Censo
2022: Crescimento de sem religião favorece a laicidade nacional
Análise
dos dados do IBGE revela aumento de 7,9% para 9,3% de brasileiros sem religião,
com destaque para o sudeste e RJ, e seu impacto na neutralidade do estado.
Acompanhe
os dados do Censo 2022 que mostram não apenas a mudança entre católicos e
evangélicos, mas principalmente o crescimento de 1,4 % da população sem
religião. Com 16,4 milhões de pessoas, e o Rio de Janeiro com a maior proporção
(16,9%), esse fenômeno é um pilar para o fortalecimento da laicidade estatal e
a garantia de direitos plurais.
O Censo
Demográfico de 2022 trouxe à tona discussões importantes sobre o panorama
religioso brasileiro. A grande mídia, com razão, deu destaque à redução
percentual de católicos apostólicos romanos e ao contínuo crescimento dos
evangélicos, uma tendência já observada em censos anteriores.
No
entanto, um dado igualmente relevante, e muitas vezes subestimado, é o aumento
percentual das pessoas que se declaram sem religião. Essa parcela da população,
que já representa mais de 16 milhões de brasileiros, desempenha um papel
crucial no fortalecimento da laicidade do Estado no longo prazo.
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O que os dados revelam
Os
números do Censo 2022 são claros:
o De 2010 a 2022, a proporção de católicos
apostólicos romanos na população de 10 anos ou mais diminuiu de 65,1% para
56,7%, uma queda de 8,4 pontos percentuais.
o No mesmo período, os evangélicos viram
sua participação crescer de 21,6% para 26,9%, um aumento de 5,2 pontos
percentuais.
o Enquanto isso, a parcela dos que se
declaram sem religião saltou de 7,9% em 2010 para 9,3% em 2022, um crescimento
de 1,4 %. Embora possa parecer modesto em comparação com as oscilações das duas
maiores religiões, esse aumento é constante e significativo, refletindo um
fenômeno social em evolução. Em números absolutos, são 16,4 milhões de pessoas
que se identificam sem religião.
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Perfil e distribuição geográfica
É
interessante notar o perfil demográfico desse grupo: a maioria das pessoas que
se declaram sem religião são homens, representando 56,2% ou 9,2 milhões do
total.
Geograficamente,
a Região Sudeste se destaca, com 10,6% de sua população sem religião, superando
a média nacional e concentrando 7,9 milhões de pessoas. Já a Região Sul
apresenta a menor proporção, com 7,1%. Entre as unidades da federação, Roraima
e Rio de Janeiro lideram com 16,9% de sua população sem religião, enquanto
Piauí (4,3%), Ceará (5,3%) e Minas Gerais (5,7%) registram as menores
proporções.
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A importância do crescimento dos sem religião para a laicidade
O
Brasil é um Estado laico, o que significa que não há uma religião oficial e que
o Estado deve ser imparcial em relação a todas as crenças e descrenças. No
entanto, a influência de grupos religiosos na esfera pública e política ainda é
um tema constante de debate.
O
contínuo crescimento do percentual de pessoas que se declaram sem religião é de
suma importância para o futuro da laicidade brasileira por diversos motivos:
1. Diversidade de Vozes: À medida que mais
pessoas se identificam fora de um arcabouço religioso tradicional, aumenta a
diversidade de perspectivas e demandas na sociedade. Isso pode levar a um maior
questionamento de políticas ou leis que possam ter um viés religioso,
promovendo uma discussão mais abrangente sobre temas como direitos humanos,
educação e saúde pública.
2. Pressão por Neutralidade Estatal: O
aumento de cidadãos sem filiação religiosa fortalece a cobrança por uma atuação
estatal verdadeiramente neutra, desvinculada de dogmas ou interesses de grupos
religiosos específicos. Quanto maior a proporção de indivíduos que não se
identificam com nenhuma fé, menor a legitimidade de discursos que busquem impor
visões religiosas na esfera pública.
3. Diálogo e Respeito: Embora não professem
uma religião, a presença crescente dos sem religião reforça a necessidade de um
diálogo respeitoso e da coexistência pacífica entre diferentes visões de mundo.
Isso contribui para uma sociedade mais tolerante e plural, onde a liberdade de
crença – e de não crença – é plenamente assegurada.
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Olhando para o futuro
Os
dados do Censo 2022 são um lembrete de que a sociedade brasileira é dinâmica e
está em constante transformação.
O
crescimento das pessoas que se declaram sem religião não é apenas um número
estatístico, mas um indicativo de uma mudança cultural que, no longo prazo,
poderá pavimentar o caminho para um fortalecimento ainda maior da laicidade do
Estado, garantindo que os direitos e liberdades de todos os cidadãos,
independentemente de suas convicções ou ausência delas, sejam plenamente
respeitados.
Como
você percebe essa evolução da paisagem religiosa e secular no Brasil?
• “Na Capital gaúcha não se dorme sem
ouvir ao fundo o barulho dos tambores do batuque”
No
Censo de 2010*, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
quase 600 mil pessoas disseram seguir religiões de matriz africana no Brasil –
407 mil praticantes de umbanda, 167 mil do candomblé e 14 mil de outras
religiões, entre elas o batuque. Dos 407.332 brasileiros que se declararam
umbandistas, 140.315 estavam no RS, ou 34,45% do total.
A
população gaúcha, segundo dados de 2019 do Departamento de Economia e
Estatística (DEE) da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG), é
composta por 79% de pessoas brancas e 21% de negras, o segundo menor percentual
de pessoas negras no Brasil. Apesar da predominância branca, o Rio Grande do
Sul tem, proporcionalmente, a maior parcela de fiéis de religiões de matriz
africana entre os estados brasileiros.
No
estado, 1,48% da população declara ser do candomblé, umbanda e de outras
religiões afro-brasileiras. As outras quatro Unidades Federativas no topo da
lista são Rio de Janeiro (0,89%), São Paulo e Bahia (ambos com 0,34%) e o
Distrito Federal (0,22%). O estado tem as 14 cidades com o maior número de
pessoas autodeclaradas seguidoras de cultos de origem africana. Em Cidreira, no
litoral norte, 5,9% da população se declara adepta, o que faz desta cidade do
litoral gaúcho o município com maior proporção de seguidores de religiões
afro-brasileiras do País.
“Na
Capital gaúcha não se dorme sem ouvir ao fundo o barulho dos tambores do
batuque, da umbanda ou da quimbanda”, afirma Baba Diba de Iyemonja, Babalorixá
no Ilê Asé Iyemonjá Omi Olodô, sanitarista, ativista social e presidente do
Conselho do Povo de Terreiro do Rio Grande do Sul.
Números
apresentados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2017,
mostraram que Porto Alegre era a cidade com maior desigualdade entre negros e
brancos no Brasil. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) da
população negra na Capital totalizava 0,705, o da população branca era de 0,833
– diferença de 18,2%, enquanto a média nacional era 14,42%.
Territorialmente,
Porto Alegre também é desigual. Se no passado regiões como o bairro Cidade
Baixa tinham moradores majoritariamente negros, um processo de
desterritorialização, assim chamado por ativistas, embranqueceu as áreas
centrais. “Os terreiros estão em todos os bairros da cidade, com maior
concentração nos bairros periféricos como Partenon, Bom Jesus, Restinga, Lomba
do Pinheiro, Morro Santana, Mário Quintana, Medianeira, Vila Cruzeiro e por aí
vai”, explica Baba Diba.
Essa
migração data dos anos 1960 e, hoje, se vive um movimento de reivindicação dos
territórios negros na cidade. “Desde o início da cidade o povo negro foi
trazido para trabalho escravo e, com eles, sua cultura e seu sagrado que
incorporaram-se ao cotidiano e à linguagem. Esse povo teve sua mão de obra nas
edificações, agricultura e trabalhos domésticos, influindo na gastronomia e na
culinária também”, relata o Babalorixá.
Ele
conta, ainda, que nunca houve um mapeamento sério das casas de religião
afro-brasileiras em Porto Alegre, mas que elas estão presentes em grande
número. Em todo o Rio Grande do Sul, dados de 2010 apontam que há pelo menos 60
mil terreiros.
“A
cultura de matriz africana, e dentro dela as religiosidades que são eixos
fundantes para a cultura, são e estão na cultura de Porto Alegre e do Rio
Grande do Sul. Por óbvio não somos povos originários, fomos povos sequestrados
da África. As casas de religião de matriz africana têm um problema territorial
importante e que faz parte também do racismo fazer com que elas nunca estejam
seguras, fixas e protegidas onde elas se estabelecem. É importante dizer que
faz parte da tradição consagrar os espaços onde se trabalha a religiosidade.
Uma vez consagrada na nossa tradição, é um crime nos retirar deles”, afirma a
cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia, Nina Fola, que também é
parte do povo de terreiro.
O
Mercado Público é um dos poucos locais que resistiu ao processo e permanece até
hoje como referência para as religiões. Na origem de Porto Alegre, ali viviam
os escravos que trabalhavam no porto. No início do século XX, Osuanlele Okizi
Erupê, o príncipe de Ajudá, no Golfo da Guiné, que no Brasil adotou o nome José
Custódio Joaquim de Almeida e ficou conhecido como Príncipe Custódio, um famoso
líder religioso da Capital na virada do século, instalou no local o Bará, orixá
que representa o movimento, a mudança, a virilidade e a sexualidade.
Porém,
o cenário de apagamento pode mudar. Um Projeto de Lei aprovado no final de
setembro pela Câmara de Vereadores da Capital criou o Censo de Inclusão das
Religiões de Matriz Africana no município, que tem entre seus objetivos:
identificar a quantidade e o perfil socioeconômico das pessoas que frequentam e
praticam as religiões de matriz africana, criar o mapeamento das casas de
religião de matriz africana e praticar políticas públicas que sejam
direcionadas a religiões de qualquer credo.
Pela
proposta, de autoria do vereador Cláudio Janta (Solidariedade), serão
realizados censos para a obtenção de dados e para a quantificação, qualificação
e localização das pessoas que frequentam e praticam as religiões. O primeiro
censo deve acontecer em 2024, e os seguintes deverão ser realizados a cada
cinco anos. “Com este projeto, buscamos ter as informações necessárias para
aplicar as políticas públicas e direcioná-las aos povos das religiões de
matrizes africanas, tornando mais igualitários os recursos municipais
destinados às religiões”, explicou o vereador.
Nina
Fola afirma ainda a necessidade de se debater o racismo religioso como parte
intrínseca do preconceito sofrido por pessoas negras no País. “O debate sobre
os terreiros, o povo de matriz africana, para mim, é um caminho para fazer o
debate sobre o racismo no Brasil. A gente não entende que o Brasil tem
intolerância religiosa, a gente entende que o Brasil é racista antinegro e, por
conta de nós carregarmos o mais denso da cultura africana no Brasil, a gente
sofre o racismo religioso duramente. Geralmente com a constante
vulnerabilização dos nossos territórios, com a constante diminuição dos nossos
valores civilizatórios, com a constante ridicularização das nossas formas de
experimentar e viver o mundo”, relata. “Isso foi secularmente sendo trabalhado
e agora é renovado pelas lógicas neoliberais e neopentecostais que têm se
elaborado e se constituído na política, na mídia e na comunicação, regida pelos
pastores e pastoras”, completa.
Fonte:
EcoDebate/Sul 21

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