Henry Kissinger: depois de conhecer
essa história, você também vai odiá-lo
Na última quarta-feira de novembro, foi confirmada
a morte de Henry
Kissinger, ex-diplomata americano. Na grande imprensa, você leu sobre seu
"legado controverso", sobre a histórica aproximação entre EUA
e China e mais um monte de outros grandes feitos.
Aqui, porém, vamos te contar
algumas pequenas histórias um pouco diferentes sobre o ex-chanceler dos
EUA.
Durante a guerra do Vietnã, Kissinger era secretário de estado de Washington. Enquanto os hippies protestavam
pela paz e os vietnamitas lutavam pela libertação de seu país, Kissinger queria
abrir uma nova fronteira para que os EUA conseguissem cercar os viet congs.
Junto com Nixon, ele pensou: e se terraplanássemos
o Camboja?
Naquele momento, o Camboja era uma monarquia
entreguista e não apoiava o socialismo vietnamita. Mas... não importou.
Nada disso impediu que os EUA jogassem mais
de 540 mil toneladas de bombas no país. Os EUA negaram por meses que estavam
fazendo a incursão.
Durante meses, Nixon e Kissinger negaram que a
guerra ocorreu ou mesmo que soldados americanos morreram em território
cambojano.
Entre 1969 e 1973, Kissinger autorizou
o equivalente a 36 bombas de Nagasaki no território do Camboja. Em seu livro de
memórias, o diplomata fala em pelo menos 50 mil mortos.
Existem estimativas bem mais altas do que isso.
"...como não estou em posição de fazer uma
estimativa precisa, consultei um historiador, que me deu uma estimativa de
50.000 com base na tonelagem de bombas despejadas durante o período de
quatro anos e meio", afirma Kissinger em seu memoir.
Depois, realista que era, percebeu que não seria
possível ganhar dos Vietcongs e tratou de assinar a paz com os comunistas do
norte. Ainda ganhou um Prêmio Nobel, pasmem.
Nas palavras de Anthony Bourdain: “Uma vez que você
tenha visitado o Camboja, você nunca mais vai querer deixar de bater em Henry
Kissinger até a morte com suas próprias mãos. Você jamais será capaz de abrir
um jornal e ler sobre aquele traiçoeiro, vacilante, assassino, escória sentado
para um bom papo com Charlie Rose ou participando de um evento de gala para uma
nova revista brilhante sem se engasgar"
"Testemunhe o que Henry fez no Camboja – os
frutos de seu talento diplomático – e você nunca entenderá por que ele não está
sentado no banco dos réus na Haia ao lado de Miloševic. Enquanto Henry continua
a beliscar rolinhos de nori e temaki em festas da alta sociedade, Camboja, a
nação neutra que ele secretamente e ilegalmente bombardeou, invadiu, minou e
depois jogou aos cães, ainda está tentando se reerguer sobre sua única perna
restante”, completa.
·
Chile, Israel, Paquistão
Mas não foi só isso: em sua conta, também está o
golpe de estado contra o presidente chileno Salvador Allende e foi o financiador
da sanguinária ditadura de Pinochet, que matou e perseguiu os chilenos
durante os anos 1970 e 1980.
Aliás, temos um problema recente e corrente que
ainda está na conta do carniceiro do Camboja: foi Kissinger quem consolidou o
alinhamento total entre Israel e EUA, criando a codependência entre Tel Aviv e
Washington.
A colonização de terras da Cisjordânia por
invasores israelenses, no atual esquema de "assentamentos coloniais"
que vemos até os dias de hoje, foi uma ideia apoiada por Kissinger, em especial
após as mediações da Guerra do Yom Kippur, em outubro de 1973.
Kissinger também deu o aval para a invasão
paquistanesa de Bangladesh e o morticínio de milhares de indianos e bengalis na
guerra de libertação de Bengala de 1971.
O americano apoiou o exército paquistanês a invadir
o Bangladesh, que pedia independência de Islamabad.
Este é considerado, até os dias de hoje, um
dos ataques mais cruéis da história do século XX. Estima-se que 3 milhões de
pessoas tenham morrido em apenas 8 meses de batalha.
Kissinger não tinha medo de colocar
Washington e o dinheiro dos EUA nas piores batalhas possíveis. Seus
esforços pela paz só foram feitos quando ele sabia que não poderia ganhar. Em
suas costas, milhares de mortes, golpes militares, crimes de guerra e a
pecha de gênio.
Se de fato, Kissinger beneficiou os EUA e
fundamentou o que é o realismo e o pragmatismo na diplomacia, seu legado está
completamente imerso em sangue.
E como disse, na redação, nosso querido amigo
Edgard: "o Kissinger chegou no inferno e tentou dar o golpe de Estado
no Satanás".
Mas se você quiser saber um lado menos nefasto
e sanguinário do carniceiro do Camboja, recomendo a leitura de 'Henry
Kissinger: sabedoria diplomática que pode apaziguar relações entre China e EUA', escrito
por Iara Vidal, que analisa as perspectivas do diplomata para a atualidade das
tensões entre Pequim e Washington.
Ø Henry
Kissinger: o maior criminoso de guerra da história dos EUA. Por Pedro Paiva
“Henry Kissinger, criminoso de guerra amado pela
classe dominante americana, finalmente morreu”. Essa era a manchete que
estampava a revista Rolling Stones na sua home na manhã desta quinta-feira. Não
é para menos. Kissinger era isso e muito mais.
Secretário de Estado durante o governo de Richard
Nixon, o alemão de nascimento é tido como o mais importante, mais conhecido,
mais controverso e sanguinário a ocupar o cargo. O maior estrategista das
relações exteriores dos Estados Unidos na segunda metade do século XX.
De acordo com a biografia A Sombra de Kissinger, de
Greg Grandin, entre 1969 e 1976, as políticas do ex-Secretário de Estado
geraram a morte de algo entre 3 e 4 milhões de pessoas no mundo, do Camboja ao
Chile, passando, claro, pelo Brasil.
Foi sob o comando do homem que morreu ontem aos 100
anos, no conforto da sua casa, em Connecticut, que os EUA apoiaram Pinochet e a
morte de mais de 40 mil opositores do regime. No Brasil, Kissinger criou uma
linha de contato direta com o governo Geisel, não se opondo à tortura e aos
assassinatos que ocorriam no país. Muito pelo contrário.
Na Ásia, Kissinger trabalhou contra um acordo de
paz com o Vietnam para garantir a vitória republicana na eleição de 1968. Já na
Casa Branca, ordenou ataques mais ostensivos na expectativa de que levaria os
Vietnamitas do Norte a um acordo. Mais de 100 mil pessoas morreram por essa
tática.
Até mesmo nos Estados Unidos, Kissinger cometeu
crimes. Entre 1969 e 1971, o então Secretário de Estado ordenou, com a benção
de Nixon, que grampos fossem colocados em telefones de jornalistas e
assessores. Só 20 anos depois o criminoso de guerra assumiu o feito.
Dentre os jornalistas grampeados estava Hendrick
Smith, do New York Times. Ainda assim, a manchete de hoje sobre a morte de
Kissinger no jornal fala apenas de “legado complicado” e “opiniões
divergentes”. A CBS, que também teve um repórter monitorado, caracterizou o
morto como “diplomata controverso e influente”.
Devo concordar com as aspas de Spencer Ackerman no
editorial de hoje da Rolling Stones: “A América, como todo império, celebra
seus assassinos de Estado”.
Fonte: Fórum/Brasil 247

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