme em sua posição.
"Multidões
violentas e indisciplinadas assediam e atacam nossos agentes federais na
tentativa de impedir nossas operações de deportação. Mas esses distúrbios
ilegais apenas reforçam nossa determinação", escreveu ele na plataforma
Truth Social.
"A
ordem será restaurada, os imigrantes indocumentados serão expulsos, e Los
Angeles será livre."
Fonte:
BBC News Mundo

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