Eleições
em Portugal: coalizão de centro-direita recebe maior votação, e partido
anti-imigração cresce de novo
A
coalizão de centro-direita Alternativa Democrática (AD), do atual
primeiro-ministro Luís Montenegro, foi a mais votada nas eleições gerais de
Portugal neste domingo (18/5), com 32,7% dos votos, alcançando 89 deputados no
Parlamento português.
Mas
ainda não está claro se a AD, formada pelo Partido Social Democrata (PSD) e
pelo Centro Democrático Social (CDS), terá votos suficientes para formar um
governo sem a necessidade de negociar com outras siglas dentro do sistema
parlamentarista.
O
partido anti-imigração Chega (CH), da direita radical, cresceu em relação à
última votação e disputou cabeça a cabeça o segundo lugar com o Partido
Socialista (PS), de centro-esquerda.
As duas
forças políticas obtiveram o mesmo número de cadeiras no Parlamento: 58
deputados, mas os socialistas receberam 23,4% dos votos e o Chega, 22,6%.
O
partido de André Ventura já tinha
conseguido na eleição passada um aumento de 12 para quase 50 deputados, mas não
chegou a entrar no Executivo. O premiê Montenegro disse à época que não
negociaria com o Chega.
"Fizemos
o que nunca nenhum partido tinha feito em Portugal, nem nos anos 70, nos anos
80 ou nos anos 90. Hoje podemos dizer que acabou o bipartidarismo em
Portugal", afirmou Ventura.
Os
socialistas, que ocuparam o Executivo em diversas oportunidades em Portugal,
demonstraram preocupação com o encolhimento no cenário eleitoral — uma perda de
20 assentos.
Dessa
forma, Pedro Nuno Santos anunciou logo em seguida que deixava a liderança do
PS.
A
abstenção nessas eleições atingiu 35,62%, ligeiramente maior do que no último
pleito geral.
Num
país acostumado com governos estáveis, Portugal atravessa agora um período
conturbado com três eleições legislativas em três anos e uma sucessão de
governos que não conseguiram levar seu mandato até ao fim.
<><>
Pano de fundo: segurança e imigração
Apesar
de Portugal estar no top 10 de países mais seguros do mundo do Global Peace
Index, o atual governo dedicou boa parte da sua plataforma eleitoral à
segurança no país, sempre em torno da "necessidade de reforço".
"Temos
uma estratégia de maior policiamento e maior visibilidade. De forma eficiente e
eficaz queremos diminuir a criminalidade, sobretudo a violenta", disse o
premiê durante a campanha.
Meses
antes, foi polêmica a ação policial desencadeada no bairro de Martim Moniz em
Lisboa, um bairro caracterizado pela imigração asiática. As imagens mostravam
um enorme aparato policial, dezenas de imigrantes encostados à parede dos
edifícios, de mãos para o alto, sendo revistados pelos policiais, no que foi
denominado como uma "operação especial de prevenção criminal".
No fim,
foram apreendidos 4 mil euros, uma faca e um celular. "Não gostei de ver,
mas tinha de ser assim", foi a reação do primeiro-ministro no Parlamento,
quando foi confrontado pela oposição.
Já
durante a campanha, o governo anunciou a expulsão de 18 mil imigrantes, dos
quais 449 são brasileiros, por não cumprirem os requisitos para continuarem no
país. A decisão anunciada faz parte de um processo de regularização de
imigrantes que conta com mais de 110 mil pedidos e dos quais, segundo o
ministro da Presidência, António Leitão Amaro, "a maioria será
deferida".
Ainda
assim, e apesar da diferença de números, o governo preferiu centrar a
comunicação nos 18 mil que vão ter de abandonar o país.
"Em
ciência política isso se chama fenômeno de acomodação dos temas dos partidos
mais radicais. Pelo menos em teoria, a estratégia do governo de Montenegro é
esvaziar, em termos programáticos, a agenda do Chega, assumir os temas que lhe
são mais caros, adotar medidas que estão mais associadas a ele e, com isso,
retirar os motivos que os eleitores teriam para votar no Chega, atraindo eles à
AD", explica o cientista político Hugo Ferrinho.
<><>
Por que Portugal vive instabilidade política?
Tudo
começou em janeiro de 2022, após o socialista António Costa ter visto os seus
parceiros de governo rejeitarem seu orçamento de Estado. Novas eleições foram
convocadas, e o partido de Costa obteve uma maioria absoluta rara hoje em dia.
E
quando todos se preparavam para quatro anos de estabilidade, o socialista
acabaria por se demitir dois anos depois, ao se ver envolvido num suposto caso
de corrupção e tráfico de influências na concessão de projetos energéticos no
país.
Costa,
que sempre negou ter cometido qualquer ato ilícito, prestou depoimento
espontaneamente no tribunal, respondendo a todas as questões e saindo sem
qualquer acusação formal. Na sequência, sem nenhuma implicação na Justiça, o
socialista assumiu a presidência do Conselho Europeu.
O caso
que envolveu Costa levou o país às segundas eleições antecipadas, em março de
2024, nas quais Luís Montenegro, da Alternativa Democrática (AD), sairia
vencedor.
Mas o
atual premiê atravessou um escândalo que envolve uma empresa de consultoria
de propriedade de sua família e a concessão de quatro cassinos, o que provocou
acusações de conflito de interesse.
A
oposição exigiu explicações, que foram dadas de forma muito superficial, e o
cerco em torno dos bens e negócios do primeiro-ministro se apertou.
A
polêmica culminou com a queda da Alternativa Democrática quando o caso
se tornou público e a convocação da terceira eleição em três anos.
Mas as
pesquisas já indicavam que a AD se manteria como o grupo político mais votado
em Portugal.
"Há
muitos estudos que nos dizem que as pessoas reprovam os desvios éticos por
parte dos políticos, como é normal, mas depois, isso não tem grande impacto no
voto porque os eleitores avaliam os casos de acordo com a afinidade que têm com
o partido: os eleitores desse partido tendem a adotar uma posição de defesa da
formação", explicou o cientista político Ferrinho.
Segundo
o cientista político António Costa Pinto, "para muitos segmentos do
eleitorado, o caso ético de conflito de interesses não parece ser determinante
nas atitudes eleitorais. Não existe uma grande punição".
<><>
Escândalos no Chega
Apesar
do lema "chega de corrupção" e uma plataforma moralizadora, uma série
de escândalos envolveu o Chega no último ano.
O mais
grave deles, o do vereador da cidade de Lisboa, Nuno Pardal, acusado de prostituição
infantil por manter relações sexuais com um rapaz de 15 anos a quem pagou 20
euros, ao mesmo tempo que, publicamente, dizia que "a proteção dos menores
contra a exploração sexual e o abuso sexual é um ponto fundamental da Justiça
para o Chega", e defendia a castração química para quem tivesse relações
sexuais com menores.
Outro
dos casos mais badalados foi o de Manuel Arruda, que todas as semanas viajava
em avião entre Lisboa e a ilha de São Miguel, nos Açores, viagens que
aproveitava para roubar malas cujo conteúdo vendia na plataforma de venda de
objetos de segunda mão Vinted. A polícia encontrou 17 malas no seu domicílio.
Finalmente,
José Paulo Sousa, deputado regional do Chega, foi detido pela polícia por
conduzir em estado de embriaguez, com uma taxa de álcool de 2,25 gr/litro.
Segundo a legislação portuguesa, conduzir com mais de 1,2 gr/litro é crime
passível de prisão.
Num
partido cujo lema é "limpar Portugal", os três casos caíram como uma
bomba. Nuno Pardal se demitiu, Manuel Arruda abandonou o partido e continuou
como deputado independente depois de André Ventura ter pedido a sua demissão, e
Sousa continua no partido regional, com André Ventura defendendo que "o
deputado assumiu a sua culpa".
¨
A rápida ascensão do Chega, partido de direita e
anti-imigração que empatou com a esquerda em Portugal
A Aliança Democrática (AD), coligação
de centro-direita, partido que já governa Portugal, venceu as eleições
legislativas ao ser a mais votada na eleição realizada no domingo (18/5). Mas
outro partido também está sendo considerado como um dos grandes vencedores do
pleito: o Chega, de direita radical.
O Chega conquistou o mesmo número de
vagas no Parlamento do Partido Socialista (PS), de esquerda: 58
deputados.
Em
apenas seis anos de existência, o Chega aumentou sua votação de 1,3% para cerca
de 23%.
"A
direita democrática, na identidade da AD, vence as eleições, mas perde o
combate político. É uma das suas mais curtas vitórias. Não consegue maioria
para governar", escreveu o cientista político Antonio Barreto em artigo no
jornal português O Público.
O líder do Chega, André Ventura, comemorou o
resultado eleitoral. "Podemos declarar oficialmente, e com segurança, que
acabou o bipartidarismo. Fizemos história."
Não
está claro ainda se a AD de Luís Montenegro fará aliança com o Chega para poder
governar. Na eleição passada, a AD se negou a formar uma coligação com a
direita radical.
Para
governar, a AD — que conquistou 89 vagas — precisaria do apoio de 27 deputados.
Até o momento, com votos finais ainda sendo apurados, o PS obteve 58; o Chega,
58; e os demais partidos somaram 20 assentos.
O
empate eleitoral do PS com o Chega foi considerado tão desastroso pela sigla de
esquerda que seu líder, o socialista Pedro Nuno Santos, anunciou sua demissão.
Os
socialistas ainda podem até ficar atrás do Chega no resultado final da eleição
— se os resultados dos eleitores no exterior, que demoram alguns dias a serem
contabilizados, forem semelhantes aos das eleições do ano passado.
<><>
'Chega' em alta
A
eleição coroa a ascensão meteórica do Chega, que foi fundado em 2019.
Seu
líder, André Ventura, de 42 anos, ficou conhecido em Portugal como comentarista
de futebol. Torcedor do Benfica, ele ganhou notoriedade em 2014 ao defender o
clube no canal de televisão CMTV.
Formado
em direito, Ventura também foi seminarista durante um ano — e trabalhou como
professor universitário e inspetor tributário, antes de migrar definitivamente
para a política.
Isso
aconteceu em 2017, quando concorreu à Câmara Municipal de Loures, perto de
Lisboa, pelo PSD. A mensagem principal de sua campanha era dirigida aos
ciganos, uma comunidade, nas suas palavras, "que vivia dos subsídios do
Estado".
"O
que eu vou dizer pode não ser muito popular, mas é verdade: temos tido uma
tolerância excessiva com alguns grupos e minorias étnicas", disse ele, na
época, em entrevista ao site Noticias ao Minuto.
Nas
palavras de Ventura, famílias, "por serem de etnia cigana", tinham
ajuda do Estado para reformar as casas enquanto outras esperavam pelo
benefício.
"Quem
tem de trabalhar todos os dias para pagar as contas no fim do mês olha para
isso com enorme perplexidade. Isso não é racismo nem xenofobia, é resolver um
problema que existe porque há minorias no nosso país que acham que estão acima
da lei."
Ventura
não ganhou aquelas eleições, mas aproveitou a atenção da mídia gerada pela
polêmica para, dois anos depois, lançar o Chega, prometendo defender os
"portugueses de bem".
Defensor
do controle da imigração, Ventura fez campanha para criar o crime de
"residência ilegal em solo português" — e impor cotas anuais de
entrada de estrangeiros no país baseadas "nas qualificações dos imigrantes
e nas necessidades do mercado português".
"Não
podemos viver em um país onde todo mundo entra sem controle nem critério, sem
saber porque entra e ao que vem", defendeu o líder do Chega.
Sobre
os muçulmanos, Ventura postou em 2019 em sua conta no Twitter: "Quantos
paquistaneses vão ter de cortar a cabeça a mais mulheres para percebermos o
real perigo que esta vaga (onda) islâmica significa para a Europa?"
Ventura
sempre negou as acusações de racismo e xenofobia — afirmando que o que ele quer
é "uma imigração decente, mas não descontrolada".
<><>
Bolsonaro e brasileiros
O
discurso de Ventura agrada também muitos brasileiros que vivem no país. Portugal tem a
segunda maior comunidade brasileira no exterior, atrás apenas dos EUA, com 513
mil brasileiros.
Apesar
da grande comunidade em Portugal, um estudo estima que o número de eleitores
brasileiros — e de imigrantes em geral — é pequeno. Apenas 34 mil imigrantes
estariam inscritos para votar — e cerca de 25% desses seriam brasileiros.
Em
Portugal, menos de 0,3% do eleitorado de cerca de 10 milhões de pessoas é de
pessoas nascidas no exterior.
Ventura
é apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e já organizou
protestos no Parlamento contra o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT).
Na
eleição passada, Bolsonaro gravou uma mensagem aos portugueses: "É muito
importante que André Ventura, do Chega, consiga essa cadeira de
primeiro-ministro. É a direita, é o conservadorismo, são as pessoas de bem que
se fazem cada vez mais presentes".
Neste
ano, Ventura fez uma transmissão ao vivo pela internet com Bolsonaro no qual
apoiou o brasileiro nos processos que ele enfrenta no Supremo Tribunal Federal.
Sobre o
atual presidente brasileiro, Ventura disse: "Lula deve ser condenado por
sua proximidade com a Rússia e pela incapacidade de ver o sofrimento do povo
ucraniano, contrário à diplomacia que Portugal tem feito e bem, no âmbito
europeu, pela sua proximidade à China, pela sua hesitação em condenar as
ditaduras sul-americanas que tanta dor, pobreza e sofrimento têm causado, mas
sobretudo e acima de tudo, pelo nível de corrupção que representa."
O líder
do Chega defendeu, como Bolsonaro, algumas propostas polêmicas, como a
castração química para estupradores e pedófilos.
Ele
resgatou em 2021 o lema da ditadura "Deus, Pátria e Família", ao qual
acrescentou "trabalho" — mas, diferente de Bolsonaro em relação à
ditadura brasileira, Ventura não é um defensor do regime autoritário sob o
comando de António Salazar que governou Portugal durante 40 anos.
"Fiquem
à vontade comigo porque não tenho nenhum saudosismo de uma República que eu não
vivi. Não é isso que me move. Vejo Salazar como vejo outras figuras da
história", disse em entrevista à agência Lusa em 2020.
Ele
também não hesitou em condenar os ataques de 8 de janeiro de 2023 em
Brasília,
quando apoiadores de Bolsonaro invadiram o Congresso Nacional, o Palácio do
Planalto e o Supremo Tribunal Federal .
Liberal
na economia, Ventura defende a redução dos impostos, mas quer também o aumento
das pensões e dos salários.
Quando
se elegeu, em 2019, Ventura postou no Twitter: "Por que razão cresce o
Chega nas sondagens e na rua? Porque já não é só a voz individual, os nossos
desejos e as nossas ambições. O Chega é a voz de um povo inteiro farto de
corrupção e de impunidade."
Fonte:
BBC News Mundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário