Ansiedade
e infecções: como mudanças climáticas afetam as crianças?
Eventos
climáticos extremos, como secas, enchentes, queimadas e ondas de calor, têm
sido cada vez mais frequentes no Brasil e no mundo. Entre as populações em
maior risco de ter problemas de saúde relacionados às mudanças climáticas estão
as crianças. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), cerca
de 40 milhões de crianças e adolescentes brasileiros estão expostos a um ou
mais riscos climáticos.
Para
alertar sobre o assunto, a organização Médicos pelo Clima lançou nesta
segunda-feira (9) uma cartilha voltada para pais e cuidadores, abordando os
impactos físicos e mentais na infância de eventos extremos relacionados às
mudanças climáticas. O documento foi desenvolvido com revisão técnica da
Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
"As
mudanças climáticas afetam diretamente a saúde das crianças: comprometem a
saúde respiratória, influenciam a nutrição pela privação de alimentos e
impactam a segurança alimentar. Também favorecem a proliferação de mosquitos
transmissores de doenças como febre amarela, dengue, chikungunya e outras
arboviroses", afirma Renato Kfouri, infectologista pediatra e um dos
colaboradores da cartilha.
"Informar
a população sobre formas de cuidado e prevenção é fundamental. A comunidade
médica tem um papel central nesse processo — o médico ainda é a principal fonte
de informação confiável e de qualidade para as famílias no que diz respeito à
prevenção e ao controle de doenças", completa.
• Principais riscos à saúde mental e
física das crianças
Para o
desenvolvimento da cartilha, os especialistas selecionaram cinco eventos
climáticos que têm sido frequentes em cada uma das regiões do Brasil:
inundações no Sul, chuvas intensas e altas temperaturas no Sudeste, ondas de
calor intenso no Centro-Oeste, secas prolongadas no Nordeste e queimadas na
Amazônia.
Segundo
a cartilha, os impactos das inundações estão, principalmente, relacionados à
saúde mental de crianças e adolescentes, como transtorno de estresse
pós-traumático (TEPT), além de sintomas como comportamentos agressivos,
isolamento social, dependência excessiva, ansiedade e depressão.
Além
dos efeitos mentais, as inundações favorecem o aumento dos riscos de infecções
transmitidas pelo ar, por feridas na pele expostas e pela água contaminada,
como a leptospirose. Ela é causada pela contaminação da água por urina de
animais infectados, principalmente ratos.
As
chuvas intensas também aumentam o risco de arboviroses, como a dengue. Em 2024,
o Brasil atingiu o recorde de mais de 6 milhões de casos registrados e 5 mil
mortes pela doença.
Já em
relação às ondas de calor, o principal risco é a hipertermia, ou seja, o
aumento da temperatura corporal, podendo levar a sintomas como pele quente e
vermelha, confusão mental, vômitos e queda do nível de consciência. Em casos
graves, as ondas de calor podem levar à sobrecarga do coração, cansaço e
indisposição.
Por
fim, as secas aumentam o risco de desnutrição infantil e de doenças infecciosas
devido à falta de acesso à água tratada. Enquanto as queimadas podem
desencadear ou agravar doenças respiratórias, como asma, rinite, conjuntivite
alérgica e dermatite atópica.
• Como proteger as crianças?
A
cartilha também elenca os principais cuidados para proteger as crianças dos
riscos associados a eventos extremos. As dicas são divididas de acordo com o
evento e a região brasileira. Em geral, os cuidados incluem:
• Vacinação;
• Medidas de controle ambiental;
• Evitar a exposição ao sol nos horários
críticos (das 10h às 16h);
• Uso de protetor solar;
• Hidratação frequente;
• Manter uma alimentação saudável, com
frutas, hortaliças, legumes e evitar o consumo de alimentos industrializados;
• Evitar atividades ao ar livre,
especialmente em dias de maior concentração de fumaça proveniente das
queimadas.
"As
mudanças climáticas já estão alterando profundamente as condições de vida e
saúde das crianças brasileiras. Cada região do país revela, de forma singular,
os desafios e urgências desse cenário. Em todas essas realidades, a saúde
infantil emerge como um termômetro da crise climática e um chamado à
ação", avalia o pediatra Daniel Becker, embaixador do Médicos pelo Clima,
na cartilha.
"Cuidar
das crianças é cuidar do mundo em que elas irão crescer — e que esse
compromisso una profissionais de saúde, famílias, educadores e gestores em uma
jornada guiada pela urgência, pela responsabilidade e pela esperança",
finaliza.
Fonte:
CNN Brasil

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