sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Aquiles Lins: No primeiro ano de governo, Lula botou o pobre no orçamento e taxou o andar de cima

O primeiro ano do governo de Luiz Inácio Lula da Silva está se encaminhando para o final com importantes conquistas políticas na área econômica. Nessa quinta-feira (29), o Senado aprovou projeto de lei que autoriza a taxação de lucros de empresas offshores e dos fundos exclusivos. O projeto vai à sanção presidencial. As duas propostas, que têm como alvo o chamado “andar de cima”, ou seja, a parcela mais rica da população, renderão uma arrecadação de R$ 3,5 bilhões ao governo ainda em 2023, outros R$ 20 bilhões em 2024 e R$ 7 bilhões em 2025, segundo levantamento do Ministério da Fazenda. Não vamos normalizar: trata-se de uma importante vitória política do governo Lula, diante de um Congresso Nacional dominado pela direita e suas representações liberais. Além disso, a medida chega em um momento de esforço concentrado do ministro Fernando Haddad para aumentar a arrecadação e perseguir a meta de deficit zero nas contas públicas em 2024. 

Além de medidas de impacto imediato, prometidas na campanha eleitoral, o governo também obteve êxito histórico ao aprovar mudanças estruturais no sistema de arrecadação, com a primeira reforma tributária desde a redemocratização. A matéria já passou pela Câmara, recebeu alterações pelo Senado e aguarda na Casa a última votação. Outra vitória, a volta do chamado “voto de qualidade” em julgamentos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). Em julgamentos com empate, o voto final cabe ao presidente da turma — cargo ocupado por um auditor fiscal. Em tese, a mudança beneficia o Fisco. Em todos os casos, destaca-se a articulação política do ministro Haddad, que tem conseguido se equilibrar nas relações marcadas por interesses corporativos com as duas Casas legislativas. 

Na outra ponta, para o segmento mais pobre e precarizado da população, o primeiro ano do governo Lula 3 foi marcado pela retomada do Estado como garantidor de uma dignidade mínima. Entre as principais conquistas neste 2023 estão o Bolsa Família, no valor de R$ 600 (contra a vontade do governo anterior), mais o adicional de R$ 150 por criança de até 6 anos de idade; programa Minha Casa Minha Vida, que vai dar o tom da política habitacional do governo, que tem a meta de contratar 2 milhões de casas até o fim do mandato; a volta do Mais Médicos, que tem levado atendimento de saúde às periferias e interiores do Brasil; o preço da gasolina reduziu-se a patamares acessíveis; a Ciência voltou a ser valorizada, assim como a Educação de uma maneira geral. 

Fora isso, a taxa média de desemprego no Brasil caiu para 7,6% no trimestre encerrado em outubro, segundo dados da Pnad Contínua, divulgados pelo Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE). O nível é o menor desde o trimestre encerrado em fevereiro de 2015 (7,5%). A população ocupada alcançou 100,2 milhões de pessoas, o maior contingente verificado pelo IBGE desde o início da série histórica, no 1º trimestre de 2012. 

Além dessas importantes conquistas, os três próximos anos do governo Lula deverão ter ainda mais forte a sua personalidade. Deveremos testemunhar os empregos com carteira assinada aumentarem ainda mais com o início das obras do Plano de Aceleração do Crescimento, o PAC 3. Mais poder de compra nas mãos dos brasileiros significa mais consumo, mais produção e o consequente giro da roda da economia. O desafio do governo é fazer todas estas conquistas, as já obtidas e as que virão, andar nas cabeças e nas bocas dos brasileiros. Não basta a vida melhorar, é preciso saber que este progresso é resultado da decisão política do voto em Luiz Inácio Lula da Silva. Esta associação precisa ser automática. Para isso é preciso tirar as boas notícias das linhas escondidas da mídia corporativa e espalhá-las para geral.

 

Ø  Entre taxações, desonerações e pressões na corda bamba fiscal: Haddad e a meta zero. Por Florestan Fernandes Jr.

 

O ministro Fernando Haddad tem se especializado em tirar leite de pedra, ou se preferirem, inventar dinheiro para alcançar a meta fiscal zero em 2024.

Nesta quarta-feira, 29 de novembro, no que foi considerada uma grande vitória de Haddad, o Senado aprovou o projeto de lei que prevê a taxação das offshores (investimentos no exterior) e dos fundos de investimentos exclusivos de pessoas de alta renda. A taxação do imposto de renda será de 15% sobre as aplicações financeiras, de lucros e dividendos dos fundos dos super-ricos no exterior e das offshores.

Essa taxação irá render ao caixa do governo R$ 3,5 bilhões, ainda em 2023 e R$ 20 bilhões, em 2024. Mas no Brasil recente, o que o Congresso dá com uma mão, retira com a outra.

Desde o início de seu terceiro mandato, o presidente Lula se vê obrigado a liberar emendas parlamentares nos períodos de votações de pautas econômicas importantes para o equilíbrio das contas públicas. Levantamento feito pela ONG Contas Abertas aponta que nos últimos onze meses o governo já liberou cerca de R$ 17 bilhões em emendas parlamentares em vésperas de votações importantes para o ministério da Fazenda.  

A reforma tributária foi, sem dúvida, a que mais custou aos cofres públicos. A aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) na Câmara dos Deputados, custou ao governo R$ 8,6 bilhões. Só na véspera da votação em plenário, o governo empenhou R$ 5,3 bilhões desse total acordado com os deputados. 

Já para a aprovação do arcabouço fiscal, que determinou o novo limite de gastos para o governo federal, foram empenhados R$ 4 bilhões em emendas parlamentares. Sendo a segunda matéria mais “cara” para o governo em sua relação com o parlamento brasileiro.  

No orçamento de 2023 estão reservados, R$ 36,5 bilhões para as emendas parlamentares. Até outubro já tinham sido empenhados R$ 27,4 bilhões.

Um caso recente, bastante emblemático, até mesmo pela campanha desproporcional da imprensa, é o do veto do presidente Lula à desoneração da folha de pagamento, tema que movimentou a internet e inflamou humores dos “ardorosos defensores do estado mínimo e do enxugamento dos gastos públicos”.

O que vimos foi uma intensa pressão midiática das organizações Globo e dos expoentes da grande imprensa, que alcançou prontamente o resultado: os deputados federais ameaçam derrubar o veto do Presidente Lula à desoneração da folha de pagamento para 17 setores da economia e pequenos municípios. E diga-se: antes mesmo do recesso parlamentar.

Abro aqui um parêntese para destacar que quanto à ampla e diuturna campanha da imprensa corporativa atacando o veto presidencial, importante que se diga que faltou que esclarecessem, ao bem da honestidade, que são eles próprios beneficiários da desoneração. E também que não houve a contrapartida desses próprios veículos de imprensa à economia, a justificar a desoneração, através da abertura de mais postos de trabalho. O que ocorreu, como bem sabemos, foi o contrário. Fecho o parêntese.

Voltando à questão macro, só para se ter uma ideia do impacto aos cofres públicos, essa renúncia fiscal representou, de 2011 a 2018, um custo médio de R$ 25 bilhões ao ano. Para o ministro Fernando Haddad, a medida é inconstitucional e provoca distorções no sistema tributário, sem trazer ganhos efetivos à economia, como a geração de emprego. Foi assim com as grandes empresas de jornalismo, como expus acima, e também com os demais setores agraciados pela benesse estatal.

Mas o governo, para acalmar a Rede Globo e grandes empresas privadas, beneficiárias da desoneração, decidiu apresentar um conjunto de propostas para substituir a desoneração da folha. As medidas devem ser apresentadas ainda neste ano, depois da Conferência do Clima, que acontece em Dubai, nos Emirados Árabes. Nessa viagem ao Oriente Médio Lula já conseguiu fechar grandes acordos, um deles é da venda de aviões da Embraer num investimento de cerca de R$ 50 bilhões. 

Pelo andar da carruagem, para ter sucesso na retomada do crescimento econômico, com investimentos públicos em grandes obras, principalmente no novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), e manter sobre controle o déficit fiscal, o governo terá que continuar se equilibrando sobre no fio da navalha, acendendo uma vela para deus e outra para o diabo, até o fim do mandato em 2026.

 

Fonte: Brasil 247

 

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