O lado perverso da PEC das drogas é
constitucionalizar a análise subjetiva do policial
Professor e sociólogo
conversa com o Sul21 sobre o dilema da guerra às drogas e como se tornou um dos
primeiros parlamentares a levantar a bandeira dos direitos humanos no RS. Rolim
conta que acabou virando uma referência na área de direitos humanos no Rio
Grande do Sul quase que por acaso. Tudo começou quando, enquanto ainda vereador
de Santa Maria, nos anos 1980, criou a Comissão de Direitos Humanos da Câmara
Municipal e recebeu a visita de uma mulher que tinha uma denúncia para fazer.
“Ela chega lá e diz:
‘eu quero falar com o cara dos direitos humanos’. ‘É comigo’. ‘A questão é a
seguinte, vereador, eu acabo de vir do Presídio Regional, fui fazer uma visita
e tem dois presos lá que apanharam tanto, mas tanto, que eles estão num canto e
não dá nem para ver o rosto deles, de tão desfigurados que estão. Eles foram
espancados e eu precisava que alguém fosse lá olhar’. E eu pensei: ‘Eu vou lá’.
Nunca tinha entrado no presídio, mas pensei que sendo vereador, os caras não
iam me barrar. Fui, peguei um assessor da Câmara tinha uma máquina fotográfica
pra tentar pegar um flagrante. Tomei o cuidado de pedir para ela me fazer um
mapa do presídio por dentro, para que lado que eu deveria ir, como é a galeria
e a cela. Ela fez um mapinha. Quando batia na porta do presídio, abriu lá um
sujeito e eu disse: ‘Sou vereador fulano de tal, vim fazer uma visita’. O cara
prontamente abriu, pensando que eu fosse fazer uma visita de cortesia
possivelmente, ninguém visitava presídio. O cara abriu, eu fui entrando, peguei
o mapa. Ele disse: ‘Onde é que o senhor vai?’ Eu disse: ‘Já volto’. E fui. E
cheguei na cela os caras estavam lá, desfigurados. Perguntei o que aconteceu.
‘Os caras bateram na gente’. ‘Quem bateu?’ ‘Fulano’. ‘Foto, bate foto’. Cheguei
no diretor: ‘Explica o que aconteceu aqui’. ‘Ah, pois é, tem que ver’. ‘Como
tem que ver?’”, relata.
Após esse episódio,
Rolim conta que passou a receber denúncias de diversas partes do Estado, o que
se estendeu após ser eleito deputado estadual.
>>>> Eis a
entrevista.
·
Tu foi eleito deputado estadual em 1990
[assumiu em 1991], teve projetos voltados para as áreas dos direitos humanos e
da segurança pública. E acompanhou aquele período efervescente para a área no
início dos anos 1990, que teve rebelião no Presídio Central, o caso Melara.
Como foi acompanhar como deputado que trabalhava com esses pautas?
Antes de chegar a ser
eleito deputado estadual, eu cumpri um mandato de vereador em Santa Maria.
Foi um mandato estranho, na época da ditadura, de seis anos. Eu fui eleito em
1982 o vereador mais votado de Santa Maria e fiz um mandato de seis anos, interrompido
por um ano, esse ano eu interrompi para assessorar a prefeita eleita
pelo PT em Fortaleza, Maria Luiza Fontelle, a primeira prefeita do PT em Capital. Ela era
muito ligada ao grupo ao qual participava na época dentro do PT e acabou me
convidando pra assessorar. Eu fui uma espécie de assessor da área de
comunicação dela, trabalhava muita a comunicação política dela durante um ano
em Fortaleza. Foi uma experiência muito bacana, muito forte para mim, eu
aprendi muito lá, especialmente aprendi com os erros que os governos cometem e
que a esquerda comete nos governos. Eu tive ali uma espécie de lição de várias
coisas óbvias que não se pode fazer no governo e que por inexperiência na época
se praticou. Bom, no retorno, eu termino um mandato como vereador, concorro à
Prefeitura de Santa Maria, fiz uma votação muito boa, praticamente chegamos
juntos quatro candidatos, perdi por um detalhe aquela eleição. Dois anos
depois, a eleição para deputado estadual.
Quando eu venho
a Porto Alegre, eu trago já uma bagagem bastante grande de luta por
direitos humanos. Eu tinha sido presidente da Comissão de Direitos Humanos
da Câmara de Vereadores, que eu criei em Santa Maria. Eu comecei um trabalho
nos presídios que eu nunca escolhi. Um dia, eu estava na presidência da
Comissão de Direitos Humanos, no meu gabinete, aparece uma senhora que tinha um
trabalho muito intenso de assistência social na cidade. Ela fazia um trabalho
no presídio e ouviu no rádio que tinha uma Comissão de Direitos Humanos na
Câmara, o que era uma novidade. Estou falando do final da ditadura. E ela
chega lá e diz: ‘eu quero falar com o cara dos direitos humanos’. ‘É comigo’.
‘A questão é a seguinte, vereador, eu acabo de vir do Presídio Regional,
fui fazer uma visita e tem dois presos lá que apanharam tanto, mas tanto, que
eles estão num canto e não dá nem para ver o rosto deles, de tão desfigurados
que estão. Eles foram espancados e eu precisava que alguém fosse lá olhar’. E
eu pensei: ‘Eu vou lá’. Nunca tinha entrado no presídio, mas pensei que sendo
vereador, os caras não iam me barrar.
Fui, peguei um
assessor da Câmara que tinha uma máquina fotográfica pra tentar pegar um
flagrante. Tomei o cuidado de pedir para ela me fazer um mapa do presídio por
dentro, para que lado que eu deveria ir, como é a galeria e a cela. Ela fez um
mapinha. Quando batia na porta do presídio, abriu lá um sujeito e eu disse:
‘Sou vereador fulano de tal, vim fazer uma visita’. O cara prontamente abriu,
pensando que eu fosse fazer uma visita de cortesia possivelmente, ninguém
visitava presídio. O cara abriu, eu fui entrando, peguei o mapa. Ele disse:
‘Onde é que o senhor vai?’ Eu disse: ‘Já volto’. E fui. E cheguei na cela os
caras estavam lá, desfigurados. Perguntei o que aconteceu. ‘Os caras bateram na
gente’. ‘Quem bateu?’ ‘Fulano’. ‘Foto, bate foto’. Cheguei no diretor: ‘Explica
o que aconteceu aqui’. ‘Ah, pois é, tem que ver’. ‘Como tem que ver?’
E o diretor era, bom,
não vou falar o nome, não importa.
·
Eu estava imaginando que ia ser alguém
ligado à Ditadura.
A repercussão dessa
visita às matérias que saíram na imprensa local foi muito forte, porque era uma
coisa nova. Pensa o clima da época, a ditadura, tem uma denúncia de tortura num presídio, e estava lá na parte final da ditadura, então tinha um
pouco já de espaço para tu questionar essas coisas. O que acontece? Quando a
imprensa faz esse tipo de divulgação, tem uma demanda reprimida de denúncias
nessa área que não tinha para onde escoar e sinaliza para onde tem que ir. Eu
comecei a receber do Estado todo, cara. Começava a vir denúncia de vários
municípios.
·
Então, na verdade, tu nunca quis ser o
vereador dos direitos humanos, mas como teve esse primeiro episódio, acabou se
tornando.
Eu tinha a importância
dos direitos humanos muito clara. O meu primeiro projeto de lei foi o
que criou a comissão. Antes disso, muito menino, eu militava na Anistia Internacional, então passava escrevendo carta para soltar perseguidos
politicamente no mundo. Então, eu tinha uma formação em Direitos Humanos, mas
essa história de trabalhar com presídios foi uma contingência. E aí quando tu
te envolve nessas coisas….. Eu sou assim, se eu não sei uma coisa, eu não me
meto. Agora, se eu me meti, tenho que aprender. Eu não podia dizer ‘não vou
tratar disso’. Eu sabia que tinha que tratar. Então, vai estudar, cara. Vai te
aprofundar na história. Desde ali, eu comecei a ler muito, a participar de
muitos eventos, a me inteirar, a ouvir muitas pessoas, porque tu aprende muito
com as pessoas, inclusive com os agentes penitenciários, com os policiais,
promotor, juiz, com todo mundo.
No começo, tu não sabe
direito, mas de repente tu começa a sacar como é que as coisas funcionam. E eu
acho que, ao longo do tempo, eu aprendi muito. E também fiquei um pouco
obcecado por essas coisas, porque eu não conseguia, depois como deputado, me
esquivar das coisas. Tem situações que tu percebe claramente que são
complicadas, que vão te dar um monte de trabalho e vão te abrir uma série de
riscos. Não só riscos pessoais, isso também, mas risco político, o risco de
desgaste político, o risco de ser atacado, ridicularizado.
·
Esse estigma que é ligado até hoje aos
direitos humanos.
Até hoje eu fico
sabendo, chega nos meus ouvidos, ‘ah, fulano’, não sei quem é, ‘falou que tu
defendeu o bandido não sei aonde’. Esses dias um cara me falou: ‘Eu vi um cara
falando que tu defendeu a degola de um brigadiano na praça’. Eu não era nem
deputado na época, não tive nenhum envolvimento com isso. Então, tem um mito,
tem uma história que vai se espalhando muito além de ti, que tu não domina.
·
O ‘pessoal’ dos direitos humanos foi um dos
alvos originais da fake news no Brasil.
Sim, somos as
primeiras vítimas.
·
E ali na época não era nem esse instrumento
que temos hoje de internet, era por outros meios.
Era por outros meios,
mas também funcionava, só que mais lento. Criou-se muito no Brasil inteiro,
isso começa no final da ditadura, através de alguns radialistas,
como Afanasio Jazadjia, em São Paulo, por exemplo, e
outros. Tinham programas muito populares, eles criaram essa ideia de que o
pessoal dos direitos humanos é o pessoal que defende bandido. Isso é uma marca
e essa história foi tantas, tantas e tantas vezes repetida.
·
Para quem não conhece e é mais jovem,
digamos que fosse um Cidade Alerta, esses programas policialescos começaram no
rádio e eram muito populares nos anos 1980.
Esse pessoal sacou o
seguinte, estava acabando a ditadura, a ditadura foi marcada por muita
tortura, por muito arbítrio praticado por vários policiais que estavam a
serviço da ditadura, e o grande medo dessa turma era o que vai acontecer depois
que acabar a ditadura. Vai ter processo contra a gente, a gente vai ser preso,
vai ser responsabilizado? Essa coisa estava em aberto. Aí começa esse discurso
como uma espécie de prevenção a isso. Qualquer denúncia que surgisse sobre
tortura, era defensor de bandido. Não foi por acaso que surgiu essa história,
esse estigma surgiu para defender torturador. Os sujeito daquela época
reproduziam essa ideia porque estavam preocupados de serem responsabilizados
por aquilo que faziam.
Um bom profissional de
segurança, um sujeito minimamente formado, que tem alguma capacitação, não
precisa ter nível universitário, não é isso, o cara que é um profissional, que
tem formação profissional, que sabe o que tá fazendo, nunca será contra direitos
humanos. É simplesmente um atestado de burrice, de incompetência, de má
formação. Porque segurança pública é um direito humano fundamental. Então, o
policial, por exemplo, que está na rua para garantir a segurança pública, é um
defensor de direitos humanos, ele tá defendendo os direitos humanos das
pessoas. Se ele for um bom profissional. Agora, se for bandido, ele tá pegando
grana do tráfico, torturando suspeito, batendo em gente, achacando pessoas. É
um bandido, do pior tipo, porque é um bandido que é pago com o nosso dinheiro,
que é pago com dinheiro público. Mas essa é uma parte da polícia, a outra parte
não é isso. Eu tenho muitos amigos na polícia, gente muito bacana que eu
admiro, com quem aprendi e aprendo. A gente vai aprendendo a separar o joio do
trigo.
·
Tu acha que, dentro da polícia, existe esse
estigma até hoje?
Certamente em alguns
grupos, especialmente em quem não me conhece. Essas coisas se espalham com mais
rapidez numa faixa de quem nunca conversou comigo, de quem nunca viu a minha
atuação. Eu dou muita aula pra policial, já dei muita aula pra polícia no Brasil
inteiro. Várias vezes aconteceu de dar uma aula para uma turma de policiais,
termina a aula, as pessoas gostaram um monte da aula e vem um falar comigo:
‘Bah, professor, eu tinha uma imagem completamente diferente do senhor’. O que
eu posso fazer? É isso.
·
Eu queria conversar contigo sobre o tema do
momento na área da segurança pública, que é a questão da PEC das Drogas. A
gente vinha em um momento em que, tudo indica, o STF iria descriminalizar o uso
e o Senado apresentou uma proposta de criminalização total das drogas. Em caso
de aprovação, que tipo de impacto terá na segurança pública?
Eu acho que primeiro é
importante explicar pra gente ter bem precisamente do que que nós estamos
falando. O que é a PEC 45 na verdade. Na verdade,
a PEC estabelece o seguinte: a partir de agora, se a Câmara confirmar
a aprovação, nós vamos ter na Constituição do País uma norma que diz que
qualquer droga ilegal, independentemente da quantidade, a posse dessa droga
será considerado um crime. Isso, de alguma forma, é o que a lei brasileira já
diz. Então, do ponto de vista de uma mudança de paradigma, tu não vai ter um
efeito muito grande. Por quê? Porque ele tá dizendo o seguinte: usar droga é crime, traficar é crime, e as penas são diferentes de acordo com a
lei. Isso já está previsto. O que essa PEC faz é impedir, a pretensão pelo
menos é essa, ela impede que num futuro, pode ser daqui a 10 anos, 20 anos,
haja uma norma que descriminalize, por exemplo, o uso da maconha.
·
Teria que ser por uma nova PEC.
Teria que ser por uma
nova PEC. Ou, se o governo tivesse coragem para isso, tirar do rol das
drogas ilegais a maconha, porque quem define o rol das drogas ilegais é o
governo, tem uma porcaria na área da saúde. É outra discussão pra ser feita
mais adiante. De qualquer maneira, o que eles fizeram basicamente foi impedir
que o Supremo Tribunal continuasse a sua votação ou provocar o
Supremo para que não continue. Eu estou muito curioso pra ver como é que o
Supremo vai reagir, porque se a PEC for aprovada, a rigor o Supremo pode
entender que ela é incondicional, e já vou explicar o porquê, mas eu não sei se
o Supremo vai querer bancar essa briga com o Congresso. Eu suspeito até que
não, porque o Supremo é um órgão que também pensa muito sobre as repercussões políticas
daquilo que ele faz, e talvez não seja uma vontade da maioria que está lá
comprar esta briga com o Congresso, certo. Acho que se for aprovada a PEC,
vai passar batido.
Mas qual é o mérito da
questão, para a gente saber do que se trata? Nós temos uma lei aprovada no
Brasil, a lei de 2006, que é a lei que está em vigor, a Lei Antidrogas, que estabelece claramente dois tipos penais: o consumo de
drogas e o tráfico. O consumo de drogas é considerado um crime, mas
não pode ser punido com prisão. Quais são as punições previstas para o usuário?
Ele pode tomar uma advertência, ele pode prestar serviço à comunidade, ele pode
ser obrigado a frequentar um tratamento para dependência, se for o caso. Então, a coisa mais grave que pode acontecer
pra ele, no que diz a lei, é a prestação de serviço à comunidade. Foi detido
pela polícia um jovem que estava com dois cigarros de maconha. ‘Ah, isso aqui é
o uso’. Ok, então ele é um usuário, vai prestar serviço aí por seis meses, duas
horas por dia numa instituição. É a coisa mais grave que poderia acontecer com
ele. Ao mesmo tempo, se a polícia faz uma detenção desse tipo, uma apreensão de
uma quantidade de pequena de drogas, e ela considera que isto é tráfico,
esse cara pode pegar até 15 anos de cadeia.
·
E é uma coisa meio subjetiva.
Total? Esse é o ponto.
Se tu for pegar no caput dos dois artigos quando se define os verbos que
definem as condutas, portar, guardar, ter consigo, etc., tu vai encontrar que
são oito verbos comuns. Tu tem oito condutas comuns nos dois
tipos, tráfico e consumo. Tem uma evidente sobreposição. Isso é
uma coisa que a lei brasileira acabou não resolvendo bem. Mas o que faltou na
lei brasileira? Faltou oferecer um critério objetivo para separar o tráfico do
consumo, como vários países do mundo fizeram, como a Espanha fez, por
exemplo, como nos Estados Unidos. Em vários lugares se adota um critério
de até tantos gramas dessa droga é consumo. A partir disso, é tráfico. Além
disso, é tráfico agravado. Então, a quantidade importa muito em vários lugares.
No Brasil, a gente fez a opção de deixar a cargo de quem? Do policial, do
promotor e do juiz, que vão levar em conta as circunstâncias, até os
antecedentes, entendeu? Você pegou um sujeito com uma pequena quantidade de
droga, digamos dois cigarros de maconha, mas ele mora na periferia da cidade,
ele tem um antecedente por tráfico, é tráfico, acabou. Não tem discussão. Pega
o jovem de classe média alta com 1 kg de maconha no carro. Bom, o cara não tem
antecedentes, ele foi talvez comprar o cigarro para ele, a maconha para ele, é
uso, é usuário, entendeu?
Então, o que se
estabeleceu na verdade no Brasil, não foi uma intenção da lei. Foi um efeito
não pensado não imaginado. É que a lei em vigor instituiu um tratamento
desigual no Brasil em relação aos usuários de droga. Alguns usuários são
considerados traficantes, são mandados para cadeia, outros não. Neste ponto
reside a inconstitucionalidade do artigo 28 da lei, que trata do consumo. O
ministro Alexandre de Moraes, por exemplo, que é notoriamente conhecido como conservador
nessa área, foi ministro da Justiça do Temer, tocava fogo em plantação de
maconha. Vem do Ministério Público, tem uma trajetória de repressão às drogas.
Ele é totalmente contra. Se dependesse da visão dele, a prisão resolvia o
problema da droga. Ele tem uma visão bem diferente da minha sobre drogas. Mas
ele viu uma pesquisa, que é a maior pesquisa já feita no Brasil, com 500 e
poucos mil ocorrências em São Paulo de pessoas presas com drogas. Ele
foi examinar essa pesquisa, que mostra o seguinte: se tu é jovem, tu tem uma
chance muito maior de ser preso do que se tu for uma pessoa de mais idade, com
a mesma quantidade de droga. Se tu for negro,
muito mais. Se for pobre, dezenas de vezes mais. Então, está dizendo que a
mesma quantidade de droga apreendida pela polícia num caso da cadeia, no outro
caso não dá nada. Isso aqui é inconstitucional. Conclusão óbvia. Se a
Constituição estabelece que tu tem que tratar de forma igual as pessoas, tu não
pode ter uma lei que está oficializando o tratamento desigual numa
mesma cidade, no mesmo estado. Dependendo da delegacia, tem um entendimento
diferente. O que ele tá dizendo? Se é para punir, vamos punir igual. E, para
punir igual, precisamos de um critério objetivo. Então vamos estabelecer que
até tantos gramas de maconha é consumo e, a partir disso, é tráfico. Ok, vamos
discutir qual é o limite. Contra isso o Senado se ergueu, contra esse caminho.
(…) Quais são os riscos disso? Se a gente congela essa situação, nós estamos
congelando por uma Emenda Constitucional a guerra contra às drogas no
Brasil.
·
E essa PEC não define o que é tráfico e o
que é consumo?
Não, está dizendo que
qualquer quantidade de droga é crime. Aplica-se a lei. O que a lei diz? Depende
das circunstâncias. É como se eles pegassem a lei brasileira e tocassem dentro
da Constituição. É isso que eles fizeram, a rigor. Eles não estão dizendo que
vai pra cadeia e o cara que é usuário, só que o usuário já tá indo pra cadeia
se for pobre. Esse é o ponto. Aprovando essa PEC, nós vamos congelar isso
por várias décadas.
·
Na prática, acabou congelando a análise
subjetiva.
Esse é o efeito
perverso, porque o mundo inteiro está discutindo isso. Os Estados Unidos,
por exemplo, que é o País que iniciou a guerra contra as drogas, lá nos anos
70. É o país que mais investiu dinheiro na guerra contra as drogas. Em metade
dos estados americanos hoje a maconha está legalizada.
Em Nova York, qualquer pessoa entra numa loja, escolhe o tipo de maconha
que quer consumir, sabe a quantidade de THC, sabe quantos canabinoides
tem, sabe de onde é que vem, qual é o efeito. As pessoas estão empregando
gente, produzindo impostos, diminuindo encarceramento, os resultados são
positivos no geral. Essa é a experiência dos norte-americanos, mas a discussão
está acontecendo no México, no Uruguai. Caiu o mundo? As pessoas
estão morrendo? Não, quem mata no Brasil é o tráfico. O que mata no Brasil é
disputa de pontos de venda. E quem produz isso é o proibicionismo, é a
proibição das drogas que cria espaço por tráfico. Então, se as pessoas não
entenderam isso, não entenderam nada.
Aí tem muita gente
interessada na guerra contra as drogas, muita gente interessada, porque são
sócios do negócio. Vamos pegar o caso do Rio de Janeiro, tu tem policiais
que estão vendendo armas, como esse Ronnie Lessa, por exemplo, matador da Marielle, vendia armas para o tráfico de drogas. É um baita
negócio, né? Então, o cara é da polícia e vende arma para o tráfico. Muitos
policiais no Brasil inteiro, maus policiais que envergonham as polícias, estão
achacando pequenos traficantes para não serem presos. ‘Caiu a casa, meu. Me
passa 20 mil ou tu vai acabar em cana’. É claro que esse policial não é a favor
da mudança da lei de drogas. É muito bom pra ele do jeito que tá. Então,
tem muita coisa por baixo desse tapete que não apareceu ainda. Mas eu acho que
essa discussão toda tem que ser feita no Brasil sem preconceito. Tem argumentos
contrários a isso? Tem. Tem argumentos da área da saúde? Tem.
Fonte: Entrevista com
Marcos Rolim, no Sul 21

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