domingo, 24 de dezembro de 2023

Carlos Wagner: Milei está mais para rainha da Inglaterra do que para anarcocapitalista

Um filme ao qual os brasileiros já assistiram. Agora é a vez dos argentinos. Os apoiadores do recém-empossado presidente Javier Milei, 54 anos, pretendem transformá-lo em uma rainha da Inglaterra, que “governa, mas não manda nada”, uma antiga expressão usada nas redações para designar uma figura decorativa no poder. Tentativa semelhante foi feita no Brasil por apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro, 68 anos (2019 a 2022). Eles falharam e Bolsonaro demitiu 11 generais, entre eles o chefe da Secretaria de Governo Carlos Alberto Santos, em 2019, e o ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva, em 2021. Além de um punhado de ministros civis, como o médico Luiz Henrique Mandetta, em 2020, ex-ministro da Saúde. Só ficou no governo quem concordou com o presidente, que começou a articular um golpe de estado no dia seguinte ao início do seu mandato. Há uma frase que sintetiza toda essa situação, proferida pelo então ministro da Saúde, o general da ativa do Exército (na época) Eduardo Pazuello. “É simples assim: uns mandam e outros obedecem”. Falei sobre essa situação no início do mandato do ex-presidente, no post de dia 27 de abril de 2019 O presidente Bolsonaro virou rainha da Inglaterra?.

O destino do ex-presidente e dos seus apoiadores é conhecido. Bolsonaro deixou a história política para entrar na policial. A história de Milei recém está começando. Ele tomou posse no último domingo (10/12). Vamos aos fatos. Durante a sua campanha, o novo presidente argentino se declarou fã da ex-primeira-ministra da Inglaterra Margaret Thatcher (1925 a 2013), a Dama de Ferro, que governou os britânicos de 1979 a 1990. Ela entrou na história por dois motivos. O primeiro por ter derrotado as Forças Armadas da Argentina em 1982, na Guerra das Malvinas, um longínquo arquipélago no Atlântico Sul que é alvo de disputa entre os dois países desde o início do século 19 e que os generais argentinos tentaram retomar na mão grande. O segundo motivo foi ter desmontado os sindicatos ingleses e privatizado várias empresas, colocando a economia do Reino Unido entre as seis mais importantes do mundo – há matérias na internet. Milei fez vistas grossas para a surra dada pelos soldados da Thatcher nas tropas do seu país, numa derrota que precipitou a queda do regime militar argentino (1976 a 1983). Enalteceu a reforma liberal que a Dama de Ferro fez na economia britânica. Thatcher foi radical na transformação da economia do Reino Unido, como conta a história que pode ser encontrada na internet. Milei propôs para os argentinos ser ainda mais radical. Ele se diz anarcocapitalista, uma filosofia política que defende a presença mínima do estado na economia. Entre as ousadas medidas propostas por ele estão: fechar o Banco Central, romper relações comerciais com os dois maiores parceiros comerciais da Argentina, Brasil e China, e dolarizar a economia do país.

Considerando que o novo presidente não tem votos suficientes no Congresso para passar qualquer medida, como ficaria a situação? A solução veio por um dos apoiadores de Milei que até então estava nas sombras, o grupo político do ex-presidente Mauricio Macri, 64 anos, que governou o país de 2015 a 2019. Atualmente, nas redações dos jornais em Buenos Aires existe a crença de que Macri é quem governa o país. Os principais postos da área econômica são ocupados por seus seguidores. Na segunda-feira (11/12), ele esteve em um debate com empresários em São Paulo, quando declarou que Milei não causaria problemas para o presidente do Brasil, Luiz Lula da Silva (PT). O trunfo de Macri no governo Milei é a sustentação política que pode dar no Congresso. Os jornalistas também devem prestar atenção na vice-presidente Victoria Villarruel. Durante a campanha, ela falou não uma, mas várias vezes, que a única maneira das propostas anarcocapitalistas de Milei serem implantadas seria derrubar o regime democrata e implantar uma ditadura militar. Ela está falando sozinha? Dificilmente, porque é parente de militares e sempre defendeu aqueles que se envolveram no golpe de estado de 1976. No início, a proposta de Villarruel pareceu maluquice para a imprensa argentina e a brasileira. Mas não é. É sério o que ela fala. Mesmo com o apoio de Macri, dificilmente os parlamentares aceitarão as propostas malucas do presidente, como acabar com o Banco Central. Mais um fato: a maioria dos argentinos votaram em Milei porque ele prometeu, durante a campanha, dolarizar a economia. Só conseguir cumprir essa promessa será um milagre. O que significa que o povo vai para a rua protestar. Milei pode cair. Se cair, a sua vice assume.

Claro, existe outra opção. O presidente da Argentina se livrar dos grupos políticos que o apoiaram, ir contra as suas propostas radicais para a economia e se acertar com o Congresso. Foi o caminho percorrido por Bolsonaro, que retirou do seu governo os que não apoiavam a sua proposta de dar um golpe de estado e inventou para o Congresso as tais “emendas parlamentares secretas”, um orçamento que colocou bilhões de reais à disposição dos senadores e deputados federais. Ele concorreu à reeleição e foi derrotado por Lula. Uma semana depois da posse de Lula, em 8 de janeiro, seguidores do ex-presidente tentaram dar um golpe de estado quebrando tudo que encontraram pela frente do Palácio do Planalto, no Congresso e no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília (DF). Acabou com todo mundo preso. Bolsonaro foi condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) à inelegibilidade de oito anos. Qual caminho será escolhido por Milei? Saberemos nos próximos seis meses. Se demorar tanto assim.

 

Ø  Argentinos: Não tem pão? Comam brioche! Por Rui Martins

 

Quem diria! A frase atribuída à rainha francesa Maria Antonieta, pouco antes da Revolução Francesa, sugerindo aos franceses sem pão para comerem brioche, surgiu com nova roupagem na Argentina.

Dois apresentadores da televisão La Nación, do jornal apoiador do candidato Javier Milei, agora presidente, mostraram aos argentinos como se alimentar em tempo de crise.

Eduardo Serenellini e sua colega Viviana Valles disseram mesmo “que as pessoas não devem ter vergonha de comerem só uma vez por dia”! Diante disso, as redes sociais argentinas mostraram as reações do povo enganado, já nos primeiros dias, pelo palhaço presidente, cujas promessas não passavam de bolha de sabão!

Valles fez mesmo uma comparação, sugerindo que se use menos o carro e se desligue a rede Netflix, e se faça uma só refeição reforçada, no jantar, para as crianças poderem dormir.

Evidentemente os nomes de Eduardo Serenellini e Viviana Valles não irão substituir o “pão por brioche” da rainha francesa, pelo portenho “está com fome, coma menos”, mas essa imbecilidade dita ao povo pela televisão, mostra a que ponto podem chegar os porta vozes dos regimes de extrema-direita.

Como estamos no fim do ano, outra frase pior que esta não deverá aparecer nestes próximos dias, Será, sem dúvida, a frase mais idiota do ano 2023.

O jornal suíço Le Temps publicou duas páginas com chamada na capa, sobre “Europa, terreno fértil para a extrema direita”, citando cinco países nos quais a extrema direita está bem implantada – a Holanda, Suécia, Finlândia, Itália e França. Diante desse quadro, um comentarista político na televisão suíça falava em clima parecido com o dos anos 30.

Ao mesmo tempo, as previsões eleitorais nos Estados Unidos, no próximo ano, não são das mais animadoras, com uma provável derrota de Joe Biden na tentativa de reeleição, em novembro, e um retorno de Donald Trump, criando ainda mais instabilidade no cenário mundial.

Por sua vez, a natureza agredida tem mostrado os primeiros sinais de sua impaciência, tornando ainda mais evidentes os resultados catastróficos das mudanças climáticas. Temporais, inundações em todo mundo, aumento da temperatura no verão brasileiro, são os sinais de uma ameaça à sobrevivência da humanidade que os países da OPEP não querem ver.

Entretanto, apesar desse quadro pessimista ao qual se juntou a guerra de Israel contra o Hamas, os últimos resultados da economia brasileira permitem desejar aos leitores um Feliz 2024.

 

Fonte: Observatório da Imprensa

 

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