Um primeiro de maio triste para os que são
livres como pássaros
Quando em 1886 os
trabalhadores norte americanos entraram em greve pela jornada de trabalho de
oito horas (a jornada média era de 13 horas), descanso semanal e férias
remuneradas, mal poderiam imaginar que cento e trinta e oito anos depois,
trabalhadores de aplicativo exigiriam o direito de trabalhar doze horas e sem
direitos.
Em um primeiro de maio
convocado por quase todas as centrais sindicais, com uma participação muito
pequena, cerca de quatro ou cinco mil pessoas, o presidente Lula conclamou por
um país mais justo. Mas, deixemos por um tempo o governo e suas intenções. Voltemos
nossa reflexão para a cobertura jornalística. Deixando de lado a conhecida
campanha de ataque ao governo pela direita e extrema-direita, que insistiu em
apontar possíveis deslizes eleitorais ou o almoço dos ministros, me chamou a
atenção a pauta da Globo News, com claro corte editorial, uma vez
que vários comentaristas ao longo do dia insistiram em uma conhecida tese.
Para os chamados
comentaristas da emissora, o presidente falaria para uma classe que não mais
existe, que lutava por salários e direitos, enquanto a atual classe
trabalhadora é formada por empreendedores individuais que não querem patrão,
“querem mandar em seu próprio nariz”, nas palavras de um dos supostos
jornalistas, “querem fazer seus próprios horários’, enfim, “querem ser livres”.
O Estado, segundo essa visão, não deveria se meter na livre negociação entre
trabalhadores e patrões e sim dar as condições gerais para que o clima
econômico seja favorável, a inflação controlada e, além disso, estabelecer um
conjunto de políticas públicas que permitiria aos mais pobres ter um patamar
adequado para entrar na livre concorrência por empregos e capacidade de consumo.
Sabemos que isto que
ocupou o lugar do jornalismo especializou-se em descrever a forma mais
superficial das aparências, portanto não devemos cobrar nada que se aproxime a
uma análise. Aqui, nos interessa destacar como a ideologia opera nesta ação
supostamente informativa. Uma das características da ideologia é que ela não
apenas encobre determinações, mais precisamente a operação ideológica encobre
mostrando, revela para ocultar. Mas, o que estaria oculto no fenômeno descrito
em sua aparência?
Houve uma profunda
alteração da forma da classe trabalhadora, como nos diz Ricardo Antunes (2005)
– na morfologia da classe – e sabemos que isto se deve a alterações nos padrões
de acumulação do capital nas condições das relações sociais de produção contemporâneas.
As eufemisticamente chamadas de relações “flexíveis” nada mais são que a
adequação das relações de trabalho às exigências do capital monopolista
mundial. Sabemos que o efeito destas exigências incide sobre os trabalhadores
precarizando os contratos de trabalho, dispersando a classe, rebaixando níveis
salariais e eliminando direitos duramente conquistados.
Tudo isto é conhecido,
mas o que nos interessa é a afirmação que este novo trabalhador, na versão do
porta-voz do capital na mídia corporativa, não quer direitos e condições de
trabalho porque isto afetaria sua liberdade. Diante de tal afirmação tendemos a
reagir emocionalmente afirmando que não é verdade, é pura manipulação.
Entretanto, acredito que aqui está o centro de nossa inquietação, a ideologia
não é mera enganação, mentira e falsificação, embora tudo isto esteja presente
na ação ideológica, como nos diz Eagleton (1997). A ideologia apresenta uma
inversão que não pode ser criada no terreno ideal, mas habita no mundo e, ao
fazê-lo, opera legitimando-a como natural e necessária.
Nesta direção, ao
invés de questionar o discurso ideológico que se expressa na afirmação – “o
trabalhador não quer direitos, quer ser livre” – devemos nos perguntar sobre a
materialidade de tal comportamento e suas determinações que não vão se
apresentar na superfície e não podem ser escritas em nenhum teleprompter.
Primeiro, devemos
inquirir sobre esta liberdade. Marx (2013) nos dizia que o modo de produção
capitalista exige uma pré-condição que é a separação do produtor direto de seu
meio de produção, para ser claro, uma expropriação. Desta forma, nos diz Marx,
para que o capitalismo exista foi e é necessário “acima de tudo, os momentos em
que grandes massas humanas são despojadas súbita e violentamente de seus meios
de subsistência e lançadas ao mercado de trabalho como proletários
absolutamente livres” (Marx, 2013, p. 787).
O termo em alemão que
nosso autor utiliza nesta passagem é Vogelfrei, que pode ser
traduzido como “livre como os pássaros” ou “fora-da-lei”. Assim, livre aqui se
refere à separação entre o produtor direto e seus meios de subsistência e de
trabalho.
Alguém poderia
argumentar que tal processo diz respeito ao proletariado tradicional e não à
nova classe trabalhadora, exatamente pelo fato que seria, segundo o otimista
jornalista, formada por empreendedores individuais que operam com seus próprios
meios. Aqui se destaca outro elemento da operação ideológica: tomar o todo pela
parte. Eis que como um passe de mágica toda a classe trabalhadora é formada por
indivíduos donos de seus meios de trabalho. Mas não nos adiantemos.
A nova configuração do
trabalho teria assumido a forma de indivíduos livres como os pássaros que não
querem direitos, querem determinar livremente sua jornada e as condições de
trabalho e receber pelo serviço ou produto resultante de seu trabalho. Certo,
mas de quem estamos falando?
Segundo o IBGE, a
população economicamente ativa no Brasil é de 107,46 milhões de pessoas, das
quais estariam ocupadas 95,4 milhões. Trabalhariam com carteira assinada no
setor privado 34,55 milhões trabalhadores e trabalhadoras e 12,38 sem carteira
assinada (46,93 milhões no total de assalariados e assalariadas). Os chamados
“trabalhadores por conta própria” seriam 25,5 milhões.
O que o discurso
ideológico oculta é que a composição da classe trabalhadora ocupada é de 49% de
assalariados no setor privado (com ou sem carteira assinada) e de 26,8% de
trabalhadores por conta própria, apresentados homogeneamente como não querendo
direitos. Se somarmos os funcionários públicos, que parecem não estar ansiosos
por perder direitos, os assalariados seriam 61,09% da população ocupada. A
mágica da ideologia é apresentar o particular como se fosse universal.
Os trabalhadores
livres como pássaros, portanto despojados dos meios de produção que lhes foram
expropriados e concentrados em grandes monopólios, têm salários, FGTS, férias,
13º salário, planos de saúde, descanso semanal remunerado e, ainda que atacado,
um certo direito à aposentadoria. Os trabalhadores de plataformas submetidas a
algoritmos, que defendem a liberdade, trabalham doze horas por dia por uma
remuneração variável a critério do algoritmo (a Uber, por exemplo, fica com
cerca de 40% do valor da corrida), sem direito ao descanso semanal e férias,
sem aposentadoria e sem nenhuma cobertura de saúde.
Apesar de se acharem
livres, a atual negociação de um projeto que regularia a categoria e chegaria a
algum patamar de direitos (um projeto bem limitado, diga-se de passagem) foi
estabelecida com as empresas e, no caso dos entregadores, a principal delas melou
o acordo se retirando das negociações!
Isto nos leva a
afirmar que, por um aparente paradoxo, os trabalhadores mais precarizados que
se acham livres, que utilizam de seus meios para trabalhar (o carro, a moto,
seu computador para o home office, etc.) expressariam
um interesse de manter tal condição. Como compreender? Certamente não
chegaremos perto da resposta assistindo a Globo News e os
comentários impostos pela pauta editorial.
Voltemos às brumas
distantes da acumulação primitiva, processo no qual se deu a grande
expropriação que separou os trabalhadores de seus meios de trabalho e
subsistência. Por muito tempo tiveram que ser forçados a se pôr a trabalhar
para outro, seja o arrendatário no campo, depois o arrendatário capitalista nas
manufaturas e depois nas indústrias. Diz Marx na parte que trata do tema:
Não basta
que as condições de trabalho aparecem em um polo como capital e no outro como
pessoas que não tem nada para vender, a não ser sua força de trabalho. Tampouco
basta obrigá-las a se venderem voluntariamente. No evolver da produção
capitalista desenvolve-se uma classe de trabalhadores que, por educação,
tradição e hábito, reconhece as exigências desse modo de produção como leis
naturais e evidentes por si mesmas (Marx, 2013. p. 808).
A forma como se dão as
relações entre trabalhadores e os donos do capital mudou muito historicamente,
tanto pela constante alteração e desenvolvimento técnico dos meios de produção,
como pela luta de classes. Em 1886, os trabalhadores de Chicago tiveram que
lutar e os mártires foram mortos na forca para diminuir a jornada para oito
horas. Muitas outras lutas em todo o mundo e no Brasil foram necessárias para
estabelecer o salário mensal, o descanso semanal remunerado, férias, direitos
previdenciários e tantos outros. Hoje, vivemos uma correlação de forças que
leva à desconstrução destes patamares de direito. O que não se altera é que o
fundamento das relações de trabalho se dá entre aqueles que entregam sua força
de trabalho para uma empresa que utiliza seu trabalho para gerar valor e mais
valor.
A educação, a tradição
e o hábito forjam novos acomodamentos às exigências do capital que se
apresentam ideologicamente como naturais. O que explica que tal acomodamento
possa se dar em uma relação de profunda exploração de uma grande empresa
monopolista e vários trabalhadores que se acreditam livres pois utilizam seus
meios para exercer o trabalho?
Em outra passagem do
mesmo texto acreditamos encontrar uma pista valiosa. Quando descreve o
nascimento de um proletariado, Marx avaliará que nas condições de seu
surgimento, o trabalho ainda vivenciaria uma “subordinação formal” ao capital,
isto porque os proletários ainda eram um pequeno número no conjunto da
população, imersos na enorme população camponesa e pela produção corporativa
nas manufaturas. Isto porque, afirma o autor, “o modo de produção não possuía
ainda um caráter especificamente capitalista”.
Ora, vivemos hoje um
modo de produção especificamente capitalista, o que implica que vivemos uma
subordinação real do trabalho ao capital, que os expropriados só podem garantir
sua existência subordinando-se aos ditames da mercadoria e da valorização. Não
podemos mais comer, vestir, morar ou nos divertirmos sem que entremos nos
círculos da mercadoria e do capital. Em tempos de subordinação real e não
meramente formal, certos segmentos da classe trabalhadora podem inclusive
operar seus próprios meios, no entanto só podem operá-los subordinados ao
capital e inserindo-se no mercado de produção de mercadorias ou serviços
operados por grandes empresas. Como se fosse uma lei natural que sempre
existiu.
Agora são livres,
mesmo tendo a posse direta de meios de trabalho (motos, carros, computadores,
produzidos por operários em grandes fábricas pelo mundo), para se somar ao
enorme conjunto de expropriados que só pode existir subordinando-se ao processo
de valorização e realização do valor em toda a sua dimensão.
O torpe jornalista
imbecil sorri ao final de seu comentário inútil como se fosse a revelação enfim
encontrada das leis que movem o universo. Os pássaros livres voam para o bem do
capital que os aprisiona.
Fonte: Por Mauro Luis
Iasi, no Blog da Boitempo

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