Rosa Parks: o corajoso 'não' que deu origem ao movimento pelos direitos
civis nos EUA
Na noite de 1º de dezembro de 1955, uma mulher
afro-americana de 42 anos, cansada depois de um longo dia de trabalho como
costureira, embarcou em um ônibus na cidade de Montgomery, no Alabama (EUA), para ir
para casa. Ela pagou a passagem e ocupou um assento vazio na parte do ônibus
reservada para "pessoas de
cor".
Seu nome era Rosa Parks (1913-2005).
Cinquenta e cinco anos antes, Montgomery havia
aprovado uma lei que segregava os passageiros dos ônibus por raça. A frente do
ônibus era reservada para cidadãos brancos e os assentos do fundo se destinavam
aos cidadãos negros.
E também havia o costume entre os motoristas dos
ônibus de instruir os passageiros negros a ceder o seu assento se não houvesse
lugares "só para brancos" vazios.
Quando o ônibus ficou lotado naquela noite de
inverno, o motorista James Blake exigiu que Rosa Parks e três outros
passageiros negros cedessem seus assentos. Mas ela se recusou.
"Fiz isso porque me senti desrespeitada como
ser humano", contou ela mais tarde, em entrevista à BBC.
"Eu havia tido um dia difícil no trabalho,
[estava] fisicamente cansada e mentalmente irritada. Eu estava farta desse tipo
de coisa que precisava enfrentar como pessoa devido à nossa raça."
A recusa de Parks teve rápida repercussão. O ônibus
parou e ela foi imediatamente presa pela polícia local.
Em 5 de dezembro, ela foi declarada culpada de
violar as leis de segregação, teve a pena suspensa e foi multada em US$ 10,
mais US$ 4 de custas judiciais. Em valores de hoje, o valor total de US$ 14 em
1955 corresponde a aproximadamente US$ 160, ou cerca de R$ 785.
A prisão de Rosa Parks não foi um caso isolado. Ela
foi consequência das leis Jim Crow, que
pretendiam legalizar o racismo e marginalizar os negros americanos.
As leis regiam quase todos os aspectos da vida
diária, negando aos negros americanos o direito ao voto e ordenando a
segregação de escolas, toaletes, transporte público e restaurantes.
Também não foi a primeira vez em que uma pessoa foi
presa por se recusar a ceder o assento para um passageiro branco. Nove meses
antes, Claudette
Colvin, de apenas 15 anos, havia enfrentado a mesma situação.
Mas, desta vez, a tranquila ousadia de Rosa Parks
acabaria sendo o catalisador das mudanças.
·
Punida por sua coragem
A postura aparentemente calma de Rosa Parks
contrastava com a experiente ativista que havia sido secretária da filial da
Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em
inglês) na cidade de Montgomery.
Após sua prisão, a Associação para o Progresso de
Montgomery organizou um boicote ao sistema de ônibus da cidade. O protesto foi
encabeçado por um jovem pastor de 26 anos chamado Martin Luther King
Jr. (1929-1968), que viria a liderar o movimento pelos direitos civis nos Estados
Unidos.
O boicote durou mais de um ano e a perda de receita
paralisou o sistema de transporte público da cidade. A situação chamou a
atenção de todo o país para o racismo institucional que permeava as leis Jim
Crow.
Paralelamente, o caso de Rosa Parks seguia seu
trâmite no judiciário americano. O processo acabou chegando à Suprema Corte em
dezembro de 1956, que decidiu que a segregação do ônibus era inconstitucional.
Mas Parks foi punida pela sua coragem. Ela perdeu o
emprego na loja de departamentos durante o boicote dos ônibus e enfrentou
ameaças de morte durante todo o processo judicial.
No ano seguinte à decisão da Suprema Corte, ela e
seu marido (que também perdeu o emprego) se mudaram para Detroit, tentando
escapar do contínuo assédio que sofriam.
O casal teve dificuldades para encontrar trabalho
nos anos que se seguiram, devido à retaliação que se seguiu ao boicote. Ela
também sofreu problemas de saúde, que trouxeram altas contas hospitalares.
Ainda assim, Rosa Parks manteve seu profundo
envolvimento na luta pelos direitos civis, defendendo moradias dignas e direito
ao voto em Detroit.
Ela se inscreveu como voluntária na campanha do
candidato democrata local ao Congresso, John Conyers (1929-2019). Depois de
eleito, Conyers a contratou como assistente no seu escritório em Detroit –
cargo que ela ocupou até se aposentar.
·
'Mãe do movimento'
A prisão de Rosa Parks pôs fim à segregação racial
no transporte público nos Estados Unidos, mas seu impacto foi muito maior.
Sua calma resistência frente ao racismo mobilizou a
comunidade negra, formando as bases da campanha pelos direitos civis, que
incluiu a histórica Marcha
sobre Washington em 1963 e a aprovação da Lei dos
Direitos Civis de 1964 e da Lei do Direito ao Voto de 1965.
"Acho que, se houve um momento, um evento no
movimento pelos direitos civis que começou nos anos 1950, você pode indicar o
boicote aos ônibus de Montgomery e a sra. Parks... que foi simbolizado por este
tribunal e sua condenação...", afirmou o advogado de Rosa Parks, Fred
Gray, na entrevista à BBC.
A recusa de Parks a ceder seu assento alimentou o
entusiasmo por um movimento de massa que acabaria destruindo as políticas
racistas de segregação. E ela se tornou um símbolo da luta por justiça e
igualdade.
Em 1999, o Congresso
americano concedeu a Rosa Parks sua mais alta homenagem, a Medalha
de Ouro do Congresso, por ser considerada "a mãe do movimento pelos
direitos civis".
Fonte: BBC Culture

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