sábado, 16 de dezembro de 2023

Violência armada custou R$ 41 milhões à saúde pública, aponta Sou da Paz

O Brasil gastou R$ 41 milhões do orçamento do Sistema Único de Saúde (SUS) com internações hospitalares de vítimas de armas de fogo em 2022, segundo aponta a organização não governamental (ONG) Instituto Sou da Paz. De acordo com o levantamento, foram 17,1 mil internações, que não retratam todos os gastos com esse tipo de vítima, uma vez que não existem informações desagregadas que permitam identificar e estimar os custos de outros tipos de assistência a quem é atingido por tiros.

O estudo mostra que, em comparação com anos anteriores, há uma tendência de queda dos custos, sobretudo a partir de 2018 — ano em que os homicídios apresentaram uma queda abrupta no país. Mas, em 2021, o sinal de alerta acendeu. “A redução nos custos reflete também a diminuição de casos de alta gravidade que custam mais e a defasagem dos preços de referência da tabela SUS para ressarcimento dos serviços prestados”.

“Em média, uma internação por arma de fogo custa três vezes mais que uma internação provocada por outros problemas de saúde”, explica Cristina Neme, coordenadora de projetos do Instituto Sou da Paz. As agressões intencionais são a principal causa de internações decorrentes de ferimentos por arma de fogo e responderam por 75% dessas internações, em 2022. Em seguida, vêm os acidentes (17%) e as lesões autoprovocadas (1,5%), restando 6,5% de casos em que a causa do ferimento não foi identificada.

·        Homens e negros são maioria

A violência armada vitima mais pessoas negras: em 2022, representaram 57% das internações, enquanto as vítimas não negras foram apenas 16% dos atendimentos. “Chama a atenção o retrocesso na qualidade da informação desde 2021, quando a proporção de registros sem identificação do perfil racial chegou a 32%”, ressalva o instituto.

Os homens representaram 89,6% das vítimas: ficam mais tempo internados, sua diária custa mais e a taxa de mortalidade hospitalar é maior, o que, possivelmente, reflete a gravidade das lesões que os vitimam em comparação com as mulheres.

·        Custo da violência por arma de fogo

O levantamento mostra que o valor médio de uma internação por agressão com arma de fogo, em 2022, de R$ 2.391, é 59% maior do que o da agressão por outros meios. O valor total das internações por agressão armada em 2022 é cerca de duas vezes maior do que o de agressões provocadas por força corporal e arma branca. “Os custos do tratamento de ferimentos por arma de fogo podem variar e sobrecarregar os serviços de assistência hospitalar e ambulatorial”, aponta o Sou da Paz.

Nas regiões Norte e Nordeste, os gastos com internações decorrentes de ferimentos por arma de fogo representaram 3,2% dos gastos com internações hospitalares por causas externas, ou seja, a proporção é de 1,5 vezes superior (+150%) do que a média nacional em 2022.

 

Ø  Três a cada 10 vítimas da violência no Brasil são jovens

 

Os jovens são o principal alvo da violência em todas as regiões do país: de 2016 a 2022, 30,15% das vítimas de violência no Brasil tinham entre 15 a 29 anos. É o que mostra o relatório Panorama da Situação de Saúde de Jovens Brasileiros de 2016 a 2022: Intersecções entre Juventude, Saúde e Trabalho, elaborado pela Agenda Jovem Fiocruz e pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, também da Fundação Oswaldo Cruz.

Publicado na segunda-feira (11/12), o documento apresenta análises sobre o adoecimento e a mortalidade da população jovem no país, com base em dados obtidos por meio do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde do Brasil (Datasus). Entre as principais descobertas realizadas pelos pesquisadores, o dossiê aponta que adolescentes de 15 a 19 anos tendem a sofrer duas vezes mais violência do que os jovens de 20 a 29 anos. Mais de 70% das vítimas são mulheres e, entre elas, a maioria é negra.

Para André Sobrinho, coordenador da Agência Jovem Fiocruz e um dos organizadores do documento, os dados demonstram que o Brasil ainda segue estruturas patriarcais e escravocratas. "Os fatores racial e de gênero estruturam desigualdades no país. Quando se fala em meninas que em tese ainda são dependentes dos pais, a situação é ainda mais alarmante. Que tipo de legitimação social permite que o corpo da juventude seja violado?", questiona, em entrevista ao Correio

·        Acidentes de trabalho

Outro ponto de destaque notado pelos pesquisadores são os acidentes de trabalho. Um terço das ocorrências entre 2016 e 2022 afetou a população entre 15 a 29 anos (33,03%). Em números absolutos,  345,4 mil jovens foram vítimas de acidentes trabalhistas no país. Em 78% dos casos, os atingidos foram homens, o que representa três vezes mais ocorrências do que a de mulheres acidentadas. 

Ademais, um a cada quatro jovens (28%) esteve exposto a algum fator de agravo à saúde no trabalho ao menos uma vez nos 12 meses que antecedem a pesquisa. Para jovens acima de 18 anos, o número sobe para 46,6% — ou seja, quase metade de todos os trabalhadores da faixa etária.

·        Saúde mental

O adoecimento mental é a principal causa de internação dos homens brasileiros entre 15 a 29 anos, conforme o relatório. Nos anos estudados, as causas deste adoecimento foram esquizofrenia, psicose, uso de múltiplas drogas e outras substâncias psicoativas e uso de álcool.

Por sua vez, as mulheres jovens trabalhadoras foram maioria nas notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho (74%). Entre todos os casos relatados pela juventude com relação à saúde mental no ambiente profissional, destacam-se a sensação de “ansiedade” (22%) e “estresse” (17%). Como mostrado no dossiê da Fiocruz, a metade dos casos (51%) ocasionou a incapacidade temporária dos trabalhadores.

·        Direitos da juventude

A Lei nº 12.852/13, também conhecida como Estatuto da Juventude, completou 10 anos em agosto e estipula princípios e diretrizes para políticas públicas voltadas aos jovens. Entre os princípios estão a valorização da autonomia dos jovens, promoção de vida segura, da cultura da paz e da não-discriminação, bem como a valorização do diálogo e a convivência com as demais gerações. 

Apesar da existência do estatuto, ainda é preciso compreender a realidade particular da juventude para atendê-la de maneira eficiente, aponta o coordenador da Agenda Jovem Fiocruz. "Existe uma representação comum de que o jovem é feliz, saudável e cheio de energia. O que o dossiê nos mostra, porém, é que os jovens adoecem e morrem. É necessário compreender realmente como a juventude vive e oferecer serviços voltados às suas necessidades reais", constata.

 

Ø  Suspeitos de hackear conta de Janja participavam de grupos misóginos

 

A Polícia Federal cumpriu, na manhã de ontem, um mandado de busca e apreensão contra aquele que é considerado o principal suspeito de invadir a conta da primeira-dama Janja Lula da Silva, no X (antigo Twitter), na noite de segunda-feira. O alvo, um adolescente de 17 anos morador de Sobradinho, teria admitido, em depoimento à PF, ser o responsável por hackear o perfil.

Ao todo, foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão, sendo dois no Distrito Federal e quatro em Minas Gerais, expedidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A PF informou que "ficou constatado que os possíveis envolvidos também tinham perfis e postagens na plataforma Discord e participavam de grupos que trocavam mensagens de caráter misógino e extremista".

Outro alvo da operação da PF é João Vítor Corrêa Ferreira, de 25 anos, morador de Ribeirão das Neves (MG). Ele é produtor de conteúdo musical com teor racista, sexista, misógino e nazista. Sob o apelido "Maníaco", ele publicava no Spotify faixas musicais de rock com apologia à discriminação racial, às mulheres e ao nazismo.

O perfil de João Vítor na plataforma de streaming está fora do ar, mas contava com o selo de verificado. Ele tinha mais de 4 mil ouvintes mensais e quatro álbuns publicados com músicas ostensivamente preconceituosas.

No álbum O Sul é meu país, alusão ao lema separatista da Região Sul, a faixa Ariano continha versos de ataque à miscigenação, repercutindo teses de "supremacia racial". Numa canção do álbum Incel pardo, cujo nome faz referência a um movimento de orientação misógina, João Vitor fez referência explícita e positiva à violência contra a mulher. Em outra música, intitulada Macumba, o autor deprecia nordestinos e religiões de matrizes africanas.

·        Streaming

O perfil do "Maníaco" está fora do ar no Spotify, mas, questionada sobre o selo de "verificado", a plataforma disse que só sinaliza que o usuário em questão é o artista que reivindica ser e não configura endosso ao conteúdo produzido. As músicas de "Maníaco" têm sido replicadas no YouTube e procurada para esclarecer as diretrizes de conteúdo, o canal não se pronunciou até o fechamento desta edição.

No perfil hackeado da primeira-dama, as primeiras postagens foram publicadas a partir das 21h30, com frases como "Super Xandão presidente do Brasil em 2026" e "Eu apoio o mensalão" — além de xingamentos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por volta das 22h, os piratas publicaram um vídeo detalhando o ataque e uma voz masculina diz que está "ciente que a Polícia Federal está investigando isso aqui. Mas eu não tô nem aí. Eu sei que vai dar alguma coisa, talvez não dê, talvez dê, depende do sistema judiciário desse país, que é quebrado".

Além disso, o autor do ataque dizia não crer que seria achado. "Se eu for preso, eu quero avisar vocês que não acredito que eu vá ser preso, talvez consequências jurídicas, mas eu quero avisar vocês que isso acontece só com gente honesta que tá aqui zoando um pouco na rede social", desafiou.

 

Fonte: Correio Braziliense/Agencia Estado

 

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