Como
(e quando) o universo vai acabar?
Uma
morte escura, fria e um tanto tediosa. Um desenlace drástico, violento e com
pitadas de drama. Ou um final que mais se parece com o começo de tudo.
Essas
são três das possibilidades mais estudadas atualmente sobre como será o fim do
universo.
Não há
dúvidas de que essa é uma das questões mais intrigantes e misteriosas da
Ciência — e mesmo os especialistas no assunto admitem que existem mais
perguntas que respostas neste debate.
Mas,
para entender como o universo vai acabar, é preciso antes saber como ele
começou.
• O início de tudo
A
cosmologia é o ramo da Física que estuda esse assunto e faz estudos para
desvendar como o universo funciona.
"As
ideias sobre esse fim vêm dos modelos cosmológicos, que tentam descrever o
universo como um todo, sem prestar atenção em detalhes menores", explica o
físico Alexandre Zabot, professor da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC).
"Nosso
trabalho é como observar o comportamento e o fluxo de um rio inteiro, sem
avaliar a fundo todas as moléculas de água que passam por ali", compara
ele.
E os
modelos cosmológicos atuais se baseiam em duas palavrinhas que você
provavelmente já ouviu: Big Bang.
Há pelo
menos 13,8 bilhões de anos, todas as partículas que compõem o universo estavam
acumuladas, com uma temperatura e uma densidade extremamente altas.
A
partir do Big Bang, esse material começou a se expandir e a formar as
estruturas que conhecemos, como as galáxias, as estrelas, os planetas…
E é importante
saber que essa expansão continua a acontecer até hoje — inclusive, ela parece
estar se acelerando, como revelam as observações e os cálculos mais recentes.
Mas
será que um dia desses tudo isso terá um ponto final?
A
primeira teoria que busca desvendar o epílogo do universo tem como base
justamente a continuidade desse processo expansionista.
A ideia
aqui é que todas as estruturas e as partículas ficarão cada vez mais distantes
entre si.
Em
algum momento, até mesmo os gases necessários para a formação de novas estrelas
estarão esparsos demais.
Essa
baixa densidade dos gases, pelo distanciamento entre as partículas, impedirá a
formação desses corpos celestes, responsáveis por prover luz e calor.
E, com
o passar do tempo, as estrelas já formadas passarão por todas as fases de
desenvolvimento — até finalmente morrerem.
"Tudo
indica que o universo vai ficar cada vez mais vazio, mais frio e mais
distante", observa o pesquisador Raul Abramo, do Instituto de Física da
Universidade de São Paulo (USP).
"As
galáxias vão se afastar cada vez mais, as estrelas vão envelhecer e morrer…
Trata-se de um estado final onde o universo será essencialmente um
cemitério", caracteriza ele.
• A grande ruptura
A
segunda possibilidade aventada pelos cientistas é um tanto mais drástica.
Aqui
entram em cena dois elementos fundamentais para entender a dinâmica do
universo.
A
primeira é a gravidade, a força que atrai todos os corpos. É ela que mantém a
coesão entre galáxias próximas e os sistemas planetários.
É
graças à gravidade que Mercúrio, Vênus, Terra, Marte e os outros planetas
orbitam ao redor do Sol, por exemplo.
O
segundo elemento é um tanto mais misterioso: a energia escura.
"Ainda
não sabemos do que ela é feita, mas sabe-se que provoca uma repulsão, quase
como se fosse uma antigravidade", ensina Zabot, que também é coautor do
livro Introdução à Cosmologia Moderna (Editora Livraria da Física).
Ou
seja: tudo indica que a energia escura parece ter um efeito oposto ao da
gravidade. Em vez de gerar atração, é como se ela repelisse, afastasse.
Pelo
que se sabe até o momento, a energia escura só tem influência nas grandes
escalas cosmológicas, ou na dinâmica de superaglomerados de galáxias, que estão
se afastando uns dos outros.
No
entanto, em escalas "menores", como na relação entre galáxias
próximas ou dentro de sistemas planetários, a força da gravidade parece ganhar
essa disputa.
Mas, à
medida que o universo se expande, será que a energia escura vai ter mais
influência também nas escalas menores?
"Quanto
mais o universo cresce e ganha volume, maior fica a força de repulsão ligada à
energia escura", raciocina Zabot.
"Pode
ser que, à medida que o universo aumenta de tamanho, mais relevante fica a
energia escura em escalas menores", complementa ele.
Seguindo
essa linha de raciocínio, quando os grandes aglomerados de galáxias estiverem
completamente rompidos, pode ser que a energia escura comece a afetar a
dinâmica entre galáxias que estão mais próximas umas das outras.
Depois,
as estrelas que hoje em dia pertencem a uma mesma galáxia se distanciariam.
Elas passariam a viajar soltas pelo universo.
E isso
desorganizaria completamente os sistemas planetários.
Os
planetas também passariam a vagar, fora de qualquer órbita.
É
possível que a energia escura chegue a causar problemas até na escala dos
átomos, das forças nucleares e eletromagnéticas.
E,
eventualmente, até rompa a estrutura mais básica do universo: o espaço-tempo.
"É
por isso que o nome em inglês dessa teoria tem um duplo sentido. Ela é chamada
de big rip, que significa uma grande ruptura, rasgo, interrupção,
esgarçamento", diz Zabot.
"Mas
rip também é uma sigla para rest in peace, ou descanse em paz", acrescenta
o físico.
• O grande colapso
Abramo
defende que a terceira teoria tem um grau de incerteza ainda maior do que as
duas anteriores.
A ideia
aqui é que a força da gravidade vai botar um freio naquele processo de expansão
do universo.
Vai
chegar um momento em que esse ritmo vai desacelerar, até paralisar
completamente.
Depois,
pode ser que se inicie o processo contrário. É como se o universo decidisse
engatar uma marcha-ré e entrasse num ritmo de contração.
Com
isso, todas as partículas passariam a ficar cada vez mais próximas, com uma
elevação progressiva da densidade e do calor.
Até
chegar cada vez mais próximo daquele momento de singularidade, em que estava
tudo bem comprimido, num estágio como aquele que, lá atrás, deu origem ao Big
Bang.
Alguns
especialistas especulam que o universo vive nessa dinâmica de aceleração e
desaceleração, como se a matéria e a energia se reciclassem em eras cósmicas
que duram trilhões e trilhões de anos.
Ou
seja, o universo acabaria — só pra recomeçar de novo depois.
"Mas
esse é um modelo completamente exótico, para o qual não temos dados ou
evidências", pondera o professor da USP.
• O fim está próximo (ou longe)?
Mas
será que é possível estimar quando o universo chegará ao fim?
"Não,
não temos nenhuma indicação de que vai acontecer uma grande ruptura ou um
grande colapso em algum futuro", responde Abramo.
"Algumas
estimativas sobre esse fim falam em trilhões de anos, enquanto outras apostam
em espaços de tempo ainda maiores", acrescenta Zabot.
E vamos
fazer uma conta simples aqui: se o universo tem pelo menos 13,8 bilhões de
anos, ainda faltam 986,2 bilhões de anos para ele completar o seu primeiro
trilionésimo aniversário.
Um
estudo recente feito na Universidade Radboud, na Holanda, sinalizou que esse
fim pode estar um pouco mais próximo do que parecia — embora ainda esteja
muito, mas muito, distante.
Os
novos cálculos pontuam que os últimos remanescentes estelares vão levar 10^78
anos (o numeral 1 seguido de 78 zeros) para perecer completamente.
Anteriormente,
acreditava-se que essa taxa era de 10^1100 (o numeral 1 seguido de 1.100
zeros).
"Então
o fim definitivo do universo chegará muito mais cedo do que o esperado, mas
felizmente ainda levará muito tempo para acontecer", pontuou o
radioastrônomo Heino Falcke, um dos autores do trabalho, em comunicado à
imprensa.
A
questão é que (provavelmente) nossa espécie não estará aqui para testemunhar
esse desenlace: o planeta Terra vai sumir do mapa muito antes disso, quando o
Sol se transformar numa estrela vermelha gigante, daqui a uns 5 bilhões de
anos.
• Em busca de respostas mais sólidas
"A
verdade é que a gente ainda sabe muito pouco em cosmologia", admite
Abramo.
O
físico pontua que existe uma grande dificuldade em medir o universo com
precisão apenas com as ferramentas disponíveis hoje.
E isso
abre a possibilidade de apostar em teorias ainda mais hipotéticas além das três
citadas anteriormente: alguns especialistas, por exemplo, exploram o
multiverso, ou a ideia de que há vários universos que surgiram em diferentes
regiões do espaço e do tempo.
Mas
esse cenário está em constante transformação: as informações captadas por
telescópios avançados, como o James Webb, permitem encaixar novas peças nesse
quebra-cabeças.
Outro
avanço significativo é a capacidade de medir as ondas gravitacionais.
As
ferramentas capazes de fazer esse tipo de medição foram desenvolvidas pelos
cientistas nos últimos anos.
"E
isso certamente vai trazer grandes revoluções para a cosmologia nos próximos
anos", conclui Zabot.
• Os segredos do Sol que podem ser
revelados por imagens nunca antes vistas
A
espaçonave Solar Orbiter, da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em
inglês), enviou para a Terra os primeiros vídeos e imagens já obtidos do polo
sul do Sol.
As
novas imagens irão permitir que os cientistas estudem como o Sol desenvolve
ciclos entre seus períodos de ferozes tempestades e épocas de baixa atividade.
Este
estudo é importante porque a intensa atividade solar pode prejudicar as
comunicações via satélite e derrubar as redes elétricas na Terra.
As
novas imagens mostram uma atmosfera luminosa e cintilante, que atinge
temperaturas de um milhão de graus Celsius em algumas regiões. Nela, ficam
entremeadas nuvens de gás mais escuras que, embora muito menos quentes, ainda
atingem abrasadores cem mil graus.
As
imagens são as mais próximas e detalhadas já obtidas do Sol. Elas irão ajudar
os cientistas a aprender como a estrela que permite que haja vida na Terra
realmente funciona, segundo a professora Carole Mundell, diretora de Ciências
da ESA.
"Revelamos
hoje as primeiras imagens do polo solar já vistas pela humanidade",
anunciou ela.
"O
Sol é a nossa estrela mais próxima, provedora de vida e pode potencialmente
interromper os modernos sistemas de energia em terra e no espaço. Por isso, é
fundamental entender como ele funciona e aprender a prever seu
comportamento."
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A peça que faltava
Da
Terra, o Sol é tão brilhante que parece um disco homogêneo.
Mas,
usando diferentes frequências e filtros especiais, os cientistas podem
observá-lo na sua forma verdadeira: uma bola de fluido dinâmica, com campos
magnéticos que se contorcem, aparecem na superfície e conjuram chamas e
círculos de gás na sua atmosfera.
São
estes campos magnéticos que determinam quando o Sol se enfurece e lança
partículas em direção à Terra.
Os
cientistas sabem que o Sol tem um período de baixa atividade, quando os campos
magnéticos ficam ordenados e os polos magnéticos norte e sul são fixos.
Nesta
fase, o Sol não consegue produzir explosões violentas. Mas estes campos ficam
complexos e caóticos quando se reorientam, durante a inversão dos polos norte e
sul que acontece aproximadamente a cada 11 anos.
Durante
o período caótico, o Sol tenta reduzir sua complexidade e surgem violentas
erupções, que lançam pedaços do Sol em direção à Terra.
Estas
tempestades solares podem danificar os satélites de comunicação e as redes de
eletricidade. Por outro lado, elas também podem gerar belas auroras no céu do
nosso planeta.
A
professora Lucie Green, do University College de Londres, afirma que é difícil
prever esta atividade com modelos computadorizados do Sol porque não existem
dados sobre a migração dos campos magnéticos em direção aos polos. Mas, agora,
isso mudou.
"Agora,
temos a peça do quebra-cabeça que faltava", contou ela à BBC News.
"A
reversão dos campos magnéticos polares do Sol é uma das grandes questões em
aberto da ciência", explica a professora. "E o que poderemos fazer
com o Solar Orbiter é medir, pela primeira vez, os fluxos de fluido realmente
importantes, que arrancam pedaços do campo magnético do Sol e os transportam
para as regiões polares.
O
objetivo é desenvolver modelos computadorizados do Sol, para poder prever o
chamado clima espacial.
Previsões
precisas irão permitir que operadores de satélites, companhias de distribuição
de energia e observadores das aurora planejem melhor as intensas tempestades
solares.
"Este
é o Santo Graal da física solar", segundo o professor Christopher Owen,
especializado nos estudos do vento solar usando dados da espaçonave.
"O
Solar Orbiter nos permitirá chegar ao fundo de parte da ciência básica do clima
espacial. Mas é preciso trabalhar um pouco mais para chegarmos ao ponto de
observar sinais solares confiáveis para prevermos as erupções que poderão
atingir a Terra."
O Solar
Orbiter também capturou novas imagens de elementos químicos em diferentes
camadas do Sol e seu movimento.
Elas
foram tiradas utilizando um instrumento chamado SPICE, que mede as frequências
específicas de luz, chamadas linhas espectrais. Elas são emitidas por elementos
químicos específicos – hidrogênio, carbono, oxigênio, neônio e magnésio – sob
temperaturas conhecidas.
Pela
primeira vez, a equipe do SPICE rastreou linhas espectrais para medir a
velocidade de movimentação de blocos de material solar. Estas medições podem
revelar como o Sol emite essas partículas na forma de vento solar.
Fonte:
BBC Ciências

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