Zelensky perde apoio popular e pode ser
substituído em prol de processo de paz, diz analista
Pesquisas de opinião mostram desgaste de Zelensky
entre população ucraniana, enquanto autoridades ocidentais debatem a
substituição do líder ucraniano. A Sputnik Brasil conversou com especialistas
para saber como o autoritarismo e a visão irrealista sobre o campo de batalha
podem levar ao fim da presidência de Zelensky.
Após o fracasso da contraofensiva ucraniana e de
uma viagem com poucos resultados aos EUA, o presidente da Ucrânia, Vladimir
Zelensky, enfrenta dificuldades para se manter no poder. Nesta segunda-feira, o
Serviço de Inteligência Externa da Rússia (SVR) informou que uma eventual
substituição do líder ucraniano já é debatida por autoridades no Ocidente.
Dentre os nomes aventados pelas autoridades
ocidentais, segundo as informações da inteligência russa, estão o do chefe das
Forças Armadas da Ucrânia, Valery Zaluzhny, do chefe da Direção Principal de
Inteligência (GUR, na sigla em ucraniano), Kirill Budanov, e do chefe do
gabinete presidencial, Andrei Yermak.
Mas não é só o apoio ocidental a Zelensky que se
encontra em franco declínio. A população ucraniana também expressa perda de
confiança na autoridade de seu presidente.
Recente pesquisa de opinião publicada pela revista
The Economist aponta que Zelensky, celebrado no Ocidente como unificador da
nação ucraniana perante o esforço de guerra, mingua somente 32% de apoio
popular. Outras figuras de relevância gozam de larga vantagem sobre Zelensky,
como o chefe das Forças Armadas Zaluzhny, que conta com 70% de confiança, e o
chefe da Direção Principal de Inteligência do país Budanov, com 45%.
Porém, a desvantagem nas pesquisas de opinião
pública pode não representar uma ameaça iminente a Zelensky, que é contra a
realização das eleições presidenciais, previstas para março de 2024. De acordo
com o presidente ucraniano, o país não deve realizar eleições enquanto estiver
sob lei marcial.
"Não acho que seja apropriado realizar
eleições nesse momento", disse Zelensky no início de novembro em anúncio à
população. "Precisamos reconhecer que agora o momento é de defesa e de
batalha."
Para a doutoranda em Relações Internacionais pelo
Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (PUC-SP/UNESP/UNICAMP), Nathana
Garcez Portugal, membros da classe política ucraniana suspeitam que os motivos
de Zelensky para adiar as eleições sejam outros.
"Líderes ucranianos já entendem que pode, sim,
haver um interesse de Zelensky na manutenção do seu próprio poder e de sua
posição na política ucraniana", disse Portugal à Sputnik Brasil.
Já a mestre em Relações Internacionais pela
Universidade Estadual Paulista (UNESP), Giovana Branco, questiona a
impossibilidade de realizar eleições em tempos de guerra, recorrendo a exemplos
históricos.
"Apesar do argumento de que eleições em tempo
de guerra sejam difíceis, temos exemplos de governos que realizaram eleições de
forma segura nessas condições", disse Branco à Sputnik Brasil. "Não
seria necessariamente algo impossível de se realizar [...], mas Zelensky não
parece aberto a essa possibilidade."
Eleições que marcaram a história do Ocidente, como
a derrota de Winston Churchill no Reino Unido para seus opositores do Partido
Trabalhista em 1945, foram realizadas durante conflitos militares de grande
escala. Os EUA, aliados de primeira ordem de Zelensky, reelegeram Abraham
Lincoln em 1864, em meio à grave Guerra Civil americana.
A oposição de Zelensky à realização de novas
eleições é um dos motivos pelos quais sua liderança vem sendo cada vez mais
criticada internamente. No início de dezembro, o prefeito de Kiev, o
ex-boxeador Vitaly Klichko, acusou o presidente de seu país de autoritarismo
durante entrevista ao jornal alemão Der Spiegel.
"Há um descontentamento da população e de
figuras políticas em função de práticas centralizadoras e autoritárias",
asseverou Portugal. "Mas é importante destacar que elas já existiam antes
do início do conflito."
De fato, medidas impostas por Zelensky de maneira
autocrática, como o fechamento dos três principais canais de televisão do país,
datam de 2021, portanto antes do agravamento do conflito com a Rússia. Na
época, a medida foi criticada pelo então porta-voz da União Europeia, Josep
Borrell, que a classificou como restrição à liberdade de imprensa no país.
A decisão tomada em março de 2022 de proibir 11
partidos políticos, inclusive o principal partido da oposição ucraniana, o
Plataforma de Oposição pela Vida, tampouco foi sem precedentes na história
recente da Ucrânia. Em 2015, todos os partidos de esquerda que utilizavam
símbolos associados ao comunismo ou à União Soviética foram banidos.
"Antes as medidas autoritárias eram focadas em
alguns grupos políticos minoritários de esquerda e outras minorias de regiões
próximas à fronteira com a Rússia, que hoje estão no cerne da guerra",
declarou Portugal. "Mas o presidente [Zelensky] acabou expandindo essas
práticas [...] para atingir outros grupos da sociedade ucraniana."
·
Fratura nas elites
O declínio da autoridade interna de Vladimir
Zelensky também é resultado de uma fratura entre as elites governantes do país.
A recente entrevista do comandante das Forças Armadas, Valery Zaluzhny, à
revista The Economist, expôs visões diferentes no alto escalão ucraniano sobre
os rumos do conflito com a Rússia.
"A entrevista mostra um cansaço dentro do
governo ucraniano e de certa forma uma fratura dessa elite governante que,
depois de 21 meses de guerra, entende que existem outros caminhos a serem
seguidos além daquele proposto pelo presidente Zelensky", considerou
Branco.
Para Portugal, "o que estamos vendo hoje é a
etapa mais recente de um processo de desgaste entre a ala presidencial e as
elites ucranianas".
"Essa entrevista é um movimento de exposição
dessas divergências internas, que acaba sendo um resultado direto do desgaste
que a população de uma forma geral vive com uma guerra que é tão longa e
envolve tantas perdas políticas, materiais e humanas", disse Portugal.
O relato pessimista feito por Zaluzhny sobre a
realidade no front contrasta com a estratégia de comunicação de Zelensky, que
expressa uma visão otimista sobre os rumos do conflito. De acordo com o jornal
britânico Financial Times, a disparidade entre a visão "óculos
cor-de-rosa" de Zelensky e as dificuldades no campo de batalha contribuem
para deteriorar a confiança da população no presidente ucraniano.
Zelensky não sabe negociar?
As sérias dificuldades enfrentadas pela Ucrânia
para manter sua posição no front levam muitos ucranianos e ocidentais a aventar
a necessidade de negociações com a Rússia. No entanto, a figura de Zelensky,
diretamente associada a uma Ucrânia avessa ao diálogo, poderia ser incompatível
com o início do processo de paz.
"Zelensky assumiu uma posição irredutível em
relação à negociação com a Rússia. Mas conforme esse conflito começa a assumir
horizontes temporais mais longos, conforme a Ucrânia perde seu apoio militar e
financeiro [...], com certeza o momento das negociações se aproxima cada vez
mais", considerou Branco.
Para ela, o processo negociador pressupõe a
realização de concessões de ambos os lados, algo que Zelensky não se mostra
disponível a fazer.
"Uma vitória total para qualquer um dos lados
não é possível. Se Zelensky não compreende isso, não assume que a Ucrânia está
em clara desvantagem [...] a substituição dessa liderança pode ser sim uma
pauta importante", acredita a especialista. "Na minha opinião, o
ideal para a Ucrânia seria negociar o mais cedo possível, evitando perdas
maiores no futuro."
O adiamento de negociações já se provou
desvantajoso para a Ucrânia. De acordo com a revista Foreign Affairs, Moscou e
Kiev estiveram a um passo da assinatura de acordo abrangente em abril de 2022.
A intervenção de autoridades ocidentais, como o então primeiro-ministro
britânico Boris Johnson, interrompeu as negociações. De lá para cá, Kiev perdeu
batalhas importantes e hoje não controla cerca de 20% do território que lhe foi
conferido após a queda da União Soviética.
Já Nathana Portugal lembra que uma eventual
substituição de Zelensky não garantiria por si só o início do processo de paz.
"Apesar de Zelensky atualmente constituir uma
barreira para o processo de paz, ele poderá modificar a sua postura conforme o
apoio de países ocidentais ao conflito diminui [...]. E caso não mude [...]
abrirá brechas para que forças políticas mais comprometidas com o processo de
paz se façam ouvir", concluiu a especialista.
As Forças Armadas da Ucrânia iniciaram uma
contraofensiva em 4 de junho de 2023. Após três meses, o presidente russo
Vladimir Putin considerou a investida um "fracasso". O ministro da
Defesa da Rússia, Sergei Shoigu, declarou que as Forças Armadas da Ucrânia não
atingiram seus objetivos em nenhuma área do front. No início de dezembro, o
ministro da Defesa russo declarou que, durante os seis meses da contraofensiva,
as baixas de Kiev atingiram 125 mil pessoas e cerca de 16 mil armas e equipamentos
militares.
Ø Zelensky
reconhece que sem ajuda dos EUA será obrigado a ceder territórios à Rússia
Após o fracasso na tentativa de conseguir mais
financiamento dos Estados Unidos para assistência militar adicional no conflito
com a Rússia, o presidente ucraniano, Vladimir Zelensky, admitiu a congressistas
norte-americanos que, sem ajuda financeira e bélica, terá que ceder territórios
para a Rússia.
Uma reportagem do Washington Post desta
quarta-feira (13) afirma que o mandatário da Ucrânia declarou que sem mais
ajuda, o conflito se tornará ainda mais brutal e o Exército ucraniano
"inevitavelmente cederá terreno para seu adversário determinado e bem
armado".
A ida de Zelensky ao Congresso dos EUA ocorreu em
um momento de impasse na casa legislativa, quando republicanos exigiam mudanças
abrangentes na legislação de imigração dos EUA em troca da aprovação do pedido
de mais de US$ 60 bilhões (cerca de R$ 295,2 bilhões) de Biden para manter Kiev
"abastecida".
Em um coletiva de impresa na Casa Branca, Zelensky
caracterizou as reuniões como "mais do que positivas", mas reconheceu
que os ucranianos teriam que "separar palavras de resultados".
Biden e Zelensky não detalharam os planos da
Ucrânia para o próximo ano, uma grande preocupação dos republicanos. Biden
também desconversou sobre o momento em que os Estados Unidos instariam a
Ucrânia a negociar com a Rússia para encerrar os combates.
Esta foi a segunda vez em três meses que o líder
ucraniano fez incursões ao Capitólio e contrastou com a visita em dezembro de
2022, quando foi recebido e ovacionado de pé na casa legislativa e recebeu uma
bandeira norte-americana que voou sobre o Capitólio dos Estados Unidos durante
sua visita.
Até o momento, o Congresso alocou mais de US$ 111
bilhões (R$ 546 bilhões) para apoiar a Ucrânia.
O pedido de Biden por mais fundos faz parte de um
pacote de gastos de emergência maior que também forneceria assistência de
segurança a Israel e Taiwan e na fronteira entre os EUA e o México.
Fonte: Sputnik Brasil

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