Condenado
por torturar jovem, PM violou ordem judicial e atuou nas ruas no Pará
EM
VIOLAÇÃO A UMA DECISÃO JUDICIAL, um cabo da Polícia Militar do Pará condenado
por torturar um jovem de 18 anos atuou em uma ocorrência em Oeiras do Pará, no
norte do estado, em março de 2024. Recorrendo em liberdade, Wagner Braga
Almeida não poderia atuar nas ruas, mas tinha permissão para realizar serviços
administrativos. O descumprimento da medida pode resultar em sua prisão.
André
Pinto da Silva, outro cabo da PM condenado pelo mesmo crime, também pode ter
desrespeitado a determinação da Justiça. Ele foi escalado para reforçar o
policiamento na cidade de Portel, no norte do Pará, durante a Semana Santa de
2024. Procurada pela reportagem, a assessoria da corporação não respondeu se o
cabo efetivamente participou da patrulha.
Em
fevereiro de 2023, Almeida, Silva e outros dois policiais militares foram
sentenciados pela Justiça Militar a oito anos e nove meses de prisão em regime
fechado pela tortura, em fevereiro de 2021, de Mateus Gabriel da Silva Costa. O
caso aconteceu no município de Xinguara, no sudeste paraense. O jovem, que
tinha 18 anos na época, está desaparecido desde então.
Em
abril deste ano, a condenação foi confirmada em segunda instância, mas com uma
redução de sete meses na pena. Os policiais, no entanto, não foram investigados
pelo desaparecimento forçado do jovem, pois o Brasil ainda não reconhece esse
crime em sua legislação.
“Parece
que a justiça não chega para eles”, lamenta a gerente administrativa Zely
Aparecida Ribeiro da Silva, de 45 anos, mãe de Mateus. Ela e a filha movem uma
ação de R$ 1 milhão contra o estado do Pará.
Conforme
a decisão da Justiça Militar, os acusados não poderão exercer carreira pública
por 16 anos após cumprirem a sentença de prisão. O juiz do caso permitiu que os
réus recorressem em liberdade, mas manteve algumas restrições, como não se
aproximar de testemunhas e familiares da vítima e não exercer atividades nas
ruas.
Em 3 de
março de 2024, Wagner Braga Almeida e outros três agentes realizaram um
“atendimento de ocorrência de conflito familiar” em Oeiras do Pará, informa um
boletim-geral da PM paraense de julho do mesmo ano.
Já de
acordo com uma publicação de 15 de março de 2024 no Diário Oficial do estado do
Pará, André Pinto da Silva estava entre os oito policiais da cidade vizinha de
Breves designados para atuar no policiamento no município de Portel entre 27 de
março e 2 de abril de 2024. A ordem, assinada pelo coronel Ubirajara Magela de
Sousa Falcão, previa o pagamento de cinco diárias de alimentação e seis de
pousada.
De
acordo com o Portal da Transparência, por ainda estarem ativos, os agentes
receberam, em abril de 2025, salário de cerca de R$ 4 mil líquidos cada um.
Procurada
pela Repórter Brasil, a Corregedoria da Polícia Militar do Pará enviou a mesma
resposta, em momentos diferentes, para ambos os casos. Nas mensagens, afirma
que “vai instaurar um processo de apuração sobre o militar ter sido escalado
para serviço durante uma medida cautelar em validade, uma vez que ele segue
afastado do policiamento ostensivo”.
Almeida
e Silva não haviam respondido até a publicação desta reportagem. O espaço segue
aberto às suas manifestações.
·
Mãe
de Mateus sente que o caso foi ‘deixado de lado’ pelas autoridades
A mãe
de Mateus conta estar sofrendo há quatro anos por não saber o paradeiro do
filho. “O governo estadual não deu apoio nenhum. A gente até conseguiu na
Justiça um acompanhamento psiquiátrico, mas eles nunca disponibilizaram para a
gente”, denuncia Zely.
Ela se
refere a uma decisão da Justiça paraense de 2023 que determinou que o governo
do Pará forneça atendimento psicológico e/ou psiquiátrico à mãe e à irmã de
Mateus até o julgamento da ação judicial que elas movem contra o estado.
Zely
sente que o caso acabou sendo deixado de lado pelas autoridades, apesar de o
próprio governador Helder Barbalho (MDB) ter lhe prometido pessoalmente, em
maio de 2021, que “tudo que tiver ao alcance do governo do estado será feito
para que essa família tenha respostas sobre o paradeiro do jovem Mateus
Gabriel”. “É difícil, é uma coisa que não tem fim. A gente não tem conforto”,
diz a mãe.
Afetada
após o desaparecimento do filho, Zely ficou por quase dois anos sem conseguir
trabalhar. Há um ano, arranjou um emprego num posto de combustível. Sem forças
para continuar vivendo em Xinguara, onde Mateus sumiu, ela e a família acabaram
saindo de lá. “Me mudei para ficar perto de outros familiares, porque em
Xinguara eu ficava sozinha, e em todo lugar eu via o meu filho”, conta.
A
reportagem questionou a Secretaria de Comunicação do estado do Pará, a
Procuradoria Geral do Estado e o gabinete do governador sobre as medidas
tomadas em relação ao caso e a respeito do não fornecimento de atendimento
psicológico aos familiares da vítima, como determinado pela Justiça. Não houve
retorno até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
·
Investigação
aponta abordagem, gritos e agressões
A
última vez que Zely viu Mateus foi no próprio dia do desaparecimento: 3 de
fevereiro de 2021. Ela lembra que o filho trabalhou durante o dia, como
frentista, saiu à noite para comprar um lanche para os dois e, mais tarde, por
volta das 23 horas, foi dar uma volta de
moto. “Ele disse que logo voltava.” Segundo ela, Mateus ainda não tinha
carteira de motorista e havia comprado o veículo após anos economizando.
De
acordo com o inquérito da investigação feita pela Polícia Civil, acessado pela
Repórter Brasil, testemunhas afirmaram que o jovem havia ido jogar bola com
amigos. Na volta, deu carona para um menino de 10 anos até o centro da cidade.
A criança disse que, assim que Mateus o deixou em casa, viu uma viatura o
perseguindo.
Parte
dos moradores próximos ao local relatou ter ouvido conversas vindas de um beco
sem saída, conhecido como Beco da Baiana, que pareciam ser de uma abordagem
policial, além de sons característicos de agressão.
Em
depoimento à polícia, uma das testemunhas afirmou que, ao abrir a janela de
casa para ver o que estava acontecendo, um policial mandou-a fechar, sob
xingamentos. Outra apresentou dois áudios que diz captarem a abordagem que
ouviu na noite do desaparecimento de Mateus.
A
transcrição da gravação está presente no inquérito policial ao qual a
reportagem teve acesso. Nela, descreve-se que há sons de tapas, choros e
gemidos, enquanto uma pessoa é questionada com frases como “Onde que tu jogou?”
e “Cala a boca! Tu sabe que vai apanhar mais!”. A vítima responde: “Eu não
joguei nada não, senhor”. Zely afirma que reconheceu a voz do filho nos áudios.
A
investigação da Polícia Civil localizou câmeras de segurança que mostram uma
viatura aparentemente seguindo a motocicleta que Mateus dirigia nas
proximidades do local onde deixou a criança em casa e, depois, acompanhando-a
em direção ao beco sem saída.
Dados
de geolocalização da viatura que os policiais utilizavam, fornecidos pela
Polícia Militar, indicaram que o veículo permaneceu 19 minutos próximo ao local
onde Mateus teria sido abordado.
Foram
realizadas ao menos três buscas pelo jovem e sua moto, uma da Polícia Civil e
duas do Corpo de Bombeiros, em áreas indicadas por denúncias anônimas como de
“desova” de corpos, ou seja, locais desertos onde cadáveres de pessoas
assassinadas costumam ser deixados com o intuito de se ocultar o crime. No
entanto, nada foi encontrado.
·
Policiais
foram condenados por tortura, mas absolvidos por sequestro
Em
pouco mais de um mês de investigação, Wagner Braga Almeida, André Pinto da
Silva e os também cabos Dionatan João Neves Pantoja e Ismael Noia Vieira foram
indiciados pela Polícia Civil por sequestro. Os PMs integravam o Grupo Tático
Operacional (GTO) do 17º Batalhão de Xinguara.
Em
março de 2021, o Ministério Público do Pará pediu que o caso fosse desmembrado
por entender que o crime de sequestro deveria ficar a cargo da Vara Militar,
enquanto um possível homicídio seguiria sob responsabilidade da Vara do Júri.
Assim,
ainda em 2021, o promotor de justiça militar Armando Brasil Teixeira acusou os
PMs por tortura e sequestro. Eles ficaram presos entre abril e outubro daquele
ano.
Em
fevereiro de 2023, o juiz Lucas do Carmo de Jesus, da Vara Única da Justiça
Militar paraense, condenou-os por entender que os depoimentos das testemunhas,
os áudios apresentados por uma delas, as câmeras de segurança e o GPS da
viatura demonstram que apenas os acusados estiveram no mesmo dia, horário e
local em que Mateus desapareceu.
O
magistrado também concluiu que os PMs torturaram o jovem. Contudo, absolveu os
agentes da acusação de sequestro por considerar que “não há provas robustas de
que os acusados mantiveram a vítima privada da sua liberdade após os atos de
tortura”.
No
mesmo ano, a promotora de Justiça Flávia Miranda Ferreira Mecchi, da Vara do
Júri, pediu o arquivamento da apuração de homicídio. Segundo ela, “houve o
esgotamento das diligências e até o presente momento não há provas da prática
de crime doloso contra a vida, o que impede o oferecimento de denúncia”. Em
janeiro de 2024, o pedido foi acatado pelo juiz Jacob Arnaldo Campos Farache,
da Vara Criminal de Xinguara, e o inquérito foi arquivado.
Durante
o processo, os PMs confirmaram que a região onde Mateus desapareceu fazia parte
da área de patrulhamento do grupo, mas negaram ter abordado o jovem.
No
inquérito da Polícia Civil, a defesa deles sustentou que não há comprovação de
tortura, pois a vítima está desaparecida e, por isso, não há laudo indicando as
agressões. Afirmou, também, que Mateus poderia ter sido alvo de outras pessoas,
por ter cometido atos infracionais no passado.
No
julgamento de segunda instância, a Justiça Militar reduziu as penas – para 8
anos e 2 meses de prisão por tortura –, mas negou o pedido de anulação do
processo. O advogado Carlos Felipe Alves Guimarães, que representa os
policiais, disse à Repórter Brasil que vai recorrer da condenação no Superior
Tribunal Militar.
·
Brasil
ainda não reconhece crime de desaparecimento forçado
Durante
toda a investigação do caso, não há uma única menção ao termo “desaparecimento
forçado”. Ele aparece, no entanto, no pedido de indenização da ação movida por
Zely contra o estado do Pará em razão do não esclarecimento do paradeiro de
Mateus. “Eu tenho que saber a verdade, porque eu não tenho paz. Isso é um
tormento. É uma tortura que eu vivo todos os dias”, diz, indignada.
À
Repórter Brasil, a assessoria de comunicação da Polícia Civil afirmou que não
existe investigação para esclarecer o paradeiro de Mateus e que o único
inquérito relativo ao caso remetido à Justiça foi o arquivado em janeiro de
2024.
Até
hoje, o Estado brasileiro ainda não tipificou o desaparecimento forçado como
crime, embora tenha ratificado compromissos internacionais a respeito, como a
Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas contra o
Desaparecimento Forçado.
O país
tem colecionado condenações na Corte Interamericana de Direitos Humanos pelo
não reconhecimento, responsabilização e reparação às vítimas e familiares de
outros casos, incluindo aqueles cometidos por agentes do Estado durante a
ditadura civil-militar (1964-1985).
Para
Roberta Marina dos Santos, assessora do Programa de Enfrentamento à Violência
Institucional da ONG Conectas Direitos Humanos, a falta de responsabilização
dos crimes cometidos na ditadura tem impacto nas respostas que o país dá sobre
as violações cometidas no presente, impossibilitando a criação de políticas
públicas direcionadas.
“Parece
que acham que, ‘se a gente não falar sobre isso, o desaparecimento forçado
deixa de existir’. A definição de desaparecimento não espontâneo se
descaracteriza, e se deixa de implicar os agentes do Estado, como se eles não
fossem peça fundamental nesse tipo de violação”, critica.
Ela
ressalta que o desaparecimento forçado é imprescritível, uma vez que é
considerado crime de lesa-humanidade pelo direito internacional. “No caso da
confirmação da morte de uma pessoa, a entrega dos seus remanescentes ósseos
para os familiares, se ainda for possível, é, de alguma forma, uma maneira de
reparar pelo crime. Mas, se não houver a confirmação, as buscas devem continuar
mesmo se existirem condenações”, explica.
Fonte:
Repórter Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário