O futuro ameaçado da infraestrutura pública
A infraestrutura
pública é um aspecto tão fundamental para a vida em sociedade quanto para o
funcionamento e expansão do capitalismo. Ela nos permite o acesso a setores
vitais para a manutenção de nossa existência como educação, saúde, saneamento
básico, habitação, etc. No capitalismo, sua importância abrange desde a
ampliação das cadeias de produção e das dimensões do mercado consumidor. O
papel do Estado foi, e continua a ser, central na construção e manutenção de
infraestrutura, assumindo o que não interessa ao capitalista individual, mas
essencial à expansão do capitalismo para todos os cantos do mundo.
Adam Smith, pai do
liberalismo econômico, já no século XVIII entendia que a construção de obras
públicas figurava entre os três únicos deveres do Estado, juntamente com a
aplicação da lei civil e da proteção do território nacional. A construção e
manutenção de obras públicas seria um dever do Estado já que o financiamento e
a manutenção de tal tipo de obra nunca seria do interesse do capital privado.
Apesar das considerações de Smith, o capital privado foi capaz de se inserir em
alguns setores da infraestrutura, especialmente naqueles em que fosse capaz
adquirir o status de monopólio natural, como, inicialmente, na provisão de
água, energia ou telecomunicações. No entanto, a propriedade pública destas
infraestruturas cedo se revelou essencial e condicional para a sua expansão a
toda a população.
Dentro do sistema
fiscal keynesiano do pós-segunda guerra, a infraestrutura adquiriu um novo
papel ainda no crescimento econômico, dado o efeito do multiplicador fiscal. O
investimento público promove o gasto privado, dando-lhe um alcance como
instrumento de política econômica na busca da estabilização macroeconômica.
Grandes projetos econômicos tinham como base o investimento público em
infraestrutura, como por exemplo o New Deal nos EUA ou o Plano de Metas no
Brasil. Além disso, toda a construção do Estado Social “welfare state” abrangia
uma vasta infraestrutura social de escolas, hospitais, asilos, como uma
obrigação do Estado.
Foi apenas a partir do
final do século XX que a hegemonia da propriedade pública de infraestrutura foi
questionada pelo capital privado. De modo geral, ocorreram dois grandes
movimentos que permitiram a inserção massiva do capital privado no setor de infraestrutura.
O primeiro movimento
se iniciou a partir da década de 1980 com a cruzada neoliberal em favor da
descredibilização da política fiscal e na vilanização da dívida pública. O
entendimento da dívida pública como um mal a ser combatido a todo custo
fortaleceu a ascensão dos regimes de política fiscal baseados em regras
fiscais. Nessa ótica, os orçamentos públicos se tornaram cada vez mais rígidos
e supervisionados. Os investimentos públicos se tornaram a melhor opção de
corte de gastos em prol da austeridade, já que os gastos correntes são mais
suscetíveis a objeções populares. Em outras palavras, é mais fácil acabar com o
que ainda não existe do que com o que já está entre nós. A queda nos
investimentos públicos, principalmente no setor de infraestrutura, ocasionou
uma lacuna entre as necessidades civis e a capacidade pública de investimento,
muitas vezes traduzida mesmo numa degradação física das infraestruturas já
construídas
Desse modo, surge na
Inglaterra um modelo denominado Project Finance Iniciative (PFI), de incentivo
ao investimento privado pelo setor público, capitaneado pelo governo Thatcher
na década de 1990. O projeto funciona como uma forma de governos distribuírem
os custos de investimento em um contrato de longa duração. Além da maior parte
do investimento inicial ser feito pelo parceiro privado, as futuras obrigações
financeiras do parceiro público no contrato raramente aparecem nas obrigações
orçamentais do governo no curto prazo, permitindo com que metas fiscais de
redução de déficits fossem cumpridas, ao mesmo tempo em que as necessidades de
investimento fossem atendidas. Assim, o PFI tornou-se o principal meio de
investimento em infraestrutura na Inglaterra: escolas, hospitais e estradas
foram os principais alvos desse programa.
O segundo movimento se
deu a partir da crise financeira de 2008. Após a crise, o sistema bancário
tradicional foi fortemente regulamentado, favorecendo a entrada de capital na
esfera pouco regulamentada do sistema financeiro, como fundos de pensão, private
equity e gerenciadoras de ativos, conhecidos como shadow banking. A
BlackRock, maior gerenciadora de ativos do mundo, registrou no primeiro
trimestre de 2024 um recorde de 10.5 trilhões de dólares de ativos sob gestão,
mais de um terço do PIB norte-americano. Por outro lado, a queda das taxas de
juros nas economias avançadas pós-crise tornaram o investimento em títulos
públicos pouco rentável, favorecendo a migração do investimento em novos tipos
de ativos, como os chamados ativos reais, ou seja, infraestrutura, como o
geógrafo inglês Brett Christophers descreve na sua obra Our Lives in
their Portfolios.
Existem dois
benefícios relacionados ao investimento em ativos reais que atrai as
gerenciadoras de ativos. Obras de infraestrutura, como linhas de metrô e
rodovias, geram um fluxo de receita consistente, previsível e, na maioria das
vezes, acima da inflação, essencial para satisfazer os detentores dos ativos,
muitas vezes avessos ao risco, e permitir um alinhamento temporal dos seus
passivos e ativos de longo prazo . Outro benefício é de que grande parte das
obras de infraestrutura ostentam um caráter monopolista no mercado, com um
comportamento de demanda inelástico (ou seja, varia pouco em relação a um
aumento no preço) e, portanto, resiliente a recessões – por exemplo, o nosso
consumo de água é pouco sensível ao preço ou ao ciclo econômico
No início desse ano, a
BlackRock adquiriu a Global Infrastructure Partners (GIP), a maior gerenciadora
independente de infraestrutura do mundo, que detém mais de U$100 bilhões em
ativos sob gestão. Nesse momento, o fundador da BlackRock, Larry Fink, afirmou:
“A necessidade global de infraestrutura, combinada com os elevados déficits,
que restringem os gastos do governo, cria uma oportunidade sem precedentes para
o capital privado investir em infraestruturas”1. Em comunicado para
imprensa, a BlackRock valorou o mercado de infraestrutura em 1 trilhão de
dólares e previu como um dos segmentos privados de maior potencial de
crescimento nos próximos anos.
No Brasil, o Teto de
Gastos e o Novo Arcabouço Fiscal foram fundamentais para o processo de
privatização da infraestrutura. Em 2016, mesmo ano da aprovação do Teto de
Gastos, criou-se o Programa de Parceria de Investimentos, pelo governo federal,
que tem por objetivo “ampliar e fortalecer a interação entre o Estado e a
iniciativa privada por meio da celebração de contratos de parceria e de outras
medidas de desestatização”, principalmente nos setores de transporte, energia e
infraestrutura urbana.
Devido às proporções
continentais do Brasil assim como sua divisão federativa, grande parte da privatização
da infraestrutura é promovida pelos governos estaduais e municipais, como é o
caso do saneamento público e das linhas de metrô. Esses entes também se
defrontam com baixa capacidade orçamentária e lacunas no setor de
infraestrutura. Diante disso, o novo marco para parcerias público-privadas
(PPPs), anunciado ano passado pelo governo federal, se encaixa nessa dinâmica.
No texto, o governo busca assegurar a solvência dos acordos com governos
estaduais e municipais aos investidores privados, até agora um dos maiores
riscos apontados. De acordo com o secretário do Tesouro Nacional Rogério Ceron,
“Grandes investidores estrangeiros, que têm muito apetite por projetos, muitas
vezes não entram nestes negócios em razão do alto risco do não cumprimento das
obrigações pelos estados e municípios. O próprio fato de ter garantias do
Tesouro torna o fluxo de recebíveis muito mais seguro, trazendo maior
atratividade”2. Além disso, o marco
prevê emissão de debêntures com isenção de imposto de renda para investimentos
em projetos nos setores de educação, saúde, segurança pública, sistema
prisional, habitação social, requalificação urbana, dentre outros. O objetivo
dos avanços feitos na legislação e execução de PPPs é, claro, catalisar
investimento em infraestrutura, por meio de parcerias com o setor privado, onde
o Estado adquire um caráter indireto de redução de riscos e garantia de
retornos para os acionistas.
Enquanto o Brasil
continuar a insistir na manutenção de regras fiscais incompatíveis com o nível
de investimento público necessário a uma economia subdesenvolvida, a
propriedade física do país continuará seu processo de privatização e estará nas
mãos de grandes empresas e gerenciadoras de ativos. Saneamento, habitação,
infraestrutura urbana, estradas, sistemas prisionais, não terão mais o objetivo
de servir às necessidades populares, mas de, acima de tudo, gerar o maior
retorno possível a acionistas.
Fonte: Por Matheus
Dias, em Outras Palavras

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