quarta-feira, 11 de junho de 2025

Leonardo Attuch: Junho de 2013 chega aos Estados Unidos e a consequência pode ser uma ditadura

As imagens da cidade de Los Angeles neste fim de semana lembram mais um país mergulhado em guerra civil do que a maior democracia ocidental. Tropas da Guarda Nacional ocupam bairros inteiros, fuzileiros navais estão de prontidão, manifestantes enfrentam bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha e helicópteros sobrevoam a região – tudo isso como resposta a protestos contra operações de deportação realizadas pelo ICE.

O ICE – sigla para Immigration and Customs Enforcement – é a agência federal de imigração dos Estados Unidos, criada em 2003 após o 11 de setembro de 2001. Sua missão declarada é fiscalizar fronteiras, prender e deportar imigrantes em situação irregular. Com a volta de Donald Trump à presidência, tornou-se um instrumento de perseguição a trabalhadores imigrantes, especialmente latinos, e de intimidação política, operando muitas vezes com métodos autoritários, prisões administrativas e ações-surpresa que aterrorizam comunidades inteiras.

justificativa oficial para o envio das tropas é a contenção da “anarquia”. Mas a realidade mostra outra coisa: a tentativa do presidente Trump de transformar manifestações populares em espetáculo político, como parte de uma agenda de intimidação e repressão. Ao sinalizar ações de intervenção federal na Califórnia, o estado mais populoso, progressista e economicamente relevante dos Estados Unidos, Trump não apenas desafia as autoridades locais como testa os limites do federalismo e do Estado de Direito.

Por mais distantes que sejam as realidades do Brasil e dos Estados Unidos, há um certo de “guerra híbrida” no ar. No Brasil, junho de 2013 foi o ponto de inflexão de um processo que desmontou instituições e preparou o terreno para o avanço da extrema direita. Aquilo que começou como um suposto protesto contra tarifas de transporte foi rapidamente cooptado, manipulado, instrumentalizado. Em nome da “indignação popular”, iniciou-se um ciclo de desgaste do governo Dilma Rousseff, pavimentando o caminho para o golpe de 2016 e para a ascensão do bolsonarismo.

Hoje, os Estados Unidos vivem um momento de declínio econômico e desespero existencial. Protestos legítimos contra ações migratórias violentas são transformados em insurreições, e a repressão é convertida em espetáculo para galvanizar as bases trumpistas. A guerra híbrida, que um dia foi exportada para o mundo, talvez esteja agora retornando ao seu ponto de origem – e com toda a força.

Trump não escolheu a Califórnia por acaso. Trata-se de um dos principais centros econômicos, culturais e políticos do país – um estado governado por democratas, multicultural e símbolo de resistência ao trumpismo. A intervenção federal, com envio de tropas e ameaças explícitas de uso das Forças Armadas, tem um claro componente político: subjugar um território hostil ao projeto autoritário da Casa Branca.

A retórica de Trump – de que governadores e prefeitos locais são incapazes de controlar a “desordem” – lembra os artifícios históricos usados por regimes autoritários para justificar a supressão de autonomias regionais. O que parece estar em jogo não é apenas a política migratória, mas a própria arquitetura institucional dos Estados Unidos.

Em seu segundo mandato, Trump governa sem pudores, atacando a imprensa, instrumentalizando as forças de segurança e reforçando o culto à força. A ideia de que a democracia liberal poderia resistir a esse tipo de liderança mostrou-se ilusória. Diante da atual crise do capitalismo e da perda de hegemonia global, setores do establishment norte-americano parecem aceitar – ou até desejar – uma ruptura autoritária como forma de manter o poder.

A vitória militar da Rússia na Ucrânia, o avanço econômico da China, a emergência do multilateralismo e a fragmentação do Ocidente contribuem para esse cenário. A democracia liberal, antes vendida como modelo universal, passa a ser vista por muitos como um empecilho diante da nova ordem multipolar. O resultado é a radicalização do poder central nos Estados Unidos.

Lançado há pouco mais de um ano, o filme Guerra Civil, estrelado por Wagner Moura, parecia um alerta distópico. Hoje, soa como antecipação. Nele, 19 estados se separam da União e entram em guerra contra o governo central. Jornalistas percorrem zonas de conflito, registrando a erosão de qualquer noção de civilidade. A realidade começa a imitá-lo: tensão federativa, polarização extrema, militarização da política, descontrole social.

repressão em Los Angeles não é um fato isolado. Talvez seja um marco. Um sinal de que o país que um dia se viu como guardião da liberdade caminha, passo a passo, rumo a uma ditadura interna. E, tal como em junho de 2013, o que pareceria apenas desordem urbana pode ser, na verdade, o estopim de algo muito maior – e também mais sombrio.

¨      Califórnia resiste a Trump e denuncia intervenção federal como “espetáculo”

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, reagiu com veemência à decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de enviar 2.000 soldados da Guarda Nacional a Los Angeles para conter manifestações contra operações de imigração. A notícia foi publicada originalmente pela rede russa RT (Russia Today).

Para Newsom, a ação federal é “intencionalmente inflamatória” e configura uma tentativa deliberada de escalar os conflitos. “O governo federal está assumindo o controle da Guarda Nacional da Califórnia e enviando 2.000 soldados a Los Angeles – não porque há escassez de forças de segurança, mas porque querem um espetáculo”, criticou o governador em uma postagem na plataforma X. “Não deem isso a eles.”

A Casa Branca justificou o envio das tropas federais após dois dias de protestos e confrontos com agentes do Departamento de Imigração e Alfândega (ICE), alegando que as autoridades locais californianas falharam em conter a agitação. Trump declarou que a intervenção federal busca “restaurar a ordem”.

No entanto, para Newsom, a atitude da presidência representa uma manipulação política do conflito. “O governo federal está semeando o caos para ter uma desculpa para escalar. Isso não é o comportamento de um país civilizado”, afirmou. Ele também reforçou que os manifestantes devem continuar se expressando de forma pacífica e alertou contra o uso da violência.

No sábado, os protestos em Paramount, nos arredores de um Home Depot, evoluíram para confrontos violentos. Apesar de o ICE ter negado que houvesse uma operação naquele local, agentes da Patrulha de Fronteira e policiais do condado de Los Angeles utilizaram gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar a multidão. No dia anterior, operações do ICE resultaram em 44 prisões administrativas em Los Angeles.

Em resposta à escalada, Newsom deslocou agentes da Patrulha Rodoviária da Califórnia para proteger rodovias, mas foi enfático ao dizer: “Não é função da CHP ajudar na aplicação da lei federal de imigração”.

O Departamento de Segurança Interna (DHS) alegou que houve um aumento de 413% nos ataques contra agentes, além da exposição ilegal de dados pessoais de familiares dos oficiais (prática conhecida como doxxing). Segundo o DHS, 118 pessoas foram presas nas operações em Los Angeles na última semana – entre elas, cinco integrantes de gangues com histórico de tráfico de drogas e agressões.

Enquanto isso, a resposta das autoridades locais foi mista. O secretário-assistente do DHS, Tricia McLaughlin, condenou o que classificou como “alvo violento de agentes da lei por desordeiros sem lei”, e criticou a demora da Polícia de Los Angeles em responder a um incidente na noite de sexta-feira em um prédio federal. Já o xerife do condado de Los Angeles, Robert Luna, saiu em defesa dos agentes federais. “O grupo chegou a 350 ou 400 pessoas, e alguns começaram a lançar objetos contra os agentes”, disse Luna sobre os eventos em Paramount.

O embate entre o governo federal e o estadual revela não apenas a crise em torno da política migratória dos Estados Unidos, mas também a crescente tensão institucional entre Washington e Sacramento. Em seu segundo mandato, o presidente Trump parece disposto a dobrar a aposta na repressão, mesmo à custa do confronto com estados democratas.

¨      Califórnia anuncia processo contra Trump por ‘uso ilegal’ da Guarda Nacional

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, informou nesta segunda-feira (09/06) que seu estado processará o governo de Donald Trump pelo envio da Guarda Nacional (Forças Armadas dos Estados Unidos) para reprimir os protestos pró-imigrantes que ocorreram no último final de semana.

“Era exatamente isso que Donald Trump queria. Ele atiçou os incêndios e agiu ilegalmente para federalizar a Guarda Nacional. A ordem que ele assinou não se aplica apenas à Califórnia. Isso permitirá que ele vá a qualquer estado e faça a mesma coisa. Vamos processá-lo”, escreveu em uma publicação da rede social X. 

Em entrevista concedida à Fox News na noite do último domingo (08/06) e publicada na madrugada desta segunda-feira, o governador democrata disse que o presidente norte-americano é “imprudente” e “imoral” por ter adotado o “ato ilegal e inconstitucional de federalizar a Guarda Nacional”.

Newsom resgatou a ordem executiva assinada pelo próprio republicano sobre a instrução para o Departamento de Defesa colaborar com os governadores estaduais, e denunciou: “não houve colaboração. Não houve conselho, nem consideração das regras de engajamento. Foi um ato imprudente que levou a condições que se exacerbaram e está colocando a vida das pessoas em risco”.

Por isso, “há um motivo para irmos ao tribunal amanhã [nesta segunda-feira] e estamos confiantes de que teremos sucesso”, declarou, complementando que, como governador da Califórnia, é “seu trabalho limpar a bagunça” deixada por Trump.

A autoridade disse ainda que apesar das cenas de desordem, como carros queimando e rodovias fechadas, “as coisas estão totalmente sob controle no momento”, mas reiterou que Trump “exacerbou as condições” e que essas imagens foram “criadas” por ele.

“Ele tem objetivos políticos. Ele quer nos dividir e atacar o estado de direito. Ele quer atacar a democracia. Ele está testando os limites da Constituição de uma forma que se pode claramente argumentar como uma crise constitucional”, adicionou.

Newsom disse ainda recorrer à Justiça porque “ninguém pode” negociar com o governo Trump. “Eu tento, eu me esforcei muito para tentar trabalhar com esse cara. Não é possível trabalhar com ele. Você só pode trabalhar para ele e eu nunca trabalharei para ele”.

“Ele não está aqui para fazer a paz. Ele está aqui para a guerra. Ele quer uma guerra civil nas ruas dos Estados Unidos e está testando os limites ao nacionalizar a Guarda Nacional”, concluiu.

As declarações do governador ocorrem logo após uma solicitação formal para que a administração Trump “rescindisse o envio ilegal de tropas ao condado de Los Angeles”.

“Não tínhamos problemas até Trump se envolver. Isso é uma violação grave da soberania do Estado — inflamar tensões e, ao mesmo tempo, desviar recursos de onde são realmente necessários. Revogue a ordem. Devolva o controle para a Califórnia”, instou Newson.

A prefeita de Los Angeles, Karen Bass, também democrata, disse que a presença da Guarda Nacional gerou um “caos intencional” na cidade. “Parece que as tropas foram mobilizadas de maneira provocatória”, salientou.

A Casa Branca respondeu às declarações do governador democrata. Por meio da porta-voz Karoline Leavitt, o governo Trump acusou Newsom de “não fazer nada enquanto violentos tumultos eclodiram em Los Angeles por dias”.

“Policiais federais foram atacados por radicais violentos e criminosos ilegais agitando bandeiras estrangeiras porque o governador Newsom era fraco demais para proteger a cidade”, referindo-se aos manifestantes pró-imigrantes.

Leavitt concluiu dizendo que “o presidente Trump interveio para manter a lei e a ordem e proteger os edifícios federais”.

Em outra publicação, a representante do governo Trump usou da foto de um manifestante segurando a bandeira do México para dizer que “os tumultos em Los Angeles provam que precisamos desesperadamente de mais pessoal e recursos de fiscalização da imigração”.

“Os Estados Unidos devem reverter a invasão desencadeada por Joe Biden de milhões de imigrantes ilegais sem controle em nosso país. É por isso que o Projeto de Lei do presidente Trump financia pelo menos um milhão de remoções anuais e contrata 10.000 novos agentes do ICE, 5.000 novos agentes da alfândega e 3.000 novos agentes da Patrulha da Fronteira”, advertiu.

<><> Ilegalidade

A revista norte-americana Time publicou um artigo contextualizando a ilegalidade do ato de Trump em convocar a Guarda Nacional para atuar na Califórnia.

“Para mobilizar a Guarda Nacional, Trump invocou o Título 10, Seção 12406 do Código dos EUA, que permite a federalização da Guarda Nacional em casos de invasão ou rebelião, ou se o presidente não for capaz de executar as leis do país com “forças regulares”, menciona a publicação.

Contudo, a Seção também menciona que “ordens para esses propósitos devem ser emitidas pelos governadores dos estados”. Ou seja, a medida deveria ser solicitada por Newsom, o que não foi feito.

A Time ainda resgata uma lei de 1878, a Lei Posse Comitatus, que” limita o uso de militares federais para a aplicação da lei civil nos EUA, o que significa que em Los Angeles as forças da Guarda Nacional mobilizadas por Trump podem proteger agentes federais, como autoridades do ICE, e propriedades federais, como centros de detenção, mas não podem prender manifestantes”.

<><> Repressão

Dezenas de pessoas foram presas durante protestos, que estão em seu terceiro dia, na Califórnia contra as políticas anti-imigrantes de Trump. A polícia local confirmou pelo menos 60 detenções em São Francisco e outras 27 no centro de Los Angeles.

Lar de uma das maiores comunidades latinas dos EUA, a metrópole tem sido palco de protestos contra as medidas anti-imigrantes do governo Trump. Durante as manifestações do último fim de semana, houve confrontos com a polícia, que utilizou gás lacrimogêneo e balas de borracha, deixando diversos feridos, incluindo o fotojornalista britânico Nick Stern e a jornalista australiana Lauren Tomasi, atingida com um tiro por um agente enquanto fazia uma transmissão ao vivo.

A agência italiana ANSA também constatou que soldados da Guarda Nacional dispararam balas de borracha na altura dos olhos e nas pernas de manifestantes em Los Angeles no domingo (08/06);

Já Trump ordenou que todos os indivíduos mascarados fossem presos, enquanto o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, acenou com a possibilidade de enviar 500 fuzileiros navais da Marinha para Los Angeles.

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, reagiu à repressão contra os protestos e disse que os fluxos de imigrantes “não deveriam ser enfrentados com ataques e violência”. “Não estamos de acordo com essa maneira de tratar o fenômeno migratório”, declarou.

 

Fonte: Brasil 247/The Guardian

 

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