Data
centers no Nordeste, minérios na África e lucros no Vale do Silício
Um
debate em voga sobre os data centers e seus impactos ambientais suscita uma
série de reflexões: a que custo desejamos manter e expandir esse aparato
tecnológico? Uma rota desejável, contudo, não seria sua rejeição pura e
simples, mas o planejamento mais adequado para reinventá-lo. Embora os
artefatos tecnológicos sejam, em geral, concebidos por grupos e corporações que
pouco consideram os olhares e as necessidades de regiões e populações
periféricas, observa-se que a subversão criativa dessas tecnologias tem gerado
mecanismos relevantes para repensar sua utilidade e aplicabilidade. Nesse
sentido, uma proposta concreta seria ajustar a infraestrutura dos próprios data
centers, integrando fontes de energia renovável — como painéis solares ou
turbinas eólicas — a fim de reduzir sua pegada ecológica e torná-los mais
sustentáveis.
Contudo,
essa não é a única problemática — nem sua única solução. Existe um aspecto
menos visível, mas igualmente central, na materialidade da Inteligência
Artificial: seu enraizamento em um extrativismo mineral intensivo,
frequentemente ofuscado pela ênfase no extrativismo de dados. A infraestrutura
que sustenta os sistemas de IA vai muito além da pilha técnica composta por
algoritmos, hardware e redes: ela depende de uma cadeia global de suprimentos
baseada na exploração de minerais críticos — como o lítio, o cobalto e as
terras raras — essenciais para a produção de servidores, baterias e
dispositivos computacionais. Assim, os data centers não são apenas “nuvens
digitais”: são também territórios físicos ancorados em minas, trabalhadores
explorados e ecossistemas ambientais degradados.
Essa
crescente demanda por minerais críticos também intensifica disputas
geopolíticas já em curso, particularmente no contexto da rivalidade entre
Estados Unidos e China. A dependência de Washington em relação a cadeias de
suprimentos controladas por Pequim — especialmente no refino e processamento de
elementos como lítio, cobalto e terras raras — tem gerado preocupações
crescentes em torno da segurança energética e tecnológica. Nesse cenário, a
transição energética global, embora urgente, tem sido mobilizada como
justificativa para reconfigurar alianças estratégicas, ampliar acordos
comerciais seletivos e reposicionar investimentos em mineração e infraestrutura
tecnológica em países do Sul Global. Essa reconfiguração se insere em uma
lógica de contenção e competição, refletida nas medidas adotadas durante a
guerra tarifária entre EUA e China, e reforça o caráter instrumental da
geopolítica dos dados e dos minerais na disputa por soberania tecnológica.
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O extrativismo por trás dos data centers: impactos “geolocais” e
socioambientais
dimensão técnico-material e o ciclo de vida da
inteligência artificial revela dinâmicas geopolíticas e “geolocais”
profundamente entrelaçadas, marcadas por assimetrias de poder e dependência
estrutural. Os minerais críticos — como o lítio, o cobalto, o neodímio, o
disprósio e o germânio — são considerados “críticos” não apenas por sua
importância estratégica, mas porque sua escassez ou interrupção no fornecimento
comprometeria setores inteiros da economia, especialmente os vinculados à alta
tecnologia, à defesa e à transição energética. Esses elementos são essenciais
para o funcionamento de baterias de íons de lítio, motores de veículos
elétricos, drones militares, sensores infravermelhos, torres de comunicação
móvel, cabos de fibra óptica, satélites e chips que alimentam servidores e
dispositivos inteligentes. Em resposta à dependência da China nesse setor, os
EUA lançaram, em 2022, a Minerals Security Partnership, com países como UE,
Japão, Canadá, Austrália, Coreia do Sul, Reino Unido, Noruega, França e Alemanha.
O objetivo é garantir o suprimento de minerais estratégicos e reduzir a
vulnerabilidade das cadeias dominadas por Pequim.
No
entanto, a extração e o refino desses recursos estão concentrados em um número
limitado de países, muitos deles localizados no Sul Global — como a República
Democrática do Congo. Um exemplo emblemático é a mina de cobre e cobalto, em
Kolwezi, onde a Anistia Internacional documentou casos graves de despejos
forçados e exploração de mão de obra para viabilizar a extração desses
minerais. Esse caso evidencia uma realidade alarmante: embora o continente
africano detenha cerca de 30% das reservas mundiais de minerais críticos —
essenciais para a produção de dispositivos eletrônicos e infraestruturas de
inteligência artificial — ele capta apenas 10% da receita global gerada por
esses recursos.
Esse
desequilíbrio aprofunda uma divisão internacional do trabalho digital, em que
os impactos sociais e ambientais recaem de forma desproporcional sobre
populações periféricas, enquanto o valor agregado e o controle tecnológico
permanecem concentrados em polos de poder como o Vale do Silício. Além de
sustentar a base material da IA, essas cadeias de suprimento tornaram-se também
instrumentos estratégicos de disputa geopolítica entre grandes potências, que
competem pelo domínio de tecnologias emergentes e pela consolidação de sua
soberania tecnológica. Em última instância, a inteligência artificial não é
composta apenas por códigos e algoritmos: ela representa também uma ameaça
concreta ao meio ambiente e as comunidades locais que são expostas aos riscos de
saúde por essas atividades extrativistas.
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Sem sociedade, com mercado: os bastidores silenciosos da política nacional de
data centers
Outro
elemento opaco desse cenário é a falta de escuta e participação pública nas
consultas que precedem decisões com potencial de impactar profundamente a vida
das pessoas. A postura do ministro Fernando Haddad, ao se reunir com
representantes da Amazon e da Nvidia e sinalizar o envio de uma Medida
Provisória com incentivos fiscais para viabilizar a Política Nacional de Data
Centers, evidencia um processo conduzido sem a devida transparência e sem
debate democrático. Mais do que isso, a forma como grandes empresas de
tecnologia é incorporadas à política — apresentadas como oportunidades
incontestáveis de desenvolvimento — ignora a necessidade de discutir
abertamente quem serão os verdadeiros beneficiados e quem arcará com os custos
socioambientais desse projeto.
O risco
é claro: a concentração de lucros em empresas estrangeiras e o retorno à
comunidade local tende a ser mínimo, senão nulo, diante da possibilidade
concreta de degradação ambiental, exploração de recursos e aprofundamento das
desigualdades. É urgente repensar o modelo proposto, garantindo participação
pública, transparência e soberania na formulação de políticas que moldarão a
infraestrutura tecnológica do país nas próximas décadas.
O
projeto anunciado por Haddad revela um processo discreto em curso desde o
início do governo Lula. De acordo com o The Intercept Brasil, mais de 80
reuniões sobre data centers foram realizadas na Esplanada dos Ministérios,
envolvendo cerca de 200 autoridades federais. Nenhuma contou com a participação
do Ministério do Meio Ambiente — uma ausência alarmante, considerando o impacto
ambiental dessas estruturas, especialmente no consumo intensivo de água e
energia.
A
exclusão sorrateira do Ministério do Meio Ambiente acende um alerta
preocupante, sobretudo porque, nos próprios países-sede das Big Techs, surgem
iniciativas legislativas para restringir a expansão descontrolada de data
centers. Nos Estados Unidos, por exemplo, projetos de lei em tramitação propõem
regras mais rígidas para o setor — como exigências de zoneamento, avaliações
obrigatórias de impacto ambiental e diretrizes para o uso de recursos hídricos.
Em diversos estados, como Minnesota, comunidades locais têm resistido à
instalação de novos empreendimentos, denunciando a sobrecarga das
infraestruturas de energia e água.
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Hub ou depósito? A ocupação das Big Techs no Nordeste
Nesse
cenário, o Brasil desponta como destino mais atrativo para esses
empreendimentos, justamente por oferecer um ambiente regulatório mais flexível.
A deliberada ausência do Ministério do Meio Ambiente nas discussões federais
indica uma estratégia de omissão institucional que facilita a proliferação de
projetos com alto custo socioambiental — sob a justificativa da atração de
investimentos. Outro ponto crítico na abstração da Inteligência Artificial e na
formulação da Política Nacional de Data Centers é a baixa geração de empregos
em nível nacional.
A
instalação de data centers de Big Techs já está em curso no Brasil, com os
primeiros projetos concentrados no Nordeste, especialmente no complexo
portuário de Pecém, no Ceará. A região recebeu autorização do ONS (Operador
Nacional do Sistema Elétrico) para conectar essas estruturas à rede elétrica. A
escolha do Nordeste tem sido justificada por suas vantagens comparativas:
abundância de energia solar e eólica, além do acesso a cabos submarinos, o que
reduz a latência e aumenta a estabilidade na transmissão de dados. Com isso,
promove-se a ideia de transformar a região em um hub de inovação digital. No
entanto, persiste a dúvida: o Nordeste será, de fato, um polo de inovação ou
apenas um depósito de infraestrutura pesada com alto potencial de dano ambiental?
Essa pergunta é fundamental, pois os data centers não são criações brasileiras
— apenas serão alocados em território nacional. Trata-se, portanto, não de
inovação local, mas do uso do discurso da inovação para justificar a instalação
de empreendimentos que enfrentam crescente resistência nos próprios países de
origem das Big Techs. Nos Estados Unidos, por exemplo, comunidades já se
mobilizam contra esses projetos devido ao alto consumo de água e energia, à
poluição e aos riscos à saúde de moradores vizinhos às instalações.
Fonte:
Por Lauro Accioly Filho, no Le Monde

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