Caio
de Freitas: Diário do julgamento I – Cid crava que militares apoiaram
manifestações nos quartéis
De
costas para um plenário lotado na 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), o
tenente-coronel Mauro Cid deu início aos interrogatórios dos ‘arquitetos’ da
trama golpista, integrantes do Núcleo 1 do caso, nesta segunda-feira (9) em
Brasília (DF).
Logo no
início da sessão, o “kid preto” disse que mantinha sua palavra sobre o que já
havia contado em suas delações. Mas, ao longo do
depoimento,
Mauro Cid se mostrou hesitante, esqueceu detalhes de episódios investigados
pelas autoridades e minimizou parte das alegações contra outros réus, como
observado pela Agência Pública ao longo da sessão. Antes de ser
questionado pelas outras defesas, Mauro Cid confirmou uma impressão amplamente
disseminada em relação à crise golpista – a de que havia uma anuência dos
militares com as manifestações antidemocráticas em todo o país. O ex-ajudante
de ordens de Jair Bolsonaro (PL) foi o primeiro dos envolvidos na trama
golpista a dizer, com todas as letras, que, “basicamente, as Forças Armadas
apoiaram as manifestações nos quartéis” entre o 2º turno das eleições e o
fatídico 8 de Janeiro. “Os acampamentos nos quartéis sempre tiveram um apoio
‘tácito’ dos militares e, depois daquela nota [dos comandantes militares
divulgada em 11 de novembro de
2022],
se ‘oficializou’ esse apoio pelas Forças [Armadas]”, afirmou ainda Mauro Cid. A
constatação de Cid foi precedida por outras autoridades nos últimos anos. Uma
delas foi o ex-presidente do Superior Tribunal Militar, brigadeiro Joseli
Camelo, que já havia dito algo muito similar em uma entrevista exclusiva
à Pública,
dizendo que os acampamentos “foram tolerados por orientação” do comando das
Forças Armadas à época.
Interrogado
pelos ministros Alexandre de Moraes, Luiz Fux e pelo procurador-geral da
República Paulo Gonet, Cid acrescentou ainda que Jair Bolsonaro “leu e enxugou”
a minuta golpista. “Ele basicamente tirou o nome do presidente do Senado, de
quase todos os ministros do Supremo… praticamente só deixou o nome do senhor”,
disse Cid a Moraes, referindo-se a quem seria preso no golpe. O próprio “kid
preto”, a plateia e até o ministro Alexandre de Moraes riram no momento,
enquanto Jair Bolsonaro não esboçou reação.
Por
outro lado, chamou atenção uma tentativa de Cid minimizar um episódio em
especial, a reunião de assistentes de comandantes militares em Brasília na
noite de 26 de novembro de 2022. Tal como seus amigos “kids pretos” de longa
data que se tornaram réus, Cid alegou que o encontro era uma espécie de
“conversa de bar”, com “discussões sobre a situação política do país naquele
momento, naturalmente” – nas palavras do ex-ajudante de Jair Bolsonaro. As
investigações apontam que, dias depois, o encontro deu origem a uma carta de
oficiais da ativa do Exército ao então comandante militar, general Marco
Antônio Freire Gomes, para que a Força aderisse ao golpe. Como já
reportado pela Pública, os militares réus
por envolvimento nesta reunião usaram argumentos parecidos com o de Cid em suas
próprias defesas, negando o teor golpista no encontro.
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Braga Netto versus Mauro Cid
As
defesas de outros réus exploraram lacunas e contradições do ex-ajudante de
ordens da Presidência, em especial as do ex-presidente da República e do
general da reserva Walter Braga Netto (PL). O advogado de Braga Netto, José
Luís Oliveira Lima, contestou a acusação de envolvimento de seu cliente com a
operação “Copa 2022”, para colocar em xeque a versão de Cid – que afirma ter
colocado “kids pretos” em contato com o
general e ex-vice na chapa de Bolsonaro. “Por que o réu colaborador [Cid]
demorou mais de um ano para contar à Polícia Federal que havia recebido e
entregue o tal envelope com dinheiro?”, perguntou o advogado de Braga Netto,
José Luís Oliveira Lima. Em resposta, Cid afirmou que não contou “porque não
sabia da existência desse plano, porque tinha sido ‘algo’ que um amigo me
pediu, mas eu não sabia que o dinheiro seria usado assim”. “Este dinheiro não teria sido entregue por
alguém do agronegócio, e não pelo general Braga Netto? O senhor tem certeza que
deseja manter sua versão, de ter recebido do general essa caixa com dinheiro?”,
insistiu o advogado, ao que Mauro Cid manteve sua versão. “Não estou dizendo
que o general Braga Netto planejou essa operação [Copa 2022], nem que ele sabia
de todos os detalhes; estou dizendo que ele se encontrou com os oficiais e,
dias depois, foi obtido esse dinheiro”, afirmou ainda o ex-ajudante de ordens.
O pano
de fundo do diálogo se referia à suposta entrega, pelo general Braga Netto, de
dinheiro que seria empregado na operação “Copa 2022” em uma caixa de vinho. No
interrogatório desta segunda (9), Mauro Cid explicou ainda que ficou com o
pacote “escondido, no pé da minha mesa no [Palácio do] Planalto”, mas alegou
“não lembrar” quem lhe entregou a caixa com dinheiro, nem onde ocorreu esta
entrega. Como relatado pela Pública, o ex-ajudante de
Bolsonaro delatou que a parte mais violenta da trama golpista teve início entre
os dias 9 e 11 de novembro de 2022, como um desdobramento de uma conversa dele
com dois amigos militares seus, de longa data, no hotel de trânsito para oficiais
dentro do Comando de Operações Especiais em Goiânia (GO) – o reduto dos “kids
pretos” do Exército.
Em sua
delação, Cid afirma que o general da reserva teria se reunido com dois “kids
pretos” – o então major Rafael Martins de Oliveira e o tenente-coronel Hélio
Ferreira Lima, amigos de Cid há mais de 20 anos – que queriam “causar o caos”
para manter o ex-presidente no poder. Ambos estão presos desde novembro passado
graças à operação Contragolpe, da Polícia Federal,
que também prendeu o general da reserva do Exército Mário Fernandes.
Segundo
as investigações, nos dias seguintes teve início a operação “Copa 2022”, para
sequestrar e matar autoridades, com suposto uso do dinheiro repassado pelo
general Braga Netto em uma caixa de vinho. Vale lembrar que, até o momento, a
identidade de todos os militares “kids pretos” envolvidos na operação “Copa
2022” ainda não foi descoberta pela Polícia Federal. Após mais de três horas de
interrogatório com Mauro Cid, que colaborou com as investigações, o STF iniciou
os depoimentos dos sete réus do Núcleo 1 com o ex-diretor da Agência Brasileira
de Inteligência (Abin) e atual deputado federal Alexandre Ramagem (PL).
Na
trama golpista, Ramagem foi acusado de ter usado o órgão de para produzir
materiais contra a lisura das urnas eletrônicas. Além disso, os investigadores
apreenderam materiais de teor antidemocrático produzidos pelo hoje deputado
federal, e parte deles tinha uma redação de cartas endereçadas ao então
presidente Jair Bolsonaro. Em sua defesa, Ramagem alegou que os arquivos
eram “anotações privadas” e que “nunca” as enviou a ninguém. A tese foi
prontamente rebatida pelo ministro Moraes, que indagou: “o senhor escrevia
cartas para o presidente [da República] e não as enviava?”. Ainda assim, o
ex-diretor da Abin manteve seu argumento, dizendo que produzia os materiais
desta forma para “concatenar as ideias”, que “era algo privado, com opiniões
privadas minhas”. Mas a justificativa não convenceu os interrogadores, como se
vê na postura do procurador-geral da República, Paulo Gonet. “O senhor Augusto
Heleno tinha anotações privadas que compartilham exatamente das mesmas ideias
do senhor Ramagem; o réu ainda sustenta não ter compartilhado os documentos
apreendidos com ninguém?”, indagou o procurador-geral. “Bem, ou eu não passei
[adiante] do jeito que está escrito, ou eu não escrevi”, respondeu o ex-diretor
da Abin.
- “Nem 5% do material coletado se
transforma em relatórios de inteligência”
Um dos
materiais que embasam a suspeita contra Ramagem aponta supostas relações de ministros
do STF com empresas ligadas à fabricação e venda das urnas para o governo
brasileiro. O ex-diretor da Abin atribuiu a produção deste material a dois de
seus subordinados, alegando que a “suspeita” não se confirmou – além de ter
sido apurada sem conhecimento do próprio Ramagem, ainda segundo ele mesmo.
“Destaco
que dois agentes, sem qualquer controle da direção-geral da Abin, lidam com a
manipulação de uma questão jurídica envolvendo ministros da Suprema Corte,
ligando isso à questão das urnas”, disse o ministro Luiz Fux – que, segundo os
materiais apreendidos com Alexandre Ramagem, teria conexão com este mesmo
boato.“Então é possível que a Abin tenha ‘arapongas’ soltos, descontrolados por
aí, é isso?”, indagou Fux, ao que o ex-diretor da Abin assentiu, concordando
com o ministro do STF.
Perguntado
pelo ministro Moraes sobre o relatório que ligava ministros do Supremo às
empresas que lidam com as urnas eletrônicas, o ex-diretor da Abin fez ainda uma
revelação surpreendente: o governo federal mal aproveita as informações
coletadas pelo aparato de inteligência no Brasil. “A verdade é que nem 5% do
material coletado se transforma em relatórios de inteligência. Há um percentual
muito pequeno que se difunde [por meio de relatórios de inteligência] a partir
do que é coletado”, afirmou Ramagem.
- Para Torres, decreto do golpe vira
“minuta do Google”
Tal
como Alexandre Ramagem, o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e
secretário de Segurança Pública do Distrito Federal Anderson Torres também se
tornou réu por suspeitas de uso do aparato estatal para desacreditar as urnas.
Mas ele enfrenta acusações mais graves, de omissão na segurança das sedes dos
Três Poderes e de envolvimento com a redação de um decreto que consolidaria o
golpe.
Como em
outros momentos ao longo do processo, Torres alegou não ter escrito o documento
encontrado pela PF em sua residência, afirmando que o material era uma “minuta
do Google”. “Esse material segue disponível até agora na internet, e foi assim
que o obtive”, disse em seu interrogatório. “Nunca trabalhei
isso, o documento era muito mal escrito, cheio de erros de português,
concordância. Até o nome do tribunal estava escrito errado. Não é da minha
lavra, não sei quem fez, quem mandou fazer e nunca, nunca discuti esse tipo de
assunto”, afirmou ainda.
Questionado
pelo ministro Moraes sobre a suspeita de bloqueios, por meio da Polícia
Rodoviária Federal, em estradas nas regiões onde o presidente Lula (PT) teve um
bom desempenho no 1º turno das eleições, Torres se esquivou de qualquer
responsabilidade. Para o ex-ministro, a empreitada era de “iniciativa” da ex-diretora
de Inteligência (DINT) do MJSP, a delegada federal Marília Ferreira de Alencar
– que também é ré no caso da trama golpista. “Cabe à DINT fomentar essas
discussões internas, e essa diretoria dela [Marília] produziu alguns materiais
sobre as eleições. Mas o plano foi logo descartado, porque não teria indício de
crimes eleitorais… tudo foi uma iniciativa dela [Marília]”, alegou Torres. O
ex-ministro refutou ainda acusações de que teria atuado para desacreditar o
sistema eleitoral brasileiro – como se viu em sua participação na
fatídica reunião ministerial
de 5 de julho de 2022.
“O material ao qual eu tive acesso era sobre sugestões de ‘melhorias’ nas urnas
eletrônicas, só isso. Eu não tinha [provas de fraudes nas urnas eletrônicas]…
eram apenas colocações pessoais minhas”, disse Torres.
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Diário do julgamento do golpe II – Bolsonaro réu fica
diante de Alexandre de Moraes. Por Alice Maciel
Sentado
no banco dos réus, com a Constituição de 1988 sobre a mesa, o ex-presidente
Jair Bolsonaro (PL) buscou atenuar, ao longo de duas horas de depoimento no
Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira (10/6), atitudes e discursos
que hoje o colocam no centro da acusação de tentativa de golpe de Estado. Ele
recorreu repetidamente ao argumento de seu “temperamento explosivo” para
justificar posicionamentos antidemocráticos, negou ter discutido qualquer
proposta fora dos limites constitucionais, mas, contraditoriamente, voltou a
relativizar o golpe militar de
1964,
ao comparar com o que ocorreu durante seu governo. “A questão de 64, que a
esquerda chama de golpe até hoje, teve o apoio do Congresso Nacional, de toda a
imprensa – exceto o jornal Última Hora – da Igreja Católica, das senhoras nas
ruas com a marcha da família, a classe empresarial, o pessoal do agro, o apoio
externo, tudo isso foi presente”, afirmou ao defender que não se faz golpe “com
meia dúzia de pessoas”.
Jair
Bolsonaro iniciou seu depoimento às 14h35, visivelmente tenso. Procurava apoio
nos papeis sobre a mesa, enquanto respondia as primeiras perguntas, com a boca
seca. A partir da terceira resposta, porém, começou a se soltar, ganhando
confiança e ajustando o tom da defesa — bem diferente daquele adotado nos
palanques. Frente a frente com o ministro Alexandre de Moraes, transformado em
algoz pelo bolsonarismo, o ex-presidente adotou uma postura mais cordial,
chegando a brincar com o magistrado: “Eu gostaria de convidá-lo para ser meu
vice [candidato a vice-presidente] em 2026”, disse, rindo. Na outra ponta do
palco, no centro do plenário da Primeira Turma do STF, Moraes também adotou um
tom mais descontraído durante a fase de depoimentos, contrastando com a rigidez
demonstrada até então no julgamento da trama golpista. Fez piadas com os advogados
e sorriu diversas vezes — inclusive durante a fala de Bolsonaro. Em resposta ao
“convite” do ex-presidente, reagiu sorrindo: “Declino novamente.”
Esse
clima mais “brincalhão” foi explorado pelas defesas dos oito réus do chamado
“núcleo crucial”, e arrancou risos descontraídos da plateia, desviando em
alguns momentos a atenção da gravidade do que está em jogo: é a primeira vez na
história do país que um ex-presidente e militares de alta patente respondem
criminalmente por tentativa de ruptura democrática. Apesar dos esforços para
refutar os fatos apresentados na denúncia da Procuradoria-Geral da República
(PGR) – e corroborados em depoimentos dos militares que o antecederam – Jair
Bolsonaro admitiu ao longo de seu depoimento, que na reunião com comandantes
das Forças Armadas em 7 de dezembro de 2022, foi apresentada “de forma rápida”
e “numa tela de televisão”, a chamada minuta golpista, que ele referiu-se como
um conjunto de “considerandos”. “Mas a discussão sobre esse assunto já começou
sem força, de modo que nada foi à frente”, ponderou Bolsonaro. O ex-presidente
negou ter feito alterações no documento, conforme acusou seu ex-ajudante de
ordens, coronel Mauro Cid, e disse que o arquivo ao qual teve acesso não tinha
previsão de prisão de autoridades. “Só tinha considerandos lá”, reforçou outra
vez. “Eu refuto qualquer possibilidade de falar de minuta de golpe, que não
esteja enquadrada dentro da Constituição brasileira”, destacando que “não
procede o enxugamento [do documento]”, relatado por Cid.
Jair
Bolsonaro afirmou ainda ter cogitado decretar estado de sítio após o Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) rejeitar o pedido do seu partido de anular parte dos
votos do segundo turno. Foi aplicada uma multa de R$ 22,9 milhões ao PL por
litigar de má-fé ao questionar o resultado das eleições. “Sobrou pra gente
buscar uma alternativa na Constituição rapidamente. Não foi discutido, foi
conversado hipóteses de dispositivos constitucionais”, explicou. Segundo o
ex-presidente, o plano do estado de sítio não foi para frente porque “não tinha
clima, não tinha oportunidade”. “E não tínhamos uma base minimamente sólida
para fazer qualquer coisa”, acrescentou. “Repito, só foi conversado essas e
outras hipóteses constitucionais, tendo em vista o TSE ter fechado as portas
para a gente com aquela multa lá”, ressaltou Bolsonaro.
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Discurso golpista e mentiroso era retórica, segundo Bolsonaro
O
ministro Alexandre de Moraes fez 32 perguntas ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A primeira delas abordou a reunião ministerial de 5 de julho de 2022, que
serviu de base para a operação Tempus Veritatis da Polícia Federal. Essa
reunião foi considerada peça-chave na investigação sobre a articulação para
manter Bolsonaro no poder após a derrota nas eleições. Moraes questionou o
ex-presidente sobre os fundamentos que o levaram a alegar fraude nas urnas
eletrônicas e a afirmar que ministros do TSE estariam manipulando o resultado
do pleito. Bolsonaro respondeu: “Essa foi a minha retórica que usei muito
enquanto deputado e depois como presidente, também buscando o voto impresso
como uma forma a mais de termos mais uma barreira para evitar qualquer
possibilidade de se alterar o resultado das eleições”.
O
ex-presidente ainda leu declarações antigas — e fora de contexto — de figuras
públicas como o ministro do STF Flávio Dino e o presidente do PDT, Carlos Lupi,
na tentativa de mostrar que políticos de esquerda também fizeram críticas ao
sistema eleitoral. Ele repetiu diversas vezes a existência de um suposto laudo
da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) como prova de que
havia desconfiança técnica sobre as urnas. Contudo, a própria entidade já se
manifestou publicamente, repudiando qualquer tentativa de usar seu nome em
teorias conspiratórias. “Repudiamos, dessa forma, qualquer tentativa de
associação a conspirações de fraudes nas eleições e ressaltamos nossa confiança
no processo eleitoral”, destacou a APCF em nota publicada em julho de
2021.
Ao ser
confrontado sobre acusações feitas também na reunião ministerial de que membros
do STF teriam recebido milhões de dólares para interferir no resultado
eleitoral, Bolsonaro voltou a usar o argumento da “retórica”; negou ter provas
e desculpou-se com Moraes. “Não tem indício nenhum, senhor ministro. Tanto é
que era uma reunião para não ser gravada. É um desabafo, uma retórica que eu
usei. Se fosse outros três ocupando [o TSE], teria falado a mesma coisa. Então,
me desculpem. Não tinha essa intenção de acusar de qualquer desvio de conduta”,
justificou. Durante o depoimento, Moraes chegou a corrigir informações falsas
apresentadas por Bolsonaro. O ex-presidente mencionou um inquérito da PF que,
segundo ele, investigava supostas falhas nas urnas eletrônicas. Moraes
esclareceu que o inquérito tratava, na verdade, de um possível vazamento de
dados dos servidores do TSE, sem qualquer impacto sobre o resultado das
eleições.
Bolsonaro
ainda tentou justificar suas declarações com base em seu estilo político:
“Vossas excelências não me viram em nenhum momento agir contra a Constituição.
Eu joguei dentro das quatro linhas o tempo todo. Muita vez me revoltava, falava
palavrão, falava o que não devia falar, eu sei disso, mas, no meu entender, fiz
aquilo que tinha que ser feito”. O ex-presidente usou a mesma linha de defesa
quando também foi questionado pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet,
sobre o teor de suas falas durante a reunião ministerial de julho de 2022:
“Senhor procurador, é o meu temperamento. A convocação não foi para aquilo,
aquilo foi num momento, como se fosse um intervalo”. Quando Gonet perguntou
sobre as ameaças de Bolsonaro aos ministros do STF proferidas durante
entrevista e manifestação em 2021, ele respondeu: “Senhor procurador, o senhor
deve conhecer o meu temperamento dentro do Congresso. Respondi a uns 20
processos de cassação lá dentro. Um pouco explosivo. Muitas vezes errei.”
<><>“Golpe
é uma coisa abominável”, disse Bolsonaro que nega golpe em 1964
Ao
longo de seu depoimento, Jair Bolsonaro negou as acusações imputadas pela PGR a
ele, de ter liderado a tentativa de golpe de Estado que culminaram nos atos de
8 de janeiro de 2023. “Golpe? Eu fico até arrepiado quando se fala que o 8 de
janeiro foi um golpe”, ressaltou. De acordo com o ex-presidente, os atos
ocorreram “sem qualquer participação dele”, e “sem qualquer liderança, sem
forças armadas, sem armas, sem um núcleo financeiro, sem nada”. “Isso não é
golpe”, insistiu. Apesar de, ao longo da carreira política, ter defendido o
regime militar que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985, o ex-presidente
declarou: “Golpe é uma coisa abominável. O golpe até seria fácil começar,
o after day [dia seguinte] que é simplesmente imprevisível e
danoso para todo mundo. O Brasil não poderia passar por uma experiência dessas
e não foi sequer cogitada essa hipótese de golpe no meu governo”. Ainda no
primeiro ano de seu governo, em 2019, o Itamaraty enviou um telegrama à Organização
das Nações Unidas (ONU) afirmando que “não houve golpe de Estado” em 31 de
março de 1964 e que os 21 anos de governos militares foram necessários “para
afastar a crescente ameaça de uma tomada comunista do Brasil e garantir a
preservação das instituições nacionais, no contexto da Guerra Fria”.
Ao ser
indagado sobre os acampamentos em frente ao Quartel-General do Exército em
Brasília, Bolsonaro alegou que não os desmobilizou para evitar um cenário ainda
mais grave, com os manifestantes se deslocando para a Praça dos Três Poderes.
“Se nós simplesmente desmobilizássemos aquilo, poderia o pessoal vir para a
região aqui da Praça dos Três Poderes e ficar pior ainda”, argumentou. Em
trechos emocionais e desconexos do depoimento, Bolsonaro recorreu à ironia e a
um tom sentimental, descrevendo o período da presidência como um fardo: “Quando
eu me elegi presidente da República eu ajoelhei e falei ‘meu Deus, qual o
pecado eu cometi pra pagar o preço de uma presidência”. E completou: “É inferno
aquela vida”. E, mesmo sem ser questionado diretamente sobre o assunto,
Bolsonaro justificou a decisão de não participar da cerimônia de transmissão da
faixa presidencial a Luiz Inácio Lula da Silva dizendo que não queria “se
submeter à maior vaia da história da República”.
Fonte:
Agencia Pública

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