Joana
Rizerio: Onde falham os psiquiatras?
Eu
tinha uma amiga psiquiatra, bipolar como eu, que gostava de ir à minha casa
para debater sobre nossas vivências distintas como profissional e paciente. Eu
digo “tinha”, no pretérito imperfeito, porque essa garota rompeu a amizade
comigo de modo irreconciliável quando viu o comentário que eu fiz em uma
discussão que levantou no Instagram sobre a práxis médica brasileira na saúde mental.
Eu a ofendi tão completamente que a mulher me bloqueou em tudo.
Nem me
lembro direito o que eu disse sobre sua seara profissional, mas não foram
flores: se existe alguém que não deu sorte no passado com psiquiatras, esse
cara sou eu. Devo ter escrito para ela o que sempre repito: sete ou oito dos
cerca de dez médicos desta categoria que me atenderam deviam incinerar seus
diplomas. Eles debocharam do meu padecer, tinham extrema pressa para terminar a
consulta, impunham uma distância robótica até mim, me medicaram excessivamente
e não queriam conhecer o meu histórico - algo fundamental para se tratar
corretamente.
Hoje,
felizmente, recebo do SUS o melhor tratamento que já encontrei. Sou atendida
todo mês e gratuitamente no Hospital das Clínicas por estudantes de psiquiatria
prestes a concluir o curso de medicina. Gosto do fato de eles serem jovens e
emprestarem um frescor necessário à árida e ainda algo antiquada especialidade
que escolheram. Mas não penso que é algo geracional. O problema no trato com
doenças mentais é o preconceito entranhado em todas as camadas da sociedade,
que não aceita conviver no mesmo mundo que loucos como eu.
Alguns
médicos tiveram medo de mim, eu podia sentir. Outros me transmitiram ódio puro,
como se tivessem escolhido a carreira não pelo gosto em cuidar de outros seres
humanos, ou mesmo pelo sedutor tilintar de moedinhas dos ótimos salários, mas
pelo sadismo mais elementar de poder tratar mal e humilhar quem já está na
lona. O primeiro psiquiatra que me atendeu era um jovem que parecia um abutre
faminto diante da carcaça. Ele me tratou como a um pedaço de carne podre, sem
nunca tirar aquele sorriso perverso do rosto.
Este
psiquiatra não se dirigia a mim, só à minha mãe, e não tentava explicar
minimamente para nenhuma de nós, que éramos só interrogações, o que estava
acontecendo. Eu experimentava minha primeira crise psicótica e não tinha ideia
do que me atravessava. Não entendia porque, de repente, eu tinha perdido a
minha liberdade. Minha mãe carregava uma expressão de morte no rosto. O homem,
em certo ponto, quis me dar uma injeção; naturalmente, eu protestei e ele
ameaçou chamar os seguranças para me conter. Aceitei levar, na nádega esquerda,
uma dolorida ampola de Haloperidol e desmaiei. Acordei amarrada.
Eu
costumava colocar no altar dois ou três psiquiatras que eu chamava de bons e
que cruzaram o meu caminho depois daquele primeiro. Mas, com o tempo, percebi
que eles não fizeram mais do que o corriqueiro em outras especialidades
médicas: mostrar um mínimo de cortesia e humanidade, olhar nos olhos, dialogar
com o paciente e oferecer um lenço em caso de lágrimas. Os psiquiatras não
precisam fazer muito para serem considerados salvadores porque ninguém liga
para os doentes mentais, especialmente os graves. Via de regra, qualquer
tratamento que deixe os pacientes catatônicos serve.
Se um
médico obstetra faz uma cesariana e esquece um pedaço de gaze dentro da mulher
que foi operada, o tema vira caso de polícia, estampa os jornais e o conselho
de medicina se pronuncia. Porém, se um paciente com ideações suicidas que
estava em tratamento constante com o seu psiquiatra tira a própria vida, nada é
questionado. Ninguém confere as dosagens dos remédios prescritos. Não há
investigação de conduta por parte dos pares. A culpa pela morte do paciente por
suicídio não seria do médico, é claro. Mas será que não caberia a ele um mínimo
senso de responsabilidade, íntimo que fosse, no desfecho dessa tragédia
anunciada? Não parece haver.
Eu
necessito de atendimento psiquiátrico. Não quero, com esse texto, atacar a
categoria que viabiliza grande parte da minha qualidade de vida. Mas é preciso
humanizar esses médicos com urgência, sobretudo os que atuam na linha de frente
no cuidado das patologias mais graves e mais temidas, como a esquizofrenia, a
bipolaridade e o transtorno de personalidade borderline. O ideal seria uma
tomada de consciência de toda a sociedade, que achincalha e violenta esses
pacientes diariamente. Porém, se não conseguimos mudar o mundo por decreto, que
melhorem, pelo menos, aqueles que juraram nos cuidar - e têm falhado.
Fonte:
Correio

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