Paulo
Capel Narvai: ‘Os negacionistas se aliam… às cáries’
Nos
EUA, Kennedy Jr. ordena fim da fluoretação da água, medida com décadas de
comprovação. Sanitarista de larga trajetória na saúde bucal expõe ridículo da
proposta do norte-americano e lembra: flúor reduziu em 72% as cáries entre
crianças paulistas.
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• Washington, 2025.
Kennedy
Jr, o “ministro da Saúde” de Donald Trump, mandou o Centro de Prevenção e
Controle de Doenças (CDC) recomendar aos governos locais que interrompam a
fluoretação das águas de abastecimento público. Em 1999, o CDC considerou a
fluoretação uma das dez mais importantes conquistas da saúde pública no século
XX, nos Estados Unidos (EUA).
Aquele
país, pioneiro no uso dessa tecnologia, iniciada em 1945 em Grand Rapids,
Michigan (ver Fig. 1) é líder mundial em número de pessoas beneficiadas por
essa tecnologia de saúde pública, recomendada não apenas pela Organização
Mundial da Saúde (OMS) mas pelas principais entidades de profissionais de
odontologia e saúde pública, e institutos renomados de pesquisa científica na
área da saúde. A meta oficial, antes de Donald Trump assumir, era avançar a
cobertura da fluoretação de 72,3% em 2022 para 77,1% da população em 2030. Em
2000 a fluoretação beneficiava cerca de 65% dos estadunidenses.
A
fluoretação da água é uma tecnologia que preconiza o ajuste da concentração de
flúor, que sob a forma química de fluoreto está naturalmente presente em todas
as águas, para níveis adequados, ou seja, para uma concentração segura para a
saúde humana, animal e ambiental, e que contribua para prevenir cárie dentária.
Como a
concentração desse elemento químico na água bruta (pré-tratamento) varia
naturalmente de menos 0,5 mgF/L a mais de 10mgF/L, a fluoretação consiste em
impedir que águas brutas com concentrações superiores a 1,5 mgF/L sejam
distribuídas à população e, se houver necessidade, adicionar fluoretos em
quantidades tais que sua concentração na água se situe em torno de 0,7 mgF/L.
São aceitáveis pequenas variações em torno desse valor ideal, pois não afetam
nem a segurança nem a eficácia, em termos preventivos.
Na
estação de tratamento de água (ETA) o processo é, tecnicamente, similar ao
utilizado para adicionar cloro à água. Atualmente é simples, prático, seguro e
geralmente controlado por computação eletrônica, nas ETA em que esse controle é
indispensável. Há evidência científica robusta sobre sua segurança sanitária,
eficiência e eficácia para prevenir cárie dentária.
Porém a
maior autoridade sanitária dos EUA no atual governo é negacionista. Assim como
no caso das vacinas, Kennedy Jr supõe que fluoretos são venenos e que “devem
ser retirados de todas as águas”. Nas águas dos mares e oceanos, onde surgiu a
vida na Terra, as concentrações de fluoretos são da ordem de 1,0 mgF/L, um
pouco acima da concentração considerada ótima para as águas de abastecimento
público.
Kennedy
Jr não sabe sobre o que fala. Sua ignorância não deveria ser levada a sério.
Entre tantos disparates que vem cometendo há anos, inclui-se a afirmação de
maio de 2025 de que as revistas científicas, The Lancet, The New England
Journal of Medicine e JAMA, dentre as mais respeitadas na área da saúde, seriam
“corruptas”. Com base nesse, por assim dizer, “diagnóstico”, o secretário de
Saúde de Donald Trump proibiu pesquisadores ligados a órgãos do governo dos EUA
de publicarem seus artigos nesses periódicos.
Pior:
as ideias de Kennedy Jr têm sido levadas muito a sério. Salt Lake City, dentre
outras cidades menores, está seguindo a recomendação do “ministro” de Donald
Trump. O Estado de Utah interrompeu a fluoretação da água em sua capital em 7
de maio de 2025. Se as adesões à insensatez prosseguirem, o retrocesso terá
consequências funestas para a saúde nos EUA, pois serão excluídas do benefício
da medida as principais cidades do país, inclusive aquelas que, como Tucson, El
Paso, Jacksonville e Colorado Springs, contam com águas naturalmente
fluoretadas em níveis ótimos. Remover fluoretos das águas dessas cidades seria
um notório crime contra a saúde pública.
• São Paulo, 1985
Há 40
anos, em junho de 1985, o governador André Franco Montoro (1916-1999) saiu do
Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, e foi à sede da Associação Paulista de
Saúde Pública (APCD), à época localizada no bairro da Bela Vista.
Lá, na
presença de cirurgiões-dentistas, engenheiros, médicos, políticos e autoridades
públicas, assinou o documento que determinava à Secretaria de Obras e Meio
Ambiente, cujo titular era João Oswaldo Leiva (1935-2000), autorizar a
Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) a “fluoretar as
águas da capital paulista”. A Sabesp vinha, já há vários anos, fazendo isso,
com sucesso, em municípios do interior do Estado, nos quais era a
concessionária do sistema de tratamento da água (ver Fig.3).
Fig. 3
– Reprodução da capa da edição de julho de 1985 do Jornal da APCD.
Desde o
início de 1985, porém, a empresa começara a ampliar o uso dessa tecnologia de
saúde pública nos municípios do ABCD, na região metropolitana de São Paulo
(RMSP).
A
decisão de Montoro punha ponto final em um longo processo de idas e vindas
sobre o assunto, que se iniciara ainda no governo estadual (1955-1959) de Jânio
Quadros (1917-1992). As idas e vindas decorriam de suposta insegurança
sanitária, que havia sobretudo nos anos 1950 e 1960, sobre o uso da
fluoretação. Mas nos anos 1970 e 1980, havia outro aspecto que causava
dificuldades à adoção da medida: o suprimento de flúor, que não poderia ser
interrompido, uma vez iniciada a fluoretação, pois a eficácia da tecnologia
depende da continuidade de sua aplicação.
Na
campanha eleitoral de Franco Montoro ao governo paulista, em 1982, o médico
pediatra e professor da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São
Paulo (USP), João Yunes, fora designado pelo candidato para coordenar a
comissão de saúde, na estrutura organizativa da campanha. Yunes conhecia a
fluoretação e seu potencial preventivo. Pediu então a um grupo de trabalho (GT)
que se ocupava de assuntos odontológicos e saúde bucal, que avaliasse a
oportunidade de incluir algo sobre fluoretação no programa eleitoral de
Montoro.
Após as
costumeiras e acaloradas discussões nesses casos, o GT e a comissão de saúde
aprovaram a fluoretação. O programa apresentado aos eleitores durante a
campanha eleitoral previa que na área da Saúde seria dada “prioridade para a
odontologia preventiva” e incluía nas ações a desenvolver a “fluoretação das
águas de consumo público”.
Eleito
governador, Franco Montoro nomeou João Yunes, seu Secretário de Estado da
Saúde. Em meu ‘Memorial’ para o concurso de Livre-Docência na USP (2001),
disponível na Biblioteca da FSP/USP conto que “convidado pelo professor Yunes
fui assessorá-lo na SES-SP, com a responsabilidade de coordenar as ações de
saúde bucal e fazer cumprir o programa de saúde que constava do Programa de
Governo de André Franco Montoro.” Assim foi feito.
Prossigo
no Memorial: “nos anos 1980 houve uma grande expansão da fluoretação das águas
no Brasil, decorrente de decisão governamental federal de apoiar
financeiramente iniciativas nessa área e consequência também da eleição direta
de governadores. No Estado de São Paulo, apesar da oposição de alguns setores
desinformados, teve início a fluoretação dos municípios da região metropolitana
de São Paulo e, no dia 31 de outubro de 1985, a capital iniciou oficialmente a
fluoretação. Sendo na época o coordenador estadual de saúde bucal estive à
frente dos embates para dar continuidade à fluoretação no Estado, expandindo a
medida em dezenas de municípios do interior, e iniciar e não interromper o
processo na região metropolitana e na capital paulista. Quase duas décadas
depois é enorme a satisfação de constatar o impacto dessa medida nos níveis de
cárie, sobretudo em crianças, conforme se vem demonstrando em várias pesquisas
sobre o tema”.
Em
2025, são já quatro décadas depois. E várias dúvidas ou falsas questões sobre a
fluoretação da água estão respondidas pela situação epidemiológica da cárie
dentária na cidade de São Paulo.
• São Paulo, 1999
Em
1999, quando Montoro faleceu, publiquei no extinto Jornal do Site Odonto, um
artigo em que comentava a decisão tomada em 1982 e suas consequências.
Em
“Montoro e a saúde bucal”, lamentei sua morte e escrevi que “além de
republicano dos bons, Montoro foi um democrata que jogou papel decisivo na
reconquista das liberdades democráticas no processo da abertura política dos
anos 1980. Se hoje vivemos num país democrático (injusto e iníquo, ainda, mas
democrático…) devemos isso a muitos brasileiros – entre os quais, sem dúvida,
Montoro. Em 1982 ajudei a elegê-lo governador do Estado de São Paulo: votando
nele, fazendo sua campanha e auxiliando a definir seu programa de governo para
a área da saúde – mais especificamente para a área de saúde bucal.
Posteriormente,
assumi a função de coordenador estadual de saúde bucal (1983-1985). Nas poucas
vezes em que participei de reuniões amplas, nas quais também estava Franco
Montoro, pude testemunhar a ação de um homem público lúcido e sensível aos
problemas do povo. Foi muitas vezes injustiçado como alguém que “demorava para
decidir”. Pode ser. O que sei é que o que decidimos como programa de campanha
para a área de saúde bucal foi implementado item por item, com total apoio do
governador. Nada ficou sem implementar. A meu ver duas ações do mais alto
significado foram desenvolvidas no governo Montoro: a fluoretação das águas de
abastecimento público da região metropolitana de São Paulo, incluindo a
Capital, e a ‘fixação de dentistas no interior’.
Havia
em 1983 mais de 200 municípios paulistas sem um único cirurgião-dentista
residente. A ação de Montoro foi decisiva para alterar esse quadro. A
fluoretação das águas não se limitou à Grande São Paulo, mas nessa região o
desafio operacional era maior e as resistências políticas também. Recebíamos na
Secretaria de Estado da Saúde várias manifestações contrárias ao início da
fluoração. Alegava-se de tudo: ineficácia, engodo científico, medicação em
massa, custo elevado, insegurança sanitária da medida, demagogia de políticos,
desatualização científica dos técnicos da área. As pressões iam até o Palácio
dos Bandeirantes. Montoro resistia.
As
pressões, de cirurgiões-dentistas, médicos e entidades [que se autodenominavam]
‘ambientalistas’ aumentavam. Montoro resistia. Convidado, foi à sede da
Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas falar do projeto de fluoretar a
Grande São Paulo e ouvir os dirigentes das entidades odontológicas. Obtido o
“sim” dos dentistas, confirmando o que estava em seu programa de governo foi em
frente: em 31 de outubro de 1985 iniciou-se oficialmente a fluoretação das
águas da Capital. (…) Centenas, provavelmente alguns milhares de pessoas, são
responsáveis por esta importante conquista da saúde pública em São Paulo.
Montoro foi uma dessas pessoas. Suas ações e decisões produziram esses efeitos.
Pode-se até argumentar que isso é pouco e que tais decisões não foram assim tão
difíceis de tomar. Pode ser: só que antes dele, ninguém as tomou. Essa, a
diferença”.
• São Paulo, 2025
Por que
se considera, afinal, a fluoretação da água na capital paulista uma “importante
conquista da saúde pública”? Por que deveríamos comemorar essa efeméride? Por
que é correto afirmar que Franco Montoro estava corretíssimo em 1985 e Kennedy
Jr está completamente equivocado em 2025?
Simples:
o cenário epidemiológico da cárie dentária mudou completamente na população
paulistana, notadamente entre crianças, suas principais vítimas, nos 40 anos
que separam 2025 de 1985.
Em
artigo científico em fase de publicação, no qual trabalhei com colegas
pesquisadores da USP, apresentamos, dentre outros os seguintes dados, para a
idade-índice de 12 anos, preconizada pela OMS para essa finalidade: “Em 1986, a
cárie dentária acometia 94,9% das crianças paulistanas, nessa idade. Após os
primeiros dez anos de fluoretação da água a prevalência da doença declinou para
68,1% em 1996. Uma expressiva redução de 72%”.
m 1986,
cada criança paulistana estava com cárie, em média, em 6,47 dentes permanentes.
Dez anos depois, em 1996, essa média havia diminuído para 2,37 dentes. No mais
recente inquérito epidemiológico de base populacional realizado na capital
paulista em 2023, a prevalência de cárie havia diminuído ainda mais,
registrando 46,3%. Diminuiu também o número médio de dentes atingidos pela
doença: 1,51.
Meus
colegas e eu analisamos também, no referido artigo científico, dados
disponibilizados pela Sabesp, para o período de 1990 a 2021, para conferir se
havia mesmo flúor na água, na quantidade certa. Analisamos 49.515 amostras da
água de abastecimento público e constatamos que 98% dos valores observados
estavam situados dentro dos limites de concentração ideal de fluoretos na água
para a cidade de São Paulo: entre 0,545 mgF/L e 0,944 mgF/L de água, com o
valor médio dessas amostras registrando 0,663 mgF/L.
Como a
cárie é uma doença multifatorial, e o fluoreto na água não equivale a uma
vacina contra a doença, nós ressalvamos que esses resultados podem ter sido
afetados por outros fatores de proteção, que atuaram conjuntamente para
melhorar a situação, como os cremes dentais contendo flúor, a ênfase que passou
a ser dada às ações educativas nas últimas décadas, relacionadas com melhorias
nos padrões de higiene bucal e diminuição da frequência da ingestão de produtos
açucarados, e também com fatores socioeconômicos, como melhores níveis de
escolaridade e renda, reconhecidamente associados inversamente com cárie:
melhores níveis, menos doença.
Porém,
o consenso entre os pesquisadores de odontologia preventiva e saúde pública é
que a principal medida preventiva é a fluoretação da água.
É por
essas razões que Montoro estava corretíssimo em 1985 e Kennedy Jr está
completamente equivocado em 2025. Quase meio século de atraso. Mas a opção pela
ignorância é mesmo assim: atemporal. Acomete e abate até mesmo um Kennedy, em
pleno século XXI. A marcha da insensatez nos EUA implicará importante
diminuição, em larga escala, da cobertura em nível nacional (ver Fig.5). Já se
fala em excluir fluoretos até mesmo de cremes dentais, o que daria contornos
sanitários trágicos à estupidez.
E não
adianta tentar “colocar panos quentes”, como fez Leana S. Wen, uma espécie de
ex-secretária municipal de saúde de Baltimore e professora de emergência médica
da George Washington University, em artigo no Washington Post. “Remover o flúor
não é uma ideia totalmente maluca”, escreveu em novembro do ano passado. Não é
mesmo uma ideia totalmente “maluca”. Não há qualquer loucura na insensatez de
Kennedy Jr. Não há doença mental, há método. Há objetivos claros e interesses
obscuros. Não é mesmo maluquice, é ignorância. Da médica, também.
Mas a
ignorância custa caro. Em artigo publicado em 30 de maio de 2025 na revista
JAMA Health Forum, Sung Choi, do Departamento de Epidemiologia, Política e
Gestão de Saúde Bucal da Harvard School of Dental Medicine, e Lisa Simon, da
Divisão de Medicina Interna do Brigham and Women’s Hospital de Boston,
analisaram dados de 8.484 crianças, provenientes de todo o país (Estudo NHANES)
e afirmaram que a interrupção da fluoretação da água nos EUA implicaria aumento
de 7,5 pontos percentuais no número médio de dentes cariados. Tratar essas
crianças custaria aproximadamente US$ 9,8 bilhões, ao longo de 5 anos.
Mas não
se trata apenas de saber quanto custa.
A
questão que importa é saber se há alguma base ética para a infâmia de, podendo
prevenir o adoecimento, um governo, por meio de suas autoridades, permita que a
doença se instale em alguns milhões de pessoas, entre as quais crianças, e se
desenvolva, causando infecções, dores, sofrimentos e, sob certas condições,
agravando comorbidades que podem matar. Que ética é essa que autoriza governos
a, em tempos de paz, deliberadamente, mandar matar – ainda que indiretamente?
Fonte:
A Terra é Redonda

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