sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Henry Kissinger: depois de conhecer essa história, você também vai odiá-lo

Na última quarta-feira de novembro, foi confirmada a morte de Henry Kissinger, ex-diplomata americano. Na grande imprensa, você leu sobre seu "legado controverso", sobre a histórica aproximação entre EUA e China e mais um monte de outros grandes feitos.

Aqui, porém, vamos te contar algumas pequenas histórias um pouco diferentes sobre o ex-chanceler dos EUA.

Durante a guerra do Vietnã, Kissinger era secretário de estado de Washington. Enquanto os hippies protestavam pela paz e os vietnamitas lutavam pela libertação de seu país, Kissinger queria abrir uma nova fronteira para que os EUA conseguissem cercar os viet congs.

Junto com Nixon, ele pensou: e se terraplanássemos o Camboja? 

Naquele momento, o Camboja era uma monarquia entreguista e não apoiava o socialismo vietnamita. Mas... não importou.

Nada disso impediu que os EUA jogassem mais de 540 mil toneladas de bombas no país. Os EUA negaram por meses que estavam fazendo a incursão.

Durante meses, Nixon e Kissinger negaram que a guerra ocorreu ou mesmo que soldados americanos morreram em território cambojano.

Entre 1969 e 1973, Kissinger autorizou o equivalente a 36 bombas de Nagasaki no território do Camboja. Em seu livro de memórias, o diplomata fala em pelo menos 50 mil mortos. Existem estimativas bem mais altas do que isso.

"...como não estou em posição de fazer uma estimativa precisa, consultei um historiador, que me deu uma estimativa de 50.000 com base na tonelagem de bombas despejadas durante o período de quatro anos e meio", afirma Kissinger em seu memoir.

Depois, realista que era, percebeu que não seria possível ganhar dos Vietcongs e tratou de assinar a paz com os comunistas do norte. Ainda ganhou um Prêmio Nobel, pasmem.

Nas palavras de Anthony Bourdain: “Uma vez que você tenha visitado o Camboja, você nunca mais vai querer deixar de bater em Henry Kissinger até a morte com suas próprias mãos. Você jamais será capaz de abrir um jornal e ler sobre aquele traiçoeiro, vacilante, assassino, escória sentado para um bom papo com Charlie Rose ou participando de um evento de gala para uma nova revista brilhante sem se engasgar"

"Testemunhe o que Henry fez no Camboja – os frutos de seu talento diplomático – e você nunca entenderá por que ele não está sentado no banco dos réus na Haia ao lado de Miloševic. Enquanto Henry continua a beliscar rolinhos de nori e temaki em festas da alta sociedade, Camboja, a nação neutra que ele secretamente e ilegalmente bombardeou, invadiu, minou e depois jogou aos cães, ainda está tentando se reerguer sobre sua única perna restante”, completa.

·        Chile, Israel, Paquistão

Mas não foi só isso: em sua conta, também está o golpe de estado contra o presidente chileno Salvador Allende e foi o financiador da sanguinária ditadura de Pinochet, que matou e perseguiu os chilenos durante os anos 1970 e 1980.

Aliás, temos um problema recente e corrente que ainda está na conta do carniceiro do Camboja: foi Kissinger quem consolidou o alinhamento total entre Israel e EUA, criando a codependência entre Tel Aviv e Washington.

A colonização de terras da Cisjordânia por invasores israelenses, no atual esquema de "assentamentos coloniais" que vemos até os dias de hoje, foi uma ideia apoiada por Kissinger, em especial após as mediações da Guerra do Yom Kippur, em outubro de 1973.

Kissinger também deu o aval para a  invasão paquistanesa de Bangladesh e o morticínio de milhares de indianos e bengalis na guerra de libertação de Bengala de 1971.

O americano apoiou o exército paquistanês a invadir o Bangladesh, que pedia independência de Islamabad.

Este é considerado, até os dias de hoje, um dos ataques mais cruéis da história do século XX. Estima-se que 3 milhões de pessoas tenham morrido em apenas 8 meses de batalha.

Kissinger não tinha medo de colocar Washington e o dinheiro dos EUA nas piores batalhas possíveis. Seus esforços pela paz só foram feitos quando ele sabia que não poderia ganhar. Em suas costas, milhares de mortes, golpes militares, crimes de guerra e  a pecha de gênio.

Se de fato, Kissinger beneficiou os EUA e fundamentou o que é o realismo e o pragmatismo na diplomacia, seu legado está completamente imerso em sangue.

E como disse, na redação, nosso querido amigo Edgard: "o Kissinger chegou no inferno e tentou dar o golpe de Estado no Satanás".

Mas se você quiser saber um lado menos nefasto e sanguinário do carniceiro do Camboja, recomendo a leitura de 'Henry Kissinger: sabedoria diplomática que pode apaziguar relações entre China e EUA', escrito por Iara Vidal, que analisa as perspectivas do diplomata para a atualidade das tensões entre Pequim e Washington.

 

Ø  Henry Kissinger: o maior criminoso de guerra da história dos EUA. Por Pedro Paiva

 

“Henry Kissinger, criminoso de guerra amado pela classe dominante americana, finalmente morreu”. Essa era a manchete que estampava a revista Rolling Stones na sua home na manhã desta quinta-feira. Não é para menos. Kissinger era isso e muito mais.

Secretário de Estado durante o governo de Richard Nixon, o alemão de nascimento é tido como o mais importante, mais conhecido, mais controverso e sanguinário a ocupar o cargo. O maior estrategista das relações exteriores dos Estados Unidos na segunda metade do século XX.

De acordo com a biografia A Sombra de Kissinger, de Greg Grandin, entre 1969 e 1976, as políticas do ex-Secretário de Estado geraram a morte de algo entre 3 e 4 milhões de pessoas no mundo, do Camboja ao Chile, passando, claro, pelo Brasil.

Foi sob o comando do homem que morreu ontem aos 100 anos, no conforto da sua casa, em Connecticut, que os EUA apoiaram Pinochet e a morte de mais de 40 mil opositores do regime. No Brasil, Kissinger criou uma linha de contato direta com o governo Geisel, não se opondo à tortura e aos assassinatos que ocorriam no país. Muito pelo contrário.

Na Ásia, Kissinger trabalhou contra um acordo de paz com o Vietnam para garantir a vitória republicana na eleição de 1968. Já na Casa Branca, ordenou ataques mais ostensivos na expectativa de que levaria os Vietnamitas do Norte a um acordo. Mais de 100 mil pessoas morreram por essa tática.

Até mesmo nos Estados Unidos, Kissinger cometeu crimes. Entre 1969 e 1971, o então Secretário de Estado ordenou, com a benção de Nixon, que grampos fossem colocados em telefones de jornalistas e assessores. Só 20 anos depois o criminoso de guerra assumiu o feito.

Dentre os jornalistas grampeados estava Hendrick Smith, do New York Times. Ainda assim, a manchete de hoje sobre a morte de Kissinger no jornal fala apenas de “legado complicado” e “opiniões divergentes”. A CBS, que também teve um repórter monitorado, caracterizou o morto como “diplomata controverso e influente”.

Devo concordar com as aspas de Spencer Ackerman no editorial de hoje da Rolling Stones: “A América, como todo império, celebra seus assassinos de Estado”. 

 

Fonte: Fórum/Brasil 247

 

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