terça-feira, 20 de maio de 2025

Desencarne: entenda como os espíritas enxergam a morte

Os seguidores do Espiritismo, doutrina fundada por Alan Kardec (1804-1869) no século XIX, acreditam que a morte não é o fim. No Livro dos Espíritos, principal obra da religião, o francês afirma que depois de um falecimento ocorre uma transição para o mundo espiritual. Foi o que aconteceu com Divaldo Franco, um dos maiores líderes do espiritismo do Brasil, que faleceu nesta terça-feira (13), aos 98 anos.

Mentorado pelo espírito de Joanna de Ângelis, o médium, que foi sepultado no Bosque da Paz na última quinta-feira (15), retorna agora para o plano astral, de onde vai continuar seu trabalho social. Na Doutrina Espírita, esse processo é chamado de desencarne e diz respeito à saída da alma do corpo depois da morte e seu retorno ao mundo espiritual.

Divaldo enfrentava desde 2023 vários problemas de saúde, incluindo um diagnóstico de câncer de bexiga, em novembro do ano passado. A causa da morte foi falência múltipla dos órgãos, segundo a assessoria da Mansão do Caminho. Ele foi velado na quarta-feira (14).

<><> O que acontece com a alma depois do desencarne?

Jorge Godinho, presidente da Federação Espírita do Brasil, conta que a alma segue ativa depois do desencarne. “A morte para nós é uma transição da dimensão material à dimensão espiritual, onde nós continuamos ativos, trabalhando, aprendendo, ajudando, podemos até sofrer, dependendo de como nós encaramos essa realidade”. Ou seja, é a transição para uma nova etapa da existência, onde o espírito continua vivo e em evolução.

Para os espíritas, Jesus foi o primeiro a manifestar essa imortalidade da alma. “Já foi demonstrada por Ele há dois mil anos, quando apareceu várias vezes, para não deixar dúvida em ninguém, não só para [Maria] Madalena, mas várias vezes aos discípulos, para que ficasse testemunhado para a humanidade futura que a morte é apenas uma transição da vida material para a vida espiritual”, diz Godinho.

Mário Sérgio Pintos, diretor da Mansão do Caminho, afirma que a passagem para o outro plano também depende das ações durante a vida. “Quando você fica bem na vida e tem boas ações, a morte é boa. Quando você não se comporta bem, a morte é mais difícil”. É por isso que uma vida marcada por boas atitudes e ajuda ao próximo pode colaborar para um desencarne tranquilo. Caso contrário, o processo pode demorar até séculos.

“Nós espíritas somos sempre instruídos a nos comportar bem, porque você vai morrer da forma que você viveu. Se você viveu bem, a morte vai ser boa. Se você não viveu bem, a morte não vai ser boa e você acaba ficando muito apegado ao corpo. E aí custa desligar, isso pode levar dias, meses ou séculos”, conta.

•        Espírito de Divaldo Franco pode retornar? O que dizem líderes da religião

Considerado o maior líder espírita do Brasil, Divaldo Franco, denominado ‘O Semeador de Estrelas’, foi enterrado nesta quinta-feira (15), no cemitério Bosque da Paz, em Salvador. Após a morte, surgem inúmeros questionamentos. Um dos principais é: o espírito do fundador da Mansão do Caminho pode retornar ao mundo?

Bom, a doutrina espírita é bem clara quanto a isso. O presidente da Federação Espírita do Brasil, Jorge Godinho, explica de um jeito simples: “É natural que, como imortais que somos, este processo de vir e de ir se repete porque não temos uma existência. O espírito criado por Deus é imortal. Ele tem uma vida, mas as existências são inúmeras”, explicou Godinho.

Questionado se o espírito de Divaldo pode retornar à Mansão do Caminho, o presidente da instituição, Mário Sérgio Almeida, não titubeou ao responder: “Eu acredito (que Divaldo volte). Ele comentava sobre isso, falava que voltaria logo”, disse.

Antes de retornar, o espírito de Divaldo pode se comunicar com pessoas que estão na Terra, segundo o espiritismo. “Ele mesmo foi instrumento pelo qual os espíritos se comunicavam. Outros instrumentos existem e, naturalmente, se for oportuno, ele vai encontrar um instrumento adequado pra trazer uma mensagem, dizer como está, fazer alguma coisa”, finalizou Godinho.

O objetivo das reencarnações é atingir o equilíbrio espiritual ao pregar a paz e o amor ao próximo. Não por acaso, uma das máximas da doutrina é "fora da caridade não há salvação".

•        Sem Chico Xavier e Divaldo Franco, como fica a liderança do movimento espírita no Brasil?

Se o papa morre, logo há definição de um conclave para a nomeação de um novo líder. Em outras denominações cristãs ou de matriz africana, se um líder sai do posto, também há uma ordem de sucessão. Mas, como isso acontece no espiritismo? A morte de Divaldo Franco, considerado sucessor de Chico Xavier, jogou luz sobre quem vai assumir o posto de referência na religião.

Apesar dos questionamentos, para representantes do meio, não há sucessor. O presidente da Federação Espírita do Estado da Bahia (FEEB), Marcel Mariano, explica: "Divaldo e Chico são personalidades raras que surgem de tempos em tempos na Terra. São únicos".

"Então, de certa forma, o movimento continua desfalcado de uma figura extraordinária, porque Divaldo emprestou brilho, carisma e trouxe respeito ao espiritismo como a gente nunca viu", acrescenta.

O presidente da Mansão do Caminho, Mario Sérgio Pintos Almeida, concorda. "Não existe uma sucessão. Não existe alguém. Nós, aqui na Mansão, não temos ninguém nem parecido com o Divaldo Franco. Nem sombra do que é o Divaldo. Mas a obra continua. Sem dúvida, a obra continua", diz.

A questão é que o espiritismo não possui uma hierarquia formal, como a encontrada em outras religiões. Não há representantes oficiais que detêm autoridade sobre a doutrina em todo país. Pelo contrário, é comum que, dentro dos centros espíritas, existam pessoas com mais experiência ou fundadores que podem ter mais peso em decisões.

Nas casas, quem comanda é a pessoa mais experiente ou mesmo o fundador do centro. Divaldo, por exemplo, fundou ao lado de Nilson de Souza Pereira o Centro Espírita Caminho da Redenção (1947) e a Mansão do Caminho (1952).

"Dentro da doutrina espírita nós temos a visão da reencarnação, na qual nós temos múltiplas existências que compõem o que a gente chama de vida espiritual, a vida imortal. Acreditamos que nós somos criados a partir de Deus, temos um princípio, mas, a partir disso, não teremos um fim. E essa imortalidade se dá em momentos de reencarnação. Espíritos que já atingiram o patamar de evolução podem retornar para trazer a sua contribuição, mas agora não mais como uma reencarnação simples, acabam sendo verdadeiros missionários", revela Leonardo Machado, médico psiquiatra e diretor do núcleo de psiquiatria da Mansão do Caminho.

Não ter uma hierarquia, no entanto, não significa que outro grande nome não possa surgir na religião, ressalta Mariano. Em geral, quem se torna referência têm pontos em comum: como uma figura e oratória fortes e popularidade por meio dos trabalhos sociais. Vale ressaltar, ainda, que Chico Xavier e Divaldo Franco eram médiuns, pessoas capazes de se comunicar com os espíritos.

"Divaldo Franco foi o último dos grandes médiuns existentes no mundo. Então, no futuro nós, possivelmente, teremos outros espíritos que chegarão para continuar orientando a humanidade", complementa Mario Sérgio.

Para o médium José Medrado, fundador do Centro Espirita Cidade da Luz, o líder espírita baiano deixa um grande legado social. "Ele foi ponto de referência para milhares de oradores espíritas. As pessoas começavam as pregações imitando ele, buscando ele como referencia e se colocando como pregar com as mesmas características", reconhece

<><> Divaldo Franco, o sucessor de Chico Xavier

Nascido em 5 de maio de 1927, em Feira de Santana, no interior da Bahia, Divaldo começou a ouvir espíritos desde criança e foi responsável por mais de 20 mil conferências, realizadas em mais de 2,5 mil cidades e 71 países ao redor do mundo.

Com mais de 260 obras publicadas e mais de 10 milhões de exemplares vendidos, ele deixou um legado literário espírita que abrange mais de 200 autores espirituais nos mais diversos temas e gêneros textuais. Ele é considerado pelos religiosos como o segundo nome mais importante no espiritismo brasileiro, atrás apenas de Chico Xavier -  um médium e filantropo que escreveu mais de 450 livros e, até o ano de 2010, já havia vendido mais de 50 milhões de exemplares.

Divaldo se tornou um dos maiores médiuns e oradores espíritas da atualidade e teve suas obras traduzidas para até 17 idiomas. Ele ainda fundou, ao lado de Nilson de Souza Pereira, o Centro Espírita Caminho da Redenção (1947) e a Mansão do Caminho (1952).

 

Fonte: Correio

 

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