sexta-feira, 13 de junho de 2025

Messias? O rabino que influenciou presidentes americanos e é admirado até por Milei

"Sou católico e também pratico um pouco de judaísmo", declarou certa vez o presidente da Argentina, Javier Milei — no país, cerca de 62% se declaram católicos.

Não é acaso portanto que o político de direita e libertário esteja em Israel em sua segunda visita de Estado ao país em um ano e meio de governo — a primeira, em 2024, foi também sua primeira viagem oficial como presidente. Desta vez, Milei será homenageado com o prêmio Gênesis, conhecido como "prêmio Nobel judeu". Seu flerte com temas judaicos, principalmente os ligados à pauta ortodoxa e conservadora, data de antes da sua posse como presidente da Argentina. Na terça-feira (10/6), durante encontro com o primeiro-ministro de IsraelBenjamin Netanyahupresente oficial para o líder israelense um desenho feito a partir de uma foto icônica: o primeiro encontro do então jovem Netanyahu, recém-nomeado representante de Israel nas Nações Unidas, com o rabino Menahem Mendel Schneerson (1902-1994).

A admiração pública de Milei por esse famoso rabino, considerado milagroso por seus seguidores, é antiga. Em 2023, ele visitou duas vezes o túmulo de Schneerson (1902-1994), no cemitério de Montefiore, em Nova York. Antes das eleições que o fizeram presidente da Argentina, foi para pedir a bênção do rabino. Recém-eleito, em novembro, retornou ao local para agradecer pelo resultado do pleito.

Schneerson é visto um dos rabinos mais influentes do século 20. Aconselhou diretamente diversos presidentes americanos e, por um grupo de seguidores, passou a ser aclamado como o verdadeiro messias. No aspecto religioso, ele teve a proeza de transformar um pequeno grupo da corrente chassídica, vertente judaica que nasceu no século 18 na Europa Oriental, em um dos movimentos mais fortes da espiritualidade judaica contemporânea: o Chabad-Lubavitch.

"Chabad-Lubavitch é uma filosofia, um movimento e uma organização. Chabad também é um acrônimo de três palavras hebraicas, sabedoria, intuição e conhecimento, que representam faculdades intelectuais", explica à BBC News Brasil o rabino Yaacov Behrman, relações públicas da sede do Chabad-Lubavitch em Nova York. Behrman salienta que Chabad-Lubavitch é "uma filosofia que promove a autorreflexão e ajuda a refinar as ações e emoções por meio da compreensão e do discernimento".

Diretor das escolas de ensino judaico Lubavitch Gani no Brasil, o rabino Moti Begun lembra à BBC News Brasil que a filosofia Chabad "valoriza a prática dos ensinamentos da Torá com profundidade intelectual" e busca transformar "conhecimento em ações". Ele diz ainda que os líderes do movimento "sempre se preocuparam com o bem-estar espiritual e material da comunidade judaica" e seus fundamentos partem do "amor incondicional ao próximo". "Chabad é uma corrente chassídica surgida em 1775 no então Império Russo, que teve como primeira liderança o rabino Shneur Zalman de Liadi", contextualiza à BBC News Brasil o historiador, hebraísta e rabino Theo Hotz, apresentador do podcast Torá com Fritas. "Entre 1813 e 1915 as lideranças seguintes se fixaram na cidade de Lubavitch, de onde vem o segundo nome pelo qual essa dinastia chassídica é conhecida, Chabad-Lubavitch."

Lubavitch é o nome da cidade russa na região de Smolensk onde o movimento surgiu e foi sediado por mais de um século. Hotz acrescenta que "nenhuma das ramificações ortodoxas judaicas se define como 'corrente'". "Mas podemos dizer que, de certa forma, o chassidismo, em geral, é uma corrente religiosa, composta por diferentes dinastias", diz.

<><> Messianismo

Messias é uma palavra que vem do hebraico e significa "o ungido". Na história das religiões judaico-cristãs, o termo é empregado para se referir a um salvador, a um libertador que viria para cumprir uma profecia. Para os cristãos, Jesus é considerado o messias que vinha sendo aguardado. Para os judeus, o messias seria um futuro rei descendente do mítico rei Davi, que governaria a nação judaica.

Em março de 1992, o jornal Washington Post publicou uma reportagem sobre os seguidores de Schneerson, chamando-os de "dezenas de milhares" integrantes de uma "seita judaica que espera o messias para breve". De acordo com a reportagem, "alguns acreditam que ele pode vir do Brooklyn". Era uma referência ao próprio rabino. Nascido no império russo, em região onde hoje é a Ucrânia, Schneerson tornou-se o sétimo líder do grupo (rebe), sucedendo o seu sogro, que morreu em 1950.

Rebe, assim como rabino, deriva da palavra hebraica rabi, que significa "mestre". Acabou sendo apropriada pelo movimento Chabad para se referir ao seu líder. "Segundo os seguidores do rebe, o messias não é outro senão o próprio Schneerson", pontuou a reportagem do jornal de Washington. "Acredito que o messias está chegando e que o rebe é o melhor candidato para ser o messias", declarou na época o rabino Joseph Aronov, então diretor-executivo do movimento em Israel. Em 1992, Aronov mandou instalar outdoors em Israel com frases como "prepare-se para a vinda do messias".

O sociólogo e historiador israelense Menachem Friedman (1936-2020), professor na Universidade Bar Ilan, foi um profundo estudioso do movimento Chabad-Lubavitch.

Ele definia Schneerson como um "gênio da propaganda" responsável por revitalizar o "judaísmo ultraortodoxo conseguindo fazê-lo coexistir com o mundo secular moderno". No início dos anos 1990, Friedman avaliava que o rebe havia ido longe demais, já que "a maioria dos seus seguidores agora o apresenta abertamente como representante de Deus".

Hoje em dia, a imensa maioria dos seguidores do movimento não segue a tese messiânica — ao menos é o que diz o porta-voz da sede da vertente nos Estados Unidos. "A liderança principal do Chabad e o movimento como um todo rejeitam essa ideia", esclarece o rabino Behrman. "Embora um pequeno grupo marginal continue acreditando nela", ressalva o rabino. Em vida, o rebe jamais declarou explicitamente ser o messias.

"Inúmeros chabadnikim [os seguidores de Chabad] acreditam que o Lubavitcher Rebe [Schneerson] seja o mashíach [o messias], que não morreu, mas sim, se ocultou deste mundo e de novo ressurgirá", comenta Hotz. "Outros vários seguidores não acreditam na messianidade do rebe. A maioria absoluta dos judeus do mundo todo não acredita na messianidade do rebe."

O rabino Begun diz que o rebe Schneerson "cumpria a grande maioria" dos critérios, "de acordo com a lei judaica, conforme descrita nos livros haláchicos de Maimônides", para ser reconhecido como messias, "incluindo o fato de ser descendente direto do rei David". "Por isso, é amplamente considerado um candidato legítimo, especialmente por causa da profunda transformação positiva que provocou no mundo contemporâneo", ressalta ele. "Cabe a nós, seus discípulos e seguidores, ou melhor, líderes, como ele nos ensinou a ser, dar continuidade à missão de refinar e elevar este mundo, preparando-o para a vinda eminente do verdadeiro messias", diz Begun, completando que pode ser ele o próprio rebe ou "outro enviado" por Deus. "O rebe, assim como o judaísmo, nunca enfatizou tentar descobrir e identificar o messias, e sim, fazer a nossa parte, por meio das práticas e boas ações para apressar a sua vinda." De qualquer forma, é um posto vago. Desde que Schneerson morreu, ninguém o sucedeu como rebe.

"Ao longo da história judaica, houve momentos em que um grande líder faleceu, deixando um vazio que ninguém de estatura equivalente conseguiu preencher", diz Behrman. "O sétimo rebe não deixou descendentes, nem indicou uma sucessão, não há necessariamente uma razão específica ou deliberada para isso, mas sim circunstancial", argumenta Hotz. "O movimento funciona já há quase 31 anos sem um rebe e não me parece haver qualquer expectativa entre os seguidores de que alguém ocupe o espaço do sétimo rebe de Lubavitch."

"Um rebe não é apenas um líder político ou institucional, mas alguém dotado de qualidades excepcionais e de uma alma abrangente, muitas vezes, considerada insubstituível", esclarece Begun. "No entanto, o rebe não buscava formar seguidores passivos. Ele acreditava profundamente no potencial único de cada indivíduo para liderar à sua maneira, em seu próprio ambiente, e contribuir ativamente para transformar o mundo em um lugar melhor. Por isso, o legado do rebe permanece vivo em cada pessoa que se inspira em seus ensinamentos e os traduz em ação", acredita o rabino.

<><> Influência e trabalho

Schneerson nunca pisou em Israel. Em 1928, quando se casou, ele se mudou para Berlim, na Alemanha. Com a perseguição dos nazistas aos judeus, ele se mudou primeiro para Paris, na França, em 1933. Em 1941, com a França também ocupada pelas tropas de Adolf Hitler (1889-1945), fugiu para os Estados Unidos, baseando-se em Nova York. Logo que chegou ao solo americano, acabou assumindo a gestão de organizações do Chabad, encarregado por seu sogro. Sua relevância social e política cresceu, atingindo o ápice depois que ele herdou do sogro o título de rebe. Na função, ele passou a receber visitantes para reuniões privadas, os yechidus, que ocorriam nas noites de quinta-feira e de domingo, das 20h até alta madrugada.

Era comum que entre os que o procurassem estivessem políticos e lideranças de relevo mundial. Entres os nomes que frequentavam essas reuniões estão os presidentes americanos John F. Kennedy (1917-1963), Jimmy Carter (1924-2024) e Ronald Reagan (1911-2004), o procurador-geral dos Estados Unidos Robert Kennedy (1925-1968), o parlamentar americano Franklin D. Roosevelt Jr. (1914-1988), entre outros. Encabeçou diversas campanhas filantrópicas e era conhecido por uma ética própria de trabalho: diz-se que se dedicava à função 18 horas por dia e que nunca tirou férias desde que se tornou rebe.

O Chabad-Lubavitch é uma vertente importantíssima para o judaísmo ortodoxo. De acordo com o rabino Behrman, porta-voz da sede americana, cerca de 1 milhão de crianças judias estão de alguma forma conectadas aos projetos mantidos pelo segmento, entre escolas, instituições, acampamentos de verão e programas extracurriculares em todo o planeta. "Estima-se em torno de 500 mil o número de chassídicos no mundo inteiro, sendo aproximadamente 90 mil os seguidores da dinastia de Chabad-Lubavitch", conta Hotz. O historiador explica que dentre as "inúmeras correntes religiosas judaicas", muitas delas acabaram se subdividindo "em vertentes e subvertentes". "A grosso modo, podemos dizer que o judaísmo apresenta as seguintes correntes, cada uma com diversas ramificações e vertentes: ortodoxia judaica, judaísmo tradicional, judaísmo conservador-igualitário, judaísmo reformista, judaísmo reconstrucionista, judaísmo renovador", conta, lembrando que são as principais, "mas não todas."

"Após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, muitas dessas correntes se fecharam em si mesmas, adotando uma postura de isolamento tanto em relação ao mundo exterior quanto a outras vertentes do judaísmo", comenta o rabino Begun. "Chabad-Lubavitch, no entanto, sob a liderança do rebe, seguiu um caminho diferente. Acreditava ser essencial a busca e o resgate de cada judeu, independentemente de sua filiação ou nível de observância, com amor, respeito e orgulho por sua herança judaica, com o mesmo fervor com que Hitler tentou nos destruir."

"A dinastia de Chabad está entre as mais conhecidas, embora não seja tão numerosa", conta o historiador Hotz. "Nesse sentido, é bem importante, sobretudo por ter como prática o envio de shluchím, os emissários, espécie de rabinos missionários para inúmeros lugares no mundo, mesmo onde quase não haja judeus, com o objetivo de difundir a mensagem de Chabad e receber judeus de outras partes do mundo que estejam em visita turística ou profissional nesses locais", prossegue.

"Isso faz com que, mesmo não sendo tão numerosos, tenham uma presença forte e marcante onde se estabeleçam."

Begun atribui essa preocupação à "filosofia inclusiva e visionária" do sétimo rebe.

"O Chabad passou a enviar emissários para os quatro cantos do mundo, estabelecendo instituições em mais de cem países e em todos os Estados americanos", ressalta ele. "Por meio de centros comunitários, escolas, sinagogas, yeshivot [escolas de formação rabínica] e projetos de assistência social, tem difundido a beleza do judaísmo e fortalecido os laços da identidade judaica em todas as partes do mundo, tornando-se a mais importante e influente corrente judaica."

¨      Atrocidades do nazismo: 81 anos do Massacre de Distomo. Por Estevam Silva

Há 81 anos, em 10 de junho de 1944, soldados nazistas assassinavam centenas de pessoas no vilarejo de Distomo, na Grécia. O massacre foi uma punição coletiva pelas ações de partisans gregos que lutavam contra a ocupação alemã. Ao menos 228 pessoas foram assassinadas, incluindo 40 crianças e 20 bebês. O Massacre de Distomo é lembrado como um dos episódios mais cruéis da ocupação nazista na Grécia durante a Segunda Guerra Mundial. Os responsáveis pelo massacre jamais foram julgados e a Alemanha resiste até hoje a pagar indenizações às vítimas e seus descendentes.

<><> A invasão da Grécia pelas tropas do Eixo

As ofensivas do Eixo contra a Grécia tiveram início em outubro de 1940, quando as tropas da Itália fascista de Benito Mussolini tentaram capturar o país. Desde os anos 20, a Grécia era apontada como um dos territórios que compunham o “spazio vitale” reivindicado pelo imperialismo italiano. A Grécia, entretanto, surpreenderia a Itália com sua capacidade de resistência. Ágeis na mobilização de seus efetivos e beneficiados pelo terreno montanhoso e pelas condições climáticas, os gregos não apenas detiveram o avanço italiano como forçaram os invasores ao recuo, expulsando-os para a Albânia — impondo a primeira derrota terrestre significativa para as potências do Eixo.

A derrota de Mussolini forçou Hitler a sair em socorro da Itália. O líder nazista julgava imprescindível garantir o controle dos Balcãs para proteger o flanco sul antes de dar início à invasão da União Soviética. Assim, em abril de 1941, as forças alemãs lançaram uma vigorosa operação para invadir a Grécia, mobilizando mais de 680 mil soldados. A campanha empregou a estratégia da “blitzkrieg” (“guerra relâmpago”), coordenando simultaneamente o avanço com tanques, bombardeios aéreos intensos e manobras de infantaria. Os alemães abriram uma nova frente de batalha, invadindo a Grécia a partir da Bulgária, superando com facilidade a Linha Metaxas — o sistema de fortificações localizado ao norte da Grécia. Em seguida, as tropas nazistas avançaram rumo à fronteira com a Albânia, forçando a defesa grega à rendição. Em enorme desvantagem numérica, os reforços britânicos bateram em retirada. Em abril de 1941, os invasores tomaram a capital, Atenas. No mês seguinte, Creta foi tomada na Operação Mercúrio. E no início de junho, todo o território da Grécia continental já estava sob controle do Eixo.

<><> A Grécia sob ocupação alemã

Com a queda da Grécia, o rei Jorge II e o primeiro-ministro Emmanuíl Tsuderós fugiram para o exílio, estabelecendo-se em Londres. O território grego foi dividido em três zonas de ocupação: a alemã, congregando áreas estratégicas como Atenas, Salônica e Creta; a italiana, abrangendo a maior parte do território continental; e a búlgara, com partes da Trácia e da Macedônia Oriental. Um governo colaboracionista foi estabelecido em Atenas — o chamado “Estado Helênico”, a princípio liderado por Geórgios Tsolákoklu, depois sucedido por Konstantínos Logothetópulos e Ioánnis Rállis. O poder efetivo, entretanto, estava nas mãos do alto comando militar alemão.

A ocupação nazista representaria um dos períodos mais sombrios da história da Grécia, marcado pela repressão brutal da população civil, crise famélica, massacres e inúmeros crimes de guerra. Estima-se que mais de 550 mil gregos foram mortos durante a ocupação. As políticas nazistas de confisco de alimentos e apropriação dos recursos agrícolas e industriais, combinadas aos bloqueios navais, levaram a uma grave escassez de comida nas áreas urbanas. Estima-se que, somente em Atenas, mais de 300 mil pessoas morreram de fome ou de doenças relacionadas à subnutrição. A população judaica da Grécia foi quase erradicada. Os nazistas iniciaram a deportação sistemática dos judeus gregos para campos de concentração, sobretudo Auschwitz. Apenas 11 mil dos 75 mil membros da comunidade judaica grega sobreviveram ao Holocausto.

<><> A Resistência Grega

Com o governo grego exilado na Inglaterra e o exército dissolvido, coube à população civil a tarefa de organizar a resistência contra a ocupação nazista. A Grécia serviu de palco a um dos movimentos de resistência mais combativos da Segunda Guerra Mundial, alimentado pela indignação popular diante das atrocidades cometidas pelos invasores. Revoltas populares contra os alemães eclodiram ainda em 1941, mobilizando milhares de pessoas em cidades de Creta e do norte da Grécia. Os primeiros grupamentos de civis armados ativos na luta contra os nazistas começaram a ser formados nesse mesmo ano. Os partisans gregos eram chamados de “andartes” (“guerrilheiros” na língua grega).

A maior organização da Resistência Grega era a Frente de Libertação Nacional (EAM). Fundada pelo Partido Comunista da Grécia (KKE) e congregando militantes de esquerda e partidários do movimento republicano, a EAM se converteria em um movimento de massas, chegando a contar com quase dois milhões de membros — um quarto da população do país. Em 1942, a EAM criou o seu braço armado, o Exército de Libertação do Povo Grego (ELAS). Os andartes se engajavam tanto em atividades de guerrilha como emboscadas e ações de enfrentamento aberto. Conduziam operações de sabotagem contra linhas férreas, pontes e depósitos de suprimento nazistas e fomentavam a resistência urbana através de greves e protestos nas grandes cidades. Entre 1943 e 1944, o ELAS conseguiu libertar diversas localidades do território grego, estabelecendo zonas livres que abrigavam bases para operações militares e que revigoravam a resistência popular. O grupo também foi responsável pela destruição da ponte sobre o Rio Gorgopotamos, — um dos atos de sabotagem mais espetaculares da Segunda Guerra, que interrompeu a ligação ferroviária entre Atenas e Tessalônica, causando sérios problemas logísticos para os alemães.

Preocupado com os danos causados pelas operações da resistência, Alexander Löhr, o comandante do Grupo de Exércitos E (as unidades do exército alemão ativas no Mediterrâneo Oriental) ordenou o início de uma série de varreduras visando localizar e exterminar os partisans. Em paralelo, Löhr intensificou o emprego de ataques sistemáticos aos civis. Os nazistas acreditavam que o terror das punições coletivas desencorajaria o apoio popular à resistência. Assim, uma série de massacres foram cometidos como represália às ações do andartes, resultando no extermínio de vilas inteiras e na matança indiscriminada de mulheres, crianças e idosos.

<><> O Massacre de Distomo

Distomo, uma pequena vila situada na região da Beócia, a cerca de 100 km de Atenas, era um povoado pacífico, com cerca de 1.800 habitantes. A vila não abrigava alvos militares nem grupamentos de partisans, mas sua mera localização serviria de pretexto para que fosse atacada pelos nazistas. Nos arredores de Distomo, ficava a vila de Livadia, onde um comboio nazista sofrera a emboscada de um grupo de partisans, resultando na morte de três soldados alemães. A região também abrigava a aldeia de Steiri, onde os guerrilheiros mataram sete militares alemães. Não havia quaisquer evidências de que os habitantes de Distomo estivessem envolvidos nesse ataque, mas o vilarejo se tornaria alvo de uma punição coletiva ordenada pelo capitão Fritz Lautenbach. No dia 10 de junho de 1944, as tropas da 4ª Divisão SS Polizei cercaram Distomo e deram início a um banho de sangue. Os alemães percorreram o vilarejo casa por casa, assassinando os moradores indistintamente.

Os testemunhos de sobreviventes descreviam atos de extrema crueldade. Os bebês foram trespassados a golpes de baioneta enquanto dormiam em seus berços. Mulheres grávidas tiveram suas barrigas perfuradas. O padre da vila foi decapitado.

Mulheres e crianças foram torturadas, mutiladas e estupradas pelos soldados alemães antes de serem mortas. As casas foram saqueadas e incendiadas, deixando a vila em ruínas. Representantes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha que visitaram o local após o massacre afirmaram ter visto inúmeros corpos mutilados pendurados nas árvores ao longo da estrada para Distomo. De acordo com registros oficiais, ao menos 228 civis foram assassinados durante o massacre, incluindo 40 crianças e 20 bebês. Outras estimativas, no entanto, apontam que mais de mil pessoas podem ter sido mortas pelas tropas nazistas na região.

<><> Reações e tentativas de responsabilização

As informações sobre o massacre começaram a circular rapidamente, causando consternação e revolta. Uma reportagem publicada pela revista Life em novembro de 1944, intitulada “O que os alemães fizeram à Grécia”, ajudou a difundir internacionalmente o conhecimento sobre o massacre. A brutalidade do ataque foi tamanha que até mesmo alguns oficiais alemães questionaram o relato de Lautenbach, que afirmava que as tropas haviam sido atacadas diretamente a partir de Distomo. Uma investigação interna chegou a ser iniciada, mas Lautenbach foi absolvido, sob a justificativa de que suas ações foram “motivadas por um senso de responsabilidade para com seus homens”.

Apesar da gravidade do crime, nenhum dos militares diretamente envolvidos no massacre foi levado à justiça. Fritz Lautenbach, o comandante da operação, nunca foi preso. Hans Zampel, outro oficial que participou diretamente da matança, foi extraditado pela Grécia em 1953, mas acabou sendo absolvido na Alemanha. O comandante da divisão, Fritz Schmedes, e o comandante regimental, Karl Schümers, também escaparam de punição. Schümers foi morto por uma mina em agosto de 1944, enquanto Schmedes sobreviveu à guerra sem enfrentar consequências.

A luta por reparações começou décadas depois. Em 1997, o Tribunal de Livadia, na Grécia, condenou a Alemanha a pagar 28 milhões de euros em compensação às vítimas e seus descendentes. A sentença foi referendada pelo Supremo Tribunal da Grécia, mas sua execução dependeria do aval do governo grego. Sob pressão política da Alemanha, a Grécia se recusou a executar a decisão.

Em um esforço para contornar a resistência grega e alemã, os sobreviventes levaram o caso aos tribunais italianos, que têm reconhecido o direito das vítimas de crimes de guerra a buscar reparação. Em 2014, a Corte Constitucional Italiana decidiu que a imunidade estatal não se aplicava a crimes de guerra como o de Distomo, permitindo novas ações legais. A Alemanha, entretanto, recorreu ao Tribunal Internacional de Justiça em Haia, que decidiu que a execução de reparações na Itália violava a soberania alemã. Desde 2005, a cidade de Distomo sedia o Museu das Vítimas do Nazismo, abrigando fotografias das vítimas, documentos históricos e itens relacionados ao massacre. Em 2006, foi lançado o documentário A Song for Argyris, que narra a vida de Argyris Sfountouris, um sobrevivente da chacina.

 

Fonte: BBC News Brasil/Opera Mundi

 

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