Carlos Wagner: Milei está mais para rainha da Inglaterra do que para
anarcocapitalista
Um filme ao qual os brasileiros já assistiram.
Agora é a vez dos argentinos. Os apoiadores do recém-empossado presidente
Javier Milei, 54 anos, pretendem transformá-lo em uma rainha da Inglaterra, que
“governa, mas não manda nada”, uma antiga expressão usada nas redações para
designar uma figura decorativa no poder. Tentativa semelhante foi feita no
Brasil por apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro, 68 anos (2019 a
2022). Eles falharam e Bolsonaro demitiu 11 generais, entre eles o chefe da
Secretaria de Governo Carlos Alberto Santos, em 2019, e o ex-ministro da Defesa
Fernando Azevedo e Silva, em 2021. Além de um punhado de ministros civis, como
o médico Luiz Henrique Mandetta, em 2020, ex-ministro da Saúde. Só ficou no
governo quem concordou com o presidente, que começou a articular um golpe de
estado no dia seguinte ao início do seu mandato. Há uma frase que sintetiza
toda essa situação, proferida pelo então ministro da Saúde, o general da ativa
do Exército (na época) Eduardo Pazuello. “É simples assim: uns mandam e outros
obedecem”. Falei sobre essa situação no início do mandato do ex-presidente, no
post de dia 27 de abril de 2019 O presidente Bolsonaro virou rainha da
Inglaterra?.
O destino do ex-presidente e dos seus apoiadores é
conhecido. Bolsonaro deixou a história política para entrar na policial. A
história de Milei recém está começando. Ele tomou posse no último domingo
(10/12). Vamos aos fatos. Durante a sua campanha, o novo presidente argentino
se declarou fã da ex-primeira-ministra da Inglaterra Margaret Thatcher (1925 a
2013), a Dama de Ferro, que governou os britânicos de 1979 a 1990. Ela entrou
na história por dois motivos. O primeiro por ter derrotado as Forças Armadas da
Argentina em 1982, na Guerra das Malvinas, um longínquo arquipélago no
Atlântico Sul que é alvo de disputa entre os dois países desde o início do
século 19 e que os generais argentinos tentaram retomar na mão grande. O
segundo motivo foi ter desmontado os sindicatos ingleses e privatizado várias
empresas, colocando a economia do Reino Unido entre as seis mais importantes do
mundo – há matérias na internet. Milei fez vistas grossas para a surra dada
pelos soldados da Thatcher nas tropas do seu país, numa derrota que precipitou
a queda do regime militar argentino (1976 a 1983). Enalteceu a reforma liberal
que a Dama de Ferro fez na economia britânica. Thatcher foi radical na
transformação da economia do Reino Unido, como conta a história que pode ser
encontrada na internet. Milei propôs para os argentinos ser ainda mais radical.
Ele se diz anarcocapitalista, uma filosofia política que defende a presença
mínima do estado na economia. Entre as ousadas medidas propostas por ele estão:
fechar o Banco Central, romper relações comerciais com os dois maiores
parceiros comerciais da Argentina, Brasil e China, e dolarizar a economia do
país.
Considerando que o novo presidente não tem votos
suficientes no Congresso para passar qualquer medida, como ficaria a situação?
A solução veio por um dos apoiadores de Milei que até então estava nas sombras,
o grupo político do ex-presidente Mauricio Macri, 64 anos, que governou o país
de 2015 a 2019. Atualmente, nas redações dos jornais em Buenos Aires existe a
crença de que Macri é quem governa o país. Os principais postos da área
econômica são ocupados por seus seguidores. Na segunda-feira (11/12), ele esteve
em um debate com empresários em São Paulo, quando declarou que Milei não
causaria problemas para o presidente do Brasil, Luiz Lula da Silva (PT). O
trunfo de Macri no governo Milei é a sustentação política que pode dar no
Congresso. Os jornalistas também devem prestar atenção na vice-presidente
Victoria Villarruel. Durante a campanha, ela falou não uma, mas várias vezes,
que a única maneira das propostas anarcocapitalistas de Milei serem implantadas
seria derrubar o regime democrata e implantar uma ditadura militar. Ela está
falando sozinha? Dificilmente, porque é parente de militares e sempre defendeu
aqueles que se envolveram no golpe de estado de 1976. No início, a proposta de
Villarruel pareceu maluquice para a imprensa argentina e a brasileira. Mas não
é. É sério o que ela fala. Mesmo com o apoio de Macri, dificilmente os
parlamentares aceitarão as propostas malucas do presidente, como acabar com o
Banco Central. Mais um fato: a maioria dos argentinos votaram em Milei porque
ele prometeu, durante a campanha, dolarizar a economia. Só conseguir cumprir
essa promessa será um milagre. O que significa que o povo vai para a rua
protestar. Milei pode cair. Se cair, a sua vice assume.
Claro, existe outra opção. O presidente da
Argentina se livrar dos grupos políticos que o apoiaram, ir contra as suas
propostas radicais para a economia e se acertar com o Congresso. Foi o caminho
percorrido por Bolsonaro, que retirou do seu governo os que não apoiavam a sua
proposta de dar um golpe de estado e inventou para o Congresso as tais “emendas
parlamentares secretas”, um orçamento que colocou bilhões de reais à disposição
dos senadores e deputados federais. Ele concorreu à reeleição e foi derrotado
por Lula. Uma semana depois da posse de Lula, em 8 de janeiro, seguidores do
ex-presidente tentaram dar um golpe de estado quebrando tudo que encontraram
pela frente do Palácio do Planalto, no Congresso e no Supremo Tribunal Federal
(STF), em Brasília (DF). Acabou com todo mundo preso. Bolsonaro foi condenado
pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) à inelegibilidade de oito anos. Qual
caminho será escolhido por Milei? Saberemos nos próximos seis meses. Se demorar
tanto assim.
Ø Argentinos:
Não tem pão? Comam brioche! Por Rui Martins
Quem diria! A frase atribuída à rainha francesa
Maria Antonieta, pouco antes da Revolução Francesa, sugerindo aos franceses sem
pão para comerem brioche, surgiu com nova roupagem na Argentina.
Dois apresentadores da televisão La Nación, do
jornal apoiador do candidato Javier Milei, agora presidente, mostraram aos
argentinos como se alimentar em tempo de crise.
Eduardo Serenellini e sua colega Viviana Valles
disseram mesmo “que as pessoas não devem ter vergonha de comerem só uma vez por
dia”! Diante disso, as redes sociais argentinas mostraram as reações do povo
enganado, já nos primeiros dias, pelo palhaço presidente, cujas promessas não
passavam de bolha de sabão!
Valles fez mesmo uma comparação, sugerindo que se
use menos o carro e se desligue a rede Netflix, e se faça uma só refeição
reforçada, no jantar, para as crianças poderem dormir.
Evidentemente os nomes de Eduardo Serenellini e
Viviana Valles não irão substituir o “pão por brioche” da rainha francesa, pelo
portenho “está com fome, coma menos”, mas essa imbecilidade dita ao povo pela
televisão, mostra a que ponto podem chegar os porta vozes dos regimes de
extrema-direita.
Como estamos no fim do ano, outra frase pior que
esta não deverá aparecer nestes próximos dias, Será, sem dúvida, a frase mais
idiota do ano 2023.
…
O jornal suíço Le Temps publicou duas páginas com
chamada na capa, sobre “Europa, terreno fértil para a extrema direita”, citando
cinco países nos quais a extrema direita está bem implantada – a Holanda,
Suécia, Finlândia, Itália e França. Diante desse quadro, um comentarista
político na televisão suíça falava em clima parecido com o dos anos 30.
Ao mesmo tempo, as previsões eleitorais nos Estados
Unidos, no próximo ano, não são das mais animadoras, com uma provável derrota
de Joe Biden na tentativa de reeleição, em novembro, e um retorno de Donald
Trump, criando ainda mais instabilidade no cenário mundial.
Por sua vez, a natureza agredida tem mostrado os
primeiros sinais de sua impaciência, tornando ainda mais evidentes os
resultados catastróficos das mudanças climáticas. Temporais, inundações em todo
mundo, aumento da temperatura no verão brasileiro, são os sinais de uma ameaça
à sobrevivência da humanidade que os países da OPEP não querem ver.
Entretanto, apesar desse quadro pessimista ao qual
se juntou a guerra de Israel contra o Hamas, os últimos resultados da economia
brasileira permitem desejar aos leitores um Feliz 2024.
Fonte: Observatório da Imprensa

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