sábado, 4 de maio de 2024

Milei e Bolsonaro: o desprezo pelas universidades públicas

Bolsonaro e Milei nunca pensaram duas vezes antes de atacar as universidades públicas de seus respectivos países. Há uma agenda estratégica por trás dos ataques.Ganhou cinco prêmios Nobel, formou 16 presidentes e estava entre as 100 melhores universidades do mundo: essas são apenas algumas das conquistas da Universidade de Buenos Aires (UBA). Incrível, né? Mas isso não impediu Javier Milei, o polêmico presidente argentino, de descrever a universidade como “um espaço de doutrinação comunista e lavagem cerebral”.

O ataque também afetou o orçamento das instituições públicas de ensino superior na Argentina. Atualmente, o país tem a maior inflação do mundo, cerca de 290 % anuais, mas foi liberado para a instituição o mesmo orçamento de 2023. Emiliano Yacobitti, o vice-reitor da UBA, disse em uma entrevista que o hospital universitário precisou até cancelar algumas cirurgias e que a instituição corre o risco de eventualmente não conseguir arcar mais com despesas operacionais básicas, como luz e água.

Tive a oportunidade de conversar com Estefanía Paola Cuello, advogada e professora de Teoria do Estado e História do Direito na Faculdade de Direito da UBA. “Sou contra as políticas de cortes levadas a cabo por Milei. As universidades favorecem a construção da identidade do país, uma vez que promovem e endossam a própria função do Estado. Atacar elas é atacar qualquer possibilidade de aproximação dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade”, afirmou.

Segundo ela, governos como o de Milei tendem à disciplina e à censura dos centros de pensamento. “Contudo, no caso particular da Argentina, o atual executivo está adotando um papel exageradamente ridículo e desnecessário na sua gestão pública. Milei transcende os discursos comuns na América Latina que lutam contra o ‘marxismo cultural'. Ao lado de Milei, Bukele parece moderado e Bolsonaro sério. Mas sua busca vai além de uma posição ideológica. É a busca pelo posicionamento digital através do desprezo por qualquer manifestação cultural séria. O presidente argentino busca ser uma estrela das redes sociais, uma réplica vulgar de Bukele”.

O caso Argentino me lembra muito o caso brasileiro. A USP, a Unesp, a Unicamp, a UFRJ, a UFRGS, a UFBA, a UFMG e muitas outras instituições de ensino superior público brasileiro são referência mundial, mas isso não as impediu de serem alvo de perseguição do ex-presidente, Jair Bolsonaro. Ele e Milei compartilham, além de outras características, um aparente ódio pelo ensino superior público, classificando as universidades como supostos centros de esquerda e espaços de comunismo, que fazem lavagem cerebral.

A UFRJ, assim como a UBA, chegou bem próximo de fechar as portas simplesmente por correr o risco de não conseguir pagar as despesas de luz.

Espaços plurais

A semelhança descrita acima não é coincidência e para entender melhor eu entrevistei Paolo Ricci, cientista político e professor da Universidade de São Paulo (USP). “Há certo consenso na literatura em chamar esses políticos de populistas. Em seus discursos, é uma constante a contraposição entre o povo, moralmente puro, e os “outros”, a elite, vistos como corruptos e imorais fazendo amplo uso de uma linguagem emotiva. Na América Latina, a direita populista centra sua fala contra a esquerda taxada não apenas de ser corrupta, mas de ser comunista e socialista; uma caracterização extremamente marginal. Em geral, o que caracteriza um discurso populista é a simplificação de questões complexas dando a entender que os populistas possuem soluções para os problemas que os “outros” não conseguem enfrentar”, afirmou.

Ele continua: “Um dos elementos destacados pelos estudiosos é o aspecto antipluralista dos populistas no sentido de se apresentar com os únicos que representam o povo. Aqui, portanto, temos que reconhecer um aspecto autoritário no populista, voltado para deslegitimar a ação do opositor em termos competitivos e representativos. Milei e Bolsonaro se enquadram nessa ideia. Se a literatura tem clareza sobre o populismo autoritário de Bolsonaro, Miliei ainda está sob avaliação, mas há fortes similaridades entre os dois”.

O ataque às universidades, segundo ele, não é uma constante entre os governos populistas. Esses ataques no Brasil são “uma tentativa a mais de deslegitimar o PT e, mais em geral, a esquerda e suas pautas que encontram expressão no âmbito universitário, como as pautas identitárias”.

Já na Argentina, segundo Cuello, “este movimento, talvez, tenha sido uma tentativa de se destacar pelo contraste e se opor diametralmente às políticas públicas características dos governos de Cristina Fernández de Kirchner e do peronismo em geral. Possivelmente, ele procurou atrair o eleitorado antiperonista e o emergente eleitorado libertário”.

Além disso, os dois especialistas também concordam em um importante aspecto: não é verdade que há uma hegemonia esquerdista nas universidades públicas. Elas são, muito pelo contrário, espaços heterogêneos de correntes e posicionamentos.

Faço no mestrado em uma universidade pública e cursei a graduação em outra, ambas estão entre as melhores do país. São centros de excelência e que não “doutrinam” seus alunos, mas sim os provocam para despertar o próprio senso crítico.

Graças à formação que recebemos, conseguimos, inclusive, perceber o quanto governantes como os aqui descritos se maquiam com uma narrativa pró-povo, anticorrupção e a favor da liberdade, quando na verdade são antidemocracia e não se preocupam nem um pouco com próprio povo.

Muitos deles, talvez não coincidentemente, não estudaram em uma universidade pública. Se dedicassem o mesmo tempo que gastam falando mal delas as visitando, saberiam o que realmente acontece lá e talvez teriam posicionamentos diferentes e mais respeitosos com instituições que, inclusive, impulsionam o desenvolvimento do país.

¨      Argentina recebe lista de medidas a implementar para integrar a OCDE

A Argentina recebeu, nesta quinta-feira (2), a lista de medidas que deve implementar para integrar a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que inclui as maiores economias do mundo com regimes democráticos.

A chanceler argentina, Diana Mondino, recebeu o documento com as medidas das mãos do secretário-geral da OCDE, o australiano Mathias Cormann, durante uma cerimônia realizada na sede da organização, em Paris.

“O processo se acelerou muito significativamente nos últimos quatro meses (…) Agora o trabalho começa a sério”, disse Mondino aos repórteres, especificando que a Argentina estabelecerá “suas próprias políticas” com base no aconselhamento.

A Argentina manifestou em 2016, durante a presidência do liberal Mauricio Macri, o desejo de aderir à OCDE, que decidiu seis anos depois iniciar o processo de discussões com este país, assim como com Brasil, Peru, Bulgária, Croácia e Romênia.

Ao contrário dos países restantes, não recebeu o documento para a sua adesão em junho de 2022, apesar das “conversas positivas”, segundo Cormann, com a então Argentina presidida pelo peronista Alberto Fernández.

Mondino recebeu nesta quinta-feira o documento que estabelece as modalidades e condições de adesão. A OCDE realizará análises em áreas como o comércio, o investimento, a luta contra a corrupção e a mudança climática.

“Trata-se de trabalhar com todos os padrões e melhores práticas da OCDE para ajudar a Argentina a melhorar seu crescimento econômico e a vida de seu povo”, disse Cormann, que saudou “um momento histórico”.

O avanço no processo de adesão ocorre dois dias depois que o governo argentino obteve aprovação parlamentar para uma série polêmica de reformas para desregulamentar a economia e um pacote fiscal, que agora será debatido pelo Senado.

A política econômica do presidente ultraliberal Javier Milei e seus esforços para reduzir a inflação também receberam o apoio da economista-chefe da OCDE, Clare Lombardelli, nesta quinta-feira, durante a apresentação das perspectivas econômicas da organização.

“O governo está agora adotando uma política fiscal e monetária muito restritiva para controlar a inflação. É a coisa certa a fazer, mas levará tempo para dar resultado”, disse Lombardelli.

Quatro países latino-americanos – Chile, Costa Rica, Colômbia e México – já fazem parte da organização fundada em 1961 e cujos 38 membros representam cerca de 80% do comércio e dos investimentos globais.

·        OCDE prevê que Argentina deve ter contração de 3,3% em 2024 e que PIB do México avançará 2,2%

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projeta, em seu relatório Perspectiva Econômica divulgado nesta quinta-feira, 2, que o Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina sofrerá contração de 3,3% no ano atual, antes de crescer 2,7% em 2025. Já para o México, espera avanços de 2,2% e 2,0%, respectivamente.

A OCDE diz que a Argentina é afetada pela inflação elevada e também por um “considerável mas necessário ajuste fiscal”, além da incerteza política, cenário que pesa no consumo privado e no investimento para a maioria do ano atual. Mas a entidade sediada em Paris acredita que a retirada gradual de restrições à importação e dos controles cambiais deve impulsionar uma recuperação da demanda doméstica, em particular em 2025.

A inflação “desacelera de modo visível, mesmo que apenas gradualmente até agora”, diz ela, acreditando que o recuo mais adiante será mais forte. Também destaca que a consolidação fiscal anunciada “deve continuar a ser implementada”. A OCDE avalia que o país deve restaurar a estabilidade macroeconômica e permitir a retirada de controles cambiais e de capital.

No caso do México, a OCDE diz que o consumo deve ser apoiado por um mercado de trabalho forte. O investimento será apoiado por projetos de infraestrutura públicos, em 2024 (ano eleitoral no país), e por um gradual movimento de “nearshoring” de atividades manufatureiras para o país, com empresas interessadas em ficar mais perto do mercado dos Estados Unidos. Ela acredita que as exportações mexicanas devem apoiar o crescimento de 2025, após terem perdido algum dinamismo no ano atual, em quadro de desaceleração nos EUA, enquanto a inflação continuará a desacelerar de modo gradual, a 3,1% em 2025.

O relatório aponta ainda que o Chile deve crescer 2,3% em 2024 e 2,5% em 2025, com recuperação nos salários reais ajudada pela inflação em queda e condições monetárias mais relaxadas, o que deve apoiar a recuperação no consumo no ano atual e no seguinte. A demanda global por minerais deve ainda sustentar o crescimento das exportações, enquanto a inflação caminhará para a meta de 3% em meados de 2025.

No caso da Colômbia, a OCDE espera crescimento “modesto” neste ano, de 1,2%, e de 3,3% em 2025, em quadro ainda de incertezas que afetam o investimento privado. A inflação colombiana também deve desacelerar de modo gradual, “mas seguirá elevada e apenas cairá à faixa que é a meta no segundo semestre de 2025”, projeta.

Já para a economia do Peru, a entidade projeta avanço de 2,3% no PIB no ano atual e de 2,8% em 2025, diante de condições financeiras mais favoráveis e inflação contida que devem apoiar a demanda doméstica. A inflação também desacelerará, para convergir de modo gradual ao centro da faixa da meta, de 2%, até o fim do ano atual, acredita a OCDE.

 

Fonte: Deutsche Welle/IstoÉ

 

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