sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

EUA: Joe Biden enfrenta processo de impeachment

A 328 dias das eleições dos Estados Unidos, membros do Partido Republicano na Câmara dos Representantes aprovaram, na noite desta quarta-feira (13/12), a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Joe Biden. Após a votação apertada — 221 votos a favor e 212 contra —, o Congresso decidiu iniciar uma investigação, ante a suspeita de que Biden utilizou de sua influência quando era vice-presidente de Barack Obama (2009-2017) para permitir que seu filho Hunter Biden realizasse negócios nebulosos na China e na Ucrânia.

"Nós estamos muito satisfeitos com o voto. Acho que enviamos uma mensagem alta e clara à Casa Branca", declarou James Comer, chefe do comitê de investigação da Câmara. "Joe Biden mentiu repetidamente ao povo americano", acusou. 

Joe Biden reagiu assim que o resultado da votação foi divulgado pela imprensa norte-americana. "Acordo todos os dias concentrado nas questões que o povo enfrenta — questões reais, que têm impactado nas suas vidas e na força e segurança do nosso país e do mundo. Infelizmente, os republicanos da Câmara não se juntam a mim. Em vez de fazerem qualquer coisa para ajudar a melhorar a vida dos americanos, estão concentrados em atacar-me com mentiras. Em vez de fazerem seu trabalho, decidem perder tempo com essa artimanha política infundada que até os republicanos no Congresso reconhecem que não é apoiada por fatos", afirmou, em nota oficial. 

Em viagem a Paris, o historiador político James Naylor Green, professor da Universidade Brown (em Rhode Island), assegurou ao Correio que "não há nenhuma chance" de o Senado votar a destituição de Biden. "É quase impossível que o processo seja votado, inclusive, na Câmara. Vinte deputados eleitos em distritos onde Biden ganhou, no último pleito, tentarão a reeleição em 2024. São distritos muito vulneráveis, com maioria de apenas dois deputados. Se três congressistas resolverem não apoiar o impeachment, ele não irá prosperar", explicou. 

De acordo com Green, o magnata e ex-presidente republicano Donald Trump está por trás dessa manobra contra Biden. "O interesse dele é de criar uma distração, desviar o foco dos processos aos quais ele responde na Justiça. Ele quer plantar, em base eleitoral, a noção de que Biden e familiares são corruptos e que, por isso, seria melhor apoiar um candidato que apoiará os interesses de algumas camadas da sociedade e combaterá a inflação", disse. "Trump quer criar confusão e enfraquecer Biden."

·        Impacto nas eleições

O especialista acredita ser prematuro mensurar o impacto eleitoral do processo de impeachment aberto pela Câmara. "É claro que isso ajuda Trump, mas pode criar o efeito reverso. Quando fizeram isso contra Bill Clinton, acabaram por fortalecê-lo. Acho que nem sequer os republicanos conseguirão levar a votação ao plenário da Câmara", concluiu Green.  

Denilde Oliveira Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM-SP, admitiu que os republicanos têm apoiado a investigação de Hunter Biden há muito tempo. "Esses esforços têm se intensificado no segundo semestre. Alegam que Hunter se beneficia do fato de ser filho do presidente para fechar negócios no exterior e sugerem o envolvimento do próprio Biden nessas negociações. Até o momento, não foi feita nenhuma ligação direta entre eles. Então, é mais um passo dos republicanos para tentar atingi-lo politicamente", disse ao Correio.

A estratégia, explica Holzhacker, é desgastar a imagem de Joe Biden perante a opinião pública. "A ideia é transmitir a percepção de que os republicanos combatem a corrupção no país mais do que os democratas."

Para a professora da ESPM, a Câmara terá o desafio de comprovar a ligação dos negócios de Hunter com o próprio presidente. "Até o momento, pelo menos em todas as investigações feitas, inclusive pelos próprios congressistas, não houve associação direta. A conclusão do inquérito será submetida a votação na Câmara. Se aprovada, será encaminhada ao Senado, onde serão necessários 67 votos, de um total de 100 senadores, para a destituição do presidente. É uma situação muito complexa. No cálculo do Partido Republicano, deve estar a máxima extensão possível da investigação", avaliou Holzhacker.

Ela aposta que os partidários de Trump tentarão colocar em dúvida a idoneidade do atual presidente, a fim de impactarem as eleições de 2024. "Existe uma percepção da opinião pública de que Joe Biden tem um relacionamento muito forte com o filho. Isso alimenta desconfiança. Mas pesquisas sugerem que a população não vê envolvimento dele com os negócios do filho." 

EU ACHO...

"Os republicanos aproveitam o fato de Hunter Biden ser investigado para incentivar uma possível ligação entre filho e pai nos negócios. Não encontrarão nada sério. Joe Biden enfrenta outros problemas. Ele perdeu muito apoio de um setor do Partido Democrata por causa da guerra na Faixa de Gaza. Uma ala do partido também o critica por supostamente estar muito velho para o cargo e por causa da inflação."

 

Ø  3 razões pelas quais inquérito não deve derrubar presidente dos EUA

 

A casa legislativa, controlada pelos republicanos com uma pequena margem de oito cadeiras, aprovou o inquérito por 221 votos a 212.

Votar para autorizar um inquérito não é o mesmo que votar a favor do impeachment, mas aumenta a probabilidade de a Câmara tentar um impeachment contra Biden no início do próximo ano.

Três comissões da Câmara liderados por republicanos justificaram a abertura do inquérito acusando o presidente democrata de suborno e corrupção quando Biden era vice-presidente dos EUA, no governo de Barack Obama.

Os republicanos têm investigado o presidente desde que assumiram o controle da Câmara em janeiro.

Biden afirmou que seus opositores estão o atacando com "mentiras".

Os jornalistas da BBC em Washington Sean Dilley e Rebecca Hartmann apontam que há três principais razões que tornam praticamente impossível que essa medida prospere.

Segundo os dois jornalistas, especializados em cobertura política dos EUA, a primeira razão são os números. Eles apontam que há um ceticismo extremo de que o presidente da Casa, o deputado Kevin McCarthy, consiga encontrar 218 republicanos para apoiar um inquérito formal contra o presidente americano.

Os jornalistas avaliam que McCarthy sabe que qualquer tentativa de impeachment de Biden como presidente dos EUA é inútil. Porém, destacam que ele, assim como a sua antecessora no cargo de presidente da Câmara, Nancy Pelosi, do partido Democrata, ele é um operador altamente partidário.

Mesmo que a Câmara vote pelo impeachment, o processo irá para o Senado, que é controlado pelos democratas com uma maioria de 51 a 49. O presidente só será destituído se dois terços do Senado apoiarem a medida.

Os especialistas frisam que isso não deve ocorrer com o atual Senado e nunca aconteceu na história do país americano.

E o segundo ponto que impede que essa medida contra Biden avance, apontam os jornalistas, é que os três comitês que investigaram o presidente americano nos últimos nove meses não encontraram provas conclusivas.

Em razão disso, os jornalistas apontam que é praticamente improvável haver qualquer evidência nova e substancial em relação ao caso, já que nada foi encontrado após essas apurações.

O terceiro ponto, destacam os jornalistas, é que três presidentes americanos sofreram impeachment: ??Andrew Johnson em 1868, Bill Clinton em 1998 e Donald Trump duas vezes, em 2019 e 2021. No entanto, nenhum deles foi destituído pelo Senado.

·        O procedimento contra Biden

Numa breve declaração no Capitólio dos EUA na terça (12), McCarthy disse que havia acusações "sérias e críveis" envolvendo a conduta do presidente.

"No seu conjunto, essas alegações pintam um quadro de uma cultura de corrupção", disse ele.

A Casa Branca rapidamente condenou a decisão de McCarthy.

"Os republicanos da Câmara estão investigando o presidente há nove meses e não encontraram nenhuma evidência de irregularidade", escreveu o porta-voz da Casa Branca, Ian Sams, em uma postagem nas redes sociais.

"É a extrema política no seu pior", acrescentou.

Hunter Biden, filho do presidente, atualmente está sob investigação federal por possíveis crimes fiscais relacionados aos seus interesses comerciais estrangeiros.

McCarthy também alegou que a família do presidente recebeu tratamento especial de funcionários do governo Biden que investigam alegações de má conduta.

A decisão dessa quarta-feira foi o primeiro passo num processo político que poderá resultar na votação de impeachment na Câmara dos Deputados.

Se for aprovado por maioria simples, poderá ocorrer um julgamento no Senado dos EUA.

O inquérito formal dará aos investigadores do Congresso maior autoridade legal para investigar o presidente, inclusive através da emissão de intimações para documentos e testemunhos que possam ser mais facilmente executados em tribunal.

McCarthy, que lidera os republicanos na Câmara dos Representantes, tem estado sob pressão há semanas de membros da direita para abrir um inquérito de impeachment.

O congressista Matt Gaetz, da Flórida, aliado próximo do ex-presidente Donald Trump, ameaçou forçar uma votação sobre a remoção de McCarthy se um inquérito de impeachment não fosse iniciado.

McCarthy atualmente tenta encaminhar uma série de projetos de lei sobre despesas na Câmara dos Representantes — medidas que devem ser aprovadas pelo Congresso até ao final de setembro, a fim de evitar uma paralisação parcial do governo dos EUA.

Contudo, a maioria republicana na Câmara é extremamente estreita, o que significa que ele só pode se dar ao luxo de perder alguns votos diante da resistência democrata unificada.

A decisão de McCarthy de apoiar o impeachment pode ser vista como uma tentativa de obter o favor dos republicanos de direita na Câmara, na preparação para as futuras batalhas orçamentárias.

Essa estratégia traz riscos, no entanto. Os republicanos centristas em distritos competitivos expressaram desconforto com uma pressão agressiva pelo impeachment, preocupados com a possibilidade de alienar os eleitores independentes e moderados que os levaram à vitória — e entregaram a maioria na Câmara ao seu partido.

Os democratas apontam que McCarthy criticou duramente a líder democrata Nancy Pelosi em 2019, quando esta anunciou um inquérito de impeachment contra Trump sem realizar uma votação formal.

Ela daria esse passo pouco mais de um mês depois.

 

Fonte: Correio Braziliense/BBC News Mundo

 

Nenhum comentário: