Como
amigos de Dom Phillips se uniram para terminar livro sobre a Amazônia
Quando
o jornalista britânico Dom Phillips conseguiu aprovar o projeto mais
ambicioso de sua vida, o livro Como Salvar a Amazônia, o
subtítulo da obra refletia sua disposição em se embrenhar na floresta atrás de
respostas: Perguntem a quem sabe.
Três
anos após seu assassinato, o livro enfim foi publicado, mas com um novo
subtítulo: Uma busca mortal por respostas.
A obra
acaba de ser lançada no Brasil, Reino Unido e Estados Unidos (Bonnier
Books/Companhia das Letras), e ganhou vida graças ao esforço de um grupo de
amigos para concluir a missão de Dom. Sua última viagem de pesquisa, no Vale do Javari, no Amazonas, culminou com seu assassinato no rio
Itaquaí, em um barco ao lado do indigenista Bruno Pereira, em 5 de junho de
2022.
Exatos
três anos depois, o Ministério Público Federal apresentou denúncia, na semana
passada, contra Ruben Dario da Silva Villar, conhecido como Colômbia, como
mandante do crime. Ele é o nono réu dentre os acusados, por homícidio e/ou da
ocultação dos cadáveres. Amarildo da Costa Oliveira, o Pelado, e Jefferson da
Silva Lima, o Pelado da Dinha, confessaram ter matado os dois, e irão a júri
popular.
O
inquérito da PF concluído em novembro apontou que o crime mirou as atividades
de Pereira em defesa dos povos indígenas e para coibir violações ambientais e
pesca ilegal. As investigações sofreram críticas por não rastrear a
participação de políticos locais.
Um dos
melhores amigos de Dom no Rio, o jornalista Andrew Fishman conta à
BBC News Brasil que lidar com o assassinato de Dom,
"tão injusto e em sentido", foi a parte mais difícil para os
envolvidos no projeto — "extremamente abalados" com a perda do amigo.
Mas o
grupo tinha convicção de que o livro precisava ganhar vida, reforçada quando a
mulher de Dom, Alessandra Sampaio, chegou ao Rio de Salvador para o seu enterro
trazendo a mala surrada em que ele guardava todo o seu material de pesquisa —
blocos de reportagem, HDs e computadores com centenas de entrevistas
cuidadosamente organizadas em pastas, por capítulo, mas muitas lacunas ainda
por preencher.
Cofundador
do site jornalístico The Intercept Brasil e um dos onze colaboradores do livro,
Fishman diz que a visão de Dom norteou o projeto.
O grupo
seguiu buscando respostas das pessoas que têm mais intimidade com a floresta e
viajando para contar suas histórias — refletindo a convicção de Dom de que é
preciso estar nos lugares.
O livro
começa com a introdução e os três capítulos e meio que Dom deixou prontos,
assinados apenas por ele e trazendo sua rica narrativa em relatos em primeira
pessoa. Depois, Dom passa a estar presente na terceira pessoa, nos capítulos
concluídos ou quase que inteiramente escritos pelos amigos, assinados em
parceria.
Segundo
Fishman, jornalista norte-americano radicado no Rio — onde por muitos anos foi
parceiro de stand-up paddle de Dom em Copacabana, antes de o
britânico se mudar para Salvador —, o amigo
"seguia o que amava, e não o dinheiro, o reconhecimento ou a
aventura".
"Como
salvar a Amazônia não é uma afirmação, é um convite para que todo mundo passe a
fazer essa pergunta juntos, porque ele sabia que o que acontece na Amazônia
afeta o mundo inteiro", diz Fishman.
<><>
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
·
Você era um grande amigo do Dom. O que seu olhar tinha de
distinto? Qual era sua marca ao retratar a Amazônia?
Andrew
Fishman - Quando
Dom morreu, muitas de suas fontes expressaram sua tristeza, reconhecendo seu
amor pela Amazônia, seu respeito ao seu povo e o jeito sensível com que
abordava assuntos.
Essa é
a grande marca do Dom. Ele seguia o que amava, e não o dinheiro, o
reconhecimento ou a aventura.
Ele foi
para a Amazônia como um repórter, se apaixonou e decidiu dedicar sua carreira à
região.
Dom
tinha um olhar extremamente rigoroso, ético e comprometido. Amava a Amazônia e
queria garantir sua preservação e a vitalidade de suas comunidades.
Não
seguia o caminho mais fácil, muito pelo contrário: seguia o que entendia ser o
mais importante e correto.
·
Como salvar a Amazônia. O livro parte dessa
colocação ambiciosa — encontra respostas?
Fishman
- Dom
não tinha intenção de trazer respostas prontas. Queria usar sua plataforma e
sua competência como escritor para olhar para a Amazônia e falar com as pessoas
que estão tentando promover mudanças com pequenas e grandes ações.
Ele
falava tanto com as pessoas que estão devastando quanto com as que estão
tentando criar iniciativas inovadoras para impedir a devastação.
O que
ele mais falava era sobre as 20 milhões de pessoas que moram na Amazônia. Não
se pode simplesmente desligar a atividade econômica para salvar o meio ambiente
e danificar as vidas e os sonhos de seus moradores.
Então
"como salvar a Amazônia" não é uma afirmação, é um convite para que
todo mundo passe a fazer essa pergunta juntos. Porque ele sabia que o que
acontece na Amazônia afeta o mundo inteiro.
·
Como foi para você abraçar esse projeto e ajudar a
terminar o livro, sendo um amigo próximo dele?
Fishman
- Depois
que o Dom morreu, sabíamos que seu livro tinha que ser publicado, que não
podíamos permitir que seu assassinato matasse seu sonho de fazer esse projeto
tão ambicioso.
A Alê
[Alessandra Sampaio], a esposa do Dom, estava determinada, mesmo com
toda a tristeza.
Quando
ela veio de Salvador para o Rio para o enterro de Dom, trouxe uma mala de mão
preta, toda detonada por arranhões de seus gatos, onde Dom tinha socado seus
cadernos de reportagem, vários HDs, computadores, máquinas, cartões de memória,
telefones...
Eu
trouxe esse material para casa para ver o que poderíamos fazer. Felizmente, ele
era extremamente organizado. E descobrimos que havia uma imensa riqueza ali.
Isso foi determinante para vermos que terminar o livro tinha jeito.
A parte
mais difícil foi lidar com a realidade. Todo mundo envolvido neste projeto
estava extremamente abalado com seu assassinato, tão injusto e sem sentido.
Este foi o projeto mais difícil emocionalmente que eu já fiz na carreira.
Já
trabalhei com a "Vaza Jato" [conversas no aplicativo Telegram
atribuídas a Sergio Moro e procuradores da Lava Jato reveladas pelo site The
Intercept Brasil], com [Edward] Snowden, coisas pesadas. Isso me abalou muito
mais.
Senti
uma obrigação enorme de honrar o legado do Dom e o compromisso de todos que
colaboraram para o livro. Mas acredito que a dedicação e a obsessão que tivemos
esteja refletida na obra final, e que o Dom teria, sim, orgulho de nós, por ter
feito algo que refletia o que ele queria fazer.
·
A maioria dos colaboradores são jornalistas estrangeiros.
O olhar de fora revela algo sobre a Amazônia que nem todos os brasileiros vêem?
Fishman
- Essa
escolha foi muito debatida. Queríamos fazer o melhor trabalho possível, mas
ninguém havia lidado com uma situação como essa antes. Optamos por fazer um
livro com seus amigos, as pessoas que mais conheciam o Dom e se sentiam na
obrigação de honrar o que ele tinha feito e a sua visão. E que também usariam
esses capítulos para falar um pouco sobre ele. Porque o Dom acabou virando
parte dessa história, infelizmente.
Só que
dezenas de pessoas queriam participar, e então criamos um sistema com mais 36
colaboradores, brasileiros e estrangeiros, que ajudaram na edição, fact-checking [checagem
de fatos], revisão, apoio com fotos. Foi um projeto muito grande.
Ser
estrangeiro tem vantagens e desvantagens. Às vezes, dificulta não ter o
contexto e as diferenças culturais. Mas um gringo, em certos lugares, é um ser
exótico. Dá para rir, mas não tem muitas pessoas britânicas de olho azul
falando português na Amazônia. As pessoas ficam curiosas e às vezes encantadas,
querem compartilhar sua vida, sua cultura, suas perspectivas com essa pessoa.
Ninguém
espera nada de você e as pessoas explicam de formas muito ricas e
interessantes, que acabam dando perspectivas diferentes.
·
Como foi o trabalho de pegar as pontas soltas que ele
deixou para concluir o livro?
Fishman
- Dom
estava no Vale do Javari fazendo a última viagem de seu projeto. Ele já tinha
centenas de entrevistas e estava prestes a voltar para terminar de escrever.
Já
havia escrito a introdução e os primeiros capítulos, mas, para outros, havia
apenas anotações. Uma das coisas mais difíceis foi ligar esses pontos soltos,
lidar com essas lacunas.
Dom
tinha forte convicção de que é preciso estar no lugar para enriquecer uma
narrativa, sentir o que as pessoas estão sentindo, ver o que está acontecendo,
perceber a postura e o jeito de falar das pessoas. Certos detalhes contam mais
do que páginas e páginas de dados. Então decidimos que não seria possível
honrar sua visão sem enviar os autores em viagens. Algumas delas refizeram seus
passos, outras foram para novos lugares.
Para o
meu capítulo sobre financiamento internacional, por exemplo, eu fui para a
COP28 [conferência anual da ONU sobre meio ambiente], em Dubai, uma viagem que o
Dom não tinha recursos para fazer, mas imagino que gostaria de ter feito.
·
O Bruno aparece no livro desde o começo, quando Dom
descreve a expedição que fizeram em 2018 para o Vale do Javari. Essa viagem
descortinou um novo mundo para Dom, e Bruno foi quem abriu as portas. Qual foi
a influência de Bruno sobre Dom?
Fishman
- Existem
certas pessoas que, pela força de sua personalidade, inspiram jornalistas a
seguir cobrindo certas áreas, porque seu espírito é contagioso. O Bruno era
esse tipo de pessoa. Era generoso com seu tempo e com repórteres, ajudando a
entender as coisas e a fazer com que se sentissem bem-vindos e necessários para
fazer a diferença. Todos que eram próximos dele tinham essa conexão muito
forte. Ele era extremamente dedicado e apaixonado pelo que fazia, e foi uma
grande perda para o movimento.
·
Dom foi assassinado durante o governo Bolsonaro, em um
contexto de desmonte de políticas ambientais, poucos meses antes de Lula ser
reeleito. Como acha que ele veria o cenário atual?
Fishman
- O
projeto de Dom começou no governo Bolsonaro, em que todas as previsões eram
muito sombrias, todas as métricas estavam piorando. Ele teria ficado muito
feliz ao ver Marina Silva de volta ao Ministério de Meio Ambiente, ao ver
Bolsonaro perder a reeleição — não por algo pessoal, mas porque testemunhou
como suas políticas estavam aumentando a devastação e o risco à vida de pessoas
honestas na Amazônia.
Eu fui
para a COP28 em Dubai [em 2023] porque era o lugar perfeito para mostrar o
conflito entre os defensores da Amazônia e a realidade do poder internacional.
Todo mundo estava empolgado, porque era a primeira COP após a posse do Lula,
depois de anos levando soco na cara com o governo Bolsonaro.
Mas na
COP, e narramos isso no meu capítulo, esse otimismo bateu de frente com a
realidade. As pessoas queriam que o governo Lula tomasse uma postura firme pela
proteção do meio ambiente, mas tiveram grandes baques.
O
presidente da Petrobras reiterou que quer perfurar todo o petróleo do Brasil
até a última gota, e Lula anunciou que o Brasil entraria no Opep+ [o grupo de
países produtores de petróleo e associados], reafirmando seu compromisso com
indústrias que estão provocando a devastação do planeta. Essa é a luta que
continua acontecendo.
·
Dom e Bruno ganharam enorme visibilidade como símbolos da
luta na Amazônia, enquanto vítimas indígenas, quilombolas ou ribeirinhos
recebem pouca atenção. Publicar a obra é uma tentativa de dar sentido ao que
aconteceu?
Fishman
- A
atenção que o assassinato de Dom e Bruno ganhou está correta, o que está errado
é que outros casos não tenham visibilidade.
A morte
deles foi uma tragédia, mas ganhou tanta repercussão que teve efeito político.
Acredito que tenha impactado a eleição [presidencial de 2022, na disputa entre
Bolsonaro e Lula], que foi extremamente apertada.
Mas é
preciso continuar pressionando para que não existam mais casos como esses,
sejam de pessoas com "visibilidade" ou que estão tentando defender
suas famílias, comunidade, estilo de vida contra interesses financeiros
enormes. Nesse sentido, é uma pequena luz que serve como símbolo para essas
lutas terem mais força.
Ao
mesmo tempo, ativa o imaginário das pessoas. Esses caras não eram de lá, mas
arriscaram suas vidas para defender o que achavam certo e ajudar as pessoas da
Amazônia.
·
O desfecho trágico dessa história também joga luz sobre a
dificuldade de se fazer jornalismo de qualidade na Amazônia. Ficou ainda mais
desafiador?
Fishman
- Está
mais difícil fazer jornalismo na Amazônia por causa de questões econômicas e de
mercado que estão precarizando o jornalismo.
Algumas
das maiores empresas de tecnologia estão cortando recursos das redações e o
alcance [de suas reportagens] com seus algoritmos. As empresas com maior
responsabilidade pela precarização da Amazônia estão patrocinando a cobertura
da COP30 dos maiores grupos de jornalismo no Brasil. Qual vai ser o efeito
disso na liberdade de fazer uma cobertura crítica sobre essas empresas durante
a COP?
Hoje em
dia, fazer o que o Dom está fazendo é cada vez mais raro. É caro, demorado e
imprevisível. Essas viagens demoram meses para preparar, são extenuantes e
arriscadas. Há cada vez menos veículos dispostos a patrocinar ou publicar esse
tipo de trabalho. Por isso que a mídia independente precisa existir, e por isso
pessoas optam por escrever livros.
·
Em sua última postagem nas redes sociais, Dom escreveu
"Amazônia, sua linda", com um vídeo feito de um rio margeando a
floresta, dias antes de morrer. O que encantou Dom na Amazônia?
Fishman
- Dom
começou uma segunda vida no Brasil. Ele tinha uma carreira muito bem-sucedida
na Inglaterra como jornalista de música. Foi editor-chefe da maior revista de
música no país [Mixmag], tinha um BMW corporativo, uma vida glamourosa. Deixou
tudo para virar frila e seguir o que o fazia feliz.
Ele
veio para o Brasil terminar seu livro [sobre a cena musical dos DJs estelares]
e se encantou com a cultura, as pessoas, a natureza.
Isso só
se intensificou depois que começou a viajar pela Amazônia e a ver essa força da
natureza, com tanta grandeza e beleza. Acho que ele se encantou principalmente
pelas pessoas que conheceu. Queria passar todo o seu tempo lá. Quando voltava
de uma viagem, só falava nisso e já estava pensando na próxima.
Ele não
precisava ter ido nessa última viagem. Ele já tinha conteúdo para fazer os
capítulos, poderia fazer alguns telefonemas, mas não era assim que queria fazer
o seu trabalho. Ele queria estar presente, sentir os lugares. Era esse
sentimento que ele queria passar para os leitores ao escrever esse livro, para
transmitir essa conexão emocional com a Amazônia.
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário