domingo, 17 de dezembro de 2023

Reféns mortos por engano por Israel carregavam bandeira branca. Israelenses foram às ruas protestar

Centenas de israelenses voltaram às ruas de Tel Aviv, capital de Israel, para pedir a libertação imediata dos sequestrados na guerra contra o Hamas.

Na sexta-feira (15), foi noticiado que Israel matou três reféns israelenses por engano, uma vez que eles conseguiram escapar do cativeiro em que estavam no norte da Faixa de Gaza. O porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI), Daniel Hagari, confirmou a ação dos militares, que teriam atirado por entender que se tratava de ameaças.

No entanto, de acordo com a agência Reuters, os reféns seguravam uma bandeira branca quando saíram do local, disse uma autoridade militar neste sábado (16) ouvida pela mídia.

"Eles estão todos sem camisa e têm um bastão com um pano branco. O soldado se sente ameaçado e abre fogo. Ele declara que eles são terroristas. Eles [as FDI] abrem fogo. Dois [reféns] são mortos imediatamente. Imediatamente, o comandante do batalhão emite uma ordem de cessar-fogo, mas novamente há outra explosão de fogo em direção à terceira figura e ele também morre", disse a autoridade israelense a repórteres em uma entrevista por telefone.

Os militares identificaram três reféns mortos em Shejaiya, um subúrbio a leste da cidade de Gaza, como Yotam Haim e Alon Shamriz, sequestrados no kibutz Kfar Aza, e Samer al-Talalka, sequestrado no vizinho kibutz Nir Am.

Em protesto, centenas de israelenses voltaram às ruas de Tel Aviv para pedir a libertação imediata dos sequestrados na guerra contra o Hamas.

Com cartazes pedindo "traga-os para casa agora" e "exigimos um acordo", grupo de israelenses se reuniu em frente à base militar de Tel Aviv, depois, marchou pelas ruas da cidade. Mortos em Gaza já ultrapassaram a marca dos 19 mil.

Os protestos foram marcados ainda por várias bandeiras de Israel cobertas com tinta vermelha, cartazes com fotos dos três reféns mortos e de pessoas que permanecem desaparecidas.

"Uma tragédia terrível, eu acho. Um acordo deveria ter sido feito muito, muito antes. E todas as vidas de todas as pessoas inocentes poderiam ter sido poupadas. Acho que é uma grande tragédia o que está acontecendo aqui agora em todos... em todos ... aspectos", lamentou um dos manifestantes à agência Reuters.

Segundo o governo de Israel, 138 reféns ainda estavam sob poder do Hamas - contando com os três israelenses mortos por engano. Todos foram sequestrados há dois meses, desde que o grupo terrorista invadiu o sul de Israel, matando outras 1.402 pessoas.

·        'Erro trágico'

Os três reféns foram mortos durante uma operação de tropas israelenses em Shejaiya, bairro da Cidade de Gaza, no norte do território palestino.

De acordo com o porta-voz do Exército israelense Daniel Hagari, eles conseguiram escapar do cativeiro e caminhavam em direção a território israelense.

"Durante os combates em Shejaiya, uma força das Forças de Defesa de Israel identificou erroneamente três reféns israelenses como uma ameaça. Como resultado, a força disparou contra eles e eles foram mortos", declarou, em comunicado, um porta-voz do Exército.

Os três, ainda segundo o governo israelense são, cidadãos israelenses e haviam sido sequestrados em 7 de outubro pelo grupo terrorista:

  • O israelense Yotam Haim, sequestrado no kibutz de Kfar Gaza;
  • Samer Talalka, sequestrado no kibutz de Nir Am mas que era residente da cidade beduína de Rahat;
  • Alon Shamriz, que também vivia em Kfar Gaza e era filho de iranianos, segundo o jornal "The Israel Times".

Os corpos dos três foram levados pelos soldados a território israelense, onde foram identificados.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, pediu desculpas às famílias e disse que aprendeu "lições necessárias". Mas afirmou que incursões seguirão.

Em nota, a Casa Branca tratou o caso como um "erro trágico" cometido pelo exército israelense.

Já as Forças de Defesa de Israel chamaram o caso de "incidente" e disseram que aprenderam 'lições' com o episódio, mas afirmaram que seguirão em busca dos reféns ainda em poder do Hamas.

As mortes ocorreram no mesmo dia em que a Al Jazeera disse que um de seus cinegrafistas em Gaza, Samer Abu Daqqa, foi morto em um ataque aéreo que também feriu um de seus colegas. A Al Jazeera disse que as equipes de resgate não conseguiram chegar a Abu Daqqa por causa do bombardeio israelense.

Soldados israelenses espancaram severamente o jornalista palestino Mustafa Haruf, que trabalha para a agência pública turca Anadolu, e o ameaçaram com fogo real e em Jerusalém Oriental. Ele está hospitalizado com ferimentos graves na cabeça

Ontem (15), o comissário-geral da Agência de Assistência e Obras das Nações Unidas (UNRWA, na sigla em inglês), Philippe Lazzarini, disse que a população na Faixa de Gaza está "desesperada, faminta e aterrorizada".

"Eu vi com meus olhos que as pessoas em Rafah começaram a decidir se servir diretamente do caminhão, em desespero total e comer o que pegaram do caminhão no local", afirmou.

No entanto, vídeos de soldados das FDI fazendo coreografias, simulando disparo de bombas e debochando da destruição em meios aos escombros viralizaram nas redes sociais. Um dos mais vistos é um no qual dois soldados israelenses colocam fogo sorrindo em um caminhão com ajuda humanitária para Gaza.

 

Ø  A ‘solução sem Estado’ torna-se mais real à medida que a Nakba permanente de Israel prossegue. Por Vijay Prashad

 

Em 1948, o historiador sírio Constantin Zurayk utilizou a palavra árabe Nakba (Catástrofe) para se referir à remoção forçada dos palestinos das suas terras e casas pelo recém-formado Estado israelense (no seu livro de agosto de 1948, Ma'na al-Nakba ou “O significado da Nakba”). Há uma década, em Beirute, conheci o romancista libanês Elias Khoury – então editor do Journal of Palestinian Studies –, que me disse que a Nakba de 1948 não era um acontecimento, mas parte de um processo. "O que temos é uma Nakba permanente, o que significa que esta catástrofe tem sido contínua para os palestinos", disse Khoury. Desde 1948, os movimentos políticos e os intelectuais palestinos têm argumentado que a lógica do Estado israelense tem sido a de expulsar os palestinos da região entre o rio Jordão e o Mar Mediterrâneo. Essa política de expulsão para criar um Estado judeu étnico-religioso de Israel é o que Khoury entende como Nakba permanente.

No dia 11 de novembro de 2023, o ministro da Agricultura de Israel, Avi Dichter, disse algo surpreendente à imprensa. "Estamos neste momento lançando a Nakba de Gaza", disse o ministro. "Gaza Nakba 2023. É assim que vai acabar", disse este antigo diretor do serviço de segurança interna de Israel, o Shin Bet. Na primeira semana de novembro, o ministro do Patrimônio de Israel, Amihai Eliyahu, esteve na Rádio Kol BaRama, cujo entrevistador comentou sobre lançar "uma espécie de bomba nuclear sobre toda a Faixa de Gaza, destruindo-a, eliminando todos os que lá estão". Eliyahu respondeu: "Essa é uma maneira. A segunda maneira é descobrir o que é importante para eles, o que os assusta, o que os desencoraja... Eles não têm medo da morte". Israel, disse o ministro, deve retomar toda a Faixa de Gaza. E os palestinos? "Podem ir para a Irlanda ou para os desertos", declarou. "Os monstros de Gaza devem encontrar uma solução por conta própria." Essa linguagem de aniquilação e desumanização tornou-se normal no gabinete do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Netanyahu suspendeu Eliyahu do seu gabinete, mas não repreendeu o seu ministro da Defesa, Yoav Gallant, que chamou os palestinos de "animais humanos". Esta é a atitude em geral dos altos funcionários israelenses, que agora estão utilizando este tipo de linguagem.

O exército israelense deu seguimento na execução da "Nakba de Gaza". Na fase inicial do ataque, Israel disse aos civis palestinos para se deslocarem em direção ao sul da Faixa, ao longo da estrada Salah al-Din, o eixo norte-sul desta área de 40 km de extensão da Palestina, onde vivem 2,3 milhões de palestinos. Os israelenses disseram que iriam atacar principalmente o norte de Gaza, em particular a cidade de Gaza. Cerca de 1,5 milhões de palestinos deslocaram-se da parte norte de Gaza para o sul, uma vez que os israelenses lhes disseram repetidas vezes que essa seria uma zona segura. Os que ficaram sofreram um nível de bombardeio nunca antes visto em Gaza, que tem sido bombardeada pelos israelenses de forma constante desde 2006 (a guerra atual inclui ataques aéreos mortais contra campos de refugiados extremamente povoados, como Jabalia). No final de novembro, após cinco semanas de bombardeios brutais no norte, os aviões israelenses intensificaram os bombardeios na segunda maior cidade de Gaza, Khan Younis, e iniciaram operações terrestres nas áreas onde haviam indicado aos civis para se abrigarem. Na primeira semana de dezembro, os tanques israelenses cercaram Khan Younis, e os aviões israelenses começaram a bombardear pequenas cidades na parte sul de Gaza. Depois de empurrar 1,8 milhões de palestinos para o sul, os israelenses começaram agora a bombardear essa região de Gaza. Entretanto, a recusa de Israel em permitir a entrada de ajuda humanitária suficiente em Gaza significa que nove em cada 10 palestinos estão vivendo sem comida há vários dias (alguns disseram ao Programa Alimentar Mundial da ONU que não comiam há 10 dias). Esta guerra total de Israel empurrou a maioria dos palestinos de Gaza para a fronteira com o Egito. Sob a cobertura desta guerra, os israelenses também avançaram agressivamente para a Cisjordânia para aprofundar a Nakba permanente nessa parte do Território Palestino Ocupado.

Já em 18 de outubro, muito antes das forças israelenses avançarem em direção a Khan Younis, as forças armadas israelense tuitaram que "ordeneram aos residentes de Gaza que se mudem para a zona humanitária na área de al-Mawasi". Três dias depois, os militares israelenses disseram que os palestinos deveriam deslocar-se "para sul de Wadi Gaza" e ir para a "zona humanitária em Mawasi". Os que se deslocaram para este pequeno enclave encontraram-no sem quaisquer serviços – incluindo internet – e descobriram que mesmo aqui os israelenses estavam disparando suas armas nas proximidades. Mohammed Ghanem, que viveu perto do Hospital al-Shifa no norte de Gaza, disse que al-Mawasi não era "nem humano nem seguro". Os palestinos do sul de Gaza esperam agora poder sair antes que os bombardeios israelenses os encontrem. O número de mortos já ultrapassou os 18 mil. Como um amigo palestino escreveu em uma mensagem: "Se não deixarmos nossas casas e formos para o exílio, seremos mortos aqui". Ele enviou esta mensagem precisamente quando chegou a confirmação de que, desde 7 de outubro, foram expulsos das suas casas e mortos mais palestinos do que na Nakba de 1948. "Esta é a segunda Nakba", disse, perto da fronteira entre Gaza e o Egito.

·        Um voto pela aniquilação

O terrível ataque israelense aos palestinos de Gaza provocou um apelo a um cessar-fogo a partir da segunda semana de outubro. O imenso poder de fogo de Israel – fornecido pelos países ocidentais (especialmente o Reino Unido e os Estados Unidos) – foi utilizado indiscriminadamente contra um povo que vive em zonas densamente povoadas de Gaza. As imagens dessa violência inundaram as redes sociais e até os telejornais, que não puderam ignorar o que estava acontecendo. Essas imagens superaram todas as tentativas do governo israelense e dos seus patrocinadores ocidentais de justificar as suas ações. Dezenas de milhões de pessoas juntaram-se a várias formas de protesto em todo o mundo, de forma mais significativa nos Estados ocidentais que apoiam Israel, confrontando corajosamente os governos que tentaram retratar a sua solidariedade para com os palestinos – sem sucesso – como antissemitismo. Este ataque foi uma tentativa cínica de utilizar a existência real e horrível do antissemitismo para difamar os protestos. Não funcionou. O apelo a um cessar-fogo em grande escala aumentou, pressionando os governos de todo o mundo a agir.

Em 8 de dezembro de 2023, os Emirados Árabes Unidos (UAE) apresentaram uma resolução "breve, simples e crucial" para um cessar-fogo (as palavras são do embaixador dos UAE na ONU, Mohamed Issa Abushahab). O secretário-geral da ONU, António Guterres, invocou o artigo 99º da Carta, que lhe permite destacar a importância de um evento por meio da "diplomacia preventiva" (o artigo só foi utilizado três vezes anteriormente, por ocasião dos conflitos na República do Congo, em 1960, no Irã, em 1979, e no Líbano, em 1989). Quase uma centena de países membros da ONU apoiaram a resolução dos Emirados Árabes Unidos. "A população de Gaza está sendo obrigada a se mover como uma bola de pingue-pongue humana – ricocheteando entre trechos cada vez menores do sul, sem nenhum dos elementos básicos para a sobrevivência", disse Guterres ao Conselho de Segurança da ONU. "Nenhum lugar em Gaza é seguro". Treze membros do Conselho de Segurança votaram a favor, incluindo a França, enquanto o Reino Unido se absteve. Apenas o embaixador adjunto dos EUA, Robert Wood, levantou a mão para vetar a resolução.

Quatro dias depois, em 12 de dezembro, os egípcios apresentaram praticamente a mesma resolução na Assembleia Geral da ONU, onde o presidente da Assembleia, Dennis Francis (de Trinidad e Tobago), disse: "Temos uma prioridade singular – apenas uma: salvar vidas. Acabem já com esta violência". A votação foi esmagadora: 153 países votaram a favor da resolução, 10 votaram contra e 23 se abstiveram. É interessante ver quais os países que votaram contra o cessar-fogo: Áustria, República Checa, Guatemala, Israel, Libéria, Micronésia, Nauru, Papua Nova Guiné, Paraguai e Estados Unidos. Muitos países europeus – da Bulgária ao Reino Unido – abstiveram-se. Mas as coisas são complexas. Nem mesmo a Ucrânia votou com Israel nesta resolução. Se absteve.

O veto dos EUA no Conselho de Segurança e os votos contra na Assembleia Geral são efetivamente votos a favor da Nakba permanente do povo palestino, a “Solução Sem Estado”. Pelo menos, é assim que serão lidos em todo o mundo, não só em al-Mawasi, à medida que as bombas se aproximam, mas também nas manifestações de Nova Iorque a Jacarta.

 

Ø  Ataques israelenses ao sul alertam ONU para aumento de deslocamentos

 

“O que já é uma crise massiva de deslocamentos dentro de Gaza não tem que se transformar em mais uma crise de refugiados”, declarou o alto comissário das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), Filippo Grandi, durante o Fórum Global de Refugiados em Genebra, nesta sexta-feira (15/12). 

Os comentários do representante levantam a possibilidade de que milhares de palestinos deslocados em Gaza fujam para o Egito à medida que as forças militares comandadas pelas autoridades de Tel Aviv avancem ao sul. Esta região é foco da fase mais recente da operação israelense, admitida pelo próprio ministro da Defesa do Estado judeu, Yoav Gallant, após o fim da trégua humanitária de sete dias entre Israel e Hamas, ocasião em que houve troca de reféns.

“Muitas [pessoas] foram deslocadas para um canto já empobrecido de uma minúscula faixa de terra. Essa violência tem que parar",  alertou o representante, com a onda de hostilidades manifestadas explicitamente pelo exército israelense contra o povo palestino.

No fórum da ONU, países e empresas prometeram mais de 2,2 mil milhões de dólares para combater a crise global de deslocamento, além de empregos para milhares de refugiados, resultando no que o chefe das Nações Unidas, António Guterres, disse que ajudaria a "conter a onda de miséria".

No momento, mais de 114 milhões de pessoas estão em condições de deslocamento em nível mundial, fugindo de conflitos, pobreza e mudanças climáticas. Este número marca um novo recorde para o órgão internacional. Já fazendo um recorte para o cenário na Faixa de Gaza, mais de 85% dos palestinos, agora, são considerados deslocados. Nesse contexto, a própria agência tem admitido enfrentar graves faltas de financiamento

“Como vocês sabem, este trabalho é tão importante para o mundo, mas continua enfrentando problemas”, lamentou Grandi, durante suas considerações finais. Criticou ainda aqueles que tentam "bloquear a ação humanitária multilateral por razões políticas".

“O mundo exige uma reinicialização da humanidade e da energia para enfrentar os desafios que temos pela frente, incluindo o do deslocamento forçado”, concluiu o alto comissário da ONU para refugiados.

 

Fonte: g1/Sputnik Brasil/Opera Mundi

 

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