sexta-feira, 13 de junho de 2025

Atentado contra Miguel Uribe: os milhares de adolescentes recrutados para matar por grupos armados na Colômbia

As imagens circularam rapidamente. Um jovem com rosto de criança e cabelos caindo sobre os ombros, vestindo calça jeans e camiseta verde, era imobilizado no chão pela polícia.

Era o momento da prisão do principal suspeito do atentado contra Miguel Uribe Turbay, senador da oposição e pré-candidato à Presidência da Colômbia, baleado no último sábado (07/06) em um ato político, em Bogotá. Ele segue internado em estado gravíssimo.

Horas depois, o presidente colombiano Gustavo Petro confirmou as suspeitas: o autor do ataque seria um adolescente de 15 anos. Ele portava uma pistola Glock 9 milímetros, proveniente dos Estados Unidos.

Trata-se de uma arma semiautomática muito utilizada pelas forças de segurança no mundo todo — e que não está ao alcance de qualquer pessoa.

"O governo distrital já havia identificado a situação de conflito do assassino", disse Petro em um post no X, nesta segunda-feira (09/06), revelando que o menor de idade havia abandonado voluntariamente um programa educativo de paz no passado.

O jornal colombiano El Tiempo informou que, ao ser detido, o adolescente disse que a ordem para atentar contra Miguel Uribe veio de "el hombre de la olla", uma referência a um ponto de venda de drogas na capital colombiana.

As autoridades buscam agora os autores intelectuais do crime, executado por meio de uma prática que se expande na Colômbia: o recrutamento de crianças e adolescentes por grupos armados e organizações criminosas para matar.

Segundo a Defensoria colombiana, 409 crianças e adolescentes foram recrutados em 2024, um aumento em relação aos 342 casos registrados em 2023.

As autoridades reconhecem que os números estão subestimados.

Com décadas de conflito armado e crime organizado, milhares de menores de idade têm sido vítimas da violência na Colômbia, sendo recrutados tanto por cartéis de drogas quanto por guerrilhas esquerdistas, grupos paramilitares e novos atores armados e criminosos.

"Houve até utilização de menores em operações encobertas pelas forças de segurança pública. Todos os atores do conflito recorreram a isso", diz Max Yuri, diretor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade de Antioquia.

<><> Os meninos pistoleiros de Pablo Escobar

Nos anos 80, no auge do terror de Pablo Escobar, muitas crianças e adolescentes passaram a atuar como pistoleiros.

"No entorno do cartel de Medellín, essa prática ficou conhecida como a dos 'suizos', jovens e menores envolvidos em missões suicidas", recorda Jorge Mantilla, doutor em Criminologia da Universidade de Illinois, em Chicago, nos EUA, e consultor de temas como crime, segurança e conflito colombiano.

Um dos pistoleiros mais emblemáticos foi John Arias Tascón, conhecido como "Pinina", e apontado por investigações jornalísticas como um dos "favoritos" e mais próximos de Escobar.

A Pinina são atribuídos vários crimes de repercussão, como o assassinato do então ministro da Justiça, Rodrigo Lara Bonilla, em 1984, o atentado ao voo Avianca 203, que deixou 110 pessoas mortas em 1989, além de uma série de homicídios de políticos, jornalistas, civis e adversários do cartel.

Pinina morreu em 1990, aos 29 anos, durante uma operação policial em Medellín. Acredita-se que ele tenha começado a atuar como pistoleiro aos 15 anos.

Em 22 de março de 1990, outro menino de apenas 14 anos, chamado Andrés Arturo Gutiérrez Maya, matou a tiros o candidato presidencial Bernardo Jaramillo Ossa, da União Patriótica, no aeroporto El Dorado de Bogotá.

Naquela época, três candidatos de esquerda tinham sido assassinados na Colômbia em um intervalo de um ano.

"Outro caso emblemático foi o de Gerardo Gutiérrez, conhecido como Yerry, outro jovem que acabou sendo apontado como o assassino do candidato presidencial Carlos Pizarro Leongómez, da Aliança Democrática M-19", acrescenta Mantilla.

Inicialmente, Escobar foi culpado, mas o narcotráfico negou sua participação no crime.

Segundo o Centro de Memória História, Yerry foi morto por um dos seguranças de Pizarro, que era membro do extinto Departamento Administrativo de Segurança (DAS). Anos mais tarde, o líder do grupo paramilitar Autodefesas Unidas da Colômbia, Carlos Castanho Gil, reconheceu ter treinado o pistoleiro e planejado o assassinato em conluio com setores corruptos do Estado.

O Centro de Memória História reconhece que a Justiça colombiana ainda não esclareceu completamente o crime.

<><> Crianças e adolescentes como arma de guerra

As crianças recrutadas por grupos armados e criminosos geralmente têm uma origem em comum: vêm, em sua maioria, de regiões vulneráveis e de baixa renda, tanto em áreas urbanas quanto em territórios rurais isolados, onde há pouca presença do Estado.

"O recrutamento de menores tem sido impulsionado pelo abandono e exclusão social social de crianças sem proteção, além de brechas legais no sistema jurídico e penal colombiano, no que diz respeito à responsabilização penal de menores", explica Mantilla.

"O sistema penal juvenil é um dos maiores gargalos da Colômbia", acrescenta o especialista.

Há, no entanto, uma diferença importante entre o contexto urbano e o rural.

Enquanto nas cidades os menores entram no crime em busca de ascensão social e econômica, os jovens das áreas rurais são, muitas vezes, recrutados à força por grupos armados, por meio de coerção e ameaças às suas famílias.

"É uma mão de obra barata, fácil de ser substituída. Por sua maleabilidade, muitas vezes são encarregados de atos de terror como esquartejamentos", relata Yuri.

"Nas cidades, também é comum que eles sejam usados no transporte de armas, drogas, venda de narcóticos, cobrança de extorsão, pistolagem e assassinatos", acrescenta.

A Jurisdição Espacial para a Paz (JEP), um órgão de justiça transicional da Colômbia, estima que mais de 18 mil crianças e adolescentes foram recrutados pelas Farc-Ep somente entre 1996 e 2016, ano em que essa guerrilha de esquerda assinou um acordo de paz com o governo colombiano.

Apesar disso, o Estado segue em conflito com outras guerrilhas e grupos armados, como o Exército de Libertação Nacional (ELN), as dissidências das Farc que não aderiram ao acordo, assim como o Exército Gaitanista da Colômbia, conhecido como o "Clã do Golfo", considerado pelo governo como a maior organização criminosa do país.

Isso dificulta medir a real dimensão do fenômeno, embora os números continuem alarmantes e os métodos de recrutamento estejam cada vez mais sofisticados.

Em junho de 2024, a BBC mostrou como grupos armados utilizam plataformas como o TikTok para recrutar crianças em áreas remotas da Colômbia.

<><> O medo diante do aumento dos números

Dos 409 menores recrutados — identificados pela Defensoria da Colômbia —, a maioria (300) é de Cauca.

Essa região é uma das mais problemáticas da Colômbia, sendo um importante polo de cultivo de coca e palco frequente de operações militares.

As outras áreas críticas são Putumayo e Valle del Cauca, onde as condições são similares.

Segundo a Defensoria, o principal recrutador foi a dissidência das Farc, conhecida como Estado Maior Central (EMC), com 135 menores de idade aliciados.

Mantilla diz que alguns dados indicam que o recrutamento forçado pode ter crescido em até 1.200% nos últimos anos, principalmente após a pandemia.

"Sabemos que, na última década, cerca de 13 mil menores foram processados e condenados por esse tipo de delito", disse o pesquisador.

Segundo o jornal El Tiempo, em 2024 foram registrados 1.953 casos de desaparecimento de menores de idade na Colômbia. Desses, mais da metade ainda não foi encontrado.

A informação está baseada em números do Instituto Nacional de Medicina Legal, e uma das hipóteses é que muitos desses desaparecidos foram recrutados à força por grupos armados e criminosos.

¨      Petro afirma que vai ‘congelar’ decreto para convocar consulta popular na Colômbia após episódio com Miguel Uribe

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, vai “congelar” a edição do decreto para a realização de uma consulta popular sobre reformas. A medida foi tomada depois do ataque contra o senador Miguel Uribe, que está internado em estado grave depois de receber três tiros em ato político no último sábado (07/06). De acordo com o Pacto Histórico, coalizão do mandatário, neste momento, o foco será na investigação penal para “produzir um esclarecimento absoluto sobre quem está por trás desses ataques”.

A intenção de Petro foi divulgada nesta segunda-feira (09/06), pelo senador Iván Cepeda, do Pacto Histórico, durante uma sessão da Casa Alta. Em pronunciamento, o congressista afirmou que deverão ser concentrados os esforços na reforma trabalhista que já está sendo discutida no Senado. A ideia é também chegar a uma conciliação e um acordo nacional pelos projetos de reforma.

O projeto de uma consulta foi reprovado pelo Senado, e o presidente afirmou que realizaria a consulta por meio de um decreto.

O mandatário da Colômbia havia proposto a consulta com 12 perguntas, mas a proposta foi derrubada pelo Senado. Em resposta, Petro apresentou outro projeto com 16 perguntas e convocou uma mobilização dos colombianos para pedir apoio à realização da pesquisa. O objetivo seria ouvir a população sobre as reformas trabalhista, da saúde e da aposentadoria.

O presidente também pediu, de maneira enfática, que todos os seus ministros assinem o decreto. “Qualquer ministro que não assinar o decreto presidencial sairá imediatamente. O poder presidencial é o poder do povo”, publicou nas redes sociais.

<><> Acusação de fraude em votação no Senado

A intenção de Petro pode criar uma brecha legal, já que uma consulta nunca foi convocada por decreto anteriormente e precisaria passar pelo Congresso antes de ser implementada. O texto do decreto ainda não era de conhecimento público e estava previsto para ser apresentado nesta quarta-feira (11/06) à Corte Constitucional, que avaliaria a proposta. Por não haver precedente para um decreto de consulta, o caminho jurídico ainda não está claro.

O governo usou essa medida justamente por afirmar que a votação no Senado foi “fraudada” e teve “irregularidades”. Petro usa como argumento o fechamento da votação antes que todos os senadores votassem.

Há também a possibilidade de que qualquer cidadão recorra ao Conselho de Estado para questionar a legalidade do decreto. Trata-se do tribunal administrativo mais importante do país, responsável por fiscalizar qualquer ato administrativo do Poder Executivo. O Conselho pode também determinar medidas cautelares caso aceite uma ação judicial contra o referendo, impedindo a convocação.

O presidente do Senado, Efraim Cepeda, é um dos principais opositores das reformas de Petro e disse que vai denunciar a tentativa do presidente de convocar a consulta por decreto.

“Estou dizendo isso há vários dias e, no momento em que assinarem, se é que assinarão, serão processados ​​imediatamente. Nós o enfrentaremos, o deteremos e o derrotaremos. Esse é um projeto que não foi aprovado pelo Senado, e não há chance alguma de Petro convocar o referendo, afirmou.

O próprio senador Miguel Uribe afirmou que entraria com uma ação judicial contra o decreto.

<><> Reformas estruturais

As reformas propostas por Petro foram apresentadas há dois anos e visam mudanças estruturais. A trabalhista tem como ponto principal o aumento da estabilidade para os trabalhadores, dando prioridade a contratos permanentes, na contramão do que muitos países vêm fazendo nos últimos anos, inclusive o Brasil, que aprovou uma maior flexibilização nos contratos de trabalho.

Na saúde, reduziria a participação privada na gestão de hospitais e postos de saúde. Para Petro, isso reduziria a corrupção no setor, melhoraria o atendimento aos bairros e cidades sem unidades de referência e ampliaria o atendimento primário. A única reforma aprovada foi a da aposentadoria, que começou a valer em 1º de junho, mas ainda é analisada pela Corte Constitucional. O texto muda a forma de contribuição dos trabalhadores dentro do sistema da previdência.

Para transferir essa discussão do Senado para a população, a ideia do governo era realizar uma consulta popular para ouvir em 16 perguntas a opinião da população sobre essas reformas. Se aprovada na consulta, o Executivo e o Legislativo são obrigados a transformá-las em lei, decreto ou resolução. É papel do governo também ampliar os debates das leis aprovadas para adequá-las à Constituição.

<><> Situação de Miguel Uribe

A Fundação Santa Fé, unidade de saúde em que o senador está internado, publicou um novo boletim médico afirmando que Uribe continua em estado grave, mas que, “dentro de uma faixa de complexidade, está estável”. Ainda de acordo com o boletim, os procedimentos mantêm a condição do senador e serão realizadas e serão realizadas para mitigar os impactos das lesões.

Uribe foi atingido por três disparos, dois deles na cabeça e um no joelho, quando discursava em um bairro de Bogotá. Imagens divulgadas nas redes sociais mostram o momento do ataque, em que o senador cai no chão após ser atingido, e depois aparece ensanguentado, sendo socorrido sobre um veículo.

Miguel Uribe é neto de Julio César Turbay, que foi presidente da Colômbia entre 1978 e 1982, e a jornalista Diana Turbay. Embora pertença ao mesmo partido e tenha o mesmo sobrenome do ex-presidente Álvaro Uribe, os dois não possuem parentesco.

Uribe é senador desde 2022. Anteriormente, ele atuou como secretário de governo de Bogotá e se candidatou à prefeitura da capital, pleito no qual foi derrotado em 2019.

¨      A crise política que culminou no atentado contra Miguel Uribe 

Do lado de fora da Fundação Santa Fé de Bogotá, colombianos deixam flores, velas, bandeiras do país e rezam por Miguel Uribe Turbay.

O senador de 39 anos do partido Centro Democrático está internado em estado gravíssimo nessa clínica, após ter sido baleado no sábado (07/06) durante um ato político em Bogotá.

Seu estado de saúde e os motivos da tentativa de homicídio têm deixado o país em suspense. Sabe-se que o suspeito, um jovem menor de idade, foi detido após o crime.

As autoridades trabalham com algumas hipóteses: um ataque ao que Miguel Uribe representa como senador de oposição, ao seu partido político ou até uma tentativa de desestabilizar o governo.

Atentar contra a vida de um pré-candidato à presidência da Colômbia em 2025 é como reabrir uma ferida dolorosa que parecia estar cicatrizada.

Para aqueles que viveram os piores anos da violência política do fim dos anos 80, quando Pablo Escobar estava em guerra contra as instituições públicas, esse atentado lembra aquela sangrenta campanha presidencial de 1989, quando três candidatos foram assassinados em apenas seis meses.

Apesar da barbárie cometida contra Uribe, é precipitado comparar a Colômbia de hoje com a daquela época.

"Se olharmos os dados, não temos mais a ameaça do narcotráfico daquela época. Por mais cruel que tenha sido esse atentado, não estamos mais no nível de submissão do Estado às ondas de violência que tivemos no passado", explica Laura Bonilla, subdiretora da Fundação Paz e Reconciliação (Pares), na Colômbia.

"Mas, sim, chamam atenção algumas semelhanças entre aquela época e a situação atual", acrescenta.

A Colômbia vive hoje uma disputa política tensa, protagonizada pelo confronto entre o governo de esquerda de Gustavo Petro e um amplo setor do Congresso.

O embate gira em torno das reformas propostas pelo presidente, que, em sua maioria, não conseguem consensos necessários para avançar.

Miguel Uribe, político do partido de direita Centro Democrático, critica Petro com frequência.

Tanto seu partido como o ex-presidente e fundador da legenda, Álvaro Uribe Vélez, costumam ser alvos de ataques do presidente contra seus opositores.

A disputa política atingiu um ponto crítico na última semana, que terminou com o país inteiro acompanhando, com apreensão, a luta pela sobrevivência de um político baleado em público.

<><> A polêmica da reforma trabalhista

Depois que a reforma trabalhista de Petro foi derrotada no Congresso em março deste ano, ele tentou lançar uma consulta popular para que o povo colombiano decidisse se apoiava, ou não, suas reformas.

A proposta de plebiscito foi rejeitada pelo Congresso em maio, mas Petro, alegando irregularidades na votação, anunciou que iria convocaria uma consulta popular por meio de um decreto.

A atitude gerou reação imediata da oposição, com vários juristas e especialistas alertando que, no mínimo, a medida poderia violar a ordem constitutional.

Horas antes do atentado, Miguel Uribe escreveu no X que entraria com uma ação judicial contra todos os ministros que assinassem o decreto.

Isso aconteceu logo depois do presidente afirmar, na mesma rede social, que "ministro que não assinar o decreto presidencial, sai do governo na hora".

O já chamado "decretazo" aumentou ainda mais a tensão na última semana.

"A justificativa de Petro não parece convencer muito os especialistas e juristas. Dá a impressão de que ele está ultrapassando os limites no confronto com o Congresso, por mais que já tenha uma retórica agressiva contra ele", disse Yann Basset, cientista político da Universidade de Rosário na Colômbia.

<><> 'Retórica violenta'

O presidente é frequentemente criticado pelas suas longas postagens no X e por suas aparições na TV, em que costuma usar uma linguagem hostil contra seus adversários.

O atentado, mais precisamente, foi utilizado por alguns de seus rivais para criticar seu estilo de governo. Uma das declarações mais fortes veio do exterior.

secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, disse no X que "isso é uma ameaça direta à democracia e resultado da retórica violenta esquerdista vinda dos níveis mais altos do governo colombiano".

Durante seu pronunciamento na noite de sábado, Petro criticou aqueles que, segundo ele, estão politizando a tragédia.

"Também preciso repudiar a tentativa oportunista, baixa, de utilizar a dor da família e do próprio Miguel Uribe Turbay para fins políticos (...) Os padrões do crime repetem os padrões da morte da maioria dos líderes políticos da Colômbia."

O presidente não foi o único a usar as redes sociais para atacar seus opositores.

No caso da reforma trabalhista, enquanto os críticos mais moderados classificaram a consulta popular como inconstitucional, os mais fervorosos acusaram Petro de ser autoritário e "ditador".

"Petro cruza a linha e se torna um ditador! Convocar sua consulta por decreto é um golpe contra a democracia, um abuso de poder escancarado (...) As Forças Armadas da Colômbia devem estar em alerta diante de qualquer ataque à Constituição e à democracia por parte de Petro e seu governo", disse a pré-candidata direitista Vicky Dávilla em uma série de publicações no X entre 3 e 4 de junho.

<><> Um passado traumatizante

Embora alerte que é preciso ter cautela para não tratar o assunto de forma leviana, Laura Bonilla vê no clima político colombiano de 2025 semelhanças com a onda de violência do fim dos anos 80.

"O fato disso acontecer justamente na chegada do primeiro governo de esquerda da Colômbia faz com que, na memória coletiva, o passado venha à tona", explica.

Naqueles fatídicos seis meses entre 1989 e 1990, os três candidatos assassinados eram de esquerda.

O primeiro, Luis Carlos Galán Sarmiento, líder da luta contra o narcotráfico e a corrupção, morreu em 18 de agosto de 1989, após ser baleado por pistoleiros em uma ação atribuída ao cartel de Medellín, com apoio de setores corruptos do Estado.

Menos de um ano depois, em 22 de março e em 26 de abril de 1990, foram assassinados, respectivamente, Bernardo Jaramillo Ossa e Carlos Pizarro Leongómez.

Jaramillo Ossa era membro da União Patriótica, aliança fundada em 1985 por integrantes das Farc-EP e do Partido Comunista Colombiano.

Pizarro Leongómez era candidato da Aliança Democrática M-19, que surgiu a partir da desmobilização da guerrilha esquerdista M-19.

A própria mãe de Miguel Uribe, Diana Turbay, morreu em 1991 durante uma tentativa de resgate, após passar três meses sequestrada por homens comandados por Pablo Escobar.

Mais líderes políticos, jornalistas e civis morreram durante aquela onda de violência, em crimes cometidos por facções tanto de direita quanto de esquerda.

Aqueles anos marcaram o ponto mais crítico de uma história política banhada em sangue na Colômbia, sendo o assassinato do líder Jorge Eliécer Gaitán, em 1948, o desencadeador para muitos episódios de violência e guerra que, por décadas, estigmatizaram o país.

Desde então, políticos, membros das forças de segurança, sindicalistas, ambientalistas e líderes sociais vivem sob frequentes ameaças de morte, pressões e atentados.

A taxa de assassinatos na Colômbia está entre as mais altas da região, junto com Equador, Brasil e Honduras.

Segundo a fundação Insight Crime, dedicada a investigar a segurança na América Latina e Caribe, em 2024 a Colômbia registrou uma taxa de assassinatos de 25,4 por cada 100 mil habitantes, a mais baixa dos últimos quatro anos.

Em 1990, a taxa de homicídios superava 70 por 100 mil habitantes.

Com uma clara tendência de queda, comparar a Colômbia de hoje com a do passado é, no mínimo, precipitado.

Pode-se até argumentar que o simples fato do país ter eleito, há três anos, seu primeiro presidente esquerdista é sinal de amadurecimento democrático.

Mas os dados dificilmente tranquilizarão aqueles que, nos últimos dias, revivem, traumatizados, os fantasmas de um tempo sombrio.

 

Fonte: BBC News Mundo/Opera Mundi

 

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