O
papel da mulher na transição para sistemas alimentares sustentáveis e dos
efeitos das mudanças climáticas
A crise
ambiental e climática não afeta da mesma forma os diferentes grupos sociais. As
mulheres estão entre as mais impactadas pelas mudanças climáticas, em razão de
desigualdades sociais, econômicas e políticas historicamente construídas. Como
consequência, são desproporcionalmente afetadas por eventos climáticos
extremos. Ao mesmo tempo, ocupam posições de destaque na linha de frente das
respostas aos desastres, como mostram análises recentes sobre a resiliência e o
engajamento político das mulheres no enfrentamento da crise climática. Elas
também desempenham um importante papel na construção de estratégias voltadas à
mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. Esse protagonismo é
especialmente evidente na agricultura e na alimentação. Nesses contextos, elas
ocupam posições centrais na construção de sistemas alimentares sustentáveis,
que, por sua vez, têm potencial para contribuir com a redução dos
desequilíbrios ambientais e climáticos.
• Sistemas alimentares e mudanças
climáticas
Os
sistemas alimentares – entendidos como uma complexa rede de atores, práticas,
objetos e normas que regulam a produção, a distribuição e o consumo de
alimentos – estão relacionados com o atual contexto de crise ambiental e
climática. As mudanças no clima afetam diretamente esses sistemas,
comprometendo a produção agrícola, a disponibilidade de alimentos, os meios de
subsistência de comunidades rurais e a segurança alimentar de populações
vulneráveis. Ao mesmo tempo, determinados sistemas alimentares podem
intensificar os desequilíbrios ecológicos, contribuindo para o agravamento da
crise climática, especialmente quando baseados em modelos hegemônicos de
produção e distribuição pautados por uma lógica extrativista voltada à
acumulação de capital. No Brasil, o agronegócio exemplifica esse padrão, cujas
técnicas de produção estão atreladas a processos de desmatamento, degradação de
biomas e esgotamento de recursos naturais.
Por
outro lado, sistemas alimentares baseados em práticas sustentáveis — enraizadas
nos saberes tradicionais, nos vínculos comunitários e em formas coletivas de
organização — mostram-se como alternativas viáveis frente aos desafios
ambientais contemporâneos. As experiências agroecológicas na América Latina são
provas concretas do potencial transformador dessas abordagens. No modelo
agroecológico, o manejo dos recursos naturais ocorre de maneira integrada às
práticas cooperativas de produção, distribuição e consumo, promovendo uma
reconexão entre as comunidades, a natureza e os alimentos. Essas práticas, além
de contribuírem para a conservação e a recuperação dos ecossistemas, também
confrontam a lógica excludente e destrutiva do modelo neoliberal¹. Nesse processo,
as mulheres vêm desempenhando um papel fundamental, seja na preservação e na
transmissão dos saberes tradicionais, seja na construção de alternativas
alimentares mais justas, sustentáveis e enraizadas nos territórios.
• O papel das mulheres na agricultura e na
alimentação
Estudos
revelam que as mulheres detêm uma maior diversidade de conhecimentos sobre os
recursos alimentares e medicinais do que os homens, especialmente em sociedades
patriarcais². Elas desempenham papéis importantes em diversas atividades que
compõem o sistema de produção, como o cultivo de hortas e pomares, o cuidado
com animais e outras tarefas frequentemente consideradas “secundárias” em
relação às culturas comerciais. No entanto, essas atividades são essenciais
para garantir o fluxo de biomassa, conservar a biodiversidade e domesticar
plantas, contribuindo para a segurança alimentar do núcleo familiar.
Além
disso, a participação das mulheres nas culturas comerciais e na geração de
renda também é significativa, embora muitas vezes invisibilizada³. Sua presença
é expressiva na organização das unidades produtivas agroecológicas e vem
crescendo nos últimos anos no Brasil e em toda a América Latina. Estima-se que
as mulheres camponesas sejam responsáveis por produzir entre 70% e 80% dos
alimentos consumidos pelas populações mais pobres do mundo⁴. No Brasil, estudos
indicam que elas são responsáveis por cerca de 35% dos empreendimentos
associativos solidários e aproximadamente 50% da produção voltada ao
autoconsumo⁵. Além disso, 80% das pessoas participantes do Programa de
Aquisição de Alimentos (PAA) – uma das principais políticas públicas de
segurança alimentar e nutricional do país – são mulheres⁶.
Embora
os dados anteriores evidenciem a relevância das mulheres tanto para a garantia
da segurança alimentar quanto para a geração de renda nas famílias camponesas,
o Censo Agropecuário de 2017 revelou uma significativa desigualdade de gênero
na gestão dos estabelecimentos agropecuários no Brasil. Em um universo de 5,07
milhões de estabelecimentos – familiares e não familiares – 81,3% estavam sob
gestão masculina, enquanto apenas 18,7% eram geridos por mulheres, conforme
apontam as autoras do estudo “As mulheres no Censo Agropecuário de 2017”. O
levantamento revela ainda que entre os estabelecimentos da agricultura
familiar, apenas 19,7% eram dirigidos por mulheres, em contraste com 15,2% nos
não familiares, o que evidencia a baixa presença feminina na direção dos
estabelecimentos, ainda que sua participação seja relativamente maior no âmbito
da agricultura familiar.
Outro
dado relevante diz respeito ao destino da produção, se voltada ao mercado ou ao
autoconsumo. Nos estabelecimentos da agricultura familiar dirigidos por homens,
59,4% da produção é destinada à comercialização e 42,1% ao consumo próprio e de
pessoas com laços de parentesco com o produtor. Já nos estabelecimentos
dirigidos por mulheres, observa-se o oposto: 54,1% da produção é destinada ao
consumo próprio, enquanto 45,9% à comercialização. Esses dados demonstram a
importância das mulheres na promoção da segurança alimentar e nutricional,
ainda que grande parte de sua produção voltada ao autoconsumo permaneça não
registrada, não declarada e, portanto, invisibilizada nas estatísticas
oficiais.
Além
disso, apesar do elevado uso de agrotóxicos na agricultura brasileira,
inclusive em parte da agricultura familiar, as pesquisadoras destacam que os
estabelecimentos geridos por mulheres tendem a utilizar menos esses produtos7.
No total, 33% dos estabelecimentos agropecuários declararam usar agrotóxicos,
sendo 35,6% sob gestão masculina e apenas 22,4% sob gestão feminina.
Especificamente na agricultura familiar, o uso foi registrado em 33,2% dos
estabelecimentos, com 35,9% sob gestão masculina e 22,3% sob gestão feminina.
• Equidade de gênero para um futuro
sustentável
De modo
geral, os dados revelam a persistente desigualdade de gênero no meio rural.
Para promover equidade de gênero na agricultura e potencializar a contribuição
feminina para sistemas alimentares sustentáveis e para a mitigação dos efeitos
das mudanças climáticas, é importante construir relações mais igualitárias na
gestão e na divisão do trabalho familiar. Além disso, são fundamentais as
políticas públicas e as ações de apoio ao trabalho das mulheres para valorizar
e fomentar sua contribuição para uma produção mais sustentável, elemento chave
no combate à fome e à insegurança alimentar e nutricional.
Nesse
sentido, a promoção da igualdade de gênero na agricultura está diretamente
alinhada com os compromissos assumidos pela comunidade internacional. A Agenda
2030 para o Desenvolvimento Sustentável da ONU tem orientado ações nacionais e
locais voltadas à mitigação de efeitos das mudanças climáticas. Entre os
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos na agenda, inclui-se a
igualdade de gênero (ODS 5), que é também uma diretriz transversal em relação a
outras metas, como aquelas relacionadas ao ODS 2 – Fome Zero e Agricultura
Sustentável. Um modelo sustentável de produção de alimentos, por sua vez,
contribui também para garantir a saúde e o bem-estar de consumidores e
trabalhadores rurais (ODS 3 e ODS 8) e para a adoção de técnicas que tornam
eficientes o uso dos recursos hídricos na produção agrícola (ODS 6 e ODS 14).
Além disso, esse modelo viabiliza ações eficazes no enfrentamento das mudanças
climáticas e de seus impactos (ODS 13). A igualdade de gênero é fundamental
para se alcançar tais metas, considerando a centralidade da participação
feminina nos sistemas alimentares sustentáveis.
Contudo,
as metas globais devem ser compreendidas mais como um entendimento comum sobre
grandes desafios contemporâneos do que como medidas e ações padronizadas.
Qualquer transformação efetiva, que garanta economias, em diferentes escalas,
que permitam um equilíbrio entre as necessidades humanas e os recursos
naturais, não pode ser construída se não a partir das experiências locais. É a
partir dessas vivências, saberes e práticas territorializadas que se torna
possível construir alternativas sustentáveis, pautadas na justiça social e na
equidade de gênero.
Fonte:
Marisa Singulano, Amanda Leão Cardoso e Maria Cristina Teixeira Braga Messias,
no Le Monde

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