38
anos do assassinato de Paulo Fonteles, o deputado dos camponeses
Membro
da Ação Popular e do PCdoB, Paulo participou da luta contra a ditadura militar
brasileira e foi submetido à prisão e à tortura nos porões do regime.
Posteriormente, ele se tornou advogado da Comissão Pastoral da Terra, passando
a atuar na defesa dos trabalhadores rurais e no movimento em prol da reforma
agrária.
Foi
eleito deputado estadual em 1982 e dedicou seu mandato à defesa dos camponeses
e à denúncia contra os abusos dos grileiros e latifundiários, entrando em
confronto com a poderosa UDR. Os responsáveis pelo seu assassinato jamais foram
investigados ou punidos.
• Os primeiros anos e o movimento
estudantil
Paulo
César Fonteles de Lima nasceu em Belém do Pará, em 11 de fevereiro de 1949. Era
o oitavo filho da dona de casa Cordolina Fonteles e do oficial da marinha
mercante Benedito Rodrigues de Lima. Os pais de Paulo eram militantes do
Partido Comunista do Brasil (antigo PCB). Benedito chegou a ser preso durante o
regime de Getúlio Vargas, após ser flagrado colando cartazes considerados
“subversivos”.
A visão
política dos pais exerceu grande influência sobre a formação de Paulo. Desde
jovem, ele demonstrava interesse pelo debate político e pelas questões sociais.
Era também um intelectual precoce. Aos 15 anos, já tinha lido a maior parte dos
livros de Machado de Assis, Castro Alves e Manoel Bandeira, discutia sobre
poesia e música clássica. Ainda adolescente, começou a se debruçar sobre as
obras de Marx, Engels e Lenin.
Paulo
ingressou no curso de direito da Universidade Federal do Pará (UFPA) em 1968. À
época, as universidades estavam tomadas pelo clima de agitação política. Desde
o golpe de 1964, os movimentos estudantis haviam se convertido em uma das
principais frentes de oposição à ditadura. Os militares reagiram ordenando o
fechamento da União Nacional dos Estudantes (UNE) e criminalizando as
atividades políticas no meio estudantil.
A
repressão se agravou após junho de 1968, quando os estudantes organizaram no
Rio de Janeiro a Passeata dos 100 Mil, em desagravo ao assassinato do
secundarista Edson Luís Lima Souto. Assustadas com a mobilização, as
autoridades da caserna baixaram um decreto proibindo manifestações em todo o
país. No ano seguinte, o regime promulgaria o AI-5, suspendendo as garantias
constitucionais e institucionalizando o aparato repressivo.
Paulo
era bastante ativo no movimento estudantil e logo se projetou como um dos
principais líderes dos protestos. Ele seria eleito membro da direção da União
Estadual dos Estudantes (UEE) e se dedicaria a reorganizar o movimento no Pará.
• A atuação na AP e a prisão na ditadura
Em
1969, Paulo ingressou na Ação Popular (AP), uma organização da esquerda
revolucionária que atuava na resistência à ditadura. Originária dos setores
progressistas da Igreja Católica, a AP radicalizou sua linha política após o
golpe de 1964, adotando uma estratégia de fomento à revolta das massas. Nesse
mesmo ano, Paulo se casou com Hecilda Veiga, estudantes de ciências sociais da
UFPA e militante da AP.
Em
1970, seguindo a orientação da AP, o casal se mudou para Brasília, a fim de
coordenar as atividades políticas na capital e ajudar a rearticular a UNE. A
ditadura, entretanto, havia intensificado o monitoramento sobre o movimento
estudantil e lançado uma violenta campanha para esmagar a resistência ao
regime. Em outubro de 1971, Paulo e Hecilda foram presos por agentes do
DOI-CODI.
Os
estudantes foram submetidos a um tratamento brutal. Mesmo estando grávida de
cinco meses, Hecilda foi agredida com socos e pontapés, enquanto ouvia os
agentes do regime dizendo que “filho dessa raça não merece nascer”. O bebê,
batizado Paulo Fonteles Filho, nasceu na prisão. Hecilda pesava apenas 37
quilos quando deu à luz.
Paulo
Fonteles foi submetido a espancamentos, choques elétricos e tortura no pau de
arara por vários dias seguidos. Ele foi condenado a quase dois anos de prisão e
proibido de retomar os estudos por três anos.
• PCdoB e Comissão Pastoral da Terra
Após
sua libertação em junho de 1973, Paulo se tornou militante do Partido Comunista
do Brasil (PCdoB). A heroica Guerrilha do Araguaia, travada por militantes da
organização no início dos anos 70, foi o que motivou sua filiação. Ele se
engajaria nos movimentos em prol da anistia e da revogação das leis de exceção.
Também concluiu a graduação em direito, engajando-se imediatamente na defesa
dos presos políticos.
Em
1977, Paulo ajudou a fundar a Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos
(SPDDH), que se destacaria pela denúncia da violência policial e dos crimes da
ditadura militar. Primeiro presidente da organização, ele também seria
responsável por fundar o jornal “Resistência” — um dos periódicos mais
aguerridos da oposição ao regime.
Dois
anos depois, em 1979, Paulo aceitou o convite do bispo Estêvão Cardoso de
Avelar para atuar como advogado da Comissão Pastoral de Terra (CPT). Criada em
1975 por iniciativa de Dom Pedro Casaldáliga, a CPT congregava membros da ala
progressista da Igreja Católica que apoiavam a luta dos trabalhadores rurais e
a mobilização pela reforma agrária.
A
atuação do Paulo se concentraria em regiões de intensos conflitos agrários —
sobretudo no sul do Pará, onde o avanço da fronteira agrícola, a concentração
fundiária e a grilagem de terras fomentavam a escalada de violência contra os
camponeses. Ele foi um dos primeiros advogados da região a representar os
posseiros e trabalhadores rurais nas disputas contra os latifundiários.
Paulo
também se tornou um aliado incansável dos sindicalistas que faziam oposição às
direções pelegas ligadas ao regime militar. Em Conceição do Araguaia, ele
ajudaria os camponeses na tentativa de retirar o Sindicato dos Trabalhadores
Rurais das mãos de Bertoldo Siqueira, um aliado do Major Curió, comandante da
repressão à Guerrilha do Araguaia.
• “Advogado do mato”
Em
paralelo à sua atuação jurídica, Paulo se destacaria como articulador político,
promovendo a organização dos trabalhadores rurais em sindicatos e associações.
Ele se tornaria uma das lideranças políticas mais expressivas do sul do Pará, o
que levou à sua inclusão na direção regional do PCdoB.
A
atuação na luta camponesa renderia ao advogado inimigos poderosos. Ele passou a
ser ameaçado constantemente por jagunços e pistoleiros e foi preso em diversas
ocasiões, acusado de “subversão”. Os fazendeiros o chamavam pejorativamente de
“advogado do mato” — um epíteto que ele ressignificaria e acolheria com
orgulho.
Entre o
fim dos anos 70 e o início dos anos 80, a ditadura intensificou a repressão aos
movimentos camponeses no sul do Pará. Soldados do exército e agentes das forças
policiais aterrorizavam os lavradores e até líderes progressistas da Igreja
Católica foram presos.
Em maio
de 1980, Raimundo Ferreira Lima, o Gringo, uma das mais importantes lideranças
da CPT, foi assassinado. Ele seria o primeiro de uma série de mártires da luta
camponesa que tombariam na região, ao lado de nomes como João Canuto e Expedito
Ribeiro de Souza.
Paulo
atuaria como advogado de familiares de diversas vítimas do regime. Em 1980, ele
ajudou a organizar uma histórica caravana integrada por familiares de mortos e
desaparecidos, que percorreu vários focos de conflito na Região Norte ao longo
de dez dias.
• Deputado dos posseiros
Diante
da escalada de violência, o advogado aceitou a sugestão dos camponeses de
representá-los na luta institucional. Em 1982, ele lançou sua candidatura a
deputado estadual. Concorreu pelo PMDB, uma vez que o PCdoB ainda operava na
clandestinidade. Paulo recebeu apoio expressivo dos setores populares, sendo
eleito com mais de 13 mil votos.
Seu
mandato tinha como lema “Terra, Trabalho e Independência Nacional”. Em sua
atuação parlamentar, Paulo trouxe visibilidade para os conflitos agrários na
Pará, utilizando a tribuna da Assembleia Legislativa para denunciar a violência
contra os camponeses e os crimes dos latifundiários.
O
parlamentar também combateu a grilagem e apresentou projetos em favor da
reforma agrária e da ampliação dos direitos dos trabalhadores rurais, o que lhe
valeu a alcunha de “deputado dos posseiros”. Fundou ainda o Centro de Estudos e
Apoio ao Trabalhador Rural (CEATRU), uma organização voltada à defesa dos
direitos sociais e à prestação de serviços e cursos para os camponeses do Pará.
O
mandato de Paulo o colocou em confronto direto com a União Democrática
Ruralista (UDR) — uma das mais reacionárias organizações patronais do
agronegócio. Criada por latifundiários incomodados com o avanço da luta pela
reforma agrária, a UDR seria marcada pela postura beligerante, que levaria ao
aumento da violência no campo.
O nome
de Paulo começou a circular em listas de pessoas marcadas para morrer. E em
1985, ele receberia uma ameaça de morte explícita feita pelo coronel do
exército Eddie Castor da Nóbrega. Sobre o episódio, Paulo comentou: “se um
coronel tem a ousadia de ameaçar de morte um deputado abertamente, imaginem o
que este senhor não faz com os trabalhadores rurais de sua fazenda”.
Em
1986, em meio ao processo de redemocratização, Paulo se lançou como candidato a
deputado federal constituinte, mas não conseguiu se eleger. Ele seguiu atuando
na defesa dos trabalhadores do campo e prestando assessoria às organizações
sindicais — logrando uma importante vitória que afastaria a direção pelega que
comandava o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Belém.
• O assassinato
As
ameaças contra a vida de Paulo Fonteles se concretizaram em 11 de junho de
1987. O advogado estava a caminho de uma reunião com trabalhadores rurais de
Ananindeua quando sofreu uma emboscada de pistoleiros. Paulo foi assassinado
com três tiros na cabeça, em frente a um posto de combustíveis da BR-316. Ele
tinha 38 anos e deixou cinco filhos.
O
assassinato de Paulo causou revolta e comoção. Seu corpo foi velado na
Assembleia Legislativa do Estado do Pará. Convertido em um ato de protesto, o
cortejo fúnebre reuniu mais de 7 mil pessoas, que atravessaram as ruas de Belém
entoando a canção “Funeral do Lavrador”, de Chico Buarque. Uma série de
protestos foram organizados pelos camponeses, exigindo a responsabilização dos
assassinos.
Os
assassinos de Paulo nunca foram punidos. A suspeita generalizada era a de que a
UDR teria encomendado sua morte. A cobertura do assassinato na imprensa
paraense foi extremamente limitada, refletindo a pressão das elites locais. Os
principais jornais do estado se recusaram a publicar matérias sobre o caso,
temendo represálias de anunciantes ligados aos latifundiários.
Paulo
Fonteles foi postumamente homenageado emprestando seu nome a escolas e
instituições públicas no estado do Pará e à rodovia PA-150. Em 2009, foi criado
o Instituto Paulo Fonteles de Direitos Humanos, dedicado à promoção da justiça
social e à preservação da memória de seu patrono.
Seu
primogênito, Paulo Fonteles Filho, tornou-se vereador pelo PCdoB e integrou a
Comissão da Verdade do Pará, auxiliando na apuração dos crimes da ditadura.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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