A
porteira está fechando na região do Baixio de Irecê (BA)
Quando
Jadiel, um menino franzino e esperto de 11 anos, brecou o cavalo na porteira
que dá acesso ao terreiro da casa simples onde mora com os pais e irmãos ainda
estava ofegante, com o coração disparado. O inusitado encontro com uma onça
suçuarana, popularmente conhecida nas caatingas como onça bodeira, deixou o
menino muito assustado.
Sentado
em um banco de madeira debaixo de um pé de umbu, ele conta que o encontro com o
bicho ocorreu no final de uma tarde. Como de costume, o menino foi buscar o
jegue na roça do pai, montado no seu cavalo velho sem nome. Jadiel carregava
uma panela com milho para atrair o jumento.
“Eu me
aproximei da baixada e vi a onça atrás da moita. Ela rosnou. Só fiz rumar a panela e saí em disparada” – conta. Este
episódio ocorreu na localidade de Várzea da Cerca, no município de Itaguaçu da
Bahia, há 547 quilômetros de Salvador, capital da Bahia. Nos últimos meses,
agricultores e pequenos criadores de animais de comunidades tradicionais, ao
longo de 70 quilômetros do rio Verde, relatam encontros com felinos e acham
marcas de pegadas por todos os cantos.
A
presença das onças próximas às comunidades e os ataques aos animais de criação
se intensificaram por causa do projeto de Irrigação do Baixio de Irecê, uma
espécie de versão da obra de transposição do rio São Francisco em território
baiano.
O
empreendimento, capitaneado pela Companhia de Desenvolvimento do Vale do São
Francisco e Parnaíba (Codevasf), órgão vinculado ao Ministério do
Desenvolvimento Regional (MDR), foi realizada para beneficiar empresários do
agronegócio e causou desmatamento em uma área de cerca de 105 mil hectares].
Nascido
e criado em Várzea da Cerca, Gilberto Caetano da Silva, 45 anos, disse que toda
a vida teve onça na região. No entanto, depois da desmatação a situação piorou.
Até agora ele perdeu 50 cabeças de bodes:
“A
tendência é haver mais devastação nos municípios de Xique-xique e Itaguaçu da
Bahia antes do final da obra. Já foram liberadas mais licenças para
desmatamentos. Vão acabar com tudo até à beira do rio. Assim, as onças
invadirão as casas” – prevê, angustiado. A lista de prejuízos acumulados desde
2022, quando novas autorizações para supressão de vegetação foram expedidas
pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), só fez aumentar.
As licenças foram concedidas apesar de existirem lotes do projeto do Baixio,
limpos e leiloados, sem produção.
“As da
minha família estão acabando e das 50 que eu cuidava para outra pessoa só
restam 20. Vou mandar avisar ao dono para vir buscá-las. Vou cuidar apenas do
nosso moinho” – planeja
Além da
onça bodeira, foram avistadas, embora raramente, onças-pintadas, ameaçadas de
extinção.
Na
comunidade Poço Fundo, Gildásio Félix Bonfim, 54 anos, não sabe mais o que
fazer para conter o ataque de onça. Ao longo dos últimos 15 meses, ele perdeu
150 cabeças de criação miúda.
“Agora
tem outra onça maior rondando. Ela já matou dois bezerros e 10 poldros” – conta
com tristeza.
Na roça
vizinha, Albino Dias de Luna, 61 anos, também se queixa. Das cento e poucas
cabeças, entre bodes e ovelhas, que possuía só restaram quatro, que agora ficam
presas em um cercado atrás da casa. Já do gado que insiste em criar, perdeu 15
bezerros. Ficaram apenas os animais adultos.
“As
vacas chegavam tudo com o úbere cheio porque o bezerro já não existia mais” –
lembra. Para evitar a morte dos bezerros sobreviventes, o criador agora os
alimenta com ração comprada em Jussara, a 90 quilômetros de distância, e com
ramas de arbustos que retira das matas.
Cevar o
gado e a criação miúda em uma região onde o costume é soltá-los nas caatingas,
sem cercas, torna-se muito dispendioso. Além disso, altera o gosto da carne dos
animais criados com a vegetação nativa. Verdadeiras iguarias, muito procuradas
pela população urbana de Irecê e Xique-Xique, que estão desaparecendo. Outra
consequência é a redução da fonte de renda dos criadores, cuja manutenção nas
roças estão ameaçadas.
A
situação é bem-parecida na comunidade Muquém. Hoje, o medo impede os criadores
de irem atrás do rebanho no final de tarde, como era de costume. Ivete Ribeiro
mostra satisfeita as cabras e ovelhas que seu pai deixou de herança. Com muito
esforço, ela conseguiu aumentar o criatório e chegou a contar com trezentas e
cinquenta cabeças.
“Foi
antes deste desmatamento aí. Antes dos lotes dos irrigantes ficarem próximos
aos locais onde nosso rebanho come e aonde a onça caça nossas criações” –
lamenta.
Do
rebanho de Ivete hoje restaram aproximadamente cento e cinquenta cabeças de
pequeno e grande porte.
ESTRATÉGIA
Para
defender-se dos ataques e inúmeras perdas de criação, Nilton Barbosa da Silva,
64 anos, também morador em Muquém, arrumou uma tática diferente.
“Compro
fogos de 12 tiros e solto para afugentar as onças” – diz ele, que conta ainda
com três cachorros para defender o rebanho.
Se não
fosse “a tentação das onças”, ele calcula que pelo tempo que se bate era para
estar beirando cerca de mil e quinhentas cabeças de criação”. Hoje, no entanto,
diante da realidade, tem menos de quatrocentas cabeças no imenso chiqueiro
feito cuidadosamente com vara de madeira.
Nilton
também já avistou a onça quando foi procurar pelo rebanho. Viu onde a suçuarana
sangrou a criação e encontrou carcaças e uma cabeça intacta. Como de costume os
criadores marcam as orelhas da sua criação para identificar quem é o dono. O
catingueiro aprendeu que a onça não come no local que matou a presa. Geralmente
leva para o arrastador, local da caatinga onde não há movimento nem barulho.
Ali, esconde o alimento debaixo de ciscos.
Antigamente,
segundo os moradores da região, as onças iam beber água no rio e acabavam
pegando um animal e outro. Depois se afastavam. Com o avanço do desmatamento,
restou como refúgio apenas uma pequena faixa de caatinga entre os últimos lotes
no final do canal do projeto Baixio de Irecê e as comunidades na beira do rio
Verde. Isso não evitou que várias pessoas se deparassem com onças na estrada de
terra, que liga às comunidades e a BA 052, entre Irecê e Xique-xique.
Geni
Dias Ribeiro, vizinha de Nilton, lembra que antes do projeto começar a mata era
extensa e tinha muitos animais.
“Era
muita caça: caititu, veado, peba, tatu-bola. Eles entretinham as onças, que não
atacavam o rebanho de ninguém” – recorda.
Mulher
disposta, Geni costumava ir atrás do seu criatório montada numa bicicleta ou
quando necessário de pé mesmo. Às vezes, a cabra dava crias no mato e era
preciso ir atrás para trazer os borregos para o chiqueiro.
“Se
deixasse eles no mato, além das onças, os urubus e os carcarás matavam e
comiam” – afirma.
Depois
dos ataques constantes de suçuaranas, a família lhe convenceu a não ir mais
atrás das cabras sozinha. Geni diz que agora está muito perigoso e que das 100
cabeças sobraram apenas 27 “das maiores”.
“Parece
que está chegando o dia em que os nossos filhos virão nos visitar e a gente não
vai ter mais nada para comer” – expressa-se com tristeza Ana, da comunidade
Conceição, que cria apenas 10 cabeças e não se aventura mais pela caatinga
sozinha.
Já o
vizinho Sebastião Souza Bonfim, 51 anos, não desistiu da lida porque não tem
outro modo de sobrevivência na região. Do rebanho de duzentos cabeças,
atualmente conta com cento e vinte caprinos.
O
último rasto de onça que avistou foi semana passada, bem perto de casa. Mesmo
assim, ele prende e solta o rebanho todos os dias para evitar prejuízo.
Sebastião diz que quando os bichos dormem no malhador (lugar onde a criação
descansa na caatinga), a onça já chegou a matar oito deles.
Depois
das chuvas, quando a terra está molhada e os arbustos da caatinga cheios de
folhas, há fartura de alimento para os bodes e as ovelhas. Neste tempo é mais
difícil da criação voltar para o chiqueiro à noite. Assim, fica mais
vulnerável.
ANGÚSTIA
Sebastião,
Ana, Geni, Nilton, Ivete e muitos outros que nasceram e se criaram nestas
terras estão sem saber o que fazer. Denunciar mais uma vez a situação e exigir
respostas da Codevasf não parece mais um caminho sensato como menciona
Gilberto:
“A
Codevasf nunca dá retorno. Ela faz as coisas e a gente ouve dizer que o caso
está na justiça, mas parece que os juízes e juízas estão sempre do lado dela. A
gente não pode fazer nada e eles estão sempre desmatando” – revolta-se
Os mais
antigos permanecem nas terras angustiados, com medo de perder a fonte de renda.
Resistem porque não sabem fazer outra coisa. Já os mais jovens desistem diante
de tanto prejuízo e do desgosto de ver os animais mortos no campo. Para eles, a
única opção é fechar as porteiras definitivamente.
As
comunidades perceberam que está em curso a extinção da população que
tradicionalmente soube conviver com o semiárido baiano sem destruí-lo. Muito
antes de se falar em aquecimento global, eles aprenderam por gerações a
importância de proteger o meio ambiente e as fontes de água, hoje ameaçadas
pela agricultura irrigada em larga escala e os pesticidas utilizados. Quem
resume melhor o ponto em que a situação chegou é Albino, pequeno criador: “Se o
cara morar aqui e não criar nada, mais antes caçar um buraco e se enterrar.”
Fonte:
Por Thomas Bauer e Paulo Oliveira, no CPT

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