sexta-feira, 13 de junho de 2025

Elika Takimoto: Fascista não enfrenta. Encena

Fascista não enfrenta. Encena

Todos aqui devem ter visto alguma imagem do depoimento dos réus que fazem parte do "núcleo crucial" da organização criminosa que tentou o golpe de Estado em 2022. Trago as minhas impressões.

É tudo tão surreal que cheguei a pensar se não teria entrado numa realidade paralela, daquelas em que a Terra é plana, a vacina mata, e um general brasileiro bate continência para bandeira dos EUA. Mas não. A realidade não é paralela. Ela é curva e me atropela toda hora. A realidade é um pesadelo em alta definição com sonhos leves porque somos humanos e precisamos ter esperança.

Como professora que sou, gosto da didática. Aprendemos que não há coragem em quem vive da mentira. E não pode haver redenção possível para quem faz da covardia o seu projeto de vida.

Berrar no cercadinho, meu povo, berrar no cercadinho é mole. Aquela figura que passou quatro anos esgoelando força, honra e cloroquina mostrou que é um indolente travestido de valente. Risinhos, piadinhas e cara de quem esqueceu o caminho do banheiro fez com que o tribunal me lembrasse o stand-up ruim quando risos não possuem relação com dignidade, empatia e uma graça propriamente dita.

É inacreditável o que se viu. Uma audiência que mais parecia gravação de podcast de extrema-direita.

Um típico episódio da série House of Paranauê. As caras de paisagem e risinhos de canto de boca mascaravam as articulações feitas por quem sabe que entrou condenado, vai sair condenado, mas que foca agora, com alguma chance, em uma prisão domiciliar.

Os mesmos que ameaçavam a democracia, agora, fazem piada com o próprio julgamento acenando para uma base que canta o hino nacional para um pneu e pede ajuda extraterrestre com celular aceso na cabeça.

Nessa esteira, Bolsonaro, por exemplo, achou de bom tom convidar Alexandre de Moraes para ser seu vice em 2026. Um homem desses não tem fígado, tem um TikTok interno funcionando em loop.

Gostaria que Alexandre de Moraes não aceitasse nenhuma piada e muito menos risse, ainda que o riso fosse de um ser Supremo. Com democracia não se brinca, ainda mais sabendo que muitos de nós poderíamos estar presos e Alexandre morto - como dito no próprio depoimento de Mauro Cid, que estava sereno e com a pele boa, como os que passaram algum tempo em um spa de impunidade, enfim, como dito por ele mesmo se o golpe fosse consumado.

Pode aceitar uma piadinha nesse momento que o Brasil tanto esperava? Penso que não. Eu, que não li e nem corroborei com a minuta do golpe, me senti algemada.

Assisti àquele teatro de horrores e me lembrei da Dilma. Horas de sabatina. Séria. Soberana. E o que temos agora? Uma trupe de moleques debochados, com advogados que mais parecem animadores de churrasco, rindo da cara de um povo que espera justiça como quem espera o garçom chegar, depois de uma longa espera, com o nosso prato.

A audiência pareceu um programa péssimo de auditório: muita maquiagem, pouca vergonha. Um desfile de frases ensaiadas, silêncios estratégicos e memórias seletivas. “Não me lembro”, “não reconheço”, “não sei de nada”. E, claro, o clássico “desculpa se ofendi alguém”, esse mantra dos que querem o perdão sem o arrependimento.

E foi aí que me lembrei da Dilma. Horas e horas sendo interrogada. Em pé, altiva, respondendo cada pergunta dura e improcedente com seriedade.

Vi golpistas serem tratados como senhores distintos.

Não sei se aquilo que assistimos foi o certo porque tenho minha opinião forte, consolidada e sou humana. Sei que qualquer pessoa não pode receber a sentença antes de se defender. Mas, meu Deus, como foi gritante a diferença.

Fiz várias vezes, assistindo os depoimentos, cara do meme do John Travolta perdido no rolê.

E isso é grave. Porque se eles tivessem conseguido o golpe, não estaríamos aqui assistindo à audiência.

Não haveria juiz, nem perguntas, nem contraditório. Estaríamos — quem sabe — num estádio, sem habeas corpus, ou numa vala qualquer. Como nos tempos sombrios que esses senhores tanto admiram.

Alguma coisa está errada. Pode ser eu, como disse. Bolsonaro e todos esses réus têm atrapalhado minha evolução espiritual.

Estou vendo como deputada que sou agora e, também como cidadã assistindo pela televisão a esse julgamento, estou confirmando o que sentia:  fascista não é valente. É performático. Quando o cercadinho some e sobra só a toga do juiz, eles viram o que sempre foram: um bando de covardes políticos com risinhos típicos de quem está com a cueca borrada.

Impossível não lembrar, também, do Lula diante do Moro. Lula entrou na sala com a postura de quem enfrentava não só um juiz, mas uma engrenagem inteira de ódio e certo de que era inocente. Falou com o peito aberto, sem roteiro, sem advogado sussurrando resposta. Sabia que dali poderia sair algemado — e ainda assim não desceu do tom, não pediu piada, não disse "não me lembro".

Agora corta para Bolsonaro.

Diante de Alexandre de Moraes, o homem que ele mesmo atacou durante anos. E os outros réus. Todos com cara de quem tomou chá de camomila intravenoso.

Ainda que o espetáculo tenha sido grotesco, revelou o essencial. Fascista não enfrenta. Encena. E quando o palco é a Justiça, a maquiagem derrete e borra a farda.

E o que sobra é o cheiro.

Cheiro de quem não consegue mais proteger general de dez estrelas que agora está atrás da mesa apavorado.

Que esse mau cheiro que ficou no ar seja só o perfume tardio e tímido da justiça que finalmente começa a se anunciar.

•        O alcance do julgamento: Por Ricardo Queiroz Pinheiro

Sim, é histórico. Generais e coronéis no banco dos réus por tramarem um golpe contra as instituições que juraram defender. A cena, por si, desmonta décadas de silêncio conveniente. A caserna sempre agiu como se estivesse acima da lei. Não está. Essa imagem, por mais tardia que seja, rasga o verniz e mostra o que sempre esteve ali: o projeto autoritário que move parte significativa das Forças Armadas brasileiras desde muito antes de 1964.

Ver Bolsonaro prestando depoimento, cercado de advogados, se desculpando sem dizer que se desculpa, é outro marco. Não pelo conteúdo — raso, calculado —, mas pela performance desidratada de quem sempre se vendeu como mito. Diante de Alexandre de Moraes, encenou submissão. Não houve altivez, nem coragem. O homem que prometia romper tudo e todos se apequenou, decepcionando os que ainda esperavam um traço de firmeza no naufrágio.

Essa encenação, no entanto, não deve nos embriagar. Há algo ali que desalinha, que trava no peito de quem assiste com atenção. O ambiente parecia amortecido. As perguntas, controladas, evitavam confronto direto. O julgamento não se organizou como arena, mas como encenação contida — como se fosse preciso manter o gesto dentro de um escopo já delimitado. Essa contenção, é verdade, teve efeito prático: desmontou, sem esforço, as teses frágeis da defesa, deixando-as expostas ao ridículo. Mas não se tratava só de desmontar. Havia cálculo. As maiores fissuras não vieram das perguntas, mas das risadas e ironias de Moraes, que deixaram claro o desprezo pelo que estava diante dele: um ex-presidente constrangido, velhos fardados com gestos de farsa, figuras que já não impõem medo, apenas descrença. Ainda assim, a suavidade foi uma escolha. Não pela elegância — mas porque há, no fundo do processo, um limite tácito sobre até onde se está disposto a levar esse confronto.

Não é por acaso. O Brasil é especialista em conter crises sem desmontar seus alicerces. Virar a página sem ler o último parágrafo. Há uma tecnologia acumulada desde o início da República. As forças que operaram a tentativa de ruptura continuam orbitando e servindo aos centros de decisão. Ora são convenientes, ora são escamoteadas. A estrutura permanece, só muda a forma. Não se trata de um enfrentamento com o autoritarismo de farda ou terno, mas de uma administração calculada dos seus efeitos. Um gerenciamento do trauma e da trama que evita romper os acordos que seguem funcionando.

Não foi a ausência de réus importantes — eles estavam lá ontem, alguns presos, outros expostos. A questão é a capacidade do sistema de conduzir o processo sem alterar seus fundamentos, sem mexer no seu ethos. Afinal, ele é sistema. O julgamento avança, mas os dispositivos de poder que permitiram a tentativa de ruptura seguem preservados. O que se desenha não é uma ruptura com a lógica golpista, mas sua acomodação dentro da normalidade institucional. Novamente, o gesto é de contenção, não de expurgo. O golpe é tratado como episódio isolado, não como expressão de uma continuidade histórica que ainda encontra abrigo no interior do próprio Estado.

Também não é o caso de agir com niilismo e sair exigindo uma refundação imediata do regime. A política raramente se move por gestos totais. Há nuances que importam, deslocamentos que, mesmo sutis, reconfiguram o terreno. O julgamento em curso, ainda que contenha ambiguidades e limites, expõe contradições que estavam protegidas por décadas de pacto e silêncio. O essencial é saber interpretar o que essas fissuras indicam, qual o grau de instabilidade que introduzem e até onde podem ser tensionadas. Não se trata de superestimar os gestos, mas também não se deve esvaziá-los. Há algo em disputa — e o peso dessas mudanças depende da nossa capacidade de nomeá-las, pressioná-las, disputá-las.

Os próximos movimentos vão depender menos da contundência jurídica e mais da correlação de forças que se redesenha nos bastidores. Se o processo for até o fim, pode abrir um precedente incômodo para os setores que historicamente operam nos limites da legalidade. Se for freado, reabilita os atores golpistas e sinaliza que o sistema suporta esse tipo de abalo sem custos duradouros. Em qualquer cenário, o julgamento vai funcionar como termômetro: não do passado recente, mas do que ainda está em disputa no presente — quem controla os termos da exceção, quem decide quando ela começa e, principalmente, quando ela pode ser esquecida.

•        Amnésia dos réus no STF é desmascarada pelas verdades irrefutáveis do golpe em avançada gestação. Por Washington Araújo

Nas últimas 48 horas, o Supremo Tribunal Federal (STF) transformou-se em um campo de batalha contra o vírus da amnésia seletiva. Réus de alta proeminência na vida pública brasileira, interrogados no inquérito que apura a trama golpista para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 1º de janeiro de 2023, parecem ter esquecido desde detalhes triviais até suas próprias ações. Sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, o julgamento expõe uma conspiração que corroeu os alicerces da democracia, como um ácido que dissolve lentamente o tecido constitucional.

O inquérito, iniciado após os atos de 8 de janeiro de 2023, é um monumento jurídico. Centenas de provas – documentos, áudios, vídeos, perícias de celulares confiscados, gravações de reuniões nos palácios de Brasília e testemunhos de envolvidos – formam um arcabouço que torna a defesa dos réus cada vez mais frágil. A desfaçatez com que a mentira tenta se sustentar é quase ilimitada, desafiando a veracidade.

Um ex-presidente admitiu ter acusado três ministros do STF de corrupção, alegando cifras entre 30 e 50 milhões de dólares durante as eleições de 2022, sem provas, justificando como um “desabafo” de seu “temperamento”. “Me desculpe, não tive intenção de acusar”, disse ele a Moraes, em tom de retratação. Outro réu negou participação em reuniões filmadas, amplamente divulgadas nas redes sociais, onde aparecia em destaque. Essa amnésia, claramente seletiva, recorda apenas o que atenua os crimes – tentativa de golpe de Estado, organização criminosa armada e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

Como jornalista e professor universitário esclareço que este tema não é recorrente em minha prática. Evito juízos políticos, focando em justiça social, preservação ambiental, transição energética, avanços tecnológicos, literatura criativa e o impacto das redes sociais na desumanização, onde o virtual sufoca o real.

A gravidade deste julgamento, porém, exige atenção. Minha análise baseia-se em documentos oficiais, transmissões da TV Justiça, publicações no YouTube do STF e reportagens confiáveis, garantindo uma abordagem apartidária. Este artigo apresenta os fatos, revelando a incredulidade diante de depoimentos que desafiam a lógica e a verdade.

<><> Interrogatórios revelam contradições

Os interrogatórios, iniciados em 9 de junho de 2025, começaram com o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens e delator premiado. Ele confirmou a existência de uma minuta que previa estado de sítio e prisão de autoridades, incluindo Moraes. “O presidente Jair Bolsonaro recebeu e leu esse documento. E fez algumas alterações no documento. De certa forma, enxugou o documento, retirando as autoridades das prisões”, disse Cid, mantendo apenas Moraes na lista. Cid relatou ter recebido recursos de Walter Braga Netto para financiar acampamentos e até um plano para assassinar o ministro.

Apesar de se dizer “observador”, Cid reforçou a tese da Procuradoria-Geral da República (PGR) de uma organização criminosa. Um momento de leveza rompeu a tensão: ao citar xingamentos contra Moraes, Cid provocou risadas, com o ministro retrucando que estava “habituado”.

Ainda no primeiro dia, o deputado Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin, negou monitoramento ilegal de autoridades do STF e do TSE. Acusado de disseminar desinformação, ele admitiu um relatório, sem provas, prevendo vitória de um candidato em 2022 no primeiro turno, mas insistiu que era “pessoal”. As evidências da PGR contradizem suas negativas, expondo-o como peça central em narrativas desestabilizadoras.

No dia 10, o ex-comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, enfrentou questionamentos sobre sua suposta oferta de tropas para ações golpistas. A PF aponta que, em 2022, ele apoiou a decretação de estado de sítio e uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Garnier negou, afirmando: “Nunca falei essa frase”, sobre tropas à disposição. Sobre o desfile de blindados em 2021, durante a votação da PEC do voto impresso, ele chamou de “coincidência”. “O presidente (Bolsonaro) não abriu a palavra para nós. O presidente expressou para nós o que me pareceu muito mais preocupações e possibilidades”, disse, negando debates sobre medidas antidemocráticas. Sua postura evasiva, com um “sorriso irônico”, contrastou com depoimentos de outros militares.

Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, foi questionado sobre uma minuta golpista encontrada em sua casa. Ele minimizou: “Não é a minuta do golpe, é a minuta do Google, porque está no Google até hoje”. Sobre falas agressivas, como “todos iam se foder”, ele se desculpou: “Peço desculpas pelas palavras, era uma reunião fechada. Acabei me excedendo”. Torres negou provas de fraudes nas urnas, afirmando que relatórios sugeriam apenas “melhorias”. “Se perder a eleição, já era. Não há mais o que fazer”, disse, em diálogo com Braga Netto, tentando contextualizar sua posição.

O general Augusto Heleno, ex-chefe do GSI, optou por responder apenas à sua defesa, exercendo o direito ao silêncio. Questionado sobre desinformação eleitoral, negou: “Não, eu não tinha nem tempo para fazer isso”. Sobre o plano “Punhal Verde e Amarelo”, que visava assassinatos, ele afirmou: “Nunca soube de trama golpista e de ‘gabinete de crise’”. “Abin nunca foi utilizada para fins escusos”, disse, defendendo a gestão de Ramagem. Sua estratégia evitou confrontos, mas não dissipou as acusações.

O interrogatório do ex-presidente, na tarde de terça-feira, foi tenso. Acusado de liderar a trama, ele enfrentou provas como mensagens, áudios e a delação de Cid. Sua narrativa de inocência desmoronou em contradições e lapsos. Questionado sobre a minuta golpista, hesitou: “Não havia clima e oportunidade para qualquer ação fora da Constituição”. Respostas evasivas forçaram Moraes a reformular perguntas, enquanto ele pedia desculpas por falas gravadas: “Me desculpe, não tive intenção de acusar”. “Eu tenho que provar que sou inocente ou eles têm que provar que sou culpado?”, questionou antes da sessão, sugerindo perseguição.

O general Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa, negou conhecimento dos atos de 8 de janeiro, classificando-os como “baderna”, não golpe. “Aquilo ali não é golpe em lugar nenhum. Aquilo foi uma baderna”, disse. Sobre reuniões onde se discutiu GLO, ele se surpreendeu com perguntas do advogado: “Vai me perguntar sobre reunião, cara?”. Sua defesa tentou contextualizar, mas as provas sugerem maior envolvimento. “Você não combinou comigo, viu? Mas tudo bem”, disse ao advogado, gerando risadas e constrangimento.

<><> Uma conspiração contra a Constituição

O julgamento inclui Braga Netto, preso e ouvido por videoconferência. A PGR aponta ações coordenadas, como a criação de uma “Comissão de Regularidade Eleitoral” e o plano “Punhal Verde Amarelo”, que previa assassinatos. A gravidade dos crimes é como um tribunal que julga a tentativa de incendiar a Constituição, um fogo que consome as vigas da democracia.

Transmitidos ao vivo, os interrogatórios marcam um momento histórico. Pela primeira vez, um ex-chefe de Estado e aliados são confrontados por tentativa de golpe. O STF, alvo de ataques desde 2021, demonstra transparência e rigor.

O julgamento intensifica a polarização: alguns falam em “caça às bruxas”, outros celebram a responsabilização. Como professor universitário da área de ciências humanas, vejo uma chance de fortalecer as instituições, se conduzido com imparcialidade.

As sessões, até 13 de junho, devem esclarecer o papel dos réus, preparando o julgamento final, no segundo semestre. Condenações podem resultar em até 46 anos de prisão, redefinindo o cenário político.

Os eventos de 8 de janeiro de 2023 são um alerta sobre a fragilidade da democracia. Como jornalista, acredito que a verdade, como defendida por Moraes, deve prevalecer. Como humanista, espero que este capítulo inspire uma sociedade mais justa, onde o respeito às instituições seja inegociável. O desfecho dirá se o Brasil sairá mais forte ou dividido.

Quem viver, verá!

 

Fonte: Brasil 247

 

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