'Não se pergunta o que o idoso quer', diz especialista em Direito
“O que estamos fazendo com os idosos? Ou ficam
segregados em instituições, ou isolados dentro de casa. Não temos tido sucesso
em ajudar as pessoas a navegar no universo do bônus da longevidade: elas
ganharam mais anos de vida que estão sendo vividos sem saúde!”. O desabafo é de
Marie-Therese Connolly, conhecida como M.T. Connolly e ativa militante da causa
sênior nos Estados Unidos. Na sua opinião, assistimos a uma falência das
políticas de cuidado:
“O que acontece nas instituições de longa
permanência é um retrato de como o sistema funciona em relação aos mais velhos.
Simplesmente não os atende. É por isso que os idosos têm medo de ir para uma
ILPI e ficam em suas casas, que não estão preparadas e não têm condições de
abrigá-los com segurança. Na verdade, não há uma visão positiva sobre o
envelhecimento; o que existe é uma negação da velhice, das suas limitações e de
como há necessidade de adaptações”.
Os pais queriam que a filha fosse médica e, antes
de decidir, M.T. se tornou voluntária da ala psiquiátrica de um hospital
Minnesota, onde a família morava. Apaixonou-se pela experiência, mas não pelo
ângulo da medicina: a vontade de aperfeiçoar o sistema que encontrou a levou
para o Direito. Foi uma das artífices do Elder Justice Act – o equivale ao
nosso Estatuto do Idoso – e, no Departamento de Justiça, criou o Elder Justice
Initiative, que resultou em inúmeras ações contra abuso, negligência e fraude
que vitimavam os mais velhos. Em seu livro “The measure of our age: navigating
care, safety, money and meaning later in life” (em tradução livre, “A medida da
nossa idade: navegando pelo cuidado, segurança, dinheiro e significado na
velhice”), critica o modo como a justiça opera e propõe novos caminhos:
“O sistema depende da justiça para proteger quem é
vulnerável, sofre abusos ou negligência, mas não percebemos que a maioria dos
problemas está relacionada a questões familiares, e tudo o que as famílias
menos desejam é que o Estado intervenha”.
Como exemplo, cita um caso bastante comum: o da mãe
de um filho dependente de drogas. “A dinâmica familiar de abuso sempre existiu
e ela nunca pediu ajuda porque não quer que ele vá para a cadeia. Só que, ao
envelhecer, essa mulher está frágil e aquele filho não é um cuidador. E o que o
serviço social e a justiça têm para oferecer? Exatamente a intervenção que a
mãe sempre tentou evitar”, analisa. Qual seria um caminho alternativo?
“Não se pergunta o que o idoso quer. Uma pessoa
pode não estar em condições de cuidar do próprio dinheiro sem se prejudicar,
mas sabe onde e com quem quer viver. Ou seja, há muitas decisões que ainda lhe
caberiam, e deveríamos garantir o suporte para ela continuar a decidir”, diz.
Essa é a espinha dorsal do projeto que é sua menina
dos olhos: o RISE, adotado no Maine e que vem sendo testado em outros estados e
no Canadá. A ideia é dar voz aos idosos que estão enfrentando algum tipo de
dificuldade, com o objetivo de chegar à solução mais próxima dos seus desejos.
A propósito, para quem quiser saber o significado do acrônimo, aqui vai:
• R:
repair harm – reduzir os danos e trabalhar por transformações. Trata-se da
justiça restaurativa, que busca a resolução de conflitos através do diálogo e
da negociação, com a participação da vítima e do ofensor.
• I:
inspire change – intervenções motivacionais para que os envolvidos acreditem
que mudar é possível.
• S:
support connection – fortalecer de laços, formais e informais.
• E:
empower choice – apoiar as pessoas para que atinjam seus objetivos, mesmo que
tenham algum tipo de limitação cognitiva.
Fonte: g1

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