O
Estado contra a Favela do Moinho: violência e autoritarismo em nome do
“complexo imobiliário-financeiro”
Considerada
a última favela do centro de São Paulo, o Moinho viveu um mês em estado de
guerra. Reflexo das desigualdades históricas, sua história representa décadas
de incapacidade estatal de resolver o crescente déficit habitacional. Dessa
forma, por que desta vez o governo de Tarcísio de Freitas apelou para uma ação
tão violenta? Em entrevista ao Correio, Débora Ungaretti, do LabCidade
(Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade), da Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo da USP (FAU-USP), explica os negócios bilionários que levaram o
governo estadual a esta “guerra de reconquista do centro”.
"É
uma tentativa de transformação radical do tecido urbano existente, que só pode
ser feita por meio de uma ação estatal muito intensa, por meio de
desapropriações, demolições, força policial, a fim de abrir terreno para uma
transformação que atende ao que chamamos de paisagens para renda. Tal ideia
atende às necessidades do mercado imobiliário, gera uma transformação social e
racial do tecido urbano", sintetizou.
Na
entrevista, Débora Ungaretti é enfática em afirmar o conluio do Estado com o
mercado, ainda mais explicitado no pouco justificado projeto de transferência
da Sede Administrativa do governo estadual para o centro da cidade. Se de um
lado nunca há dinheiro para uma política pública que satisfaça os excluídos, de
outro lado jorram bilhões dos cofres estatais para PPPs, a exemplo desta que
pretende levantar dezenas de edifícios em áreas centrais.
Para
isso, concorre a colaboração da prefeitura de Ricardo Nunes, envolvida em
denúncias de superfaturamento em obras e compras não licitadas, que no ano
passado tentou promover mudanças no plano diretor da cidade que na prática
permitem a entrega da cidade para o capital imobiliário sem qualquer
participação social.
"Houve
uma tentativa radical de alteração do plano diretor da cidade no ano passado,
que alguns chegaram a classificar como impraticável. As alterações feitas na
legislação urbanística municipal estão totalmente alinhadas com esse plano do
governo do estado e também com a gestão municipal. Uma das alterações que foi
feita, por exemplo, tirou as garantias de permanência e de participação
democrática de áreas demarcadas como zonas especiais de interesse social, que é
o caso da favela do Moinho", contextualizou Débora, doutora em arquitetura
e urbanismo e pesquisadora da LabCidade.
Após um
mês de tensões, violências e demolições que passaram em cima de acordos
anteriores, o governo do estado conseguiu remover cerca de 25% das famílias. No
entanto, a intervenção do governo federal, dono da área, estabeleceu um acordo
mínimo para uma realocação menos injusta de tais famílias. Mas nada que garanta
a permanência em área de interesse do grande capital, e integrada à malha de
serviços e oportunidades da cidade.
"O
plano de realocação apresentado pelo governo do estado deixa muito a desejar...
A política habitacional dialoga muito pouco com as necessidades reais das
pessoas. É uma política baseada no endividamento e em produtos imobiliários, em
unidades habitacionais autônomas que, muitas vezes, não atendem à diversidade
das composições familiares, das redes comunitárias que existem em outras
localizações, como na favela do Moinho, outras formas de moradia popular, como
ocupações e pensões", criticou a arquiteta.
Leia a
entrevista completa:
• O que acontece no Moinho? O que levou a
essa situação onde o estado parece obstinado a promover a remoção dos
moradores?
Débora
Ungaretti: Concretamente, em 2024, no ano passado, o governo do Estado entrou
com um pedido de transferência do terreno da Favela do Moinho para a União,
titular do terreno, onde se pretende implementar a estação Bom Retiro da CPTM,
e também uma interligação com um trem intermunicipal, São Paulo-Campinas.
Depois
que a União exigiu, também se falou da implementação de um parque, mas isso só
foi apresentado depois que a Secretaria do Patrimônio da União impôs como
condicionante a apresentação de um projeto mais concreto e explícito para
aquela área.
Mas
para além desses projetos, a remoção do Moinho faz parte de um processo mais
amplo de reestruturação do território, que atende interesses do mercado
imobiliário, que tem muita dificuldade de entrar em bairros centrais como
Campos Elíseos e na região do Moinho. Enquanto isso, os novos lançamentos
imobiliários vêm se expandindo, de modo que um parque geraria valorização do
território.
Além
disso, também atende a um projeto político do governo de suposto combate ao
tráfico de drogas. Aqui, entramos numa associação muito perigosa entre o
tráfico de drogas e todo um território popular, como alegado pelo governo do
estado, pelas polícias e, inclusive, pelo Ministério Público, no que chamam de
ecossistema do crime. Uma operação perigosa de generalizar, como se toda a
população de uma determinada área fosse criminosa por conta da eventual
presença de agentes criminais, raciocínio que poderia se estender a toda a
cidade.
Existe
uma campanha do governador de aliar o projeto de reestruturação urbana à
criminalização, de suposto combate ao crime e implementação da sede
administrativa do governo do estado naquela região. É um projeto que envolve
várias parcerias público-privadas.
• Estamos no terceiro ano de governo
Tarcísio e a CDHU, operadora da política habitacional, conhece a situação do
Moinho há décadas. Como ainda não há uma solução concreta – ou seja, a troca
das atuais moradias por outras – na mesa?
Débora
Ungaretti: O plano de realocação apresentado pelo governo do estado deixa muito
a desejar. Primeiro, não atende a pelo menos um quarto da população do Moinho,
cuja renda mal passa de um salário mínimo. E não atende porque a solução
habitacional definitiva é baseada no endividamento das famílias, cuja renda não
lhes dá a capacidade de endividamento.
Esse é
um dos grandes problemas do atendimento habitacional proposto. E que levou
também a funcionários da CDHU orientarem pessoas a inflarem a renda para não
ficarem de fora do atendimento habitacional, o que leva a um problema de
endividamento ainda maior.
Outro
problema é que a secretaria de habitação não tem como garantir a permanência
dessas pessoas na área central, pois o plano oferecido é para imóveis de até
250 mil reais, em geral muito pequenos para comportar a grande parte das
famílias.
De
resto, muitos dos imóveis oferecidos ainda não estão prontos. Assim, as
famílias têm de desocupar o Moinho sem acesso ao atendimento habitacional
definitivo e passam a morar de aluguel, o que também é muito difícil na área
central, com o valor do auxílio aluguel (R$ 800 na proposta inicial). Isso
faria com que as pessoas tivessem de, provavelmente, procurar em outras regiões
da cidade.
• O que os moradores reivindicavam?
Débora
Ungaretti: Por fim, eles não tinham previsto indenização aos comerciantes e,
assim, também as novas formas de moradia em prédios faz com que as pessoas
percam o ponto de comércio delas. Depois de reivindicação dos moradores, tal
ponto foi revisado. Mas as novas moradias, de fato, não comportam as
necessidades de todos, a pessoa não consegue ter o ponto comercial na rua.
Os
moradores também reivindicavam o subsídio total das moradias para as pessoas
não se endividarem. Com isso, garantir o atendimento das famílias com renda de
zero a um salário mínimo, e também o processo chave a chave. Ou seja, a família
só sai quando tiver pronto o lugar definitivo e assim evitar duas mudanças e,
em alguns casos, evitar risco de despejo no período de aluguel.
Ninguém
quer ficar em compasso de espera, pois muitas vezes os empreendimentos
prometidos demoram anos para serem disponibilizados.
• Como foram as reuniões entre órgãos
públicos, entidades civis, movimentos sociais e moradores? Como o plano de
realocação é percebido por você?
Débora
Ungaretti: Desde o pedido de transferência da área foi feito em 2024, a
Secretaria do Patrimônio da União abriu um diálogo entre Governo do Estado e
representantes da favela do Moinho, onde se colocou como condicionante da
transferência da área para o Governo do Estado a apresentação de um plano de
reassentamento que deveria ser aprovado pelos moradores da favela do Moinho.
Foram
pelo menos 11 reuniões desde 2024, das quais os representantes da Associação de
Moradores do Moinho voltavam, realizavam assembleias para fazer repassar
informações e discutir os encaminhamentos e deliberações dos moradores para
levar nas reuniões seguintes.
Na
última reunião, o Governo do Estado apresentou propostas de atendimento
habitacional que exigiriam estudos mais aprofundados para dialogar com as
necessidades concretas da população atingida, e sua própria participação. Os
representantes da Associação de Moradores não concordaram com as propostas. Mas
antes da Secretaria do Patrimônio da União chamar uma nova reunião, o Governo
do Estado começou a executar seu plano, chamou os moradores para exigir que
escolhessem alguma das alternativas de atendimento habitacional sob uma ameaça
de ficarem sem nada caso hesitassem.
A
partir daí o Governo do Estado, que não tinha nem o aceite da proposta por
parte dos moradores, tampouco não tinha a cessão do terreno formalizada,
começou a executar a desocupação da favela sob ameaças aos moradores. Foi
quando começou a entrar no terreno, ao lado da CDHU, para fazer essas remoções
e quebrar uma série de acordos e combinados feitos nas reuniões, como não
iniciar a desocupação antes da cessão pela União e excluir pessoas que são
inquilinas dentro do Moinho.
Um
desses combinados foi relativo à demolição das casas, o que gerou um protesto
muito grande dos moradores e levou o governo a mobilizar a força policial para
conseguir fazer as demolições. Os moradores conseguiram, por meio de apoio dos
movimentos de moradia, vários mandatos municipais, estaduais e federais,
coletivos que atuam no território, muitos deles coletivos autonomistas, e
também grupos da universidade, trazer de volta o governo federal para conversar
e chegar a um acordo de um atendimento habitacional mais adequado.
Chegou-se
a um termo onde a União vai garantir o subsídio total das moradias, o que
significa que as pessoas que são da faixa de renda de 0 a 1 salários mínimos
também vão ter moradia garantida. Significa que as pessoas não vão precisar se
endividar para acessar a nova moradia. Além disso, o governo federal vai
complementar o auxílio aluguel para a maioria dos casos das pessoas que devem
desocupar o terreno sem ter o atendimento definitivo.
• Apesar da resistência, não parece haver
compromisso da prefeitura e do governo do Estado em permitir que tais pessoas
se mantenham na área central da cidade.
Débora
Ungaretti: Este auxílio aluguel de R$ 1.200 encontra barreiras, pois há uma
grande atuação do poder municipal, principalmente por meio da subprefeitura da
Sé, mas também do governo estadual, por conta do projeto da Sede
Administrativa, de fechar uma série de pensões que existem na área central.
Isso diminui a alternativa habitacional popular na área central. Assim, mesmo
que o subsídio seja maior, é bastante difícil que as pessoas consigam encontrar
moradia ali na região do entorno do Moinho.
Dá para
ver que parte das reivindicações foram atendidas, mas não todas. O que mostra
que a política habitacional existente hoje, de fato, dialoga muito pouco com as
necessidades reais das pessoas. Mesmo melhorando muito o atendimento
habitacional com o que tinha sido apresentado antes, ainda não contempla todas
as necessidades de quem está sendo removido.
Além
disso, ficaram várias questões em aberto. Uma delas, por exemplo, é se vai ter
uma suspensão das demolições ou não. Porque geram um risco muito grande para
quem continua morando na área. Como as desocupações e as mudanças das pessoas
não vão acontecer de uma vez, as demolições geram, além de um cenário de
guerra, de destruição, também problemas de deixar os escombros para as crianças
que brincam na área. Às vezes junta água ou pequenos insetos e animais, o que
se torna problema de saúde pública.
Uma
reivindicação urgente que permanece é a suspensão das demolições pela CDHU. E
não ficou muito claro como que o acordo vai resolver essa questão.
• O LabCidade publicou texto no qual
afirma que há uma “guerra de reconquista do centro”, marcada por três PPPs que
visam reorganizar o espaço urbano central. Quais seriam os objetivos desta
guerra de reconquista?
Débora
Ungaretti: É uma tentativa de transformação radical do tecido urbano existente,
que só pode ser feita por meio de uma ação estatal muito intensa, por meio de
desapropriações, demolições, força policial, a fim de abrir terreno para uma
transformação que atende ao que chamamos de paisagens para renda.
Tal
ideia atende às necessidades do mercado imobiliário, gera uma transformação
social e racial do tecido urbano, e em vez de garantir a permanência de quem
vive hoje no centro, e melhorias na qualidade de vida dessas pessoas, promove a
expulsão de tais pessoas.
Essa
fatia da população é considerada indesejável, por serem contrárias a um
objetivo de lucro e de valorização da terra, e deve dar lugar a novos
empreendimentos imobiliários, torres corporativas. E no caso da Sede
Administrativa também empreendimentos do Estado, que vão impulsionar
valorização dessa região.
• A cidade de São Paulo observou aumento
de moradores de rua nos últimos anos, fruto de diversas dinâmicas sociais e
econômicas vividas nos últimos anos. Como avalia, em linhas gerais, a política
habitacional para a cidade – tanto da parte do governo estadual como da
prefeitura?
Débora
Ungaretti: Dialoga muito pouco com as necessidades reais das pessoas. É uma
política baseada no endividamento e em produtos imobiliários, em unidades
habitacionais autônomas que, muitas vezes, não atendem à diversidade das
composições familiares, das redes comunitárias que existem em outras
localizações, como na favela do Moinho, e outras formas de moradia popular,
como ocupações e pensões.
• Como a reorientação do plano diretor
dialoga com os temas aqui debatidos?
Débora
Ungaretti: Houve uma tentativa radical de alteração do plano diretor da cidade
no ano passado, que alguns chegaram a classificar como impraticável. As
alterações feitas na legislação urbanística municipal estão totalmente
alinhadas com esse plano do governo do estado e também com a gestão municipal.
Uma das
alterações que foi feita, por exemplo, tirou as garantias de permanência e de
participação democrática de áreas demarcadas como zonas especiais de interesse
social, que é o caso da favela do Moinho. Foi uma alteração feita na lei de
zoneamento a determinar que em casos de imóveis públicos, a regra de ZEIS não
precisa ser aplicada.
E
basicamente a ZEIS é feita para proteger territórios contra processos de
remoção. Se você não precisa aplicar a norma, tira-se a garantia de direitos
desses territórios. Essa reorientação feita na legislação urbanística também é
direcionada para abrir frentes de expansão do complexo imobiliário financeiro.
Fonte:
Por Gabriel Brito, no Correio da Cidadania

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