'Relações para fora do eixo':
especialistas explicam vantagens da aproximação entre BRICS e África
Dada a aproximação recente de Brasil, China e
Rússia com os países do continente africano, a influência do BRICS sobre o
continente tem se colocado em pé de igualdade, diferentemente da histórica
atuação de países ocidentais na região, segundo especialistas ouvidos pela
Sputnik Brasil.
Professor da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp), Kauê Lopes explica que o Brasil tem construído muitos acordos,
comerciais e tecnológicos, com países africanos, por meio de articulações feitas sobretudo por governos
mais à esquerda, incluindo universidades e empresas públicas e privadas.
Para ele, a cooperação com países do Sul Global
tende a ser mais horizontal, sobretudo com nações com algum tipo de vínculo à
história brasileira. "De forma geral, a gente pode observar uma tendência
à transformação das relações para fora do eixo, da antiga relação do eixo
metrópole-colônia."
Pesquisador visitante do Centro Latino-Americano e
Caribenho da Escola de Economia e Ciência Política de Londres (LACC-LSE, na
sigla em inglês), Lopes ressalta que os diferentes territórios produzem gêneros
comerciais distintos, o que facilita trocas.
Neste mês, o mercado do Quênia se abriu para o
arroz brasileiro; em agosto, os dois países reiteraram a integração cultural; e
em março foi aprovado pelo Senado o acordo Brasil-Quênia na área de educação.
Para o presidente da Câmara de Comércio
Afro-Brasileira (AfroChamber), Rui Mucaje, os laços entre esses dois países têm
se fortalecido por iniciativas de ambos os lados — ele entende que o Brasil
pode se fortalecer ao compartilhar setores estratégicos e contribuir para a
segurança alimentar queniana, por exemplo.
Guiado pelo princípio Ubuntu, que significa
"Eu sou porque nós somos", o entendimento de Mucaje é que é possível
cooperar comercialmente respeitando também diretrizes da economia azul
[desenvolvimento sustentável dos recursos costeiros], nos setores agropecuário,
turístico, energético e de construção civil. "Essas áreas representam
oportunidades valiosas para empresas e instituições brasileiras no
Quênia."
"Por outro lado, é essencial que haja
reciprocidade por parte do Brasil. Um exemplo: o Quênia é um dos maiores
produtores de chá do mundo, porém ele enfrenta dificuldades na exportação para
o Brasil. Isso ressalta a necessidade de políticas brasileiras que facilitem a
entrada de produtos quenianos no mercado nacional. As relações comerciais entre
os países devem ser encaradas como uma via de mão dupla."
O professor Kauê Lopes comenta que o Brasil tem
exportado manufaturados para países africanos, como congelados ou biscoitos.
Dessa forma, tem havido uma aproximação cada vez
maior de outros países africanos. Em agosto, Brasil e Angola assinaram sete
acordos de cooperação; em abril, foi assinado um projeto de cooperação em
segurança alimentar com Moçambique.
Tais aproximações se intensificaram durante as
gestões de Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva, segundo Lopes, mas é um
cenário comum desde a ditadura militar.
"O governo Geisel é o primeiro que reconhece a
independência de Angola. Isso já significa um olhar estratégico e geopolítico
para os países do Sul, em uma relação Sul-Sul que começa a ser
construída."
Para Mucaje, o Brasil tem uma das maiores redes
diplomáticas no continente africano e sempre apoiou nações em surgimento.
·
A importância do BRICS no Sul Global
Vem ganhando destaque, principalmente a partir do
século XXI, a intensificação das relações comerciais e políticas entre os
países africanos e as nações do Sul Global, segundo Lopes, que destaca a
relevância desse fenômeno especialmente no que tange aos países do BRICS, grupo
composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, com certo
protagonismo.
Segundo ele, a China tem papel crucial há décadas,
com estratégia agressiva na busca por matérias-primas para impulsionar a
industrialização, o que levou o Dragão Asiático a estabelecer numerosos acordos
bilaterais com países africanos. "Em muitas das principais economias do
continente, os asiáticos tornaram-se o principal parceiro de importação."
O especialista destaca que, embora nem todos os
países africanos tenham a China como principal parceiro de exportação, a
presença chinesa é marcante no campo da importação, fornecendo não apenas
matérias-primas, mas também produtos industrializados.
Quanto às preocupações sobre a influência desses
países, Lopes questiona a narrativa de cooptação ou neocolonialismo,
especialmente no caso chinês. "Não acredito que seja, porque a colonização
pressupõe uma instituição colonial; esse é o fundamento da colonização, uma
relação de exclusivo colonial, exploração completamente assimétrica e violência
militar."
"Essas relações não são simétricas, mas o fato
de elas não serem simétricas não significa que existe uma colonização, um
neocolonialismo ou uma cooptação dos interesses. Há acordos bilaterais
construídos nos quais os líderes africanos têm agência nesses acordos e eles
estabelecem o que é importante para os seus países."
Para ele, tais termos deslegitimam a capacidade das
lideranças africanas de defenderem seus próprios interesses nacionais,
incluindo estratégias adotadas para reduzir vulnerabilidades.
Ele ressalta o potencial inexplorado dos países
africanos, aproveitado pouco a pouco por países do Sudeste Asiático, como
Indonésia e Malásia, ou do mundo árabe, como os Emirados Árabes Unidos.
"Quando falam que a África é a última fronteira do capitalismo, é isso que
eles querem dizer. Existe ali um potencial de 1,2 bilhão de habitantes no
continente."
Ele destaca a dificuldade de generalizar as
relações, já que cada país africano responde de maneira única às relações
externas. A Índia é destaque especialmente na África Oriental, por proximidade
social e geográfica, por exemplo. "Tem países que modularam o discurso
para o século XXI, como a França, mas que continuam tocando práticas altamente
imperialistas."
"No Mali, em Burkina Faso, no Níger e em
outros países de colonização francesa, há uma grande rejeição a qualquer tipo
de relação com esse país. Inclusive a população civil abraça fortemente uma
intensificação de relação com outros países, como a Rússia, por exemplo. Isso
não deve ser olhado como um tipo de manipulação nem nada, a gente tem que
entender quais os motivos que levaram a isso."
Segundo Mucaje, o Brasil tem certa liderança
regional na América Latina e historicamente defende a inclusão de países
africanos em fóruns globais significativos, como o G20. "Graças aos
esforços conjuntos da Índia e do Brasil, a União Africana foi incluída,
representando os 55 países do continente, cada um com suas características e
desafios únicos."
Mucaje ressalta que a Rússia também já teve
presença na luta pela libertação de diversos países, "que culminou em uma
ampla cooperação em vários setores, inclusive na formação profissional",
enquanto a África do Sul apresentou ao mundo um histórico de lutas sociais e
contribuições.
Para ele, a criação do BRICS representou uma grande
mudança na geopolítica global. A crescente inclusão de países africanos no
grupo — inicialmente a África do Sul, a partir de 2010, e, mais recentemente,
Egito e Etiópia — tem sido um "desenvolvimento notável".
"O BRICS agora congrega mais de 40% da
população mundial e mais de 25% da riqueza global. Esse fórum, de elevada
importância, reflete os anseios de diversas nações africanas, propondo a
formação de uma nova ordem mundial que ofereça voz a países historicamente
excluídos das decisões globais e que compartilham realidades e soluções
similares."
Apesar disso, ele entende que, além das potências
do BRICS, a África ainda tem cooperação "indispensável" com países do
Ocidente. "Durante minha experiência em Angola e em minhas viagens pelo
continente, particularmente em Ruanda, percebi que a cooperação internacional
pode ser decisiva na redução de conflitos."
"Infelizmente muitos desses conflitos,
exacerbados por influências externas, evoluíram para guerras e genocídios,
marcando profundamente as relações entre as nações. Na minha visão, o processo
de 'cooptação' não é a estratégia mais eficaz no atual contexto africano. A
história nos ensina que é a união que fomenta a paz na África e em todo o
mundo."
·
As dificuldades atuais do continente africano nas relações comerciais
Diretor de comércio exterior da Câmara de Comércio,
Indústria e Serviços do Brasil (Cisbra), Arno Gleisner explica à Sputnik Brasil
que a África tem um mercado em crescimento, impulsionado pelo aumento
populacional, mas há desafios, sobretudo pelo baixo poder de consumo.
"Muitos países africanos têm problemas
políticos, conflitos étnicos e de outra natureza, inclusive com guerras.
Dificuldades com pagamento também são recorrentes na região, mas o continente é
rico em recursos naturais e sua produção industrial é muito baixa."
Segundo ele, há alta importação de itens
manufaturados e demanda de engenharia e bens. "Quando uma construtora
efetua um trabalho em um país africano, ela também importa ou faz com que
outros prestadores de serviço que estão no entorno importem produtos
brasileiros complementares."
No entanto, ele entende que o fluxo comercial ainda
é muito forte com antigas potências coloniais europeias. "Vínculos e
procedimentos, tanto comerciais como logísticos, facilitam negociações e
pagamentos. A proximidade é um benefício evidente para os países
europeus."
Ainda assim, ele entende que a África do Sul, parte
do BRICS, já cria uma ponte natural para os países não ocidentais, apesar das
dificuldades logísticas.
Além disso, a Índia tem uma "vantagem na
relativa proximidade e na existência de população de origem indiana, com muita
participação no comércio; tem muitos comerciantes de origem indiana".
Já a Rússia teve uma influência política e
econômica maior, principalmente na época da União Soviética.
Em relação ao Brasil, ele observa que é possível
existir uma reaproximação nos próximos anos. "O Brasil teve uma
participação maior também em bens e serviços, mas a retomada é possível,
existindo muitos brasileiros com sólido conhecimento em relações do mercado
africano."
Por outro lado, o professor e pesquisador Kauê
Lopes destaca que a cooperação tecnológica também pode oferecer ameaça
comercial, já que todos os países são concorrentes.
Por exemplo, o cacau é nativo da bacia amazônica,
conforme registros da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa),
mas tem ótimo desempenho na Mesoamérica e também em países africanos.
"Costa do Marfim e Gana são os dois maiores produtores de cacau do
mundo."
O Brasil historicamente apoia outros países — como
quando a Embrapa mandou pesquisadores à África Ocidental para auxiliar no
cultivo do algodão —, mas isso pode significar uma concorrência no futuro.
"É uma situação complexa do ponto de vista político e econômico."
"Atualmente a gente tem esses acordos sendo
construídos, de […] diferentes ordens de cooperação, mas já sabendo também que
existe um potencial de concorrência mais para frente."
Por fim, Mucaje entende que é preciso mais
iniciativas comerciais entre os diferentes países. "Atualmente a
cooperação comercial entre Brasil e Quênia ainda não atinge todo o seu
potencial", exemplifica.
"Portanto, é imprescindível a promoção de mais
iniciativas comerciais. Estas representam uma forma essencial de diplomacia e
devem ser cada vez mais incentivadas em um contexto global, visando fortalecer
laços e desenvolver ambos os países."
Fonte: Sputnik Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário