Criminosos colocam links de apostas e abuso de menores em sites de
governo
Diversos sites de prefeituras e órgãos
estaduais estão associados a termos relacionados a apostas, pornografia e,
em casos mais graves, abuso de menores de idade em buscas no Google.
Os cibercriminosos estariam usando esses domínios
para aumentar a visibilidade de sites de apostas nos resultados de pesquisa, de
acordo com especialistas.
Os links aparecem com comandos padrão do
Google que buscam por termos específicos, entre aspas, em um tipo de URL
específica, determinado pelo comando "inurl" no buscador.
Testes da reportagem mostram que, mesmo quando
palavras maliciosas figuravam nos títulos dos links, estes redirecionavam para
sites de apostas. Em alguns casos, os links conduziam corretamente às páginas
oficiais das prefeituras, enquanto outros resultavam em páginas vazias.
Veja como resultados aparecem no Google
- Sites
vinculados a governos estaduais e municipais aparecem associados a termos
explícitos e do universo de apostas
Foto: Terra Byte
- Sites
vinculados a governos estaduais e municipais aparecem associados a termos
explícitos e do universo de apostas
Foto: Terra Byte
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vinculados a governos estaduais e municipais aparecem associados a termos
explícitos e do universo de apostas
Foto: Terra Byte
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vinculados a governos estaduais e municipais aparecem associados a termos
explícitos e do universo de apostas
Foto: Terra Byte
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vinculados a governos estaduais e municipais aparecem associados a termos
explícitos e do universo de apostas
Foto: Terra Byte
Esses resultados indicam uma modificação na
estrutura do próprio site, segundo Daniel Barbosa, pesquisador na empresa de
cibersegurança Eset.
O especialista afirma que a exploração pode
ter ocorrido por meio de vazamento
de credenciais dos administradores, do comprometimento de um provedor de serviços
web que está hospedando tudo ou até de uma exploração de
vulnerabilidades site por site.
"E dá pra fazer tudo isso de forma
automática, caso alguma pessoa mal intencionada queira. Você pode fazer a
validação automática de credenciais ou de alguma vulnerabilidade e, após
achar algo, pega o resultado dessa análise e começa a explorar", diz.
Lucas Lago, desenvolvedor de software e membro do
Instituto Aaron Swartz de tecnologia, ressalta que, embora o objetivo principal
dessas invasões pareça ser apenas aumentar a relevância dos sites de apostas,
elas abrem caminho para ataques mais sérios.
"A quantidade de coisas que seria possível
fazer a partir de uma brecha como essa é essencialmente infinita. É o
'Santo Graal' das vulnerabilidades", comenta.
Se a prefeitura tiver serviços hospedados no mesmo
portal, os dados usados pelo serviço estão comprometidos e podem ser
facilmente acessados, exemplifica o desenvolvedor. Como
exemplo, informações sensíveis como nomes completos e números de documentos
de contribuintes.
Não está claro se há uma razão específica dos
criminosos para usar sites de governo. Por não ver uma motivação política
explícita, como a transmissão de mensagens ideológicas, Lago, assim como
Barbosa, acredita que se trata de uma busca automatizada por brechas.
"Devem existir sites '.com.br', privados, com
o mesmo problema. É um ataque aleatório. Mas, como as prefeituras têm
sites com vulnerabilidades muito grandes, elas acabam sendo vítimas",
comenta.
·
Prefeituras são maioria
Identificamos mais de 100 menções no Google a
órgãos governamentais com termos
como "xxxvideos", "novinha", "pornô", "cassino
online" e "bet", além de outras palavras explícitas
que optamos por não reproduzir. Encontramos também termos que fazem alusão
a relações íntimas com meninas de 15 anos.
São ao menos 36 prefeituras com seus sites
hackeados. Os portais de Contagem (MG), Taboão da Serra (SP), São Carlos
(SP) e Florianópolis (SC) foram alguns dos afetados.
Para Maria Alexandra da Cunha, coordenadora de
tecnologias e governos do Centro de Estudos de Administração Pública e Governo
da Fundação Getulio Vargas, a falta de capacidade de governança de TI nas
prefeituras seria uma das causas principais de tanta vulnerabilidade.
"Isso vai
desde desenvolvimento, compra de hardware e software,
gestão de contrato de manutenção, até expertise para entender a qualidade de
serviços. Tudo entra no mesmo pacote. É uma tendência e este achado da
reportagem é sintoma de um problema geral", comenta.
Em um sentido amplo, órgãos municipais teriam menos
capacidade de segurança digital que os estaduais. Estes, por sua vez, seriam
menos protegidos que os federais. Isso tanto em orçamento quanto em
qualificação técnica para uma gestão de qualidade, de acordo com os
especialistas.
"Normalmente, fazer certo e fazer mal feito
sai pelo mesmo preço. Vai da capacidade das prefeituras de contratar pessoas
que sejam capazes de trabalhar seguindo as boas práticas", comenta Lago.
·
Cidades menores, problema maior
Há ainda uma desigualdade significativa entre
prefeituras de cidades menores e regiões mais pobres, que enfrentam maiores
desafios na atração e retenção de profissionais qualificados em TI.
"O Brasil não é essa 'terra arrasada' que
dizem. Em alguns órgãos, temos sistemas de TI muito bons, estruturas
robustas. Mas os mesmos marcadores de desigualdade do território são
também os marcadores de desigualdade de tecnologia", comenta da
Cunha.
Mais da metade das prefeituras com vulnerabilidades
identificadas pelo Byte tem até 30 mil habitantes, segundo dados
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em Contagem, uma das cidades com maior incidência
de links indevidos, a secretaria de tecnologia da informação informou que o
problema foi identificado e está sendo combatido, embora a solução completa
ainda demande tempo.
"Como os agentes maliciosos apresentam
comportamentos distintos e considerando que são milhares de arquivos que
precisam ser verificados, eliminar todos os redirecionamentos ainda levará um
tempo”, disse um representante da Secretaria Municipal de Tecnologia da
Informação da cidade mineira.
Uma outra inspeção realizada
pelo Byte mostra que diversos links para sites de apostas estão
infiltrados no meio do código do site principal da prefeitura de Taboão da
Serra. A página está na lista das que aparecem indexadas a termos indevidos no
Google.
A prefeitura de Taboão, ao ser questionada, afirmou
estar ciente do problema e garantiu que nenhum dado de munícipes é hospedado no
portal afetado.
·
Estaduais também sofrem
Mas, apesar de serem maioria, o problema não fica
restrito aos municípios. Falhas semelhantes foram encontradas em sites
da Secretaria de Educação de São Paulo, da Secretaria de Segurança
Pública de São Paulo e da Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul.
A página do Programa Melhor Infância do Rio Grande
do Sul, iniciativa que visa promover a melhoria da qualidade de vida de
crianças nos primeiros anos de vida, é uma das que mais concentram
invasões, inclusive com termos explícitos.
Após contato do Byte, a Secretaria de Saúde do
Rio Grande do Sul retirou a página do ar. À reportagem, o órgão afirmou
que o site "se encontrava hospedado em sistema externo, diferente de todos
os outros do governo do estado", e que "está finalizando a migração
dos itens para novo servidor ainda nesta semana".
A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo
diz que "o site da Educação não foi invadido e nenhum dado do
servidor foi comprometido ou vazado". Além disso, afirmou
que a plataforma é segura e que situação mencionada pela reportagem
já havia sido identificada pela pasta, que notificou e solicitou ao Google que
removesse os links relacionados.
A gigante de buscas, por sua vez, afirmou à
reportagem que combate links do tipo em sua plataforma com 99% de eficácia,
"incluindo spam hackeado que pode aparecer quando há vulnerabilidades na
segurança de um site".
"Também trabalhamos para notificar os sites
quando nossos sistemas detectam que eles podem ter sido invadidos
e fornecemos dicas para ajudar os proprietários a garantir e melhorar
a segurança de suas páginas", diz o Google.
A Secretaria de Segurança Pública
do Estado de São Paulo nos encaminhou a seguinte nota:
"A Secretaria da Segurança Pública esclarece
que o site da SSP é de responsabilidade da Prodesp [empresa de informática
do governo de SP]. A vulnerabilidade identificada no domínio
"www.ssp.sp.gov.br" foi neutralizada e os protocolos de segurança
foram atualizados. Cabe esclarecer que o site não guarda dados de nenhum
servidor ou contribuinte."
A empresa de informática do governo de SP, por sua
vez, deu posicionamento contrário. Ao Byte, alegou não ser de sua
responsabilidade a gestão dos domínios afetados.
"A Prodesp esclarece que não é responsável por
domínios e reforça que não existem sites clandestinos no portal da
Secretaria da Segurança Pública", diz o órgão.
Também tentamos contato com as gestões de São
Carlos (SP) e Florianópolis (SC), que concentram links indevidos, mas não
recebemos resposta.
Fonte: Redação Byte

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