João
Paulo Cunha: A militância de esquerda e Lula têm 2 desafios à frente
Os
horizontes encurtaram. Os militantes de esquerda no Brasil enfrentam 2 desafios
importantes: um mais filosófico e universal, e outro mais prático e concreto. O
1º diz respeito ao desaparecimento da utopia, que sempre nos motivou a seguir
em frente, unindo pessoas e orientando nossas ações.
A utopia —aquele
sonho coletivo que transcende o presente e a mera sobrevivência— parece ter
sido eclipsada por um pragmatismo frio, muitas vezes cínico, que reduz ao
imediato. Sem utopia, a política se torna apenas gestão de problemas e a militância
corre o risco de ser sugada para o redemoinho das disputas cotidianas, muitas
vezes esvaziadas de propósito maior. Lembro do companheiro Luiz Gushiken
(1950-2013), quase em pregação, dizendo: precisamos de um objetivo nobre que
atraia multidões em sua direção. Era uma forma simples de pedir uma utopia para
nos inspirar.
Essa
perda da utopia no horizonte traz consequências: em vez de trabalhar com base
em valores transformadores –como justiça social, fraternidade, igualdade e
democracia–, a luta política acaba se resumindo a uma série de batalhas táticas
por conquistas fragmentadas. O que deveria ser um meio vira um fim em si mesmo.
A política fica mais técnica, e o militante passa a ser um gestor de crises.
Nesse cenário, a sociedade justa e fraterna, entendida como um projeto
histórico e ético (com a compreensão extensa e ampla que se tem), torna-se cada
vez mais uma palavra esquecida ou risível, quando não tratada apenas como um
ideal nostálgico.
O 2º
desafio é cotidiano e concreto: 2 anos e meio depois da vitória eleitoral que
derrotou o projeto autoritário de Jair Bolsonaro, o Brasil
democrático vive um período de cansaço emocional. O governo Lula 3 conseguiu
avançar com programas importantes, retomou políticas públicas essenciais, tem
tido sucesso na economia e reposicionou o país no cenário internacional. Mesmo
assim, há um incômodo crescente —e esse sentimento vem, em grande parte, da esquerda
e dos setores democráticos que apostaram (e ainda acreditam) nessa
reconstrução.
O
governo é correto, mas não consegue despertar paixão. É eficiente em várias
áreas, mas parece sem alma. Faz o que precisa, mas não consegue envolver as
pessoas. Uma dúvida comum que ouvimos nas ruas, nas universidades e entre os
congressistas é: por que esse governo parece não ter uma marca forte ou uma
narrativa envolvente? Por que não consegue criar entusiasmo? Por que não
apresenta, de forma clara e coordenada, um projeto para o país?
A
resposta não está apenas na comunicação, no estilo do presidente ou na equipe
que não consegue inovar, embora esses fatores tenham sua importância. O que
realmente está em jogo é algo mais profundo: o enfraquecimento da estrutura do
poder político no Brasil, principalmente do Executivo.
Lula
governa, mas sem controle pleno do Orçamento. Anuncia programas, mas depende da
boa vontade do Congresso para colocá-los em prática. Sua liderança é menor do
que a de seus governos anteriores, pois o país está institucionalmente
paralisado. Nesse cenário de desordem, sua capacidade de conduzir o país fica
comprometida, já que faltam instrumentos reais de poder, além da resistência da
elite brasileira e de suas empresas de comunicação.
Hoje em
dia, quem realmente controla o Orçamento federal é o Congresso Nacional. As
emendas parlamentares impositivas capturaram uma grande parte dos recursos
públicos. Isso não é necessariamente um problema por si só, mas precisamos
reconhecer que o Orçamento virou um mosaico de interesses regionais, com pouca
conexão com um projeto nacional.
Nesse
cenário, o presidente da República acaba atuando quase como um gestor de
interesses fragmentados, tentando equilibrar tudo sem conseguir coordenar um
projeto nacional para o país. A função principal do Executivo —planejar,
coordenar e implementar políticas públicas essenciais— ficou bastante
enfraquecida e perdeu sua essência.
Por
outro lado, o STF (Supremo Tribunal Federal) parece ter assumido um papel que
antes era do povo. Passou a atuar como uma espécie de protagonista político,
intervindo em temas como direitos civis, liberdade de expressão, disputas por
terras, meio ambiente e povos indígenas, além de regular as redes sociais e
combater a desinformação.
Durante
o governo do Bolsonaro, especialmente na luta contra a tentativa de golpe do 8
de Janeiro, essa atuação foi fundamental. Mas agora, em um momento em que as
instituições estão mais estáveis, essa presença forte do STF começa a sufocar a
política. Parece que os tribunais passaram a ocupar um espaço que antes era das
ruas.
Essa
ampliação do poder do Judiciário e do Legislativo ocorre ao mesmo tempo em que
as pessoas se afastam cada vez mais da política. A falta de interesse e
engajamento é algo preocupante. Não há manifestações, grandes movimentos ou
esperança no horizonte. Muitas pessoas olham para o governo e pensam: “É
mais do mesmo”. No geral, aparentam um sentimento de déjà-vu.
Esse
desânimo não é algo apolítico —na realidade, é uma resposta política. É uma
reação à desconexão entre o governo, as instituições —especialmente os partidos
políticos— e a sociedade.
O
problema é que o sistema realmente está funcionando de maneira disfuncional.
Nosso presidencialismo perdeu força, o Congresso parece governar sem muita
responsabilidade e o Judiciário acaba legislando e julgando ao mesmo tempo
—enquanto a população se sente excluída de tudo isso. A democracia brasileira
virou uma estrutura que ainda está de pé, mas vazia por dentro. Como alguém já
disse: “As luzes estão acesas, mas ninguém está em casa”.
Se o
governo Lula quiser virar o jogo, precisa reagir. Precisa de uma nova
narrativa, uma agenda política que envolva e mobilize o país. Deve encarar, com
coragem, temas como a reforma do Orçamento, especialmente a questão da
injustiça tributária, as emendas impositivas e os limites do poder judicial. E,
acima de tudo, precisa reconstruir pontes com a sociedade, ouvir de verdade a
população, convocar os movimentos sociais, dar um sentido político e simbólico
às suas ações e mostrar paixão por aquilo que faz. Carece de sonhos.
Se isso
não acontecer, o governo pode até estar tecnicamente correto, mas vai se tornar
cada vez menos relevante politicamente. E o Brasil continuará buscando uma
utopia, desejos imediatos, mesmo vivendo numa democracia onde muitas pessoas se
sentem pouco representadas. Como sabemos, democracias que perdem a conexão com
a população não demoram a cair nas mãos dos que querem destruí-la.
Que
Deus nos proteja!
¨
A via Tarcísio para o fascismo. Por Jeferson Miola
O
avanço do julgamento do Bolsonaro na Ação Penal da trama golpista antecipa a
definição do posicionamento da extrema-direita para a eleição de 2026. Ele
deverá ser condenado por unanimidade no STF e encaminhado à prisão antes do
final deste ano.
Tarcísio
de Freitas, governador de São Paulo e capitão do Exército, tem tudo para ser
ungido como candidato bolsonarista à Presidência liderando o bloco da direita e
extrema-direita fascista.
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Na
entrevista de Flávio Bolsonaro à Folha de São Paulo [14/6], foi a primeira vez
que um integrante do clã admitiu que Bolsonaro não poderá ser candidato em
2026.
Flávio
considerou que uma dobradinha Michelle-Tarcísio ou Tarcísio-Michelle “é uma
chapa imbatível”.
O
primogênito deixou claro que a família deverá “apoiar alguém que banque a
anistia ou o indulto”. Flávio disse ainda que, uma vez na Presidência, o
apoiado por Bolsonaro deve até mesmo usar a “força” para fazer o STF engolir o
indulto. Leia-se por força, evidentemente, a Força Armada.
“Certamente
o candidato que o presidente Bolsonaro vai apoiar vai ter que ter esse
compromisso, sim”, disse.
De olho
na bênção do Bolsonaro, os governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema já se
apressaram em anunciar que, eleitos, decretariam o indulto do Bolsonaro e
comparsas da organização criminosa armada que tentou o golpe de Estado.
Tarcísio
ainda não se manifestou publicamente, mas seus aliados entendem que indultar
Bolsonaro “não seria constrangimento” para ele.
No
comício da Paulista em 16 de março, Tarcísio discursou que “a gente está aqui
para pedir, lutar e mostrar que todos estamos juntos para exigir anistia
daqueles inocentes que receberam penas desarrazoadas”. E desafiou: “Quero ver
quem vai ter coragem de se opor” à anistia dos criminosos.
Tarcísio
é o único pré-candidato que foi indicado por Bolsonaro como testemunha de
defesa. No depoimento, repetiu a miragem de que não houve tentativa de golpe.
Bolsonaro
tem consciência de que a inelegibilidade é irreversível e que sua prisão é
iminente. Mesmo assim, no entanto, continua bravateando que será candidato para
não perder influência no xadrez político-eleitoral do bloco da direita e
ultradireita.
Bolsonaro
sabe, também, que uma chapa puro-sangue do extremismo não vingaria. E que uma
chapa encabeçada por alguém com o sobrenome Bolsonaro, como Michelle, Eduardo e
Flávio teria potencial eleitoral mais estreito.
Por
outro lado, nenhuma candidatura de direita teria competitividade eleitoral
sozinha, sem a mística, a militância e o apoio bolsonarista e, ainda, sem a
adesão clara do Bolsonaro.
A chapa
dos sonhos do clã seria Tarcísio com Michele de vice. Mas essa hipótese pode
esbarrar na pretensão de partidos satélites do bolsonarismo.
O PSD
do Kassab, por exemplo, que já atou seu destino ao de Tarcísio, poderá disputar
a indicação de Eduardo Leite ou Ratinho Júnior para o posto de vice,
emprestando um falso verniz democrático-civilizado à chapa bolsonarista.
Tarcísio
já não tem o poder para desistir da candidatura presidencial, pois ele
representa a aposta anti-Lula mais competitiva das oligarquias parasitárias que
pouco se importam por afundarem o país mais fundo no abismo fascista enquanto
se locupletam aprofundando o roubo do orçamento da União e dos fundos públicos.
O
rentismo, o poder econômico, o agronegócio, a mídia hegemônica, o
fundamentalismo religioso e todo o campo reacionário-conservador aumentaram
fortemente a pressão pela candidatura dele.
O
capitão do Exército Tarcísio de Freitas é a via renovada para o fascismo. Ele
representa um experimento mais articulado e melhor estruturado que aquele
horroroso do período fascista-militar com Bolsonaro.
Com seu
modelo de polícias assassinas, escolas cívico-militares, privilégios fiscais e
tributários, privatizações, desmonte do SUS e políticas clientelísticas, o
governo de São Paulo é um laboratório incubador para o avanço desse projeto tem
âmbito nacional.
No
plano internacional, Tarcísio se alinha ideologicamente à Internacional
Fascista: justifica o holocausto palestino promovido pelo regime nazi-sionista
de Israel, e apóia todas políticas desastrosas de Donald Trump.
O
indulto para recompensar Bolsonaro pelos crimes contra o Estado de Direito
beneficiaria, também, os camaradas de farda de Tarcísio, os notórios
conspiradores das cúpulas partidarizadas das Forças Armadas.
Fonte:
Brasil 247

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