Anvisa
libera revestimento de lata de bebida contestado por risco à saúde
NA
CONTRAMÃO de estudos científicos e de críticas de empresas da própria indústria
química, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) liberou em
fevereiro deste ano o uso de uma substância associada a potenciais problemas de
saúde, como disfunções hormonais, para o revestimento de embalagens de bebidas
no Brasil.
A
decisão de autorizar o uso do Bisfenol F (BPF) na composição de “latinhas”,
como as utilizadas para sucos, refrigerantes e água mineral, ocorreu após
solicitação feita pela Valspar Corporation, do grupo americano Sherwin-Williams
— conglomerado global do mercado de tintas, vernizes e revestimentos.
O
Bisfenol F é o sucessor do Bisfenol A, composto químico proibido em diversos
países. O material é apontado como fator de risco para as funções metabólicas e
hormonais do corpo humano. Desde 2012, uma resolução da Anvisa impede o uso de
Bisfenol A em produtos infantis. Atualmente, tramitam no Congresso medidas para
ampliar a proibição.
Já o
Bisfenol F surgiu como alternativa para driblar as restrições. A substância é
aplicada principalmente na fabricação de resinas epóxi, amplamente utilizadas
no revestimento interno de embalagens metálicas. O BPF teve o uso difundido por
aumentar a vida útil de diferentes produtos, garantindo maior resistência
térmica às embalagens.
Apesar
de suas qualidades para revestimento, um relatório da OCDE (Organização para
Cooperação e Desenvolvimento Econômico) aponta que o BPF pode provocar impactos
hormonais similares aos gerados pelo BPA. A União Europeia, por exemplo, não
permite o uso de Bisfenol F em materiais destinados ao contato com alimentos,
conforme o Regulamento (UE) nº 10/2011.
Pesquisadores
ouvidos pela Repórter Brasil veem com preocupação a medida da Anvisa e afirmam
que uma eventual aprovação deveria ser amparada por evidências científicas mais
robustas. Pesquisas mostram que o Bisfenol F pode contribuir para problemas de
saúde, como ganho de peso e surgimento de diabetes, além de prejuízos à
placenta, inclusive com riscos ao neurodesenvolvimento de filhos em casos de
gravidez.
Em nota
à Repórter Brasil, a Anvisa afirma que “as posições dos fabricantes contrários
à aprovação foram consideradas durante o processo de consulta pública e diálogo
setorial”. O posicionamento sustenta que “não foram apresentados estudos
científicos que refutassem as evidências submetidas pela Sherwin-Williams”.
Clique aqui para ler a íntegra da resposta.
Atas de
reuniões obtidas com exclusividade pela Repórter Brasil, por meio da Lei de
Acesso à Informação (LAI), mostram que a Anvisa liderou, em conjunto com a
Argentina, o processo de liberação do Bisfenol F no âmbito do Mercosul, a
partir de setembro de 2022.
A
petição argentina cita que um pedido de liberação da substância também foi
registrado no país vizinho e argumenta que o material teve seu uso permitido em
embalagens na Holanda, em abril daquele ano. Nenhum estudo científico é citado
ou anexado na ata. O processo foi concluído no Mercosul em dezembro do ano
passado.
Procurada,
a Sherwin-Williams não respondeu até o fechamento desta matéria. O texto será
atualizado caso a empresa envie um posicionamento.
• Autorização poderia ter sido adiada ou
feita de forma mais ‘cautelosa’, diz cientista
Antes
de autorizar o uso, a legislação impõe que a Anvisa avalie estudos científicos
sobre a interação de produtos químicos com diferentes tipos de alimentos e
bebidas. As análises são feitas caso a caso e podem resultar em veto ou
autorização específica para uma categoria.
No caso
do Bisfenol F, a Anvisa entendeu que o uso desse material no revestimento de
embalagens de bebidas é seguro. Nos pareceres técnicos e nos votos dos
diretores do órgão, no entanto, não foram apresentados estudos com os
fundamentos dessa conclusão.
A
decisão da Anvisa é criticada por fontes entrevistadas pela Repórter Brasil.
Elize Musachio, pesquisadora da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria),
destaca que “a estrutura química do BPF é muito semelhante à do Bisfenol A
(BPA)”, substância já reconhecida internacionalmente como desreguladora
endócrina.
A
pesquisadora estuda o impacto do Bisfenol F e alerta para a necessidade de mais
estudos sobre o material. Em testes com moscas, ela detectou estresse oxidativo
(o que pode contribuir para o aparecimento de células cancerígenas), além de
alterações reprodutivas e neurológicas.
Elize
também expressa preocupação com o baixo volume de dados toxicológicos sobre o
BPF, e afirma que o uso da substância deveria ser avaliado com mais cautela
pela agência reguladora.
“É
imperativo conhecer o status atual de exposição ao BPF em amostras
representativas da população, incluindo crianças e adolescentes”, avalia a
pesquisadora da UFSM. Em sua avaliação, “a liberação do Bisfenol F poderia ter
sido postergada ou pensada de forma mais cautelosa diante da carência de
estudos”.
Kênia
Moreno, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), também alerta para os
riscos dos bisfenóis como desreguladores endócrinos. De acordo com a
pesquisadora, as substâncias são capazes de “perturbar o funcionamento de
hormônios, particularmente o estrogênio (que regula o ciclo menstrual)”. Ela
destaca que o BPF, mesmo apresentando uma resistência térmica superior ao BPA,
pode não ser seguro.
“O que
se sabe até o momento é que o Bisfenol F também possui ações estrogênicas. Já
foi demonstrado que ele pode induzir aumento de inflamação em alguns modelos de
roedores e a gente sabe que a inflamação está associada ao desenvolvimento de
algumas doenças, como o diabetes e o
favorecimento do ganho de peso”, diz a pesquisadora da Unicamp. “Outro trabalho
demonstra que pode estar associado ao aumento de células. E tem um trabalho
muito interessante que demonstra que está associado a prejuízos na placenta”,
acrescenta.
• Em consulta pública da Anvisa, empresas
foram contrárias à liberação do BPF
Antes
de liberar o Bisfenol F, a Anvisa promoveu uma consulta pública, entre 29 de
março e 13 de maio de 2024, para colher sugestões da indústria e da sociedade
civil. Em manifestação enviada por escrito à agência, até mesmo representantes
da indústria química criticaram a autorização do uso da substância.
O
representante da empresa norte-americana PPG, por exemplo, afirmou que existem
numerosos estudos toxicológicos que levantam preocupações de segurança para os
seres humanos e para o meio ambiente. “É nossa opinião que, embora existam
questões relativas à segurança destes materiais, adicionar este material à
lista positiva de substâncias em contato com alimentos não é apropriado neste
momento”, diz o posicionamento enviado pela companhia.
O
porta-voz da holandesa AkzoNobel também se manifestou contra a inclusão do
Bisfenol F na chamada “lista positiva” de materiais permitidos para contato com
alimentos e bebidas.
“Em
razão de toda a discussão global acerca do uso e permissão do Bisfenol A e seus
homólogos na Comunidade Europeia, em produtos que tenham contato com alimentos,
a Akzo Nobel Ltda informa que não seria razoável incluir uma substância
homóloga ao Bisfenol A na lista positiva”, informou o representante da
holandesa na consulta pública.
“A Akzo
Nobel Ltda acredita que uma transição para longe dos bisfenóis é possível à
medida que as tecnologias de revestimentos utilizadas avançaram a ponto de não
haver mais necessidade de tecnologias à base de bisfenóis em embalagens
metálicas de alimentos e bebidas”, acrescentou a empresa na manifestação
enviada à Anvisa.
Antes
da liberação, a agência reguladora ainda realizou em agosto de 2024 um diálogo
setorial, evento para ouvir novamente opiniões da sociedade civil e da
indústria sobre propostas em discussão.
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Na
ocasião, um representante da Sherwin-Williams, controladora da Valspar
Corporation, empresa responsável pelo pedido de liberação do BPF, manifestou-se
em videoconferência para defender o uso do material como alternativa segura ao
BPA.
Em
contrapartida, representantes de empresas concorrentes, como PPG e Akzo Nobel,
contestaram o posicionamento. Um representante da PPG disse que colocava à
disposição da Anvisa estudos sobre o assunto.
Na
consulta pública promovida pela Anvisa, comentários de profissionais da saúde e
cidadãos comuns também reforçaram a preocupação com a autorização do uso do
Bisfenol F.
Ainda
assim, a Anvisa manteve sua decisão, sob a justificativa de “baixa expectativa
de impacto” e de “convergência regulatória internacional”.
• Anvisa liderou liberação do Bisfenol F
no Mercosul
Em
setembro de 2022, o Brasil apresentou formalmente ao Mercosul um pedido para a
inclusão de novos produtos (como o Bisfenol F) na “lista positiva” do bloco
econômico. A justificativa era a de que a relação estava “desatualizada”, o que
“impedia a inovação tecnológica do setor e criava barreiras injustificadas ao
comércio de embalagens”.
Liderada
pela Anvisa brasileira, a proposta foi debatida durante reuniões ordinárias do
Sistema Globalmente Harmonizado de Classificação e Rotulagem de Produtos
Químicos, Revisão 3 (SGT-3), do Mercosul, entre 2022 e 2023.
Nas
negociações com Argentina, Paraguai e Uruguai, o Brasil encabeçou a defesa da
liberação do Bisfenol F, segundo atas de reuniões obtidas pela Repórter Brasil
via Lei de Acesso à Informação (LAI).
Depois
da consulta pública e do diálogo setorial, a Anvisa passou a defender que a
autorização se restringisse a latas de bebidas, proibindo o uso para embalagens
de alimentos. A autorização da substância, no âmbito do Mercosul, foi aprovada
em 4 de dezembro do ano passado, por meio da Resolução GMC nº 28/24.
Depois
da mudança no regulamento do bloco econômico, o diretor-presidente interino da
Anvisa, Rômison Mota, pautou para a reunião da Diretoria Colegiada, de 5 de
fevereiro deste ano, a votação da minuta que liberou o Bisfenol F em latas de
bebidas.
A
medida foi aprovada por unanimidade pelos três diretores presentes. Em seu voto
pela liberação, Mota citou genericamente que, “após revisão das evidências”, a
gerência técnica de alimentos concluiu que a medida contribui para a “inovação”
em embalagens, pois “amplia o rol de alternativas tecnológicas à disposição do
setor produtivo”.
A
autorização da substância, no âmbito do Mercosul, foi aprovada em 4 de dezembro
do ano passado, por meio da Resolução GMC nº 28/24Na resposta oficial
encaminhada à Repórter Brasil, a Anvisa afirmou que a decisão de liberar o BPF
levou em consideração “estudos e dados apresentados pela empresa fabricante no
peticionamento, além da aprovação anterior por autoridades regulatórias
estrangeiras e do consenso alcançado entre os Estados-Membros do Mercosul”.
Fonte:
Repórter Brasil

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