Fissuras
na máquina de deportação de Trump?
Casa
Branca reprime brutalmente protestos contra as expulsões, em Los Angeles. É preciso
entender como país expandiu sua lista de indesejáveis e utiliza a mídia para
criar clima de terror (e forçar autodeportações). Quais caminhos de
resistência?
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LEIA A ENTREVISTA:
·
Patrick Iber: O governo Trump transformou os imigrantes
em uma categoria de indesejáveis sobre a qual pode projetar problemas sociais.
A conta oficial da Casa Branca no X divulgou um “vídeo ASMR” de deportados com
algemas. Eles estão estabelecendo campos em Guantánamo e outras bases militares
e enviando solicitantes de asilo para países com os quais não têm nenhuma
conexão. Mesmo assim, até agora, o número de deportados não é muito maior do
que sob o governo Obama. Então, o que está acontecendo — e para onde devemos
esperar que as coisas caminhem?
Dara
Lind: Eu penso nos esforços que visam à deportação em massa como um plano
coordenado. Um eixo é o quanto uma medida expande o alcance e a capacidade da
fiscalização federal de imigração. Seria legal para o governo federal tentar
deportar todos que estivessem nos Estados Unidos sem autorização a qualquer
momento nos últimos vinte e tantos anos. Mas a capacidade, os recursos
logísticos e a vontade política para fazer isso nunca existiram. Esforços para
ampliar a capacidade de detenção, ou para aumentar o alcance dos voos de
deportação e o número de países para os quais alguém pode ser enviado, elevam o
limite de quantas pessoas podem ser inseridas e processadas pela máquina de
deportação. O outro eixo é o quanto de cobertura midiática um esforço gera.
Isso satisfaz a base, dando às pessoas que se sentem injustiçadas a sensação de
que conquistaram uma vitória significativa. E mesmo que o governo não consiga
expandir totalmente o alcance da máquina federal, ele pode deixar as pessoas
com medo o suficiente para que não mandem seus filhos à escola ou não irem
trabalhar. Quer esses imigrantes “se autodeportem” ou não, tais esforços os
isolam em comunidades onde estão socialmente integrados há anos, mesmo que não
legalmente. Você pode mapear várias coisas que o governo fez até agora no
segundo eixo. O “czar da fronteira” Tom Homan deu grande atenção a operações de
fiscalização em cidades democratas onde poucas prisões ocorreram, em parte
porque os treinamentos de “conheça seus direitos” foram extremamente bem-sucedidos
— as pessoas sabem não abrir a porta e exigir um mandado assinado por um juiz.
Isso aumenta a cobertura da mídia, mas não faz muito para expandir a
capacidade, enquanto a criação de espaços de detenção em bases militares não
necessariamente gera cobertura, mas aumenta a capacidade.
Omar
Jadwat: Havia muita especulação antes da posse sobre até que ponto o governo
estava interessado em cada um desses eixos. Agora parece que eles estão indo
atrás dos dois. Eles não parecem particularmente preocupados em evitar a
remoção de pessoas vistas favoravelmente pelo público. Havia muita conversa
sobre perseguir criminosos, mas eles não estão realmente escondendo que estão
mirando um grande número de pessoas que vieram para cá a convite do governo dos
EUA com autorização, ainda que não o tipo de autorização que o governo Trump
considera suficiente, como os programas de solicitantes de asilo de
administrações anteriores.
Lind:
Em vez de limitar sua atuação às pessoas que prometeram atingir, eles estão
usando políticas para ampliar o número de pessoas que podem ser removidas e que
podem ser vistas como criminosas. Isso ocorre tanto na retórica — a secretária
de imprensa da Casa Branca disse que, para eles, todos os migrantes
indocumentados são criminosos — quanto nas alavancas políticas que estão
usando, como designar grupos criminosos venezuelanos como organizações
terroristas estrangeiras, abrindo assim a porta para tratar todos os
venezuelanos como inimigos estrangeiros.
·
Iber: Podemos nos aprofundar no tratamento do governo ao
Status de Proteção Temporária (TPS)? Há grupos de pessoas com TPS que, como
Omar disse, foram basicamente convidados pelo governo dos EUA devido às
condições em seus países de origem — alguns dos quais têm conexões com a
política dos EUA, pelo menos historicamente, como na América Central. Parece
que o governo Trump quer fechar esses caminhos, mesmo para pessoas que não
violaram nenhuma lei nos Estados Unidos.
Lind:
Penso muito nas pessoas que vieram aos EUA pelo programa de liberdade
condicional da era Biden, aberto a venezuelanos no outono de 2022 (e depois a
cubanos, nicaraguenses e haitianos). Dezenas de milhares vieram. Então, no
verão de 2023, o governo Biden redesignou o TPS, permitindo que pessoas que
ainda não tinham o status, mas estavam no país, se inscrevessem. Elas vieram
com proteções e depois migraram para outra forma de proteção. O governo Biden
tomou medidas de última hora para estender o TPS a essas pessoas, mas o governo
Trump considerou a ação ilegítima e anunciou que elas perderiam seu status em
abril. Minha dificuldade é saber o quanto é importante destacar as pessoas que
seguem a lei dos EUA à risca. Por um lado, a posição moderada defende que não
importa se alguém é um imigrante “bom” ou “ruim”; os EUA têm a obrigação de ser
o mais acolhedores possível, simplesmente por ser uma potência regional e
global. Por outro, os falcões, mesmo quando dizem preferir imigrantes “legais”
em vez de “ilegais”, estão realmente preocupados com mudanças demográficas e
culturais. JD Vance disse durante a campanha que não se importava que o governo
Biden tivesse legalizado haitianos recentes, porque, para ele, ainda eram
ilegais. Do ponto de vista da educação pública, é importante entender quantas
pessoas sem autorização ou removíveis estão tentando cumprir as regras do
governo dos EUA. Por outro lado, não sei o que isso nos traz, porque parece que
todos discutem o status legal de forma instrumental, sem realmente acreditar
nele.
Jadwat:
Deveria haver relevância legal no que o governo, em várias administrações,
disse ou fez —tanto para o público quanto para as pessoas diretamente afetadas
por esses programas. Não se trata de merecimento individual, mas da ideia de
que o governo não pode fazer promessas sobre questões tão graves e abrangentes
para migrantes e depois puxar o tapete. Para mim, isso ilustra o que é
inaceitável nas ações desta administração — sem deixar de reconhecer que outras
pessoas que vivem aqui há muito tempo também têm motivos para temer a máquina
de deportação.
Lind: O
termo jurídico relevante aqui é “interesse de confiança”. O governo faz
promessas e oferece previsibilidade em processos assim, e quando muda as
regras, abre espaço para contestação legal. Neste caso, falamos de pessoas
muitas vezes integradas socialmente. O fato de já terem que decidir suas vidas
em prazos de 18 meses nunca foi ideal. Mas ainda é melhor do que dizer: “Você
planejava ficar até o outono de 2025 porque o governo autorizou em janeiro, mas
agora, em fevereiro, dizemos que você tem que sair até abril.” A estrutura
legal dos EUA permite questionar isso com base no prejuízo causado.
·
Iber: Você vê isso como parte da estratégia deliberada do
governo Trump para consolidar poder dentro do executivo e moldar a população
dos EUA em uma direção que lhe seja favorável?
Jadwat:
Há muita discricionariedade executiva incorporada em nossa lei de imigração.
Mas isso não é suficiente para esta administração conseguir o que quer. Dara
está absolutamente certa que, em teoria, seria legal para qualquer
administração anterior decidir remover todos que estão no país ilegalmente. O
problema do governo Trump é que as restrições, tanto práticas quanto legais,
são enormes. Na minha visão, é impossível fazer o que eles querem sem violar
várias leis no processo. Este é um problema que eles enfrentam em outras áreas
políticas também.
Lind:
Desde o início do primeiro mandato de Trump até hoje, seus aliados ficaram mais
conscientes de como acionar as alavancas de poder dentro do executivo para
alcançar os objetivos desejados. Veja a diferença entre a primeira proibição de
viagens em 2017, por exemplo, e as iterações subsequentes mais sofisticadas, ou
sua descoberta em 2019 de que poderiam usar protocolos de proteção ao migrante
para o programa Permaneça no México. Ou seu entendimento de que precisam atuar
contra os escritórios de assessoria jurídica em várias agências, que poderiam
ser um obstáculo para políticas vindas da Casa Branca. Essas táticas estão mais
desenvolvidas agora.
·
Iber: A popularidade de Trump parece estar caindo. Mas
também parece claro que muitas pessoas concordavam com Trump que havia
problemas no sistema de imigração. Direcionar essa insatisfação e raiva
dependia de quais informações estavam recebendo e como entendiam o sistema
político dos EUA. Mas uma forte reação anti-imigrante levando pessoas para a
direita certamente não é exclusiva dos Estados Unidos. Como pensamos sobre os
direitos que as pessoas têm quando estão no país diante da complicada política
doméstica? O eleitorado favorável a políticas pró-migrantes pode não coincidir
com a população votante.
Lind:
Discordo da leitura maximalista de que a imigração tem sido a ponta de lança
levando pessoas a apoiar a direita, em vez de ser uma questão chave para
pessoas que já estão firmemente à direita neste momento. É difícil separar
pessoas cuja principal preocupação é imigração, mudança cultural ou estado de
direito. Algumas pessoas que geralmente sentem que as coisas estão indo na
direção errada apontam para a imigração, porque a questão é destacada por
eventos noticiosos —especificamente com números crescentes de detenções ou
imagens de grandes grupos de pessoas. Muitos eleitores com médio e alto nível
de informação pensam sobre imigração em termos de política e mensagens. Mas
muito poucas pessoas sabem tanto sobre o sistema de imigração quanto pensam que
sabem. Há uma certa transferência de responsabilidade cívica para o âmbito da
estratégia política. As pessoas provavelmente teriam uma atitude diferente
sobre o que elas mesmas poderiam fazer se entendessem mais sobre como o sistema
funciona e quem está tentando proteger e acolher as pessoas. Em vez disso, elas
estão tendo conversas sobre como conquistar potencialmente outros.
Jadwat:
O governo Biden fez muito pouco para mudar o discurso sobre imigração. Desde o
primeiro dia, adotaram o mantra de “não venham para os Estados Unidos”, e
mediram a política de imigração da administração por meio de imagens —
reduzindo o número de manchetes sobre crise e fotos de pessoas na fronteira. De
certo modo, estavam fadados ao fracasso usando este ponto. O governo Trump
tinha o mesmo problema, mas tinha uma resposta, que era fazer mais do que já
estava fazendo. O governo Biden mudou várias políticas da primeira
administração Trump, embora talvez não tantas quanto poderia, mas nunca fez uma
tentativa séria de transmitir uma mensagem diferente.
·
Iber: O que os eleitores deveriam saber sobre o sistema
de imigração?
Lind:
Fiquei feliz que focamos no TPS como caso emblemático. Demorou, mas a imagem do
“imigrante não autorizado modelo” mudou de um homem mexicano solteiro em busca
de trabalho para uma família centro-americana buscando asilo. Na última meia
década, essa imagem se tornou muito mais global. Muitas dessas pessoas vêm
através do TPS: elas estão de certa forma cumprindo as regras com o governo e
presas no acúmulo de pedidos de asilo. Isso deveria mudar nosso entendimento
sobre se a culpa é delas ou do sistema. Mas a falta de resposta política faz
sentido. Pessoas no sistema de imigração não são eleitoras, e a naturalização é
a única coisa que o governo dos EUA prioriza como um processo tranquilo e
acelerado, então cidadãos naturalizados que agora podem votar tiveram uma
experiência final mais positiva com o sistema de imigração americano. Parte
disso se deve à carga administrativa. Mas muitas pessoas elegíveis para
autorizações de trabalho sob os programas de liberdade condicional da era Biden
nunca as solicitaram. Isso é uma falha do governo em comunicar. Também
significa que há ortunidades ao alcance da mão em termos de divulgação e
prestação de serviços básicos. E há uma questão mais ampla sobre como seria
realmente acolher as pessoas. Por exemplo, se estamos falando de pessoas que
não podem se sustentar, isso significaria uma ajuda mútua mais intensa? Esses
caminhos em grande parte não foram explorados, em parte porque as pessoas não
vêm pensando nos problemas do sistema atual além do fato de ser ruim quando a ICE
invade casas para deportar pessoas.
Jadwat:
Há muitas coisas contra-intuitivas e difíceis de entender no sistema de
imigração. No nível macro, há uma tendência a pensar que existe uma dicotomia
entre, por um lado, fechar a fronteira e deportar todos, e por outro, não ter
controles migratórios. Muitos dirão que obviamente é mais complicado que isso,
mas não conseguem explicar como ou porquê. E é um sistema complicado e bizarro.
Quando aprendo sobre uma nova parte da lei de imigração, nunca é exatamente o
que eu esperava.
·
Iber: Essas leis foram escritas para muitos momentos
diferentes. As condições mudaram drasticamente no mundo, e a lei não acompanha
essas mudanças. É isso que você está enfrentando?
Jadwat:
Sim, embora eu não tenha certeza se as leis eram sensatas mesmo quando foram
escritas. Muitos presidentes buscaram maneiras de contorná-las. Mas muitas
coisas que o governo Trump está tentando contornar não são estranhas ou
complicadas. Se você vem a este país buscando proteção contra perseguição, tem
direito, sob a lei atual, a um nível mínimo de triagem para verificar se isso é
verdade. Isso parece bastante básico. Muitas pessoas, eu inclusive, diriam que
o sistema atual não faz o suficiente para determinar se você realmente precisa
de proteção. Se, no final das contas, você pode ser enviado de volta a um lugar
onde pode ser perseguido, torturado ou morto, uma triagem mínima deveria
garantir uma investigação mais aprofundada. É isso que a lei deveria
proporcionar. Mas administrações sucessivas — Trump 1, Biden e agora Trump 2 —
disseram: “Não podemos nem fazer essa investigação mínima.” Agora, o governo
Trump está dizendo que não vai avaliar nenhum solicitante de asilo por esse
padrão. Eles não estão fazendo nenhuma triagem efetiva ou oferecendo as
proteções mais elementares. Não estamos falando de fronteiras abertas ou
fechadas. Estamos falando se o governo Trump vai prestar atenção às
necessidades de vida ou morte das pessoas quando buscam proteção neste país. No
momento, a resposta é não — independentemente do que a lei diz, e
independentemente do que as pessoas comuns acham que é a coisa decente a fazer.
·
Iber: Eles estão arriscando uma reação? A opinião pública
americana mudou significativamente em direção pró-imigração durante o primeiro
governo Trump, em parte em torno da questão de separar menores de suas
famílias. Então, como Dara disse, eles se adaptaram forçando as pessoas a
esperar no México ou na América Central, longe da atenção da mídia americana.
Mas recentemente vi reportagens da Guatemala e do Panamá destacando histórias
de pessoas que enfrentam perigos reais de tortura e morte se forem devolvidas:
soldados que desertaram do exército venezuelano. Iranianos que se converteram
ao cristianismo. Se essas histórias se tornassem de conhecimento comum, haveria
outra mudança na forma como os americanos percebem o que está acontecendo?
Lind:
Tenho uma leitura impopular sobre o que aconteceu com a separação familiar em
2018: foi um sucesso catastrófico. O governo Trump recuou completamente por
causa da reação pública e de ações judiciais. Mas eles tinham opções que não
perseguiram. O movimento profissional pelos direitos dos imigrantes olhou para
isso e disse: “Enquanto pudermos deixar claro que pessoas reais estão sofrendo
e sendo prejudicadas, nós ganhamos.” O público em geral olhou e disse: “É ruim
quando agentes de imigração literalmente arrancam crianças dos braços dos
pais.” E houve uma cobertura enorme sobre o Permaneça no México — por exemplo,
sobre pais enviando seus filhos sozinhos pelo Rio Grande porque estariam mais
seguros nos EUA do que em Matamoros. Muito da marginalização de grupos como o
meu e o do Omar no debate em Washington resulta da percepção de que a única
música que tocamos é: “É ruim, e as pessoas sofrerão.” Isso criou uma
oportunidade para centristas serem os adultos na sala e dizer: “Uma certa
quantidade de sofrimento é necessária para ter uma política realmente madura.”
Isso é um problema legítimo em termos de como fazemos boas políticas. Omar
acabou de levantar o assunto do medo crível para solicitantes de asilo; toda
essa política foi projetada para cumprir com a obrigação legal internacional
de non-refoulement, que é uma obrigação absoluta. Não é que você
deva cometer menos erros ao deportar pessoas; é que você não pode deportar
ninguém que será perseguido. É muito difícil fazer políticas baseadas nesse
princípio, porque muito da formulação de políticas é sobre pesar prioridades. A
lição da opinião pública termostática é que muitas pessoas não têm posições bem
consideradas sobre o assunto. Isso não significa necessariamente que os valores
não estejam lá. Mas projetar com sucesso os valores para ativar as pessoas em
um ambiente particular com um conjunto específico de fatos é algo em que sou
pessimista.
·
Iber: Omar, você compartilha essa descrição pessimista do
estado das coisas?
Jadwat:
É justo dizer que o movimento pelos direitos dos imigrantes, de modo geral, não
conseguiu converter a simpatia real do público em uma resposta política eficaz
ou mudança de políticas. Os pró-imigrantes precisam fazer um trabalho melhor
nisso. Mas não é questão de alguns workshops de mensagens. Vai muito além de
uma solução rápida e fácil. O fato de não termos vencido esta batalha não
significa que os dados estão lançados. Quando você apresenta às pessoas de
forma honesta e direta perguntas sobre onde este país deveria estar, as
respostas não são o que estamos vendo do governo Trump. Pode não ser onde está
o grupo pró-imigrante mediano também, mas é um erro pensar que o que estamos
vendo agora reflete onde o público geralmente está.
Lind:
Eu absolutamente não acho que os dados estão lançados. Em vez disso, desde 2016
ou 2017, tanto a #resistência mainstream de centro-esquerda quanto os
autoidentificados esquerdistas desenvolveram um romance por mudança social em
larga escala através de formas de mobilização em massa e educação em massa. Mas
imigração não é como outras questões. Você não pode começar pequeno da mesma
forma. Você não pode pressionar atores do setor privado a carregar o peso da
mudança social e política. Você não pode legalizar pessoas no nível local.
Então, enquanto muitos concordam que a política federal de imigração está longe
de onde queremos que esteja e que mudanças abrangentes são necessárias, é uma
manobra de baixa probabilidade e alta recompensa gerar com sucesso uma
mobilização em massa. Estou tentando aproveitar qualquer oportunidade onde
pareça que as pessoas possam querer aprender mais, ou possam estar interessadas
em canalizar indignação momentânea em energia organizacional. É nisso que estou
focada, em vez de esperar que marchas nas ruas nos salvem.
Jadwat:
Eu acho importante pensar também em organização local. As políticas de
santuário que tanto incomodam o governo Trump surgiram de um movimento. Foi
extremamente difícil convencer xerifes e autoridades locais a manter a ICE fora
de suas cadeias. A classe profissional de defensores da imigração teria dito, e
acho que disse às pessoas: “De todas as pessoas para defender, você vai começar
com alienígenas criminosos?” Mas as pessoas em suas comunidades decidiram que
faz uma grande diferença se qualquer interação com a polícia pode terminar em
um caso de deportação. Então eles travaram uma luta muito difícil, local por
local. Não tiveram sucesso em todos os lugares, mas há centenas dessas
políticas em vigor em todo o país porque as pessoas se organizaram no nível
local. Não era sobre marchar, embora talvez às vezes tenham marchado. Mas
continua sendo um exemplo incrivelmente bem-sucedido de trabalho liderado em
grande parte por grupos comunitários. E como você pode ver pelas reclamações do
governo Trump, essa política continua fazendo uma grande diferença na vida das
pessoas, mesmo que a imigração esteja em grande parte sob controle do governo
federal.
·
Iber: O que a esquerda deveria estar pensando e fazendo
diferente no futuro para ser mais inteligente e eficaz nesta área política?
Lind:
Meu exemplo preferido de sucesso organizacional sob o governo Biden aconteceu
quando o governador do Texas Greg Abbott começou a enviar ônibus de migrantes
para a Filadélfia. Ele já estava enviando ônibus para Washington, D.C. e Nova
York, então os riscos eram claros: ônibus cheios de pessoas sem onde dormir e
poucos laços comunitários. Então o governo local e organizações comunitárias da
Filadélfia garantiram que o primeiro ônibus de migrantes fosse recebido por
pessoas que tinham sapatos de verdade para eles, passes de ônibus, uma rede de
lugares onde poderiam passar a noite e que poderiam ajudá-los a encontrar
serviços jurídicos na cidade. Na Filadélfia, você nunca teve a má imagem que
acabou tendo em Nova York ou Chicago. Foi em uma escala muito menor, mas é um
lembrete de que, embora grandes grupos de migrantes sejam uma imagem muito
poderosa para ativar opiniões agressivas e ansiosas, uma operação de
acolhimento e integração bem-sucedida evita que essas imagens surjam e é
legitimamente boa para as pessoas. O outro lado disso, claro, é garantir que as
pessoas não tenham muito medo de participar em suas comunidades. Ser um
consumidor responsável de notícias inclui não exagerar as coisas.
·
Iber: Você quer dizer que as pessoas ainda podem ir para
as ruas e se envolver na forma de organização comunitária — que esses caminhos
ainda não estão fechados?
Lind:
Em um ambiente onde é difícil corrigir desinformação e as pessoas dependem de
conexões confiáveis para obter informações corretas, é difícil prever quem vai
ouvir o que você diz. E mesmo que você não esteja falando com alguém em risco
imediato de deportação, há uma responsabilidade de pensar sobre essa
possibilidade. Mas podemos substituir parte da ansiedade sobre mensagens por
esforços para garantir que as pessoas estejam recebendo as informações de que
precisam.
Jadwat:
O governo Trump está colocando uma enorme pressão sobre governos estaduais e
locais para ajudar a mirar comunidades imigrantes em lugares como reuniões de
conselhos escolares ou câmaras municipais. Pense em um funcionário escolar
local que está recebendo pressão de ordens executivas ameaçadoras e declarações
do Departamento de Justiça sobre como você não pode proteger pessoas
indocumentadas; eles estão se perguntando se precisam instituir uma política
que diga que a ICE é bem-vinda a entrar na sala de aula, e pode haver também
membros da comunidade reforçando essa mensagem em suas reuniões do conselho
escolar. É essencial que haja uma voz forte do outro lado que lembre a esse
funcionário sua obrigação de servir todos os seus alunos, e a importância de
quaisquer políticas municipais já existentes. Lembrar-lhes que todos os alunos
têm direito a uma educação pública igualitária, independentemente do status
migratório. Em muitos casos, funcionários públicos ou autoridades que nunca
pensaram sobre imigração no trabalho serão confrontados com a questão. Garantir
que eles recebam contribuições de pessoas na comunidade que não acreditam em
deportação em massa e sim no estado de direito e nos direitos das pessoas é
extremamente importante.
Fonte: Dara
Lind e Omar Jadwat em entrevista a Patrick Iber, no Dissent | Tradução: Rôney
Rodrigues, em Outras Palavras

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