Evandro
Nascimento: O Brasil com ou sem Lula - uma imagem que se (des)faz
Li um
artigo que passou duas vezes por minha Linha do Tempo, no qual um sociólogo e
cientista político de esquerda faz uma crítica cabal do governo Lula. Concordo com quase
tudo e acrescentaria dois exemplos de erros grosseiros, que só fazem piorar a
situação já muito difícil: 1) a ida à Rússia para prestigiar uma
parada militar... (sem comentário). 2) a frase de Lula sobre a seca
no Nordeste, e ele como uma espécie de Salvador enviado por Deus (sem
comentário).
Dito
isso, faço várias ressalvas ao texto do sociólogo. Vou ter que enumerar por
falta absoluta de tempo para redigir um artigo:
1- Por
incompetência ou inércia das
esquerdas em
geral (PT, PDT, PSOL, lideranças sindicais, intelectuais,
representantes de classe etc.), não surgiu nenhum líder sequer próximo ao
que Lula representa neste país. Isso não ocorre somente
no Brasil, mas nosso caso beira a tragédia. A esquerda deixou de
se reinventar e de se renovar há mais de uma década no mundo inteiro. (E não me
venham com a desculpa reacionária de que a culpa é do “identitarismo” – sic! Esse é
justamente o pretexto da extrema direita para disfarçar suas reais
motivações.)
2-
Apesar de todos os erros óbvios, Lula está fazendo o governo possível. Se
elegeu nas piores condições, e nunca contou com uma base parlamentar
verdadeira. Situação bem diferente dos dois outros mandatos, em que tinha
bastante apoio e fez muita coisa mas também deixou de lado outras importantes.
3-
Temos uma Câmara de Deputados e um Senado para lá de
fisiológicos, corruptos e conservadores. A mídia hegemônica insiste em chamar
de “emenda parlamentar” o simples uso de verba pública para fins privados,
sem nenhum controle. Ou seja, roubo. (O artigo do sociólogo não menciona isso
em nenhum momento – um espanto!)
4- Se
o judiciário ocupa a cena mais do que deveria (e é verdade), isso
ocorre porque o risco de golpe ainda não acabou. Longe disso – vide
o caso Ramagem. Nada garante que os
culpados serão punidos, inclusive o Bolsonazista. Basta um descuido e a “anistia” acontece. Ou então
a renovação parlamentar no próximo ano será pior do que já está – e aí nem o
STF vai conter os golpistas.
5- Além
de um Congresso hostil, toda a
mídia hegemônica é contra o Governo Lula e qualquer um de seus
representantes mais à esquerda (sobretudo Haddad). Não consigo ler
mais nenhum jornal, nem ver noticiário de televisão, porém todos os dias dou
uma olhada na página inicial do UOL que reproduz as matérias
da Folha de SP: jamais o destaque é dado a Lula, se a notícia a seu
respeito for boa. O contrário acontece se a notícia for ruim. E pior: todos os
dias há vários destaques sobre os feitos e desfeitos do Bolsonazista, como se
ele ainda fosse o despresidente... Ou então quem aparece é um de seus
“sucessores” extremistas: o Governador de SP, o filho Bananinha, a esposa
Micheque, o governador InfiZema etc.
6- As
últimas viagem de Lula à
China e
à França, de grande relevância econômica para o país, foram tratadas como
matéria secundária.
7-
Apesar dos inúmeros problemas, há certa estabilidade econômica e de um modo
geral estamos melhor do que durante os quatro anos infernais. Só que isso nunca
é contabilizado como vitória do Governo, mas quase como algo que acontece à sua
revelia.
8- A
joia da coroa da mídia apequenada foi a jornalista da GNews (não vou
citar o nome dela) que disse que Lula não ganhou as eleições, mas o
foi o Bolsonazista que perdeu...
9-
Pergunto: como um governo e um candidato à reeleição como Lula pode
aparecer bem nas pesquisas se, 24h por dia, canais de TV, jornais impressos,
blogues e todo tipo de informativo fazem campanha contra ele?... Sem falar nas
derrotas inevitáveis perante um congresso hostil.
10- E,
claro, essa mídia não tem nenhum receio de a quadrilha extremista
voltar ao poder, desde que haja um Ministro como o
Sinistro Guedes para garantir a política econômica
neoliberal.
11- A
agonia política atual começou quando partidos de direita, uma parte da
esquerda, o STF e a pequena grande mídia conseguiram convencer a
população de que uma presidente legitimamente eleita (tão legitimamente quanto
se fosse seu adversário o vencedor, nós sabemos a que preço...) deveria ser
expulsa do cargo. Vi pessoas que se dizem de esquerda defendendo o
indefensável: que o político deveria prevalecer sobre o
jurídico (!!!). Tal foi o argumento para sustentar a farsa do Impeachment, um eufemismo para
golpe, defendido com ardor pela trupe da GNews e outros
pseudojornalistas.
12-
Pois bem, agora temos um Juiz, um Xerifão, tentando consertar o estrago que
seus colegas fizeram ao apoiar o golpe. Por enquanto ele tem êxito a maior
parte do tempo. Até quando não se sabe... A depender dos que
odeiam Lula (à direita e à esquerda, vide os ataques misóginos
sistemáticos a sua esposa). Não sou lulista, como não fui dilmista, mas não
tive dúvidas em 2016 que o pior estava por vir. E veio, para mim, sem nenhuma
surpresa: a extrema-direita triunfou e
o caos se instalou, com a benção da burguesia neoliberal, antidemocrática.
13- Por
fim, mas sem conclusão à vista: Lula continua politicamente
incontornável por seus próprios méritos e nossos deméritos...
Estas
são reflexões em voz alta exclusivamente para os amigos e amigas do mural.
Discordâncias são bem-vindas desde que feitas com moderação. As grosserias
serão suprimidas sem dó. Não canso de dizer que rede “associal” não é terra de
ninguém, ao menos não para mim.
¨
A imagem que se desfaz: Lula, o recuo do governo e a
construção da rejeição. Por Paulo Baía
A
rejeição crescente ao presidente Luiz Inácio Lula da
Silva,
captada por pesquisas de opinião como a da Quaest, revela-se não como mero
espasmo de descontentamento popular, mas como manifestação profunda de uma
crise simbólica, comunicacional e institucional que transborda os limites da
crítica circunstancial para se enraizar como questionamento estrutural à
liderança presidencial. Não se trata de uma impaciência fugaz das massas.
Trata-se de um desgaste que emerge da sobreposição de expectativas frustradas,
ruídos políticos e percepções dissonantes, cuja acumulação corrosiva compromete
a densidade de autoridade construída ao longo de décadas.
O que
está em jogo, portanto, é a própria tessitura do poder presidencial num tempo
em que a realidade objetiva, composta por indicadores de estabilidade
macroeconômica, taxa de desemprego em queda e investimentos públicos retomados,
contrasta brutalmente com a percepção de uma economia em crise, alimentada por
narrativas pessimistas, reverberadas pela mídia e amplificadas nas redes
sociais.
Essa
dissonância entre os bons fundamentos da economia e a sensação generalizada de
estagnação contribui para a crise de confiança que se instala no imaginário
coletivo. A despeito da recuperação dos programas sociais, do protagonismo
do Brasil em fóruns internacionais e da retomada de políticas de
inclusão, predomina a ideia de que o país patina sem rumo, e que o
governo Lula não sabe o que fazer diante dos desafios que se
acumulam.
A
frustração com a segurança pública, os temores sobre corrupção e a visibilidade
de casos como o escândalo do INSS, com suas denúncias de fraudes
bilionárias e descontrole administrativo em uma área sensível e simbólica para
milhões de brasileiros, funcionam como catalisadores de um mal-estar difuso.
Esse episódio, em particular, dilacera um dos pilares afetivos do lulismo: a
imagem do Estado que cuida. O dano à confiança não é apenas técnico,
mas simbólico, porque atinge a alma da relação entre governo e povo.
A comunicação
institucional do governo, por sua vez, parece incapaz de responder com a altivez
e a clareza necessárias. A narrativa oficial é tímida, dispersa, muitas vezes
burocrática, incapaz de impor significados que enfrentem o ruído das críticas.
A ausência de um discurso mobilizador, que reposicione o presidente como figura
central no debate público, aprofunda a cisão simbólica entre Lula e
as massas populares que, no passado, viam nele um espelho de suas próprias
esperanças. Nesse vácuo discursivo, a rejeição cresce e se consolida, alimentada
por uma avalanche de interpretações hostis que encontram terreno fértil em uma
sociedade marcada pela ansiedade e pelo cansaço político.
O
governo, ao não conseguir ocupar o centro da arena narrativa, permite que suas
ações sejam lidas através do prisma dos adversários. É como se o lulismo tivesse perdido
a palavra, o tom e a cadência que outrora o tornavam irresistível.
Ao lado
dessa erosão simbólica, está a concretude de um Congresso
Nacional hostil. A atual configuração legislativa, dominada por forças
conservadoras, fisiológicas e frequentemente oposicionistas, impõe travas
severas à governabilidade. O Executivo enfrenta dificuldades
reiteradas para aprovar pautas estratégicas, sendo obrigado a ceder, recuar,
negociar em condições desfavoráveis, mutilar projetos originais para obter
vitórias parciais. O recuo do governo, expressão constantemente utilizada por
seus próprios representantes, como o ministro da Fazenda, tornou-se
símbolo da impotência diante das pressões de um sistema político fragmentado.
A cada
retirada tática, mesmo que justificada em nome da governabilidade, a imagem
presidencial sofre um abalo. A política é feita também de signos. O recuo,
quando frequente, torna-se signo de fraqueza. A percepção pública não
distingue, na maior parte das vezes, o cálculo estratégico da capitulação. E é
nessa zona de ambiguidade que a autoridade se dissolve.
O Supremo
Tribunal Federal, por sua vez, avança para o centro do tabuleiro político
com uma presença midiática que beira o protagonismo. Suas decisões, seus votos,
seus embates internos e suas respostas aos conflitos nacionais passaram a
ocupar o lugar outrora reservado ao Executivo. A superexposição do Judiciário contribui para
a imagem de um presidente secundário, que assiste de fora à resolução das
grandes controvérsias. O resultado é um cenário institucional desequilibrado.
O
Executivo parece cada vez mais um órgão consultivo, sem força real de comando.
A partilha entre os Três Poderes, formalmente intacta, revela na
prática um deslocamento de autoridade que esvazia a centralidade da Presidência
da República.
Essa
sobreposição de fragilidades transforma a rejeição episódica em rejeição
estrutural. A figura de Lula, que tantas vezes
venceu adversidades com retórica apaixonada, simbolismo popular e senso
histórico, encontra agora um ambiente mais árido. Seu capital simbólico se
esgota diante da repetição de fórmulas antigas. O discurso progressista que
moveu corações por décadas soa, para muitos, como ecos de um tempo que passou.
A
desilusão, quando ganha densidade social, torna-se resistência ao próprio
retorno do encantamento. No vazio emocional que se forma, adversários
políticos, ainda que carentes de projeto ou profundidade, conseguem projetar a
imagem de renovação, apenas porque não carregam consigo o peso do passado.
O lulismo, outrora verbo de futuro, parece hoje substantivo de memória.
A perda
de controle sobre a narrativa é também a perda de capacidade de convocação. Em
uma era de saturação informacional e ceticismo generalizado, os líderes
precisam ser também contadores de histórias, artífices de sentido. Sem uma
agenda mobilizadora, que devolva à sociedade um horizonte de possibilidades, o
governo se reduz a uma rotina administrativa. A rejeição
eleitoral que desponta no horizonte não é apenas juízo sobre o presente. É
também temor quanto ao futuro sob a mesma condução. A conjuntura adversa não
explica tudo, mas escancara os limites do modelo atual. A política exige mais
do que técnica. Exige alma. E se a alma do projeto está em silêncio, sua
estrutura perde vitalidade.
Assim,
o governo Lula caminha sobre um terreno movediço. As vitórias
concretas não produzem os efeitos simbólicos esperados. Os recuos táticos
alimentam a sensação de derrota estratégica. A crítica que cresce no presente
ameaça contaminar a posteridade. O legado, que parecia consolidado, vê-se
submetido à prova de fogo do tempo. Não está em risco apenas um mandato. Está
em risco um ciclo inteiro, cuja promessa era a de refundar o país sobre novas
bases de justiça e igualdade.
O que
se observa é a lenta erosão de um projeto histórico, ofuscado por escândalos,
derrotas legislativas, percepções distorcidas e, sobretudo, pela ausência de
uma palavra que convoque, inspire e mobilize. A história ainda está sendo
escrita. Mas sua tinta, por ora, escorre como sombra sobre os alicerces do que
já foi luz.
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Lula deve romper com os “aliados” da direita antes que
seja tarde demais. Por Eduardo Vasco
Os
membros dos partidos de direita que compõem oficialmente o governo não têm mais
nenhum receio de dizer que não apoiarão Lula em 2026 (na prática, não o apoiam
há muito tempo). ACM Neto, vice-presidente do União Brasil, deixou claro: “não
faz sentido” o partido “ocupar cargos”, porque não apoiará o PT nas eleições. O
presidente da sigla, Antonio Rueda, afirmou que o União terá uma candidatura
própria ou se somará a outros partidos da direita, porque não haverá
“subserviência” a Lula.
“É mais
desgastante estar no governo, não deveria nem ter entrado”, disse ao Globo o
deputado Danilo Forte, do União. O presidente do PP, Ciro Nogueira, também
declarou que seu partido sairá do governo nos próximos meses – ele e Rueda se
reuniram com Bolsonaro em maio. Poucos dentro do Republicanos ainda esperam
para desembarcar, e Silvio Costa Filho não representa o partido (90% dos
deputados apoiaram Bolsonaro em 2022). Marcos Pereira, presidente do partido,
afirmou que o Republicanos “estará em um campo de centro-direita em 2026”, e
não com o PT.
Há quem
possa pensar que PSD e MDB não teriam a mesma opinião. Contudo, segundo
levantamento do Globo, mais parlamentares de União, PP, Republicanos, PSD e MDB
são favoráveis à saída dos ministérios do que favoráveis à permanência no
governo. Gilberto Kassab já disse que haverá uma unidade da “centro-direita” no
segundo turno, e ele mesmo é um membro proeminente do governo Tarcísio em São
Paulo e tem se aproximado de Bolsonaro. O PSD tem uma ala influente de
bolsonaristas declarados. Já no MDB, Michel Temer tem articulado uma aliança
entre Tarcísio, Eduardo Leite, Zema, Caiado e Ratinho Jr, e Simone Tebet,
ministra de Lula, declarou que será preciso um forte ajuste fiscal para 2027,
coisa que Lula já mostrou que não tem condições de fazer e por isso qualquer
esperança dos banqueiros e dos partidos da direita em seu governo se
desvaneceu.
Desde o
início do mandato os partidos supostamente governistas votam contra o governo
no Congresso – e, frequentemente, a favor do bolsonarismo. A imprensa aponta
que as emendas parlamentares livraram os congressistas de qualquer dependência,
e, portanto, de qualquer necessidade de compromisso com o governo.
No
entanto, o espectro do bolsonarismo continua rondando os partidos do centrão.
De fato, eles estão mais comprometidos com Bolsonaro do que com o governo.
Porque sabem que uma candidatura própria precisaria dos votos do eleitorado
bolsonarista para derrotar Lula. E Bolsonaro parece calcular qual será a melhor
saída, observando o próprio desgaste do governo diante do centrão e da
burguesia. Os jornais também apontam que, diante de um enfraquecimento maior de
Lula nos próximos meses, Bolsonaro, mantendo-se inelegível, poderá bancar a
candidatura de Michelle ou Eduardo. O centrão poderia ser forçado, portanto, a
apoiá-lo.
A maior
parte da burguesia e do setor majoritário do imperialismo internacional está em
confronto com o bolsonarismo, simbolizado particularmente pelo atrito com o
STF. Isso reduziria a chance de uma candidatura competitiva. Contudo, Eduardo
Bolsonaro está nos Estados Unidos tanto para tentar a reversão das decisões
contra seu pai quanto – e talvez sobretudo – para articular uma candidatura
própria, para a qual, aparentemente, está conseguindo convencer setores
poderosos da política americana. Nesse final de semana, Eduardo publicou um
vídeo com claro teor de candidatura presidencial, e mais do que isso: no vídeo,
ele se apresenta como alguém moderado e conciliador, palatável ao centrão.
Afinal
de contas, se o centrão teria de fazer concessões ao bolsonarismo, o
bolsonarismo também teria de fazer concessões ao centrão para que haja uma
candidatura unificada que derrote Lula e o PT em 2026. Donald Trump no governo
dos Estados Unidos, embora não seja dominante no regime político americano –
enfrenta ainda sérios obstáculos colocados pelo Deep State para a concretização
de seu projeto –, logicamente é um fator de desequilíbrio para as relações da
América Latina com o imperialismo. O apoio do governo dos Estados Unidos a
Eduardo Bolsonaro, somado à força do eleitorado bolsonarista, seriam
suficientes para convencer o centrão e os banqueiros que apoiam esse setor de
fazerem um pacto com o bolsonarismo a fim de derrotar o PT – especialmente se esse
apoio a Eduardo vier com a condição de que será necessário se apresentar como
alguém que não é radical e que vai aplicar a política comum a todos os
candidatos da oposição (que também é a política do próprio Bolsonaro, em linhas
gerais).
Essa
política, como já está nítido, é a do terror neoliberal ao estilo Javier Milei.
De todos os lados a política oficial brasileira recebe a pressão para o
esmagamento dos direitos dos trabalhadores para que os banqueiros aumentem o
saque sobre o Brasil. As sucessivas crises no governo, como as mais recentes no
INSS e no IOF, estão sendo utilizadas pelos agentes do capital para propagar a
necessidade de uma nova reforma da previdência, a redução real do salário
mínimo, o fim do BPC, o aumento do desemprego, a privatização completa das
“estatais”, a diminuição a quase zero dos investimentos em saúde e educação.
Os
bancos dos Estados Unidos já estão otimistas com a iminente queda de Lula e a
ascensão de um governo da direita: o Morgan Stanley comemora o calvário petista
e acredita em um verdadeiro ajuste fiscal a partir de 2027. Faz isso porque ele
e seus pares estão no controle da campanha contra Lula. Na Brazil Week, em Nova
Iorque, BlackRock, Bank of America, Citi Group, Itaú, BTG Pactual e XP
Investimentos deram tapinhas nas costas de Tarcísio de Freitas e dos outros
governadores-candidatos.
Perante
a campanha na imprensa, nos eventos empresariais e no Congresso, será questão
de tempo para que o PT fique sozinho no governo, no máximo em companhia de
alguma poeira de burguesia que prefira esperar até o último minuto para ver no
que dá essa história. No entanto, como é de costume, o partido segue nutrindo
ilusões nas alianças parlamentares e regionais para impedir que a
extrema-direita chegue ao governo e tenha maioria absoluta no Congresso e nos
estados. Está implorando para ser feita de trouxa pela burguesia – mais uma
vez.
O
bolsonarismo também tem uma outra função importante para os planos do
imperialismo no Brasil: servir de espantalho, para que a esquerda, enfraquecida
pela campanha golpista em curso, apoie o candidato do centrão que seria
supostamente moderado, que pacificaria o país e acabaria com a polarização
política. Eduardo Leite, por exemplo, cairia como uma luva nesse caso, já que é
gay e obteve o apoio da esquerda contra o bolsonarista Onyx Lorenzoni no Rio
Grande do Sul em 2022. Se as pesquisas dos institutos da burguesia apresentarem
Lula com poucas chances, podemos ter certeza que muitos burocratas e pelegos da
esquerda irão apoiar uma ideia como essa, como sinalizaram apoio ao “mal menor”
contra o bolsonarismo em eleições anteriores.
Contraditoriamente,
situações de crise também podem gerar oportunidades – não apenas para os nossos
inimigos. Abandonados pela burguesia, Lula e o PT não teriam outra opção senão
se escorar nas organizações dos trabalhadores e do povo, se quiserem sobreviver
ao golpe. Contra essa possibilidade, atua não apenas a política capituladora do
PT, mas também a posição desmobilizadora das direções dos movimentos sociais e
sindicatos. Se as bases se movimentassem e realizassem uma forte mobilização,
poderiam causar um nível de pressão que nem mesmo a postura capituladora e
colaboracionista da direção do PT seria mantida intacta. Nesse sentido, a única
possibilidade de sobrevivência real do PT será o choque com a burguesia e com
os próprios “aliados” de direita dentro do governo, mas isso só seria viável
através da mobilização das bases a fim de forçar uma ruptura.
Fonte: IHU/Agenda
do Poder/Correio da Cidadania

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