quinta-feira, 19 de junho de 2025

João Paulo Cunha: A militância de esquerda e Lula têm 2 desafios à frente

Os horizontes encurtaram. Os militantes de esquerda no Brasil enfrentam 2 desafios importantes: um mais filosófico e universal, e outro mais prático e concreto. O 1º diz respeito ao desaparecimento da utopia, que sempre nos motivou a seguir em frente, unindo pessoas e orientando nossas ações.

A utopia —aquele sonho coletivo que transcende o presente e a mera sobrevivência— parece ter sido eclipsada por um pragmatismo frio, muitas vezes cínico, que reduz ao imediato. Sem utopia, a política se torna apenas gestão de problemas e a militância corre o risco de ser sugada para o redemoinho das disputas cotidianas, muitas vezes esvaziadas de propósito maior. Lembro do companheiro Luiz Gushiken (1950-2013), quase em pregação, dizendo: precisamos de um objetivo nobre que atraia multidões em sua direção. Era uma forma simples de pedir uma utopia para nos inspirar.

Essa perda da utopia no horizonte traz consequências: em vez de trabalhar com base em valores transformadores –como justiça social, fraternidade, igualdade e democracia–, a luta política acaba se resumindo a uma série de batalhas táticas por conquistas fragmentadas. O que deveria ser um meio vira um fim em si mesmo. A política fica mais técnica, e o militante passa a ser um gestor de crises. Nesse cenário, a sociedade justa e fraterna, entendida como um projeto histórico e ético (com a compreensão extensa e ampla que se tem), torna-se cada vez mais uma palavra esquecida ou risível, quando não tratada apenas como um ideal nostálgico.

O 2º desafio é cotidiano e concreto: 2 anos e meio depois da vitória eleitoral que derrotou o projeto autoritário de Jair Bolsonaro, o Brasil democrático vive um período de cansaço emocional. O governo Lula 3 conseguiu avançar com programas importantes, retomou políticas públicas essenciais, tem tido sucesso na economia e reposicionou o país no cenário internacional. Mesmo assim, há um incômodo crescente —e esse sentimento vem, em grande parte, da esquerda e dos setores democráticos que apostaram (e ainda acreditam) nessa reconstrução.

O governo é correto, mas não consegue despertar paixão. É eficiente em várias áreas, mas parece sem alma. Faz o que precisa, mas não consegue envolver as pessoas. Uma dúvida comum que ouvimos nas ruas, nas universidades e entre os congressistas é: por que esse governo parece não ter uma marca forte ou uma narrativa envolvente? Por que não consegue criar entusiasmo? Por que não apresenta, de forma clara e coordenada, um projeto para o país?

A resposta não está apenas na comunicação, no estilo do presidente ou na equipe que não consegue inovar, embora esses fatores tenham sua importância. O que realmente está em jogo é algo mais profundo: o enfraquecimento da estrutura do poder político no Brasil, principalmente do Executivo.

Lula governa, mas sem controle pleno do Orçamento. Anuncia programas, mas depende da boa vontade do Congresso para colocá-los em prática. Sua liderança é menor do que a de seus governos anteriores, pois o país está institucionalmente paralisado. Nesse cenário de desordem, sua capacidade de conduzir o país fica comprometida, já que faltam instrumentos reais de poder, além da resistência da elite brasileira e de suas empresas de comunicação.

Hoje em dia, quem realmente controla o Orçamento federal é o Congresso Nacional. As emendas parlamentares impositivas capturaram uma grande parte dos recursos públicos. Isso não é necessariamente um problema por si só, mas precisamos reconhecer que o Orçamento virou um mosaico de interesses regionais, com pouca conexão com um projeto nacional.

Nesse cenário, o presidente da República acaba atuando quase como um gestor de interesses fragmentados, tentando equilibrar tudo sem conseguir coordenar um projeto nacional para o país. A função principal do Executivo —planejar, coordenar e implementar políticas públicas essenciais— ficou bastante enfraquecida e perdeu sua essência.

Por outro lado, o STF (Supremo Tribunal Federal) parece ter assumido um papel que antes era do povo. Passou a atuar como uma espécie de protagonista político, intervindo em temas como direitos civis, liberdade de expressão, disputas por terras, meio ambiente e povos indígenas, além de regular as redes sociais e combater a desinformação.

Durante o governo do Bolsonaro, especialmente na luta contra a tentativa de golpe do 8 de Janeiro, essa atuação foi fundamental. Mas agora, em um momento em que as instituições estão mais estáveis, essa presença forte do STF começa a sufocar a política. Parece que os tribunais passaram a ocupar um espaço que antes era das ruas.

Essa ampliação do poder do Judiciário e do Legislativo ocorre ao mesmo tempo em que as pessoas se afastam cada vez mais da política. A falta de interesse e engajamento é algo preocupante. Não há manifestações, grandes movimentos ou esperança no horizonte. Muitas pessoas olham para o governo e pensam: “É mais do mesmo”. No geral, aparentam um sentimento de déjà-vu.

Esse desânimo não é algo apolítico —na realidade, é uma resposta política. É uma reação à desconexão entre o governo, as instituições —especialmente os partidos políticos— e a sociedade.

O problema é que o sistema realmente está funcionando de maneira disfuncional. Nosso presidencialismo perdeu força, o Congresso parece governar sem muita responsabilidade e o Judiciário acaba legislando e julgando ao mesmo tempo —enquanto a população se sente excluída de tudo isso. A democracia brasileira virou uma estrutura que ainda está de pé, mas vazia por dentro. Como alguém já disse: “As luzes estão acesas, mas ninguém está em casa”.

Se o governo Lula quiser virar o jogo, precisa reagir. Precisa de uma nova narrativa, uma agenda política que envolva e mobilize o país. Deve encarar, com coragem, temas como a reforma do Orçamento, especialmente a questão da injustiça tributária, as emendas impositivas e os limites do poder judicial. E, acima de tudo, precisa reconstruir pontes com a sociedade, ouvir de verdade a população, convocar os movimentos sociais, dar um sentido político e simbólico às suas ações e mostrar paixão por aquilo que faz. Carece de sonhos.

Se isso não acontecer, o governo pode até estar tecnicamente correto, mas vai se tornar cada vez menos relevante politicamente. E o Brasil continuará buscando uma utopia, desejos imediatos, mesmo vivendo numa democracia onde muitas pessoas se sentem pouco representadas. Como sabemos, democracias que perdem a conexão com a população não demoram a cair nas mãos dos que querem destruí-la.

Que Deus nos proteja!

¨      A via Tarcísio para o fascismo. Por Jeferson Miola

O avanço do julgamento do Bolsonaro na Ação Penal da trama golpista antecipa a definição do posicionamento da extrema-direita para a eleição de 2026. Ele deverá ser condenado por unanimidade no STF e encaminhado à prisão antes do final deste ano.

Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e capitão do Exército, tem tudo para ser ungido como candidato bolsonarista à Presidência liderando o bloco da direita e extrema-direita fascista.

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Na entrevista de Flávio Bolsonaro à Folha de São Paulo [14/6], foi a primeira vez que um integrante do clã admitiu que Bolsonaro não poderá ser candidato em 2026.

Flávio considerou que uma dobradinha Michelle-Tarcísio ou Tarcísio-Michelle “é uma chapa imbatível”.

O primogênito deixou claro que a família deverá “apoiar alguém que banque a anistia ou o indulto”. Flávio disse ainda que, uma vez na Presidência, o apoiado por Bolsonaro deve até mesmo usar a “força” para fazer o STF engolir o indulto. Leia-se por força, evidentemente, a Força Armada.

“Certamente o candidato que o presidente Bolsonaro vai apoiar vai ter que ter esse compromisso, sim”, disse.

De olho na bênção do Bolsonaro, os governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema já se apressaram em anunciar que, eleitos, decretariam o indulto do Bolsonaro e comparsas da organização criminosa armada que tentou o golpe de Estado.

Tarcísio ainda não se manifestou publicamente, mas seus aliados entendem que indultar Bolsonaro “não seria constrangimento” para ele.

No comício da Paulista em 16 de março, Tarcísio discursou que “a gente está aqui para pedir, lutar e mostrar que todos estamos juntos para exigir anistia daqueles inocentes que receberam penas desarrazoadas”. E desafiou: “Quero ver quem vai ter coragem de se opor” à anistia dos criminosos.

Tarcísio é o único pré-candidato que foi indicado por Bolsonaro como testemunha de defesa. No depoimento, repetiu a miragem de que não houve tentativa de golpe.

Bolsonaro tem consciência de que a inelegibilidade é irreversível e que sua prisão é iminente. Mesmo assim, no entanto, continua bravateando que será candidato para não perder influência no xadrez político-eleitoral do bloco da direita e ultradireita.

Bolsonaro sabe, também, que uma chapa puro-sangue do extremismo não vingaria. E que uma chapa encabeçada por alguém com o sobrenome Bolsonaro, como Michelle, Eduardo e Flávio teria potencial eleitoral mais estreito.

Por outro lado, nenhuma candidatura de direita teria competitividade eleitoral sozinha, sem a mística, a militância e o apoio bolsonarista e, ainda, sem a adesão clara do Bolsonaro.

A chapa dos sonhos do clã seria Tarcísio com Michele de vice. Mas essa hipótese pode esbarrar na pretensão de partidos satélites do bolsonarismo.

O PSD do Kassab, por exemplo, que já atou seu destino ao de Tarcísio, poderá disputar a indicação de Eduardo Leite ou Ratinho Júnior para o posto de vice, emprestando um falso verniz democrático-civilizado à chapa bolsonarista.

Tarcísio já não tem o poder para desistir da candidatura presidencial, pois ele representa a aposta anti-Lula mais competitiva das oligarquias parasitárias que pouco se importam por afundarem o país mais fundo no abismo fascista enquanto se locupletam aprofundando o roubo do orçamento da União e dos fundos públicos.

O rentismo, o poder econômico, o agronegócio, a mídia hegemônica, o fundamentalismo religioso e todo o campo reacionário-conservador aumentaram fortemente a pressão pela candidatura dele.

O capitão do Exército Tarcísio de Freitas é a via renovada para o fascismo. Ele representa um experimento mais articulado e melhor estruturado que aquele horroroso do período fascista-militar com Bolsonaro.

Com seu modelo de polícias assassinas, escolas cívico-militares, privilégios fiscais e tributários, privatizações, desmonte do SUS e políticas clientelísticas, o governo de São Paulo é um laboratório incubador para o avanço desse projeto tem âmbito nacional.

No plano internacional, Tarcísio se alinha ideologicamente à Internacional Fascista: justifica o holocausto palestino promovido pelo regime nazi-sionista de Israel, e apóia todas políticas desastrosas de Donald Trump.

O indulto para recompensar Bolsonaro pelos crimes contra o Estado de Direito beneficiaria, também, os camaradas de farda de Tarcísio, os notórios conspiradores das cúpulas partidarizadas das Forças Armadas.

 

Fonte: Brasil 247

 

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