Um catador de espinhas: Ailton Krenak na
ABL
Ele escolheu o que
queria. Por isso, Ailton Krenak foi o primeiro escritor indígena eleito para a
Academia Brasileira de Letras (ABL). Soube tirar as espinhas, o que não é
tarefa fácil dependendo do tipo de peixe. Traíra e pacu têm muita espinha. Em
geral, quem cata para os filhos pequenos são as mães, que os ensinam como
fazer.
No entanto, o processo
histórico de alfabetização escolar de crianças indígenas tem sido feito
irracionalmente numa língua que não faz parte de suas práticas comunicativas,
portanto sem a correspondente oralidade. Impedidas de usar a língua materna,
obrigadas a engolir o peixe com espinha e tudo, engasgam, ferem a garganta e
são condenadas ao silêncio. Nem oralidade em sua língua, nem a escrita em
português.
Ailton, que viveu
outra situação, conseguiu navegar entre a oralidade e a escrita, separando o
joio do trigo. Isso ficou claro na sua posse nessa sexta (5), em que trajava o
fardão e usava uma bandana indígena. Esse catador de espinhas de peixe, que
aprendeu a nadar nas águas doces e então límpidas do rio Watu e que vive
atualmente na Reserva Indígena Krenak, em Resplendor (MG), esclareceu em seu
discurso o que veio fazer na cadeira nº 5 da ABL.
– Eu já disse
que venho aqui para trazer as línguas nativas do Brasil e colocá-las dentro
desse ambiente que faz a expansão da lusofonia.
Algumas delas contam
com milhares de falantes até fora do Brasil, como o Guarani, presente em quatro
países do Mercosul e, na Pan-Amazônia, o Tikuna, o Macuxi, o Tuyuka, o Tukano,
o Nheengatu, o Hãtxa Kuĩ (Kaxinawá). Essas línguas, minorizadas em cinco séculos
de colonização e colonialidade, entram agora na ABL pela porta da frente, já
entreaberta na gestão de Marco Lucchesi, que convidou os Guarani para dois
eventos e discursou na língua deles.
·
Escrita funerária
Em conversa logo após
sua eleição, Ailton nos falou que pretende criar na ABL uma plataforma similar
à da Biblioteca Ailton Krenak, cujo acervo é constituído por
centenas de documentos, textos, fotos, filmes. Manterá ainda diálogo com outras
instituições: o Museu dos Povos Indígenas (MPI) hoje dirigido por Fernanda
Kaingang e a Biblioteca Nacional presidida por Lucchesi.
Esse diálogo pode
ampliar o acesso na plataforma da ABL às narrativas gravadas em línguas
ameríndias pelo Programa de Documentação de Línguas Indígenas (Prodoclin) do
atual MPI, construído em parceria com a UNESCO na gestão anterior de José
Levinho. Assim, a Academia fundada por Machado de Assis em 1987, além do
português, passa a contar em seu acervo com registros em dezenas de línguas
ameríndias.
– A ideia é
priorizar a oralidade e não necessariamente o texto escrito. O que ameaça essas
línguas é a ausência de falantes – disse Ailton, na mesma linha de
dona Fiota, professora da “Gira de Tabatinga” em Bom Despacho (MG), que
ao ser ameaçada pelo secretário municipal de educação de cortar o seu salário
por ser “analfabeta”, disse:
– Eu não tenho
a letra. Eu tenho a palavra, que é mais do que a letra.
Ailton tem a palavra e
a letra. A biblioteca digital que pretende criar na ABL será acessada não
apenas por leitores, mas por “escutadores”. Lá, elementos da cultura oral irão
interagir com o discurso escrito libertador, desdenhando aquela “escrita funerária”,
que serve de caixão para sepultar o cadáver da letra morta, considerada o osso
do som. A prioridade será a escrita viva, livre, voando como um pássaro, que
devolve a palavra ao universo da oralidade, como queria o tukano Manoel Moura.
– Todo
mundo que escreve livros incríveis escutou histórias de alguém que não escreveu
livros. A literatura que produzimos nos últimos 3.000 anos deve ter pelo menos
10 mil anos em que ninguém escrevia. Só contava histórias – disse Ailton em seu discurso no qual contou histórias.
·
Línguas ameríndias
O novo acadêmico é
autor de vários livros com propostas novas de se relacionar com o meio
ambiente, entre eles “A vida não é útil” e Ideias para
adiar o fim do mundo”, já traduzidos para treze países. Ele sabe que é
na leitura que um livro se faz, mas não o sacraliza, nem o fetichiza, até
porque existe muita porcaria editada. Reconhece o papel da oralidade como
registro sem, no entanto, desconsiderar a escrita, que numa sociedade como a
brasileira guarda relação com a cidadania.
O português, a única
língua de Estado oficial, tem um mercado editorial forte, conta com edição de
livros e bibliotecas ao contrário das línguas historicamente minorizadas, que
muitas vezes sequer são dotadas de alfabeto e por isso foram discriminadas como
“carentes de escrita“, quando na verdade eram “independentes da
escrita”, dela não precisavam para reproduzir suas culturas e seus
saberes..
Em seu discurso de
posse repleto de improvisações, Ailton fez pausas de meditação, como quem diz:
primeiro nós pensamos, só depois é que falamos ou escrevemos. A palavra milenar
dos povos originários enunciada pelos primeiros narradores deste território ocupado
pela “Pátria Mãe Gentil” foi, finalmente, escutada no Petit
Trianon da ABL por um público seleto: a ministra da Cultura, Margareth
Menezes, o ministro Silvio Almeida dos Direitos Humanos, a presidente da Funai
Joênia Wapixana e Eloy Terena do ministério dos Povos Indígenas.
O novo acadêmico
percorreu a ponte da oralidade em direção ao mundo da escrita e, parafraseando
o conhecido poema de Mário de Andrade, disse em seu discurso de posse:
– Desde
que me convidaram ou me animaram para ocupar essa cadeira número cinco, eu me
perguntava: Será que nessa cadeira cabem 300? Como Mário de Andrade, eu sou
300. Olha que pretensão. Eu não sou mais do que um, mas posso invocar mais do
que 300, os 305 povos que nos últimos 30 anos do nosso país passaram a ter a
disposição de dizer “estou aqui”.
E é como se Ailton
tivesse dito:
– Se é
para o bem de todos e a felicidade geral das 305
nações que resistem no Brasil, digam a elas que fico.
·
O colar do imortal
O auditório ficou
lotado, assim como os jardins da ABL, com líderes de várias dessas nações,
antropólogos, professores, animadores culturais, jornalistas, artistas,
cantores. A escritora Heloísa Teixeira, ocupante da cadeira 30, recepcionou o
novo “imortal”, com um discurso intercalado por vídeos, em um deles a cena
memorável na Assembleia Constituinte, em 1987, na qual Ailton, enquanto falava,
pintava o rosto. Ele deixou marcas da tinta preta de jenipapo impressas nos
artigos 231 e 232 da Constituição brasileira de 1988.
Heloísa reconheceu a
importância de Ailton para o Brasil e a ABL, registrando que aquele era um
momento histórico. Destacou que, junto com ele, entravam na Academia “um
universo de territórios, pensamentos e cosmologias indígenas”, além de
180 línguas enumeradas com critérios linguísticos, que sobem para 274 línguas
autodeclaradas no Censo do IBGE (2010)
O novo acadêmico já
havia recebido o título de doutor honoris causa de várias
universidades federais: de Minas Gerais (UFMG), de Juiz de Fora (UFJF) e de
Brasília (UnB). Foi laureado, entre outros, com o Prêmio Juca Pato de
Intelectual do Ano, concedido pela União Brasileira de Escritores.
Seu discurso
interrompido muitas vezes por aplausos abordou temas diversos: literatura,
direitos dos povos originários, das mulheres, dos afrodescendentes. Lamentou a
demora da ABL em admitir a primeira mulher em seus quadros – Raquel de Queiroz,
só em 1977. Para ele “não é apenas uma questão de gênero, mas de
perceber o mundo de maneira diferente”. Foi justamente uma acadêmica, a
atriz Fernanda Montenegro, quem colocou em Ailton o colar de imortal.
·
A espada
Quando se referiu ao
rito, “que nos dá potência para ir além da nossa rotina de reproduzir
cotidianos, nos saca desse lugar-comum e nos põe num lugar de criação de mundos”,
Krenak citou a música Procissão de Gilberto Gil, ali presente
e submergido por uma chuva de aplausos. Já o pedido de perdão feito pela
Comissão da Anistia aos Povos Originários para ele é insuficiente, porque exige
medidas concretas de reparação.
O território indígena
foi, finalmente, demarcado na ABL. Ailton abriu portas pelas quais podem entrar
Eliane Potiguara, Graça Graúna, Daniel Munduruku e outros escritores. Se mais
um escritor indígena entra na ABL será uma oportunidade para degustar outra vez
o cardápio da noite, com comidas indígenas preparadas pelo grupo mineiro Terra
Come, que brindou o público no final do evento com uma supimpa sopa de
mandioca, cogumelo, banana da terra e banana verde, servida em cumbucas de
argila forradas com folha de taioba.
Ah, já ia me
esquecendo: quem entregou o diploma ao mais novo acadêmico foi Antônio Carlos
Secchin. Já a espada saiu das mãos de Arnaldo Niskier, que não disse, afinal,
para que servia. Ailton, porém, sabe muito bem para que serviu. Historicamente,
ela foi usada por portugueses e espanhóis, que usurparam os territórios
indígenas em nome de Jesus Cristo, como explicitado no poemário La
espada encendida de Pablo Neruda,
“La espada, la cruz y el hambre iban diezmando la familia salvaje”.
Fonte: Por José Ribamar Bessa Freire, em TaquiPraTi

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