Invasão
Zero ensina táticas de guerrilha e violência contra indígenas e sem-terra em
fórum na Bahia
ESTRATÉGIAS
DE CONFRONTO contra indígenas e sem-terra marcaram o primeiro Fórum Nacional do
Movimento Invasão Zero (MIZ) – grupo formado para assessorar produtores rurais
envolvidos em disputas por terra. O evento foi realizado no último sábado (7)
em um hotel à beira-mar em Ilhéus, na Bahia.
Investigado
pela Polícia Federal sob suspeita de atuar como milícia rural e qualificado por
uma Relatoria da ONU como “movimento armado”, o grupo defendeu no fórum ações
ilegais de despejo e destruição de acampamentos rurais, associou movimentos
sociais a práticas criminosas e incentivou fazendeiros a reagirem com
agressividade em disputas por terra.
“Tocou
fogo em moto, tocou fogo em tudo que tinha deles e botou tudo para correr,
porque bandido se trata assim”, afirmou o deputado federal Coronel Meira
(PL-PE), ao descrever uma ação de fazendeiros contra ocupantes de terra em
Pernambuco. “Bandido bom é bandido morto”, disse o parlamentar.
Na
plateia havia dezenas de pessoas – cerca de 280, segundo a organização –, entre
fazendeiros, vereadores, deputados estaduais e federais. No palco, discursos
que trataram o MST como “organização criminosa”, indígenas como “falsos índios”
e ocupações como “terrorismo”.
As
declarações eram permeadas também por estratégias sobre como não gerar provas
nas ações. O deputado federal Marcos Pollon (PL-MS), por exemplo, que também é
advogado e atua em disputas judiciais por terra há mais de 20 anos, recomendou
aos produtores que evitem se manifestar de maneira ostensiva nas redes sociais,
para não prejudicar sua defesa legal. “A narrativa é a primeira guerra que você
vai ter que vencer”, afirmou o parlamentar.
“Se
você tem um perfil nas redes sociais que fala que vai matar todo mundo, vai
atirar nos outros, um perfil beligerante, ainda que você tenha atuado em um
cenário de legítima defesa, o que acontece? Você vai ter essas manifestações
expostas pelo Ministério Público no seu júri, o que é muito prejudicial. Então,
mantenha o perfil baixo, não seja agressivo”, ensinou.
Líder
do movimento Proarmas, o parlamentar abordou até a distinção entre o direito à
propriedade e direito à vida, e como um produtor deve se comportar diante
disso. “Você dizer que vai utilizar meios letais para defender a propriedade
rural, tecnicamente, está errado”, disse. “Sempre quando você defende a posse e
a propriedade, você está utilizando meios não letais para fazê-lo. A única
autorização que você terá para utilizar meios potencialmente letais é se
eventualmente a sua integridade física ou a de terceiro foi colocada em
perigo”, continuou.
Para o
parlamentar, é importante evitar problemas judiciais para garantir a
propriedade da terra. “Depois que judicializou, no atual cenário, é muito
complexo você retomar a posse da sua área”, disse. “O pessoal distorce o que a
gente fala dizendo que nós incentivamos a atirar nas outras pessoas e não é
esse o objetivo.”
Durante
as mais de quatro horas de evento, os palestrantes ignoraram o assassinato da
liderança indígena Nega Pataxó, morta a tiros em janeiro de 2024 no sul da
Bahia. O crime foi atribuído a uma ação de cerca de 200 fazendeiros, com
participação de policiais militares, segundo investigação da PF
A
vítima, liderança do povo Pataxó Hã-hã-hãe, foi atingida por um tiro disparado
por José Eugênio Fernandes Amoedo, de 21 anos, filho de um fazendeiro. O
Invasão Zero é investigado como articulador da ofensiva.
Amoedo
foi solto após sete meses de prisão preventiva. A decisão judicial reconheceu
que ele confessou ter portado a arma e efetuado os disparos, mas considerou que
não havia persistência do conflito e que ele era réu primário.
O
fundador e coordenador do grupo, Luiz Uaquim, celebrou a libertação à época: “A
liberdade de Eugênio representa a nossa liberdade”, declarou em vídeo obtido
pela Repórter Brasil.
A
coordenadora nacional do movimento, Dida Souza, chamou os indígenas de
“falsos”. “A Bahia está acabando porque hoje qualquer um pinta o rosto,
qualquer um bota um cocar na cabeça e diz que é índio. Nós temos que dar um
basta. Existe um grupo de fake índio que está acabando com a Bahia”.
O
assassinato de Nega Pataxó não foi caso isolado. Desde 2012, o povo Pataxó
Hã-hã-hãe contabiliza 32 mortes violentas. A Polícia Federal conduz o inquérito
sobre o assassinato de Nega Pataxó e investiga o Invasão Zero por suspeita de
formação de milícia rural. Testemunhas relataram à PF que policiais militares
facilitaram a ação de fazendeiros armados contra indígenas.
O
Ministério Público Federal, que acompanha o caso, vê indícios de que o grupo
atua como um “esquema paramilitar financiado por grandes latifundiários” e
cobra medidas urgentes do Estado para conter a escalada de violência. Em nota
conjunta com defensorias públicas, divulgada em fevereiro de 2024, o MPF
apontou a existência de uma milícia policial no sul da Bahia ligada à repressão
de retomadas de terra por povos indígenas.
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Radicais com o pé na areia
O fórum
foi realizado no hotel Praia do Sol, à beira-mar, e serviu também para
fortalecer a identidade do grupo: bonés e camisetas com a marca Invasão Zero
foram vendidos ao longo do dia.
Entre
os discursos foi feita uma defesa explícita do chamado “desforço imediato” —
retomada da posse de terra sem ordem judicial. Já para a Defensoria Pública da
União na Bahia, a tátitca é ilegal e sem respaldo da Justiça, realizada por um
grupo de “gênese criminosa”.
A CPT
(Comissão Pastoral da Terra) compara o Invasão Zero à União Democrática
Ruralista (UDR) fundada na década de 1980 pelo atual governador de Goiás,
Ronaldo Caiado (União Brasil). Segundo a pastoral, a nova roupagem do antigo
movimento ruralista “vem coordenando a organização dos grupos armados para
atacar as famílias em luta”.
No
Caderno de Conflitos do Campo Brasil 2023, a CPT apontou que o grupo utiliza
táticas de agitação contra povos e movimentos sociais, como o fechamento de
estradas, a colocação de outdoors com mensagens hostis e campanhas em redes
sociais. O objetivo, segundo a entidade, é propagar desinformação e
deslegitimar os direitos indígenas ao negar sua ancestralidade.
“Nós
somos tachados como violentos, mas os mortos estão sempre do nosso lado”,
afirma Evanildo Costa, representante da direção nacional do MST na Bahia. Ele
cobra uma atuação mais firme do poder público na investigação dos responsáveis
pela violência no campo.
Costa
também compara o Invasão Zero a uma versão atualizada da antiga UDR,
classificando-o como uma organização criminosa. “Além dos fazendeiros, seus
membros estão infiltrados em prefeituras, assembleias legislativas, no
Congresso e nas forças policiais”, denuncia.
O
dirigente do MST também critica a postura dos governos petistas, tanto no
âmbito federal quanto estadual, e exige mais coragem para enfrentar a pressão
dos setores ruralistas. “Não queremos alimentar esse conflito, pois ele
favorece o ambiente de violência que impulsiona políticos de extrema direita,
que se elegem explorando essa tensão”, conclui.
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Grupo afirma agir dentro da legalidade
Procurado
pela Repórter Brasil, o MIZ afirmou que “jamais será um movimento de milícia” e
que “nunca agiu em defesa da propriedade sem a presença da Polícia Militar”. A
organização declarou que todas as ações são realizadas dentro da legalidade e
que os grupos que eventualmente agem de forma independente devem responder por
seus próprios atos.
Sobre o
uso do chamado “desforço imediato”, o grupo disse que “é lei e um direito de
todos”, mas reforçou que não interfere em reintegrações determinadas pela
Justiça.
A
respeito da morte da liderança indígena Nega Pataxó, o movimento alegou que não
teve participação na ação que resultou no crime e atribuiu a ofensiva a
produtores locais que, segundo o grupo, “apenas usaram o grupo de WhatsApp do
MIZ de Itapetinga para solicitar ajuda”. O Invasão Zero afirmou ter fornecido
às autoridades todas as publicações feitas em redes sociais.
Em
relação à comemoração da soltura de José Eugênio Fernandes Amoedo, autor do
disparo que matou a indígena, pelo fundador do MIZ, a alegação foi de que houve
um “equívoco” e negou que o acusado seja integrante da organização. Afirmou
ainda que cabe à Justiça apurar se houve legítima defesa.
Sobre
as acusações do Ministério Público Federal, que vê o grupo como parte de um
“esquema paramilitar financiado por grandes latifundiários”, o Invasão Zero
respondeu que funciona com contribuição espontânea de R$ 20 e comparou sua
estrutura à do MST: “A diferença é que um é de invasores e o outro, de
produtores”. Leia as respostas na íntegra.
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Movimento é ‘desprezível’, segundo relatora da ONU
Durante
visita oficial ao Brasil em abril de 2024, a relatora da ONU Mary Lawlor
reuniu-se com o cacique Nailton Muniz Pataxó Hã-hã-hãe em Salvador (BA), onde
ouviu relatos diretos sobre a ação do Invasão Zero na morte de sua irmã, Nega
Pataxó.
Ela
qualificou o movimento como “desprezível” e expressou profunda preocupação com
o uso de grupos armados para reprimir retomadas, alertando que os ataques estão
se intensificando.
Em seu
relatório final, apresentado ao Conselho de Direitos Humanos em Genebra, na
Suíça, em março, Lawlor reforçou que há “fortes indícios de financiamento de
grupos armados e articulação em rede nacional”. Ela pediu que o governo “se
mova de forma mais rápida, mais ampla e mais direta”, especialmente priorizando
a remoção de invasores, demarcação de territórios e responsabilização por
crimes ambientais, sob o risco de a impunidade levar à repetição contínua
dessas violações
“Se é
desprezível, ela (Lawlor) não deve se preocupar. Quanto ao fato de chamar o MIZ
de grupo armado, ela poderá ser indiciada por falsa acusação”, respondeu o
movimento.
O CNDH
(Conselho Nacional de Direitos Humanos) criou um Grupo de Trabalho para
investigar a violência e a criminalização contra movimentos sociais no campo,
com foco em ações de grupos como o Invasão Zero.
A
equipe conta com representantes da Defensoria Pública da União, da Ouvidoria
Agrária Nacional e de comissões voltadas à defesa dos povos indígenas,
quilombolas e de trabalhadores rurais em áreas de conflito.
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Ofensiva no Legislativo
Além
das ações no campo, o Invasão Zero articula uma ofensiva legislativa no
Congresso. Atualmente são 38 projetos de lei diretamente ligados ao movimento,
quase todos assinados por parlamentares do Partido Liberal (PL), segundo
levantamento realizado pelo Najup (Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária
Popular) da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ.
Essas
propostas incluem transformar ocupações de terra em crime hediondo, impedir que
os chamados “invasores” recebam benefícios sociais ou participem de concursos
públicos, além de proibir que o Estado adquira alimentos produzidos por
assentamentos.
Há
ainda projetos que autorizam a polícia a realizar despejos apenas com a
apresentação de um título de posse, sem necessidade de decisão judicial,
ampliando a possibilidade de repressão sumária contra ocupações. Outros preveem
a responsabilização de autoridades por “omissão” e a suspensão da titulação de
terras quilombolas.
Durante
o fórum, foi apresentado pelo deputado estadual Leandro de Jesus (PL-BA) o
plano Alerta Rural, que inclui botão de pânico, geolocalização e um mapa de
propriedades para “antecipar ações terroristas do MST”. Ao acionar o botão, a
vizinhança cadastrada e a direção do Invasão Zero serão alertadas por WhatsApp
e SMS.
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Coordenadora tem dívida milionária com a União
Apesar
de se apresentar como defensora da legalidade, a coordenadora nacional do
grupo, Dida Souza, acumula R$ 25,9 milhões em dívidas com a União, segundo a
Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. Ela é herdeira de um império de terras
de cacau e gado no sul da Bahia.
Questionado
sobre a dívida, o grupo respondeu: ‘Dever não é crime, crime é invadir
propriedade’. O grupo também alegou desconhecer o débito.
O
movimento, criado em março de 2023, afirma ter mais de 15 mil associados e
presença em pelo menos 200 municípios. Atua por meio de núcleos regionais e
grupos de WhatsApp, nos quais são coordenadas ações para desocupar e impedir
ocupações de terra. A cartilha interna do grupo orienta a coleta de informações
sobre supostas invasões, acionamento de produtores vizinhos e mobilização antes
da chegada da polícia.
A
articulação política do Invasão Zero inspirou a criação de uma frente
parlamentar informal no Congresso, comandada pelo deputado federal Zucco
(PL-RS). Quando foi lançada, em março de 2023, contou com a participação do
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O movimento também se espalha por
assembleias legislativas estaduais. Já há frentes informais com o nome do grupo
em Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
• Comunidade é atacada por grupos armados
no sudeste do Pará
A
comunidade Irmã Dorothy, na antiga Fazenda Chama, zona rural de Breu Branco,
sudeste do Pará, viveu um final de semana de terror e tensão. Famílias
agricultoras acampadas que vivem há mais de 8 anos na área foram atacadas por
grupos armados, que destruíram casas, plantações e utensílios, com o objetivo
de expulsá-los de suas terras.
“Uma
fartura de alimento destruída: o paiol de arroz, além de muitas abóboras
grandes, mandioca. Foi tudo destruído pela motosserra e pelo fogo. É muita
crueldade”, lamentou um dos representantes da comunidade, enquanto registrava
as imagens. Até os chiqueiros onde as famílias criavam pequenos animais foram
destruídos e provocaram a fuga dos porcos.
Mesmo
diante da violência e dos danos, a comunidade resistiu e exigiu a presença da
DECA (Delegacia de Conflitos Agrários), que passou o domingo na área colhendo
depoimentos e tentando conter o conflito. As famílias estavam acompanhadas de
advogado e de representantes do movimento.
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Comunidade atacada foi cadastrada pelo Incra em maio
A
comunidade exige ação imediata do governo, que tem sido omisso em não proceder
com a regularização fundiária e a Reforma Agrária. No último dia 20 de maio, o
INCRA concluiu o cadastro das 55 famílias acampadas na comunidade Irmã Dorothy.
As famílias resistem desde 2017 em uma área pública estadual marcada por
conflitos permanentes.
“Não
podemos aceitar mais sangue derramado no campo por causa da omissão do Estado e
da demora na Reforma Agrária. Exigimos medidas imediatas para garantir a
segurança e o direito à terra dessas famílias, que só querem viver e produzir
em paz”, afirma a Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura
Familiar (Fetraf).
Terra
para quem nela vive, trabalha e produz!
Chega
de violência!
Reforma
Agrária Já!
Fonte:
Reporter Brasil/CPT

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