Desencarne:
entenda como os espíritas enxergam a morte
Os
seguidores do Espiritismo, doutrina fundada por Alan Kardec (1804-1869) no
século XIX, acreditam que a morte não é o fim. No Livro dos Espíritos,
principal obra da religião, o francês afirma que depois de um falecimento
ocorre uma transição para o mundo espiritual. Foi o que aconteceu com Divaldo
Franco, um dos maiores líderes do espiritismo do Brasil, que faleceu nesta
terça-feira (13), aos 98 anos.
Mentorado
pelo espírito de Joanna de Ângelis, o médium, que foi sepultado no Bosque da
Paz na última quinta-feira (15), retorna agora para o plano astral, de onde vai
continuar seu trabalho social. Na Doutrina Espírita, esse processo é chamado de
desencarne e diz respeito à saída da alma do corpo depois da morte e seu
retorno ao mundo espiritual.
Divaldo
enfrentava desde 2023 vários problemas de saúde, incluindo um diagnóstico de
câncer de bexiga, em novembro do ano passado. A causa da morte foi falência
múltipla dos órgãos, segundo a assessoria da Mansão do Caminho. Ele foi velado
na quarta-feira (14).
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O que acontece com a alma depois do desencarne?
Jorge
Godinho, presidente da Federação Espírita do Brasil, conta que a alma segue
ativa depois do desencarne. “A morte para nós é uma transição da dimensão
material à dimensão espiritual, onde nós continuamos ativos, trabalhando,
aprendendo, ajudando, podemos até sofrer, dependendo de como nós encaramos essa
realidade”. Ou seja, é a transição para uma nova etapa da existência, onde o
espírito continua vivo e em evolução.
Para os
espíritas, Jesus foi o primeiro a manifestar essa imortalidade da alma. “Já foi
demonstrada por Ele há dois mil anos, quando apareceu várias vezes, para não
deixar dúvida em ninguém, não só para [Maria] Madalena, mas várias vezes aos
discípulos, para que ficasse testemunhado para a humanidade futura que a morte
é apenas uma transição da vida material para a vida espiritual”, diz Godinho.
Mário
Sérgio Pintos, diretor da Mansão do Caminho, afirma que a passagem para o outro
plano também depende das ações durante a vida. “Quando você fica bem na vida e
tem boas ações, a morte é boa. Quando você não se comporta bem, a morte é mais
difícil”. É por isso que uma vida marcada por boas atitudes e ajuda ao próximo
pode colaborar para um desencarne tranquilo. Caso contrário, o processo pode
demorar até séculos.
“Nós
espíritas somos sempre instruídos a nos comportar bem, porque você vai morrer
da forma que você viveu. Se você viveu bem, a morte vai ser boa. Se você não
viveu bem, a morte não vai ser boa e você acaba ficando muito apegado ao corpo.
E aí custa desligar, isso pode levar dias, meses ou séculos”, conta.
• Espírito de Divaldo Franco pode
retornar? O que dizem líderes da religião
Considerado
o maior líder espírita do Brasil, Divaldo Franco, denominado ‘O Semeador de
Estrelas’, foi enterrado nesta quinta-feira (15), no cemitério Bosque da Paz,
em Salvador. Após a morte, surgem inúmeros questionamentos. Um dos principais
é: o espírito do fundador da Mansão do Caminho pode retornar ao mundo?
Bom, a
doutrina espírita é bem clara quanto a isso. O presidente da Federação Espírita
do Brasil, Jorge Godinho, explica de um jeito simples: “É natural que, como
imortais que somos, este processo de vir e de ir se repete porque não temos uma
existência. O espírito criado por Deus é imortal. Ele tem uma vida, mas as
existências são inúmeras”, explicou Godinho.
Questionado
se o espírito de Divaldo pode retornar à Mansão do Caminho, o presidente da
instituição, Mário Sérgio Almeida, não titubeou ao responder: “Eu acredito (que
Divaldo volte). Ele comentava sobre isso, falava que voltaria logo”, disse.
Antes
de retornar, o espírito de Divaldo pode se comunicar com pessoas que estão na
Terra, segundo o espiritismo. “Ele mesmo foi instrumento pelo qual os espíritos
se comunicavam. Outros instrumentos existem e, naturalmente, se for oportuno,
ele vai encontrar um instrumento adequado pra trazer uma mensagem, dizer como
está, fazer alguma coisa”, finalizou Godinho.
O
objetivo das reencarnações é atingir o equilíbrio espiritual ao pregar a paz e
o amor ao próximo. Não por acaso, uma das máximas da doutrina é "fora da
caridade não há salvação".
• Sem Chico Xavier e Divaldo Franco, como
fica a liderança do movimento espírita no Brasil?
Se o
papa morre, logo há definição de um conclave para a nomeação de um novo líder.
Em outras denominações cristãs ou de matriz africana, se um líder sai do posto,
também há uma ordem de sucessão. Mas, como isso acontece no espiritismo? A
morte de Divaldo Franco, considerado sucessor de Chico Xavier, jogou luz sobre
quem vai assumir o posto de referência na religião.
Apesar
dos questionamentos, para representantes do meio, não há sucessor. O presidente
da Federação Espírita do Estado da Bahia (FEEB), Marcel Mariano, explica:
"Divaldo e Chico são personalidades raras que surgem de tempos em tempos
na Terra. São únicos".
"Então,
de certa forma, o movimento continua desfalcado de uma figura extraordinária,
porque Divaldo emprestou brilho, carisma e trouxe respeito ao espiritismo como
a gente nunca viu", acrescenta.
O
presidente da Mansão do Caminho, Mario Sérgio Pintos Almeida, concorda.
"Não existe uma sucessão. Não existe alguém. Nós, aqui na Mansão, não
temos ninguém nem parecido com o Divaldo Franco. Nem sombra do que é o Divaldo.
Mas a obra continua. Sem dúvida, a obra continua", diz.
A
questão é que o espiritismo não possui uma hierarquia formal, como a encontrada
em outras religiões. Não há representantes oficiais que detêm autoridade sobre
a doutrina em todo país. Pelo contrário, é comum que, dentro dos centros
espíritas, existam pessoas com mais experiência ou fundadores que podem ter
mais peso em decisões.
Nas
casas, quem comanda é a pessoa mais experiente ou mesmo o fundador do centro.
Divaldo, por exemplo, fundou ao lado de Nilson de Souza Pereira o Centro
Espírita Caminho da Redenção (1947) e a Mansão do Caminho (1952).
"Dentro
da doutrina espírita nós temos a visão da reencarnação, na qual nós temos
múltiplas existências que compõem o que a gente chama de vida espiritual, a
vida imortal. Acreditamos que nós somos criados a partir de Deus, temos um
princípio, mas, a partir disso, não teremos um fim. E essa imortalidade se dá
em momentos de reencarnação. Espíritos que já atingiram o patamar de evolução
podem retornar para trazer a sua contribuição, mas agora não mais como uma
reencarnação simples, acabam sendo verdadeiros missionários", revela
Leonardo Machado, médico psiquiatra e diretor do núcleo de psiquiatria da
Mansão do Caminho.
Não ter
uma hierarquia, no entanto, não significa que outro grande nome não possa
surgir na religião, ressalta Mariano. Em geral, quem se torna referência têm
pontos em comum: como uma figura e oratória fortes e popularidade por meio dos
trabalhos sociais. Vale ressaltar, ainda, que Chico Xavier e Divaldo Franco
eram médiuns, pessoas capazes de se comunicar com os espíritos.
"Divaldo
Franco foi o último dos grandes médiuns existentes no mundo. Então, no futuro
nós, possivelmente, teremos outros espíritos que chegarão para continuar
orientando a humanidade", complementa Mario Sérgio.
Para o
médium José Medrado, fundador do Centro Espirita Cidade da Luz, o líder
espírita baiano deixa um grande legado social. "Ele foi ponto de
referência para milhares de oradores espíritas. As pessoas começavam as
pregações imitando ele, buscando ele como referencia e se colocando como pregar
com as mesmas características", reconhece
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Divaldo Franco, o sucessor de Chico Xavier
Nascido
em 5 de maio de 1927, em Feira de Santana, no interior da Bahia, Divaldo
começou a ouvir espíritos desde criança e foi responsável por mais de 20 mil
conferências, realizadas em mais de 2,5 mil cidades e 71 países ao redor do
mundo.
Com
mais de 260 obras publicadas e mais de 10 milhões de exemplares vendidos, ele
deixou um legado literário espírita que abrange mais de 200 autores espirituais
nos mais diversos temas e gêneros textuais. Ele é considerado pelos religiosos
como o segundo nome mais importante no espiritismo brasileiro, atrás apenas de
Chico Xavier - um médium e filantropo
que escreveu mais de 450 livros e, até o ano de 2010, já havia vendido mais de
50 milhões de exemplares.
Divaldo
se tornou um dos maiores médiuns e oradores espíritas da atualidade e teve suas
obras traduzidas para até 17 idiomas. Ele ainda fundou, ao lado de Nilson de
Souza Pereira, o Centro Espírita Caminho da Redenção (1947) e a Mansão do
Caminho (1952).
Fonte:
Correio

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