Biespecíficos inauguram nova era no combate
aos cânceres de sangue
A busca por inovação
em soluções oncológicas – do rastreio ao tratamento – disparou nos últimos
anos, transformando o curso de diversos tipos de câncer. De acordo com o
relatório “Tendências Globais da Oncologia 2023”, da IQVIA, o número de novos ensaios oncológicos teve uma alta
de 22% em relação a 2018, enquanto o número de produtos em desenvolvimento em
2022 era estimado em mais de 2 mil. O avanço nos estudos moleculares tem
permitido que pesquisadores encontrem biomarcadores cada vez mais específicos
para subtipos da doença e a medicina de precisão traz na esteira tratamentos
cada vez mais efetivos e com efeitos colaterais reduzidos. Neste contexto, os
anticorpos biespecíficos têm despontado como grande aposta para o tratamento
dos cânceres de sangue, como alguns tipos de linfomas e mielomas.
Não é à toa que a
hemato-oncologia tem um papel vanguardista quando se trata de novas linhas de
tratamento, como lembra Abel da Costa Neto, hematologista e pesquisador do
Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR): “Embora tenhamos uma incidência
muito maior dos tumores oncológicos sólidos, a hematologia, por questões de
biologia mesmo, tem uma facilidade em relação ao desenvolvimento de novos
tratamentos. Se olharmos, tradicionalmente, novas classes de tratamentos, como
anticorpos específicos, CAR-T cell e a própria imunoterapia, surgem primeiro na
hematologia para depois migrar para os tumores sólidos”.
No caso dos anticorpos
biespecíficos, as expectativas são altas por algumas razões. Uma delas é pela
sua ampla atuação no sistema imunológico, já que eles funcionam como um ataque
duplo: ao mesmo tempo em que age diretamente nas células tumorais, ele também
se liga ao linfócito T do sistema imunológico do paciente e sinaliza quais
células ele deve atacar. Outra razão é que, por ter uma aplicação mais
simplificada – por via intravenosa ou subcutânea – ela pode facilitar o acesso.
Recentemente, em
entrevista no Futuro Talks, a hematologista Danielle Leão, pesquisadora da BP, explicou
que “os anticorpos biespecíficos podem ser utilizados em muitos locais, em
diversas clínicas e hospitais”, quando comparado a outras tecnologias
inovadoras disponíveis. “Há também facilidade na administração, visto que o
paciente pode receber esse medicamento subcutâneo em clínicas e hospitais de
todo o Brasil com uma injeção rápida, sem precisar se deslocar até centros
específicos. Além disso, é uma terapia prontamente disponível, o que significa,
ao identificar a progressão da doença, podemos prescrever e utilizar o
bispecífico imediatamente.”
·
Terapias com
biespecíficos no Brasil
No Brasil, atualmente,
o biespecífico já está aprovado para o tratamento de mieloma múltiplo e linfoma
difuso de grandes células B em terceira linha recidivado (que voltou após o
tratamento) e refratário (que não melhora, apesar das terapias disponíveis). O
avanço é celebrado por Neto, que compartilha os resultados positivos que têm
sido observados pelas pesquisas com pacientes brasileiros:
“A minha experiência
com as pesquisas sobre o uso do biespecífico, com os estudos clínicos com
pacientes, é muito positiva. Tanto em cenários de pacientes com reincidência,
quanto em cenários de primeira linha. São estudos que têm um perfil de
segurança muito bom, mesmo com os efeitos colaterais comuns à classe, e no
geral os pacientes toleram muito bem o tratamento. Isso é muito positivo”.
Nos Estados Unidos,
entre 2014 e 2023, o Food and Drugs Administration (FDA), agência reguladora
americana equivalente à Anvisa) aprovou nove biespecíficos, que receberam aprovação para tratar não apenas os cânceres de
sangue, como também carcinoma pulmonar de células não pequenas e melanoma
uveal.
Para Neto, é uma
questão de tempo até a expansão das recomendações ocorrer no Brasil também: “É
a história natural. Uma vez que a gente tem uma molécula nova, iniciamos o
tratamento dela para ver se a droga é segura e eficaz, e participam dos estudos
pacientes que já foram expostos a outros tipos de tratamento”.
·
Mudança de paradigmas
Embora as terapias
existentes, como a combinação entre a quimioterapia tradicional e a
imunoterapia, tenham bons resultados, cerca de 30% a 40% dos pacientes não
respondem a estas alternativas e apresentam a doença de maneira refratária e
recidivante, de acordo com estudo publicado na revista Cancer
Management and Research.
Leão destacou que
novas possibilidades de um arsenal terapêutico para pacientes recidivados ou
refratários são animadoras. “Vemos a diferença em casos extremamente
refratários. Recebemos um paciente na faixa dos 40 anos, que desde a
administração da primeira dose respondeu de maneira muito positiva. É uma
tecnologia com mecanismos inteligentes”, afirmou durante o episódio de Futuro
Talks.
Pelo mecanismo de ação
adotado, as novas terapias tem apresentado níveis de toxicidade muito menores
do que aqueles encontrados nos tratamentos tradicionais. O que significa também
menos efeitos adversos e melhor qualidade de vida para o paciente.
A expectativa é que,
em alguns anos, os biespecíficos devem caminhar para outras linhas de
tratamento. “A tendência é eles virem cada vez mais para linhas mais precoces
de tratamento, até chegar em primeira linha”, afirma Neto. “Hoje, estamos com
estudo de primeira linha para alguns outros tipos de linfomas e mielomas –
lógico, a gente vai ter esse resultado lá na frente – mas a nossa expectativa é
que esses pacientes tenham resultados superiores. A meta é curar a maior parte
dos pacientes, algo que já acontece de certa forma na hemato, mas que agora
pode se expandir para aqueles que não são curados com os tratamentos atuais.”
Na opinião do
pesquisador do IDOR, as pesquisas, além de ferramentas para comprovar a
segurança e eficácia de uma nova droga, são também um meio de viabilizar o
acesso aos pacientes que podem ser beneficiados.
“A gente tenta incluir
a maior quantidade de pacientes possível nos estudos, apesar dos desafios da
falta de cultura da pesquisa clínica no Brasil. Não são apenas os pacientes que
não têm conhecimento sobre essa possibilidade, muitas vezes o próprio médico
não tem essa vivência, não é algo explorado na formação médica ou no dia a dia
da profissão”, avalia Neto. “O próprio site da Associação Brasileira de
Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) tem uma lista dos estudos
clínicos abertos no Brasil. Falta um pouco de conhecimento, mas é inclusive uma
ferramenta que temos para tentar diminuir essa assimetria que a gente tem do
sistema privado com o público.”
·
Triespecíficos são
aposta para o futuro
Outro entrave para
avanços mais rápidos envolve a produção científica nacional, que vem mudando
positivamente, mas ainda é desafiador. De acordo com dados da Citeline, base global de estudos clínicos, de 3.791 estudos
clínicos oncológicos iniciados em 2021 na área de oncologia, o Brasil participa
de 74 – equivalente a 2,0% do total global.
“A participação do
Brasil em pesquisas clínicas, que vão gerar estudos de registro de novas
terapias e tecnologias de saúde, tem impacto no processo de incorporação,
porque com elas conseguiríamos ter uma representatividade em relação às nossas
particularidades, de incidência de eventos adversos”, detalha Neto. “E isso faz
sentido, porque o metabolismo das drogas é diferente em populações diferentes.
Então, ter pacientes brasileiros facilita esse processo, porque são estudos que
já vão ter passadopor instâncias éticas e regulatórias.”
Na esteira dos avanços
com essas pesquisas estão os triespecíficos. Com ação semelhante aos
biespecíficos, a diferença é que, como o nome sugere, os triespecifícos contam
com três pontos de conexão, o que permite ter mais de uma molécula antígena
como alvo. “O biespecífico veio para ficar, e a tendência é que a gente tenha
cada vez mais novas moléculas e novos alvos. Outra novidade são os
triespecíficos, que vão utilizar novas moléculas com mais de um alvo para que
haja uma seletividade maior”, salienta o pesquisador.
Fonte: Futuro da Saúde

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