sábado, 4 de maio de 2024

Biespecíficos inauguram nova era no combate aos cânceres de sangue

A busca por inovação em soluções oncológicas – do rastreio ao tratamento – disparou nos últimos anos, transformando o curso de diversos tipos de câncer. De acordo com o relatório “Tendências Globais da Oncologia 2023”, da IQVIA, o número de novos ensaios oncológicos teve uma alta de 22% em relação a 2018, enquanto o número de produtos em desenvolvimento em 2022 era estimado em mais de 2 mil. O avanço nos estudos moleculares tem permitido que pesquisadores encontrem biomarcadores cada vez mais específicos para subtipos da doença e a medicina de precisão traz na esteira tratamentos cada vez mais efetivos e com efeitos colaterais reduzidos. Neste contexto, os anticorpos biespecíficos têm despontado como grande aposta para o tratamento dos cânceres de sangue, como alguns tipos de linfomas e mielomas.

Não é à toa que a hemato-oncologia tem um papel vanguardista quando se trata de novas linhas de tratamento, como lembra Abel da Costa Neto, hematologista e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR): “Embora tenhamos uma incidência muito maior dos tumores oncológicos sólidos, a hematologia, por questões de biologia mesmo, tem uma facilidade em relação ao desenvolvimento de novos tratamentos. Se olharmos, tradicionalmente, novas classes de tratamentos, como anticorpos específicos, CAR-T cell e a própria imunoterapia, surgem primeiro na hematologia para depois migrar para os tumores sólidos”.

No caso dos anticorpos biespecíficos, as expectativas são altas por algumas razões. Uma delas é pela sua ampla atuação no sistema imunológico, já que eles funcionam como um ataque duplo: ao mesmo tempo em que age diretamente nas células tumorais, ele também se liga ao linfócito T do sistema imunológico do paciente e sinaliza quais células ele deve atacar. Outra razão é que, por ter uma aplicação mais simplificada – por via intravenosa ou subcutânea – ela pode facilitar o acesso.

Recentemente, em entrevista no Futuro Talks, a hematologista Danielle Leão, pesquisadora da BP, explicou que “os anticorpos biespecíficos podem ser utilizados em muitos locais, em diversas clínicas e hospitais”, quando comparado a outras tecnologias inovadoras disponíveis. “Há também facilidade na administração, visto que o paciente pode receber esse medicamento subcutâneo em clínicas e hospitais de todo o Brasil com uma injeção rápida, sem precisar se deslocar até centros específicos. Além disso, é uma terapia prontamente disponível, o que significa, ao identificar a progressão da doença, podemos prescrever e utilizar o bispecífico imediatamente.”

·        Terapias com biespecíficos no Brasil

No Brasil, atualmente, o biespecífico já está aprovado para o tratamento de mieloma múltiplo e linfoma difuso de grandes células B em terceira linha recidivado (que voltou após o tratamento) e refratário (que não melhora, apesar das terapias disponíveis). O avanço é celebrado por Neto, que compartilha os resultados positivos que têm sido observados pelas pesquisas com pacientes brasileiros:

“A minha experiência com as pesquisas sobre o uso do biespecífico, com os estudos clínicos com pacientes, é muito positiva. Tanto em cenários de pacientes com reincidência, quanto em cenários de primeira linha. São estudos que têm um perfil de segurança muito bom, mesmo com os efeitos colaterais comuns à classe, e no geral os pacientes toleram muito bem o tratamento. Isso é muito positivo”.

Nos Estados Unidos, entre 2014 e 2023, o Food and Drugs Administration (FDA), agência reguladora americana equivalente à Anvisa) aprovou nove biespecíficos, que receberam aprovação para tratar não apenas os cânceres de sangue, como também carcinoma pulmonar de células não pequenas e melanoma uveal.

Para Neto, é uma questão de tempo até a expansão das recomendações ocorrer no Brasil também: “É a história natural. Uma vez que a gente tem uma molécula nova, iniciamos o tratamento dela para ver se a droga é segura e eficaz, e participam dos estudos pacientes que já foram expostos a outros tipos de tratamento”.

·        Mudança de paradigmas

Embora as terapias existentes, como a combinação entre a quimioterapia tradicional e a imunoterapia, tenham bons resultados, cerca de 30% a 40% dos pacientes não respondem a estas alternativas e apresentam a doença de maneira refratária e recidivante, de acordo com estudo publicado na revista Cancer Management and Research.

Leão destacou que novas possibilidades de um arsenal terapêutico para pacientes recidivados ou refratários são animadoras. “Vemos a diferença em casos extremamente refratários. Recebemos um paciente na faixa dos 40 anos, que desde a administração da primeira dose respondeu de maneira muito positiva. É uma tecnologia com mecanismos inteligentes”, afirmou durante o episódio de Futuro Talks.

Pelo mecanismo de ação adotado, as novas terapias tem apresentado níveis de toxicidade muito menores do que aqueles encontrados nos tratamentos tradicionais. O que significa também menos efeitos adversos e melhor qualidade de vida para o paciente.

A expectativa é que, em alguns anos, os biespecíficos devem caminhar para outras linhas de tratamento. “A tendência é eles virem cada vez mais para linhas mais precoces de tratamento, até chegar em primeira linha”, afirma Neto. “Hoje, estamos com estudo de primeira linha para alguns outros tipos de linfomas e mielomas – lógico, a gente vai ter esse resultado lá na frente – mas a nossa expectativa é que esses pacientes tenham resultados superiores. A meta é curar a maior parte dos pacientes, algo que já acontece de certa forma na hemato, mas que agora pode se expandir para aqueles que não são curados com os tratamentos atuais.”

Na opinião do pesquisador do IDOR, as pesquisas, além de ferramentas para comprovar a segurança e eficácia de uma nova droga, são também um meio de viabilizar o acesso aos pacientes que podem ser beneficiados.

“A gente tenta incluir a maior quantidade de pacientes possível nos estudos, apesar dos desafios da falta de cultura da pesquisa clínica no Brasil. Não são apenas os pacientes que não têm conhecimento sobre essa possibilidade, muitas vezes o próprio médico não tem essa vivência, não é algo explorado na formação médica ou no dia a dia da profissão”, avalia Neto. “O próprio site da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) tem uma lista dos estudos clínicos abertos no Brasil. Falta um pouco de conhecimento, mas é inclusive uma ferramenta que temos para tentar diminuir essa assimetria que a gente tem do sistema privado com o público.”

·        Triespecíficos são aposta para o futuro

Outro entrave para avanços mais rápidos envolve a produção científica nacional, que vem mudando positivamente, mas ainda é desafiador. De acordo com dados da Citeline, base global de estudos clínicos, de 3.791 estudos clínicos oncológicos iniciados em 2021 na área de oncologia, o Brasil participa de 74 – equivalente a 2,0% do total global.

“A participação do Brasil em pesquisas clínicas, que vão gerar estudos de registro de novas terapias e tecnologias de saúde, tem impacto no processo de incorporação, porque com elas conseguiríamos ter uma representatividade em relação às nossas particularidades, de incidência de eventos adversos”, detalha Neto. “E isso faz sentido, porque o metabolismo das drogas é diferente em populações diferentes. Então, ter pacientes brasileiros facilita esse processo, porque são estudos que já vão ter passadopor instâncias éticas e regulatórias.”

Na esteira dos avanços com essas pesquisas estão os triespecíficos. Com ação semelhante aos biespecíficos, a diferença é que, como o nome sugere, os triespecifícos contam com três pontos de conexão, o que permite ter mais de uma molécula antígena como alvo. “O biespecífico veio para ficar, e a tendência é que a gente tenha cada vez mais novas moléculas e novos alvos. Outra novidade são os triespecíficos, que vão utilizar novas moléculas com mais de um alvo para que haja uma seletividade maior”, salienta o pesquisador.

 

Fonte: Futuro da Saúde

 

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