Exame das fissuras do bolsonarismo
Há
contradições internas entre os setores da ultradireita brasileira. Faria Lima,
“fazendeiros capitalistas”, classe média “empresária” e caminhoneiros autônomos
têm aspirações distintas e às vezes incongruentes entre si. Como a unidade da
ultradireita pode ser rompida?
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O movimento e o campo
político neofascista
A política brasileira
entrou numa fase nova a partir de 2015, quando se iniciaram as grandes
manifestações de rua pela deposição de Dilma Rousseff. Tendo a classe média, e
principalmente a sua camada superior como a principal força motriz desse
movimento, ele foi, contudo, dirigido pela grande burguesia associada cujo
propósito era restaurar a hegemonia política que perdera com os governos do PT.
O referencial dessa
fração da burguesia brasileira era a política do Estado mínimo dos governos
FHC, que os governos de Lula e de Dilma Rousseff haviam abandonado para
implantar uma política de intervenção do Estado na economia para estimular o
crescimento econômico e reduzir a pobreza, política que podemos denominar
“neodesenvolvimentista”.
O movimento pelo
impeachment, após depurações e também com adesões, inclusive a adesão do
Partido militar, resultou na formação de um movimento de massa de tipo
neofascista, agregando, além da fração superior da classe média, a pequena
burguesia e os proprietários de terra capitalistas principalmente das regiões
Sul e Oeste do país. Heterogêneo desde o seu nascedouro, o movimento
neofascista funcionou como um agente catalizador para a formação de um novo
campo político, o campo neofascista, que, por sua vez, é mais amplo e mais
heterogêneo ainda que o movimento que lhe deu origem.
E a política foi
ingrata com o movimento inicial. Os pioneiros do movimento neofascista foram
empurrados, como veremos, para a periferia do campo político cuja formação
haviam propiciado. Embora permaneçam como forças motrizes principais desse
campo, e a origem social dos financiadores e dos participantes da Intentona
golpista de 08 de janeiro de 2023 é prova disso, não são eles que o dirigem,
isto é, não são eles que dão a última palavra sobre o programa do campo
político que deve a sua existência à militância dos pioneiros do neofascismo.
A grande burguesia
associada, que já controlara politicamente o movimento pelo impeachment,
logrando restaurar neoliberalismo ortodoxo com o governo de Michel Temer,
atraiu o movimento neofascista e, no início da campanha para a eleição
presidencial de 2018, assumiu a sua direção, ao obter, em novembro de 2017, o
compromisso do candidato neofascista de nomear Paulo Guedes para o Ministério
da Fazenda. Nessa nova fase, destacou-se o setor financeiro dessa fração
burguesa, conhecido na linguagem jornalística pela metonímia “Faria Lima”.
A política brasileira
que se encontrava dividida, até 2015, entre, de um lado, o campo político
neoliberal e democrático e, de outro, o campo político neodesenvolvimentista,
passou a contar com um terceiro campo que, também ele, assumiu o
neoliberalismo, trajando-o, no entanto, com uma vestimenta autoritária. O campo
político neofascista expandiu-se também para baixo, atraindo setores das
classes populares arregimentados pelas igrejas pentecostais e neopentecostais.
Esse novo campo político é, tal qual os campos neoliberal democrático e
neodesenvolvimentista, socialmente muito heterogêneo e, por isso, repleto de
contradições no seu interior.
É certo que esse campo
possui um denominador comum que é partilhado por todos os seus integrantes e
que os unifica. Esse denominador é composto pelo anticomunismo e pelo
autoritarismo político. Porém, cada um dos seus integrantes possui também
interesses e valores particulares que podem gerar conflitos mais ou menos
graves e ameaçar a sua unidade.
Isso significa que
elementos como a defesa do da família patriarcal, que são muito vistosos e que
um observador mais apresado poderia atribuir ao conjunto do campo bolsonarista,
não são, na verdade, consensuais entre as classes sociais as frações de classe
que integram esse campo político, ou, pelo menos, não têm a mesma importância
para todos os seus integrantes. Essas distinções todas, frequentemente
desconsideradas pelos analistas do fenômeno, ajudam, contudo, a ter uma visão
mais clara do bolsonarismo, percebendo a heterogeneidade desse campo político e
indicando suas possíveis fissuras, de modo a permitir que os trabalhadores e os
democratas definam táticas mais precisas de combate a esse inimigo.
- Os interesses e valores específicos de cada fração burguesa
integrante do campo político neofascista
A grande burguesia
associada, que abandonou o campo neoliberal democrático e é a força social hegemônica
do campo neofascista, tem de administrar interesses os mais variados dos seus
aliados e dos seus subalternos. Essa fração burguesa está focada na defesa da
irrestrita expansão do capital financeiro internacional na economia brasileira
e na defesa da política fiscal e monetária que garanta alta remuneração para
esse capital e seus associados internos, ou seja, a política fiscal dita
restritiva ou de austeridade – restrição e austeridade para os outros, não para
o capital financeiro. Veremos que parte do capital financeiro integra a grande
burguesia interna, não apoia parte importante das reivindicações da Faria Lima
e abandonou publicamente Jair Bolsonaro na campanha eleitoral de 2022.
Voltando à Faria Lima.
Os companheiros de classe desse setor e de seu campo político, os fazendeiros
capitalistas, têm sérios problemas com as restrições fiscais. Eles aspiram ao
crédito público farto e subsidiado, ao financiamento governamental para o seguro
rural, para a construção de silos em suas propriedades, clamam por obras
públicas como estradas de ferro, de rodagem e portos e por outras políticas e
iniciativas que aumentam o gasto público e dificultam a obtenção de superávit
primário. São defensores convictos da empresa estatal Embrapa.
Essas demandas dos
fazendeiros geram um dos conflitos que ameaçam a unidade do campo fascista.
Convém mencionar que os proprietários de terra capitalistas fizeram parte da
frente política neodesenvolvimentista durante o ciclo de governos do PT. Vindos
de um período de vacas magras em decorrência da política econômica fiscalista
dos governos FHC, melhoraram, e muito, os seus negócios a partir de 2003.
Começaram a mudar de posição política somente a partir de 2013, momento em que
passaram a priorizar a luta por outra política social, ambiental e de ordem,
que calasse os movimentos indígenas, camponês, quilombola e ambientalista. A
história política desses fazendeiros mostra que eles podem oscilar entre um
campo político e outro.
O médio capital é
outra fração da classe dominante que se aliou à grande burguesia associada e
passou a integrar o campo político neofascista. Na preparação do golpe de
Estado entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, tanto a participação dos
proprietários de terra e de suas associações, quanto a das médias empresas
espalhadas por todo o Brasil, participação que se deu fundamentalmente como
financiadores dos acampamentos defronte aos quartéis e também da “Marcha sobre
Brasília”, essa participação está suficientemente documentada nos processos
judiciais.
O médio capital se
encontra excluído da disputa pela hegemonia no interior do bloco no poder – o
próprio desenvolvimento econômico do capitalismo marginalizou-o e ele não
considera a iniciativa de propor uma aliança com o movimento operário e
popular, cuja força política poderia compensar sua fraqueza econômica. Como não
tem, portanto, a ambição de fazer com que a política econômica do Estado
priorize os seus interesses específicos de fração, a média burguesia passou a
valorizar, mais que todas as outras frações burguesas, a dimensão antioperária
e antipopular do neoliberalismo.
O que ela não ganha
como fração, quer ganhar como classe. Integrou-se, então, ao campo neofascista
pelo fato de ser esse campo que garante, na nova situação, a aplicação da
versão mais radical da política social do neoliberalismo, política que
representa, para o médio capital, uma compensação frente ao que ele perde ou
deixa de ganhar com política econômica, seja a dos governos
neodesenvolvimentistas, seja a dos governos neoliberais, neofascistas ou
democráticos. Trocando em miúdos: procura tirar dos trabalhadores, por
intermédio de medidas de política social, aquilo que não consegue tirar da
grande burguesia, por intermédio de medidas de política econômica.
Mas, o médio capital
entretém relação complexa com a política econômica do grande capital e, por
isso, nem sempre é um aliado seguro para a grande burguesia, seja ela a grande
burguesia interna ou a associada. Basta lembrar que o médio capital já esteve no
campo neodesenvolvimentista. Ressentiu-se, particularmente, com a política do
BNDES focada no financiamento do grande capital interno – os então chamados
“campeões nacionais” – e iniciou, então, a sua marcha para a direita. No
movimento do impeachment, a média burguesia industrial paulista foi mobilizada
pela Fiesp de Paulo Skaf para fazer o corpo-a-corpo junto aos deputados na
votação do impeachment.
- Os trabalhadores são o calcanhar de aquiles do campo
político neofascista
Diversos segmentos das
classes trabalhadoras, a começar pela classe média, representam, hoje, a grande
força desse campo político – estão mobilizados nas ruas, dão os votos que os
candidatos fascistas necessitam e podem dar a impressão de que sua posição é
inamovível e permanente. Examinando as coisas mais de perto, podemos afirmar
que não é bem assim.
Os caminhoneiros
autônomos, importante setor da pequena burguesia, bolsonaristas militantes e
pioneiros do movimento neofascista, aspiram a uma remuneração maior para o
frete rodoviário e ao barateamento do combustível. Aspiram também a
financiamentos públicos para a renovação da frota. Num caso, se chocam com os
interesses dos fazendeiros, que são, no entanto, seus aliados políticos, porque
os fazendeiros pretendem reduzir o custo do escoamento da produção, e, noutro
caso, se chocam com os interesses do capital financeiro, que dirige o campo
político no qual os caminhoneiros estão inseridos, e que almeja manter o
chamado preço de paridade internacional para os combustíveis de modo a aumentar
a lucratividade da Petrobrás e, assim, engordar os dividendos que a petroleira
lhe paga.
Os caminhoneiros, que
já foram base de apoio dos dois primeiros governos Lula, mas que, hoje, ainda
se mantêm na frente política neofascista, foram os primeiros prejudicados pelo
governo de Jair Bolsonaro, que os traiu para atender os interesses dos acionistas
da Petrobrás, e ao longo desse período governamental o fascismo dos
caminhoneiros alimentou-se de ideologia.
A alta classe média,
revoltada com a pequena melhoria nas condições de vida das famílias de mais
baixa renda, luta pela manutenção de sua distinção social. Essa preocupação da
classe média com a distinção social não comove nem um pouco o coração dos “faria
limers” – esses estão no topo da hierarquia social, têm consciência da solidez
dessa posição privilegiada e pouco se importam com a redução da desigualdade
que separa a classe média, socialmente insegura, dos trabalhadores de baixa
renda – desde que, é claro, a conta dessa redução não recaia sobre o capital
financeiro.
Uma política real de
reindustrialização pode, com a criação de grande número de empregos mais
qualificados, atrair grande parte da classe média, e até a alta classe média,
para uma posição mais progressista e, isso, a despeito dessa mesma política
elevar as condições de vida dos trabalhadores de menor renda e qualificação.
Lula da Silva venceu a eleição presidencial nos Estados do Sul e do Sudeste em
2002.
Os pentecostais, setor
mais popular da frente neofascista, estão focados na defesa da família
patriarcal – daí o machismo e a homofobia que os caracteriza. Porém, os
populares que aderiram ao pentecostalismo, dadas suas condições de vida, não se
opõem – na verdade aspiram – a medidas de proteção social que destoam da
política neoliberal. A família patriarcal, tão cara aos pentecostais, não entra
em linha de consideração para qualquer uma das frações burguesas definir a sua
relação com o governo. O que as move nesse caso é a questão de saber se as
medidas de política econômica e social do governo atendem ou não os seus
interesses específicos de fração.
Uma fração burguesa
qualquer pode, eventualmente, tomar posição a favor ou tomar posição contra a
luta dos pentecostais se isso lhe fornecer um aliado na sua luta no interior do
bloco no poder. Ou seja, a unidade nesse caso não se basearia em interesse e
valores comuns, mas em circunstâncias da luta política.
- A unidade do campo político fascista pode ser rompida
É verdade que essa
frente ou campo político neofascista, embora amplo e heterogêneo, continua
unido. Já vimos que o anticomunismo e o autoritarismo político formam uma base
comum para essa unidade – embora o anticomunismo para os fazendeiros, para os
pentecostais e para a classe média não signifique a mesma coisa. Mas, as
bancadas da bíblia, da bala e do boi estão votando junto no Congresso Nacional
e são conscientes da força que cada uma das partes obtém com essa unidade.
A burguesia associada
já aprendeu que sem manobras golpistas, como foi a manobra do impeachment de
Dilma Rousseff, ou sem o movimento neofascista, que representou a sua salvação
eleitoral em 2018, é muito difícil para ela assumir e manter o poder governamental.
Sabe que não pode avançar sozinha.
O campo neofascista
ainda está unido, mas poderão surgir defecções, algo semelhante ao que ocorreu
com o campo neoliberal no final da década de 1990, quando a grande burguesia
interna e a classe média iniciaram a sua caminhada em direção ao neodesenvolvimentismo
proposto pelo PT, e que, posteriormente, ocorreu em meados de 2010 com o campo
neodesenvolvimentista, quando a burguesia interna começou a se afastar do
governo de Dilma Rousseff.
Um caso preocupante
para o bolsonarismo: grande parte dos fazendeiros, base pioneira e engajada do
bolsonarismo, começa a se aproximar do governo Lula 3. Os mais recentes
episódios dessa aproximação foram a reação favorável dos fazendeiros diante do
primeiro Plano Safra do Governo Lula 3, plano que destina para o financiamento
público e subsidiado da safra um montante 30% maior que o do último ano do
governo Guedes-Bolsonaro, e o apoio dos fazendeiros ao projeto dos
biocombustíveis do mesmo governo. Para não entrar em choque com a sua própria
base social, o Partido Liberal (PL) viu-se obrigado a apoiar essa política
governamental.
A unidade do campo
político neofascista depende da evolução da economia, da política e da ação
governamental. Mas depende, também, da ação do movimento antifascista. O
movimento democrático e popular tem de levar em consideração a heterogeneidade
do campo político neofascista ao definir a sua tática de luta contra o
fascismo. São necessárias propostas políticas específicas, em primeiro lugar e
acima de tudo, para o setor popular reunido pelas igrejas pentecostais, mas
também, para a classe média e inclusive para o médio capital. É preciso minar e
dividir a frente política fascista.
Fonte: Por Armando
Boito, no A Terra é Redonda

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