A
vida dupla do empresário fã de polo que era 'um dos maiores traficantes do
mundo'
Aparentemente,
Muhammed Asif Hafeez era um indivíduo notável.
Homem
de negócios global e embaixador de um clube de polo londrino de prestígio, ele
se relacionava com a elite britânica, incluindo membros da Família Real.
Hafeez
também repassava regularmente, às autoridades do Reino Unido e do Oriente
Médio, informações detalhadas que, em alguns casos, levaram à interceptação de
imensos lotes de drogas.
Ele
afirmava ser motivado apenas pelo que considerava sua "obrigação moral de
refrear e evidenciar atividades criminosas".
Pelo
menos, é isso o que as pessoas pensavam a seu respeito. Mas, na verdade,
autoridades americanas descreveram Hafeez como "um dos mais ativos
traficantes de drogas do mundo".
Da sua
residência no Reino Unido, ele manipulava um vasto império das drogas,
fornecendo toneladas de heroína, metanfetamina e haxixe de bases no Paquistão e
na Índia, para distribuição em todo o mundo.
As
gangues que ele delatava eram seus concorrentes. Sua motivação era livrar o
mercado dos seus rivais.
Sua
posição no submundo lhe valeu o título de "o Sultão". Mas seu
prestígio e seu poderio criminal não durariam para sempre.
Uma
complexa operação conjunta entre autoridades britânicas e americanas levou à
extradição de Hafeez do Reino Unido em 2023. Ele se declarou culpado em
novembro do ano passado.
Na
sexta-feira (6/6), Hafeez foi condenado a 16 anos de prisão em Nova York, nos
Estados Unidos, por formação de quadrilha para exportar drogas para os EUA,
incluindo uma quantidade de heroína suficiente para produzir "milhões de
doses".
Como
ele se encontra em custódia desde 2017, a sentença de Hafeez irá terminar em
2033.
A BBC
acompanhou o caso de perto. Reunimos informações dos documentos do processo,
registros de empresas e entrevistamos pessoas conhecidas de Hafeez.
Nossa
intenção foi descobrir como ele conseguiu passar despercebido por tanto tempo –
e como, finalmente, ele foi preso.
Nestas
fotos de 2009, ele aparece com sua esposa, abraçando o príncipe Harry e
conversando com o príncipe William, do Reino Unido.
Hafeez
nasceu em setembro de 1958, em uma família de classe média de Lahore, no
Paquistão. Ele era um dentre seis irmãos e foi criado em condições de conforto.
Moradores
de Lahore que conheceram a família contaram à BBC que seu pai era dono de uma
fábrica perto da cidade. Hafeez também declarou à Justiça americana que recebeu
treinamento como piloto comercial.
Do
início dos anos 1990 até meados dos anos 2010, ele dirigiu uma empresa holding
aparentemente legítima, chamada Sarwani International Corporation. Ela possuía
subsidiárias no Reino Unido, no Paquistão e nos Emirados Árabes Unidos.
Seu
website (hoje, indisponível) indicava que a companhia vendia equipamentos
técnicos para exércitos, governos e forças policiais em todo o mundo, incluindo
aparelhos de detecção de drogas.
Entre
as outras companhias englobadas pela holding, havia uma empresa de tecidos
registrada em diversos países, um restaurante italiano em Lahore que era
franquia de uma conhecida marca londrina e uma empresa chamada Tipmoor,
localizada a oeste de Londres, especializada em "serviços equestres e
polo".
Estas
empresas ofereciam a ele um estilo de vida luxuoso, além de garantir seu acesso
aos mais exclusivos círculos britânicos.
Hafeez
foi inscrito como embaixador internacional do prestigiado Ham Polo Club de
Londres por pelo menos três anos, de 2009 a 2011. Ele e sua esposa Shahina
foram fotografados no clube em 2009, conversando com o príncipe William e
abraçando o príncipe Harry, do Reino Unido.
O Ham
Polo Club declarou à BBC que Hafeez nunca foi membro do clube, que a associação
não mantém mais "embaixadores" e que sua atual diretoria "não
tem nenhuma ligação com ele".
O clube
destacou ainda que o evento no qual Hafeez e sua esposa foram fotografados
encontrando os príncipes britânicos "foi organizado por terceiros".
Os
diversos braços globais da Sarwani foram dissolvidos em várias etapas nos anos
2010, segundo seus registros na Companies House britânica e em registros
internacionais equivalentes.
• 'Algo suspeito está acontecendo'
Um
ex-funcionário da Sarwani nos Emirados Árabes Unidos contou à BBC ter
suspeitado que havia "algo suspeito acontecendo" na época em que
trabalhava na empresa. O motivo é que mesmo os projetos grandes "só eram
pagos em dinheiro".
O
ex-funcionário pediu para não ser identificado, por medo de represálias. Ele
declarou que acabou saindo da empresa por ter ficado desconfortável com esta
situação.
"Não
havia transações [bancárias], nem registros, nem existência", disse ele à
BBC.
Hafeez
também escrevia cartas periodicamente para as autoridades dos Emirados e do
Reino Unido, informando sobre cartéis rivais, sob o pretexto de ser um cidadão
preocupado.
A BBC
teve acesso a essas cartas, bem como às respostas da Embaixada britânica em
Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e do Ministério do Interior britânico,
expressando seu agradecimento e reconhecimento pelo contato.
O
Ministério do Interior britânico declarou à BBC que não faz comentários sobre
correspondências individuais. Já o Ministério das Relações Exteriores do Reino
Unido e o governo de Dubai não responderam aos pedidos de comentários enviados
pela BBC.
Familiares
de Hafeez encaminharam as cartas à BBC em 2018, quando ele estava envolvido em
uma longa disputa judicial para tentar evitar sua extradição para os Estados
Unidos.
Eles
também apresentaram a correspondência à Justiça britânica e, posteriormente, ao
Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH), como evidência de que ele havia
sido um informante e precisava de proteção.
Todos
os tribunais discordaram e concluíram que esta era uma manobra de Hafeez para
retirar seus concorrentes do mercado.
O TEDH
declarou que Hafeez era "alguém que havia trazido para a atenção das
autoridades a conduta criminosa de terceiros conhecidos por ele como possíveis
ou reais concorrentes da sua vasta empreitada criminosa".
Enquanto
Hafeez escrevia estas cartas, teve lugar em 2014 uma reunião à qual ele não
esteve presente, mas que levaria à sua derrocada.
Dois
dos associados próximos de Hafeez se reuniram com um potencial comprador da
Colômbia em um apartamento em Mombasa, no Quênia.
Eles
queimaram uma pequena quantidade de heroína, para demonstrar sua pureza. E
disseram que poderiam fornecer a ele qualquer quantidade de "cristal
branco... 100%".
O
fornecedor dessa heroína de alta qualidade, segundo eles disseram ao comprador,
era um homem do Paquistão conhecido como "o Sultão" – ou seja,
Hafeez.
Os
associados de Hafeez logo descobririam que o "comprador" colombiano,
na verdade, trabalhava disfarçado para a Administração de Repressão às Drogas
dos Estados Unidos (DEA, na sigla em inglês).
Toda a
reunião foi parte de uma elaborada operação que foi secretamente filmada. A BBC
teve acesso a esta filmagem.
• A extradição e o desfecho
Os
documentos do processo nos Estados Unidos revelam que o acordo foi coordenado
pelos irmãos Baktash e Ibrahim Akasha, que dirigiam um violento cartel no
Quênia.
O pai
da dupla foi um temido líder do narcotráfico, morto no Distrito da Luz Vermelha
de Amsterdã, na Holanda, no ano 2000.
O
acordo também envolveu o cidadão indiano Vijaygiri "Vicky" Goswami,
que administrava as operações dos Akashas.
Em
outubro de 2014, Goswami, Hafeez e os irmãos Akasha ainda não tinham
conhecimento de quem eram realmente os compradores, quando 99 kg de heroína e 2
kg de metanfetamina foram despachados para os falsos traficantes colombianos.
Os
irmãos Akasha prometeram fornecer outras centenas de quilos de cada uma das
drogas.
Um mês
depois, Goswami e os irmãos Akasha foram presos em Mombasa. Eles foram
libertados sob fiança pouco depois e passaram dois anos tentando evitar sua
extradição para os Estados Unidos.
Paralelamente,
autoridades americanas e britânicas trabalhavam em conjunto para montar seu
processo contra Hafeez. Eles utilizaram, em parte, evidências recolhidas dos
aparelhos confiscados durante a prisão de Goswami e dos irmãos Akasha.
Nesses
aparelhos, eles encontraram inúmeras referências a Hafeez como importante
fornecedor e conseguiram encontrar evidências suficientes para identificá-lo
como "o Sultão".
As
acusações apresentadas nos Estados Unidos não impediram que um dos homens,
Goswami, desse continuidade às suas empreitadas ilegais.
Em
2015, quando estava sob fiança no Quênia, ele elaborou com Hafeez um plano para
transportar diversas toneladas de uma droga chamada efedrina de uma fábrica de
produtos químicos em Solapur, na Índia, para Moçambique.
Efedrina
é um medicamento poderoso de uso legal em quantidades limitadas, mas é
empregado na fabricação de metanfetamina.
Os
documentos do processo americano mostram que Goswami e Hafeez planejaram montar
uma fábrica de metanfetamina na capital moçambicana, Maputo. Mas eles
abandonaram o esquema em 2016, quando a polícia invadiu a fábrica em Solapur e
confiscou 18 toneladas de efedrina.
Goswami
e os irmãos Akasha foram finalmente extraditados para julgamento nos Estados
Unidos em janeiro de 2017.
Hafeez
foi preso oito meses depois, no seu apartamento no próspero bairro de St.
John's Wood, em Londres.
Ele foi
detido na prisão de alta segurança Belmarsh, no sudeste da capital britânica.
Lá, ele passou seis anos, tentando impedir sua extradição para os Estados
Unidos.
Mas o
caso sofreu uma grande reviravolta em 2019. Goswami se declarou culpado à
Justiça americana e contou a um tribunal de Nova York que havia concordado em
cooperar com os promotores.
Os
irmãos Akasha também se declararam culpados. Baktash Akasha foi condenado a 25
anos de prisão e seu irmão Ibrahim, a 23 anos.
Goswami
ainda aguarda sua sentença. Ele teria testemunhado contra Hafeez nos Estados
Unidos, se o caso tivesse ido a julgamento.
Na
prisão de Belmarsh, Hafeez estava ficando sem alternativas.
Ele
tentou impedir sua extradição para os Estados Unidos, mas não conseguiu
convencer os magistrados, a Alta Corte de Justiça de Londres e o TEDH de que
havia, de fato, sido informante das autoridades "em risco de maus tratos
pelos seus colegas de prisão".
Ele
também alegou que as condições nas prisões americanas seriam "desumanas e
degradantes" para ele, devido às suas condições de saúde, que incluem asma
e diabetes tipo 2.
Hafeez
perdeu todos estes argumentos em cada etapa do processo. Ele foi extraditado em
maio de 2023.
Mas seu
caso não foi a julgamento. Em novembro do ano passado, Hafeez se declarou
culpado de duas acusações de formação de quadrilha para fabricar e distribuir
heroína, metanfetamina e haxixe e exportar as drogas para os Estados Unidos.
Antes
da sentença, os promotores descreveram as "condições extremamente
privilegiadas" da vida de Hafeez, que "lançam profunda atenção à sua
decisão de conspirar... e lucrar com a distribuição de substâncias perigosas
que destroem vidas e comunidades inteiras".
"Ao
contrário de muitos traficantes, cujas atividades com drogas, ao menos em
parte, advêm de desespero, pobreza e falta de oportunidades educacionais, o réu
viveu uma vida repleta de privilégios e escolhas", afirmam os promotores.
Fonte:
BBC News

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