Rosane
Borges: ‘Capitalismo digital, lógica da economia da transferência e
bêbe reborn’
Desde
que irromperam no tecido poroso da internet, algumas histórias sobre os
bebês reborn mostraram força para reposicionar o debate em
torno da maternidade superficial e normativa na era da cultura dos likes e
da padronização dos modos de performar amor e outros afetos tidos como
positivos.
Incrustadas
num Himalaia de comentários e reações, em sua maioria negativos, ganharam
relevo as observações que advertiam para um fenômeno de baixa incidência no
tecido social, recomendando que, portanto, deveríamos enquanto sociedade dar de
ombros para a estridência do momento. De fato, as análises de mercado informam
que para cada 120 bonecas vendidas, uma é reborn, o que
revela que o tema ganhou tração nas conversas e curiosidades sobre bonecas
hiperrealistas, majoritariamente nos espaços digitais, não refletindo a
quantidade de vendas. O mercado, no entanto, se encontra em expansão, com
destaque para a praça brasileira (InfoMoney, abril/2025).
Mas por
que os bebês reborn seguem provocando repercussão sísmica nos
extensos territórios digitais nos quais conseguem mobilizar uma gama expressiva
de constelações de vozes?
Um
endereço seguro de reposta está localizado na máxima segundo a qual a
relevância de um acontecimento não se dá apenas pelo volume numérico que ele
alcança, mas pela sua capacidade de suscitar o debate e fazer o laço social. A
psicanálise lacaniana empenhou-se em fincar as estacas desse postulado na
pesquisa social — ou, se quisermos simplificar, “conte três e já temos uma
tendência”, como proclamam os analistas de moda.
Dito
isso, este artigo tenta se equilibrar feito funâmbula (não no sentido figurado,
mas no sentido literal), movimentando-se numa corda fina e bamba para não
derrapar no terreno baldio em que se atiram pedras impiedosamente, como se
estivéssemos no reino da plena lucidez e da superioridade moral, tampouco
pendular para o lado de uma defesa acrítica, aderindo à ideia de que as mães de
bebês reborn não estão fazendo mal pra ninguém e que as
vontades devem ser respeitadas.
·
Bebê reborn e a transferência do vínculo
Não é
mais novidade que as redes sociais customizaram nossa subjetividade. Do nascer
ao pôr do sol (quando ele aparece), roteirizamos nossa experiência num ambiente
asséptico que não tolera o fracasso (quando ele se apresenta é porque já foi
capturado pelo capital sob outras vestes), onde as ações cotidianas são publicadas
num crivo cosmético que mimetiza espontaneidade.
Na
maioria das vezes, o resultado dessa subjetividade normativa e superficial
(porque destituída de sujeitas e sujeitos) é a transferência daquilo que nos
faz humanos — demasiadamente humanos — para a soberania da máquina. Em
tempos de inteligência artificial generativa, a prática da transferência atinge
o ápice de terceirizarmos nossos desejos e escolhas para as articulações da
lógica algorítmica, que se mostram sempre gentis, certeiras, expeditas no seu
papel de nos atender sem nos contrariar.
Se a
era do humanismo acabou, como disse Achille Mbembe, as “curadorias de si”
nas redes sociais prometem uma jornada para a vida de cada um(a) e de
todos(as), na qual as possibilidades de realização dos desejos são postas numa
plataforma, tal como os expositores de self-service, em que tudo está pronto e
acabado, ou como os produtos prêt-à-porter. Abre-se mão dos
códigos e dos gestos que nos põem em efetiva relação com o outro, que carregam
sempre o germe da dor e do desafio, mas também do reconhecimento e da
emancipação. Disclaimer: seguir e ser seguidora ainda não é um
processo de relação.
Ocorre
que a concepção da vida não passa por uma lógica em que temos controle sobre o
produto final. A miséria e a grandeza da vida residem exatamente em nos
vincularmos ao outro para que se ache, quando possível, algum fio de sentido
para sustentar nossas existências.
No
reino de Nárnia das redes sociais, os afetos positivos são sempre perseguidos,
e quando se trata de amor — amor incondicional, como atribuímos à maternidade
—, a performatividade nessa ambiência precisa celebrar uma positividade, que
virou tóxica, eliminando a contraparte que lhe é inerente. O Outro deixa de ter
importância e passamos a mirar no espelho dos seguidores/as, que nos devolvem a
imagem que queremos projetar na praça da visibilidade pública.
Nesse
fluxo contínuo de sucessivas projeções (de beleza, riqueza, felicidade,
satisfação, sucesso), a maternidade desponta como a via pela qual podemos pôr
em cena um modo de ser mãe, que começa com o tal chá de revelação até
se desidratar por completo, porque os desafios nada fofos e as agruras
cotidianas são obliterados: dores, privação de sono, jornada de trabalho
elevada, cuidados domésticos, higiene do bebê que faz cocô real,
responsabilidade material e afetiva sobre o outro.
Na
lógica dos bebês reborn, todo esse rosário nada instagramável
desaparece e o que fica é a celebração diária de uma maternidade sem
musculatura, que até encena o perrengue, mas sem precisar enfrentá-lo (o parto
até existe, mas é indolor, insípido e inodoro; o corpo permanece inalterado,
sem precisar fazer drenagem nem intervenções cirúrgicas em um futuro
próximo).
·
Capitalismo digital e a colonização “do mais estranho”
Sabe-se
que os bebês reborn não são invenção dos últimos meses, e o
fenômeno, se visto isoladamente, não apresenta nenhuma ameaça. Ao contrário —
seja no aspecto lúdico e criativo, seja no aspecto terapêutico (bebês reborns
são adotados para tratamento de pacientes com Alzheimer ou que passaram por
traumas profundos), a “adoção” de um reborn não é atestado de
crime ou patologia. Mas é preciso apurar os ouvidos para as ruminações e
advertências em caps lock que reagiram quando esses bebês
resolveram “treinar a imaginação e sair em visita” (Hannah Arendt), ingressando
na cena pública como senha para promoção de vínculos profundos.
É
exatamente assim que devemos examinar o fenômeno dos reborns: como
senha que nos dá acesso àquilo que abrimos mão de oferecer. É de Walter
Benjamin a expressão: “o capitalismo coloniza tudo, só não coloniza aquilo que
temos de mais estranho”. Mesmo sendo um desejo que recobre muitas mulheres, a
maternidade é um expediente que habita a estranheza da mulher, aquilo que não
pode ser imitado em termos de articulação. Costuma-se dizer que não há cartilha
para o exercício da maternidade, porque cada mãe é cada uma. Não há
pausteurização, achatamento, padronização que caiba num post. Ops, não
havia!
Todo
pimpão, o capitalismo digital, esse capitalismo de cassino, nos diz, por meio
dos bebês reborn, que já avançou mais do que deveria sobre nossas
estranhezas. Podemos ser o que quisermos, desde que se abra mão de uma
subjetividade errática que se completa quando conta com o Outro igualmente
errático e falível que nos afeta!
¨
IA, vídeos ultrarrealistas e o
colapso do real. Por Maria Eduarda Soares de Oliveira
A
humanidade, desde sempre, se apoiou em marcos de referência para distinguir o
real do ilusório. O avanço das tecnologias de inteligência artificial —
especialmente a criação de vídeos ultrarrealistas e falsificações hiper
precisas de vozes e rostos — está corroendo esse alicerce com velocidade
inédita. A ameaça que isso representa não é apenas tecnológica, mas
profundamente política: em um mundo onde até o olhar mais treinado não sabe
mais o que é real, a confiança pública, os processos democráticos e a administração
da justiça entram em colapso simbólico.
A
emergência dos chamados deepfakes e simulações hiper-realistas
— agora produzidas em questão de minutos por plataformas abertas — inaugura uma era em que a dúvida
precede qualquer evidência. Ainda que as tecnologias de falsificação já existissem,
o diferencial contemporâneo é sua acessibilidade e escalabilidade. A barreira
que antes separava a manipulação profissional da brincadeira amadora se
dissolveu. Hoje, qualquer cidadão conectado pode fabricar uma versão
convincente de um acontecimento que jamais existiu — e espalhá-la com a força
viral de um clique, a partir da IA.
Esse
cenário não é mera especulação distópica. Em 2023, um áudio falso da voz do
presidente dos EUA, criado por IA, chegou a interferir momentaneamente em
campanhas eleitorais. No
Brasil, vídeos adulterados têm circulado com potencial de dano real, não apenas
à imagem de figuras públicas, mas à própria estrutura do debate público. Como
aponta o filósofo Byung-Chul Han, a crise contemporânea já não é da informação,
mas da confiança: “quanto mais se sabe, menos se acredita”.
A
consequência mais perigosa desse colapso da distinção entre verdadeiro e falso
é a erosão da possibilidade de julgamento ético, jurídico e político. Em um
sistema de justiça baseado em provas, como confiar em registros audiovisuais?
Como sustentar o testemunho digital em uma era onde “ver” já não é suficiente?
O risco não está apenas na manipulação, mas na generalização da suspeita. O
vídeo falso se espalha, mas o desmentido nunca o alcança com igual
intensidade.
Mesmo
as gerações que cresceram imersas na internet, acostumadas ao conteúdo viral e
aos filtros de realidade, começam a expressar perplexidade diante da
impossibilidade de distinguir ficção e fato. Trata-se de uma crise epistêmica,
mas também geracional. O que significa formar cidadãos quando já não há terreno
sólido sobre o qual edificar certezas?
Diante
desse cenário, o desafio ético-político urgente não é apenas o de regulamentar
tecnologias, mas o de recuperar critérios de verdade em uma sociedade saturada
de simulacros. É preciso mais do que leis; é necessário um novo pacto de
confiança coletiva, que reafirme a importância da mediação crítica, do
jornalismo ético e da investigação técnica como bússolas democráticas.
Em
tempos de mentira automatizada, dizer a verdade se torna um ato radical — e
acreditar nela, um gesto de resistência.
Fonte:
Blog da Boitempo/Le Monde

Nenhum comentário:
Postar um comentário