José
Reinaldo Carvalho: É hora de condenar Bolsonaro e todos os golpistas
O
Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro entrou na reta final de um dos
julgamentos mais decisivos da história recente do Brasil. Na última terça-feira
(10), a Corte Suprema concluiu os interrogatórios dos oito integrantes do que a
Procuradoria-Geral da República identificou como o “núcleo crucial” da
tentativa de golpe de Estado após a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em
2022.
Trata-se
de um processo histórico. Agora, cabe ao Supremo dar uma resposta firme,
pedagógica e inegociável: os golpistas devem ser julgados e condenados — a
começar pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. O julgamento no STF precisa marcar
um divisor de águas contra o golpismo no Brasil e punir exemplarmente os
responsáveis pelo crime mais grave contra o Estado democrático desde a
redemocratização.
Bolsonaro,
que depôs no processo, afirmou com desfaçatez: “Nunca se falou em golpe, golpe
é uma coisa abominável”. A declaração contrasta com as provas já amplamente
conhecidas e revela o esforço inútil de negar o evidente. Durante a oitiva, o
ex-presidente tentou se desvincular do planejamento da ruptura institucional.
Mas o conjunto das provas, os depoimentos de testemunhas e as evidências
documentais desmentem a retórica defensiva. Ele próprio, em diferentes momentos
do depoimento, se incriminou.
É
preciso deixar claro que este julgamento não é — nem pode ser — apenas um
acerto de contas judicial. O que está em jogo é a democracia. A tentativa de
golpe, como a história já demonstrou, não pode ser tratada como episódio
isolado ou erro político. É crime. É atentado contra a Constituição. É violação
deliberada dos pilares do Estado de Direito. E, como tal, deve ser enfrentada
com todo o rigor.
Entre
os réus estão figuras centrais do alto escalão militar e civil da antiga
administração: os generais Paulo Sérgio Nogueira, Braga Netto, Augusto Heleno,
o almirante Almir Garnier, o tenente-coronel Mauro Cid, o ex-ministro da
Justiça Anderson Torres e o ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem. Todos, de
forma direta ou indireta, contribuíram para a conspiração golpista que visava
impedir a posse do presidente Lula, eleito pelo voto popular. Todos devem
responder por seus atos.
Punir
Bolsonaro e os militares golpistas não é um gesto de revanche ou uma decisão
punitivista. É uma exigência histórica, pedagógica e preventiva. É um
compromisso com a democracia que no Brasil ainda é vulnerável e sujeita a
episódios de instabilidade, porque o Estado nacional é ainda presa das espúrias
classes dominantes antidemocráticas. A democracia já foi golpeada em outras
ocasiões, com consequências trágicas para a sociedade brasileira. O Brasil não
pode errar de novo. Não pode tolerar que a ditadura e o desprezo pela soberania
popular voltem a se expressar em ações das forças armadas ou de políticos de
extrema direita em manobras ilegais e golpistas.
A
condenação dos responsáveis também não é um ataque às Forças Armadas como
instituição, mas ao militarismo como tendência política malsã, que significa a
interferência das Forças Armadas na vida política e sua supremacia sobre os
Poderes do Estado republicano. Ao contrário, trata-se de preservar as
instituições militares dentro dos limites constitucionais e adstritas à sua
função precípua que é resguardar o território nacional. O julgamento dos
generais e ex-ministros militares envolvidos é uma reafirmação de que não se
admite a tutela militar sobre a vida política.
É
importante também compreender que este processo é parte de um esforço maior de
reafirmação das instituições democráticas brasileiras. O próprio rito seguido
pelo Supremo, com todas as garantias legais asseguradas aos réus, demonstra o
compromisso do Judiciário no caso em tela com o devido processo legal.
A
decisão do STF terá repercussões profundas: definirá não apenas o destino dos
acusados, mas o grau de maturidade da democracia no Brasil. Se forem
condenados, como indicam os elementos dos autos, será uma vitória do povo
brasileiro, do voto, da legalidade. Se forem absolvidos, apesar das provas,
será uma derrota civilizatória.
O STF
não está apenas julgando um grupo de conspiradores e golpistas. Ao condená-los
estará ratificando a capacidade do povo brasileiro de dizer que o país não
tolerará mais aventuras autoritárias. O golpe foi derrotado em 2022 pelo voto
popular. Agora deve ser enterrado de vez pela sentença da Justiça.
• Lenio Streck: Tentativa de fuga de Cid é
"indício" de que golpistas preparam novo "ataque"
O
jurista Lenio Streck esteve no Fórum Onze e Meia desta sexta-feira (13) para
comentar sobre a prisão do ex-ministro do Turismo Gilson Machado, acusado de
tentar ajudar o ex-tenente-coronel Mauro Cid, investigado no Supremo Tribunal
Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado, a emitir um passaporte.
Após a
prisão de Machado, o ministro Alexandre de Moraes chegou a decretar a prisão de
Mauro Cid, mas revogou a decisão logo depois, ordenando que o ex-ajudante de
ordens de Jair Bolsonaro (PL) fosse ouvido pela Polícia Federal (PF).
Para
Streck, essa possível fuga de Cid ajuda o processo contra Bolsonaro e outros
réus da trama golpista pois é um indício de que os acusados estão apenas
fazendo uma "pausa" para "voltarem ao ataque".
"Portanto, as instituições precisam estar atentas", afirmou Streck.
O
jurista ainda acrescentou que esse cenário não prejudica o processo, pelo
contrário, pode até ajudar ao apontar "argumentos simbólicos do perigo que
essa gente representa". A possível fuga de Cid também demonstra que o
ex-tenente-coronel, apesar de ter ganhado benefícios por ser delator, continuou
conspirando contra as investigações do STF. Isso alerta, segundo Streck, para o
"grau de periculosidade de todo esse grupo que tentou o golpe de
Estado".
Em
relação à viagem da família de Cid aos Estados Unidos, o que motivou o pedido
de prisão feito pela Procuradoria-Geral da República (PGR), Streck esclareceu
que as investigações contra o ex-tenente-coronel não se estendem aos seus
familiares, que têm direito de viajar, mas que tudo depende do contexto em que
os fatos estão inseridos. "Os fatos sempre são fatos em relação a alguma
coisa. Fatos são textos em contexto. Por isso que o fato de alguém escrever com
batom 'perdeu mané', em si, não quer dizer nada. No contexto, é um crime",
afirmou Streck. "Então, nesse caso, a viagem da família é nada e
tudo", acrescentou.
O
jurista também alertou que as investigações contra Machado podem apresentar
"muitas surpresas", pois devem indicar os nomes de quem ordenou a
fuga de Mauro Cid.
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"Viés de confirmação"
Ele
também explicou que o fato de Moraes ter suspendido o pedido de prisão de Cid é
um "viés de confirmação" de que o ex-tenente-coronel tem mais coisas
para delatar ao STF. "Porque para você revogar é porque tem algo que se
coloca como um fator de manutenção de vantagens. Porque se você prende, você
tira vantagens", disse o jurista. Portanto, o cenário indica a
possibilidade de uma nova delação ou de informações que serão anexadas à antiga
delação de Cid.
Por
fim, Streck afirmou que a análise dos próximos cenários irá depender de como
Cid irá sair do depoimento desta tarde. "Se o Cid continuar com
tornozeleira em casa é porque ele entregou algo. Se ele for preso, é porque
talvez não tenha entregado nada", disse.
• “Está claro que o próximo a fugir é
Bolsonaro”, diz Rogério Correia
O
deputado federal Rogério Correia (PT-MG) pediu nesta sexta-feira (13) que
medidas sejam tomadas para evitar a fuga do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Correia citou uma série de acontecimentos recentes que, segundo ele, provam que
Bolsonaro pode tentar escapar da prisão iminente por tentativa de golpe de
Estado.
O
deputado citou como exemplo a fuga da deputada federal Carla Zambelli (PL-SP)
para a Itália e a tentativa de obtenção de um passaporte português para o
ex-ajudante de ordens Mauro Cid, além das articulações feitas por Eduardo
Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos.
“Está
claro que vai haver uma fuga coletiva e o próximo a fugir é Jair Messias
Bolsonaro. Já pedi ao STF que ele seja proibido de se ausentar de Brasília e de
se aproximar das embaixadas e tornozeleira eletrônica”, disse Correia
“As
provas são inegáveis. Precisamos garantir que os réus estejam frente a frente
com a justiça e enfrentem a consequência dos seus atos”, completou.
• Eventual anulação da delação de Mauro
Cid não invalida provas, avalia cúpula da PF
Nesta
sexta-feira (13), Cid prestou novo depoimento à PF no inquérito que apura uma
tentativa de obtenção de passaporte português, com o suposto objetivo de
facilitar sua fuga do país. Ele também foi questionado sobre o uso de um perfil
no Instagram para se comunicar com um aliado de Bolsonaro — algo que ele negara
ao Supremo Tribunal Federal no início da semana, mas que foi revelado em
reportagem da revista Veja.
Segundo
o advogado de um dos principais réus do caso, a eventual revogação do acordo de
colaboração não afeta as provas obtidas com base nas informações fornecidas por
Cid. “A única coisa que muda nesse processo, se a colaboração cair, são os
benefícios do colaborador. Isso enfraquece a veracidade das declarações do Cid,
mas as provas colhidas a partir do acordo continuam válidas e hígidas”,
declarou.
Os
benefícios obtidos por Cid incluem: pena máxima de dois anos de prisão,
devolução de bens apreendidos e extensão de garantias para o pai, a esposa e a
filha. O acordo também prevê ações da Polícia Federal para garantir a segurança
de Cid e seus familiares, bem como medidas de proteção ao sigilo da
colaboração. Com a delação sob risco, é o próprio ex-ajudante de ordens quem
mais teria a perder, segundo outro defensor que atua no processo.
“O
Supremo pode anular a delação, mas os ministros vão dizer que a delação foi
apenas um caminho na busca por provas, e que existem provas autônomas que
provam a culpa dos réus. O Cid é quem mais tem a perder com a divulgação das
mensagens. Delação é meio de obtenção de prova. Se você obteve a prova, isso
não invalida as provas”, avaliou o advogado, de acordo com a reportagem.
Homologado
em setembro de 2023 pelo ministro Alexandre de Moraes, o acordo de colaboração
firmado entre Cid e a PF não foi bem recebido pela Procuradoria-Geral da
República (PGR) na época. Um membro do órgão, ouvido sob reserva, classificou o
acerto como excessivamente benéfico ao militar. “Verdade seja dita, o acordo
com Cid foi muito premiado. Era para ele ter abraçado isso como um
pára-quedas”, declarou. E completou: “Em delações premiadas o acordo é com o
Leão. Se você não cumpre sua parte, só você perde.”
Na
delação, que embasou a denúncia da PGR contra Jair Bolsonaro, Walter Braga
Netto e outras 32 pessoas por tentativa de golpe de Estado, Cid comprometeu-se
a “esclarecer espontaneamente todos os crimes que praticou, participou ou tenha
conhecimento”, a “falar a verdade incondicionalmente” e a entregar toda a
documentação, incluindo arquivos digitais, em seu poder ou sob custódia de
terceiros.
Fonte:
Brasi 247/Fórum

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