Sem liberdade de expressão! Milei
anuncia 'sanções severas' e vai aplicar medidas para limitar protestos na
Argentina
Nesta quinta-feira (14), o novo porta-voz da Casa
Rosada, Manuel Adorni, disse que a ministra da Segurança, Patricia Bullrich,
vai anunciar um "protocolo para a manutenção da ordem pública" nesta
tarde, em Buenos Aires.
O protocolo que será comunicado é a aplicação de
"sanções severas" a um conjunto de organizações que usam o fechamento
de vias como principal meio de protesto no país, em atos formados em grande
parte por desempregados. Os grupos são conhecidos como piqueteiros, de acordo
com o jornal Folha de S.Paulo.
O plano, segundo Adorni, "incluirá sanções
severas a todos aqueles envolvidos em impedir a livre circulação dos
argentinos".
"Isso inclui quem bloqueia, quem transporta,
quem organiza e quem financia."
Bullrich, que foi rival de Milei nas eleições e
ficou em terceiro lugar, é conhecida pelo discurso "linha-dura"
contra essas organizações, ressalta a mídia.
O Polo Obrero (polo operário), uma das entidades
que promovem esse formato de manifestação, já tem um protesto marcado para a
próxima quarta-feira (20).
"O Estado não pode retirar a assistência
social de ninguém por se manifestar exigindo seu aumento. O direito ao protesto
está garantido na Constituição Federal. Vamos defender nossas reivindicações
nas ruas", publicou o Polo Obrero nas redes sociais quarta (13), em um
recado do líder, Chiquito Belliboni.
Em discurso no domingo (10), durante sua posse,
Milei também prometeu acabar com a intermediação que as organizações sociais
fazem entre o governo e a população que recebe os planos.
A multidão vibrou e aplaudiu o anúncio do
presidente, que leu seu discurso lentamente, mas se conteve nesse ponto. Ele
garantiu que não se deixaria "extorquir por aqueles que usam os que menos
têm para enriquecer", segundo o jornal O Globo.
Ø O sequestro
de Milei: Por Miguel Borba de Sá
A eleição de Javier Milei na Argentina surpreendeu
a todos. Menos a Pablo Stefanoni. O analista político argentino e chefe de
redação da revista Nueva Sociedad parece ter sido o único que,
há anos, já alertava para a possível vitória de Milei. O acerto de Stefanoni
não foi casual, pois obedeceu ao argumento central de seu último livro, exposto
já no título: “A Rebeldia Agora é de Direita?” (2021). A
partir de exemplos empíricos sob fino trato teórico, Stefanoni foi capaz de
antever o sucesso da estratégia política adotada por Milei e compartilhada por
outros expoentes da direita contemporânea mundo afora.
Do ponto de vista ideológico, tal estratégia
baseia-se sobretudo em oferecer um conteúdo político conservador à insatisfação
massiva sentida por largos setores da população na era do capitalismo
globalizado, monopolista e neoliberal. A questão é que, ao invés desta
caracterização, típica da esquerda de outrora, Milei oferece uma explicação
invertida, na qual “o sistema” não é composto por banqueiros, mega industriais
ou latifundiários, mas pelos agentes “coletivistas” de um “totalitarismo
progressista” que supostamente domina, de forma conspiratória, o mundo atual. A
crítica esquerdista da globalização neoliberal torna-se a
crítica direitista ao globalismo plutocrático. A esquerda não
apenas tem uma pauta sequestrada, mas é apresentada como a nova vilã, ela
mesma, das mazelas da vida cotidiana.
Nesta versão, seria por conta do progressismo e do
esquerdismo que o mundo está como está. É por isso que Stefanoni corretamente
caracteriza esta eleição como um “motim eleitoral antiprogressista”, que
revelou grande sucesso na criação de um campo político (que também é popular, a
seu jeito) a partir da articulação de demandas e identidades em oposição ao
significante-mestre que simboliza o tal sistema: “la casta”, como Milei
a apelidou.
A ousadia foi tamanha a ponto de Milei também
sequestrar o lema da rebelião anti-neoliberal da virada do século – “que se
vayan todos” – para sua própria agenda política ultraliberal. Se palavras
de ordem ditas libertárias como “¡viva la libertad, carajo!” mostram a
disputa permanente sobre o conceito de liberdade, o atual sequestro das
identidades rebeldes fica mais evidente ainda com a banalização de um oxímoro
tão absurdo como “anarcocapitalismo”, intensamente usado para descrever Milei.
O anarquismo, sequestrado de sua tradição natural na extrema-esquerda, é
incorporado como marcador de rebeldia, radicalidade e enfrentamento ao poder,
sobretudo do Estado (mas depurado de sua visão sobre a luta de classes, do ódio
à burguesia e do anticlericalismo que marcam a obra de Bakunin, Kropotkin ou
Malatesta). O sequestro ideológico é sempre seletivo: as desavenças de Milei
com o Papa Francisco devem-se à acusação de ser um comunista infiltrado, não
por ser o chefe da Igreja.
Um tipo de sequestro que distorce, portanto,
antigas pautas em proveito de sua nova função política dentro de uma narrativa
antissistema mobilizadora. Mobiliza porque politiza, não obstante o grau de
afastamento da realidade: os lugares privilegiados do “marxismo cultural” e da
“ideologia de gênero” nesta estratégia discursiva falam por si próprios.
Distorcem-na, mas não fogem ao debate; pelo contrário, fomentam-no, em seus
próprios termos. Tomam-lhe a dianteira, falam para os seus, consolidam as suas
bases. Por fim, ganham eleições.
Como bem lembrado por Stefanoni, frente a tamanha
macro explicação, a micro militância individual feita por pessoas em vagões de
metrô em Buenos Aires, contando seu sofrimento durante a ditadura, não foi
capaz de se contrapor com eficácia ao quadro interpretativo – e apelativo - da
realidade, ofertado pela direita radical. Tal tática também fracassara no
Brasil às vésperas da eleição de Bolsonaro em 2018, quando indivíduos ofereciam
café ou bolo para transeuntes aleatórios que se dispusessem a conversar sobre a
eleição e entender porquê “ele não”.
Esta tática, que Stefanoni chama de
“voto-barreira”, novamente se demonstra insuficiente quando não vem acompanhada
de um discurso positivo e mobilizador. E, não menos importante, de uma figura
carismática à altura de fazê-lo cativante. Algo que Sergio Massa, oponente de
Milei, foi incapaz de encarnar, até por conta de sua eficiência tecnocrática ao
citar números e atos administrativos do governo, o que só lhe colocou ainda
mais no papel caricato de “político profissional” denunciado por Milei: um
membro de “la casta”.
Cria-se, assim, uma difícil escolha ideológica para
a esquerda radical: manter sua postura anticapitalista, i.e., avessa à
institucionalidade liberal realmente existente em cada país; ou abdicar da luta
antissistema e permitir, assim, o sequestro desta postura radical, que passa a
ser monopólio da direita? Até o momento, transmitir a ideia de moderação parece
ser o que resta para a esquerda política na América Latina. Mas será isso
suficiente? Não se trata de preferência por radicalismo (que na Argentina possui
seu próprio sentido) em si, mas de reconhecer que nas atuais condições do
capitalismo periférico, patriarcal e racista realmente existente, as crises são
permanentes e, por isso, são menos e menos prováveis que funcionem as soluções
de cunho incremental-progressista (rumo ao quê?) dentro da ordem vigente.
Infelizmente, Stefanoni não nos oferece nenhuma
solução fácil à vista. Cabe à esquerda reconhecer o problema e enfrentá-lo com
coragem. Sua perspicaz abordagem, ao menos, obriga-nos a refletir seriamente
sobre as questões de estratégia ideológica que vêm se demonstrando cruciais
para a determinação dos resultados políticos no mundo atual.
Ø Milei quer
mais inflação para combater a hiperinflação
“Me acorde quando setembro acabar”, pediu o
vocalista e guitarrista do Green Day, Billie Joe Armstrong, na melancólica
letra de Wake me up when september ends. A música falava de luto. Aos dez anos,
em setembro de 1982, Billie Joe perdeu o pai, Andrew Armstrong, vítima de um
câncer. Deprimido, o menino voltou do funeral e ficou recluso no quarto. Quando
a mãe bateu à porta e tentou animá-lo, ele lhe pediu que esperasse setembro
chegar ao fim.
É com essa sensação de luto profundo e temporário
que os argentinos parecem viver os primeiros
dias sob o governo Javier Milei. Empossado na Casa Rosada no domingo
(10/12), o presidente incumbiu seu ministro da Economia, Luis Caputo, de
anunciar na terça-feira (12/12) as medidas do “Plano Motosserra” – um pacote
fiscal de fazer inveja aos mais fervorosos neoliberais.
O anúncio foi atabalhoado. Em vez de participar de
uma entrevista coletiva para responder de pronto a eventuais
questionamentos, Caputo preferiu
divulgar um vídeo de 15 minutos. A gravação podia sugerir mais cuidado e rigor
com as informações. Não foi bem assim.
A principal aposta do novo governo foi na
maxidesvalorização do peso
argentino. Com o ajuste cambial, US$ 1 passou de 365 pesos para 800. Ao que tudo
indica, as próximas cotações terão cada vez menos interferência do Banco
Central. Houve também aumento de impostos que, em tese, encarecem as
importações. Segundo Caputo, os “setores produtivos” precisam de “incentivos
adequados”, sem “discriminar a agropecuária”.
Se boa parte dos efeitos da desvalorização cambial
só será sentida a médio e longo prazo, houve pontos do pacote fiscal que terão
impacto imediato, sobretudo para as famílias de baixa renda. É o caso da
redução dos subsídios à energia e aos transportes. Caputo disse que o Estado
argentino “banca artificialmente preços baixíssimos” de serviços públicos
essenciais.
A contrapartida dos subsídios seria mais inflação –
“o que te dão com o preço da fatura te cobram com os aumentos no supermercado”.
O problema é que, sem a participação direta do Estado, haverá reajustes
imediatos nas contas de luz e gás, bem como nas tarifas de trens e ônibus.
Assim, a missão inglória de Milei/Caputo é convencer a população de que mais
inflação agora é a saída para combater a hiperinflação. É como se uma casa
estivesse às voltas com uma enchente e um especialista propusesse inundá-la com
mais água.
Já se disse que o maior inconveniente para o
neoliberalismo é que existem os pobres, os miseráveis, o lumpesinato. O
“choque” do novo governo agradou ao FMI (Fundo Monetário Internacional), que
qualificou como “audaciosas” as “ações iniciais” já anunciadas. “Sua
implantação decisiva ajudará a estabilizar a economia e estabelecerá as bases
para um crescimento mais sustentável liderado pelo setor privado”, disse, em
nota, a instituição.
Mas, até chegar a essa utópica estabilidade, quem
vai proteger esses que o próprio FMI chama de “os mais vulneráveis na
sociedade”? Sem dar detalhes, Caputo prometeu reforçar os programas de auxílio
às mães. “O presidente nos pediu para focarmos fundamentalmente nas pessoas que
podem sofrer mais com isso”, afirmou.
Só que, enquanto a maioria das medidas tem metas e
prazos definidos, a ajuda ao povão segue como uma promessa vaga. Os argentinos
agora sabem que não haverá contratação de novas obras públicas, que a
publicidade oficial está suspensa por um ano e que o número de ministérios caiu
de 18 para nove. Só não sabem como vão comer e sobreviver durante a vigência do
“Plano Motosserra”.
Só em novembro, conforme o Indec (Instituto
Nacional de Estatística e Censos), a inflação no país foi de 12,8%, acumulando
uma alta de 160,9% em 12 meses. A alta de preços em 2023 será a maior em mais
de três décadas. Nesta quarta-feira (13/12), com a intensa remarcação de
preços, já houve corrida aos postos de gasolina e aos supermercados. Em um dia,
o primeiro do “pacotaço” fiscal, o litro da gasolina comum em Buenos Aires
disparou de 446 pesos (R$ 5,95) para 612 pesos (R$ 8,22).
O inevitável caos social e econômico pode encurtar
a gestão de Milei, que foi eleito para quatro anos de mandato. O governo pede
tempo e paciência para dias melhores. Os argentinos, em luto, querem abreviar o
pesadelo – ou só acordar quando o trauma atual ficar para trás. Wake me
up when september ends.
Ø Putin:
intenção de Milei de dolarizar a economia é 'perda significativa de soberania'
Durante a coletiva de imprensa anual e a Linha
Direta simultânea, o presidente russo abordou a decisão do novo governo
argentino de dolarizar sua economia, que Vladimir Putin vê como perda de
soberania.
A ideia de Javier Milei, o recém-eleito presidente
da Argentina, de passar a usar o dólar, é compreensível, mas é uma perda
significativa de soberania do país, disse nesta quinta-feira (14) Vladimir
Putin, presidente da Rússia, durante a coletiva de imprensa anual que resume os
resultados do ano.
"Na Argentina, a inflação, creio eu, está em
torno de 143%, então sim, tem muitos problemas, foi o que os líderes anteriores
me disseram, relacionados ao pagamento dos fundos emprestados que a Argentina
recebeu de várias fontes. Portanto, a lógica é compreensível. Mas isso é,
obviamente, uma perda significativa de soberania do país", comentou,
respondendo a uma pergunta sobre a decisão da Argentina de mudar para o dólar.
Ele acrescentou que a liderança argentina parece
não ver outra saída, a decisão é dela.
Milei assumiu a presidência da Argentina no domingo
(10), após vencer a eleição presidencial de dois turnos. O primeiro turno foi
em 22 de outubro. Ele ficou em segundo lugar, atrás do candidato peronista e
ministro da Economia, Sergio Massa. No segundo turno, que aconteceu em 19 de
novembro, e em que defrontou só Sergio Massa, Javier Milei venceu com 55,65%
dos votos, contra 44,35% de seu oponente.
Milei começou sua campanha presidencial quando a
taxa de inflação na Argentina já estava crescendo rapidamente. Ela ultrapassou
os 100% em fevereiro de 2023, atingiu quase 143% em outubro e chegou aos 161%
em novembro.
Ø Especialista
concorda com Putin: dolarização na Argentina deixará 'economia com 0 espaço de
manobra'
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, comentou a
ideia do seu homólogo argentino Javier Milei de dolarizar a economia nacional
para enfrentar a inflação desenfreada, e destacou que isso poderia levar à
perda de soberania.
A moeda é um instrumento soberano que permite
executar a política monetária para equilibrar contas, pagar salários, gerir
tendências inflacionárias e regular o déficit, disse Christian Cirilli,
analista de economia internacional, à Sputnik, na Argentina.
Neste contexto, a analista concordou com o
presidente russo sobre a possível perda de soberania da Argentina se o país
acabar dolarizando sua economia.
"Estou absolutamente de acordo com o
presidente [Vladimir] Putin [...]. Se a cunhagem for renunciada e substituída
por uma moeda estrangeira, o nível de manobra sobre a política econômica é zero
e a autonomia de gestão do próprio Estado fica restrita a níveis muito
mínimos", afirmou a especialista.
Segundo Cirilli, a nível internacional, o impulso à
desdolarização como moeda de acumulação e de troca comercial é um dos eixos da
multipolaridade.
"Isso é algo que os países do BRICS [Brasil,
Rússia, Índia, China e África do Sul] e todos os candidatos à adesão contemplam
especificamente, porque entenderam que o dólar é utilizado como elemento de
pressão", argumentou.
No dia 10 de dezembro, Javier Milei tomou posse
como presidente da Argentina após sua vitória no segundo turno das eleições de
19 de novembro contra o candidato oficial e então ministro da Economia, Sergio
Massa.
Milei abraça ideias ultraliberais, é a favor da
dolarização da economia e de uma política externa orientada para Israel e os
Estados Unidos. O novo presidente argentino também se opõe à adesão ao grupo
BRICS e à cooperação com a China, o Brasil e a Rússia.
Fonte: Sputnik Brasil/Opera Mundi

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